São Paulo

Sobre chorar e outros roteiros

Para chorar, dirija a imaginação para você mesmo, e se isto for impossível, por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nos golfos do estreito de Magalhães nos quais ninguém entra, nunca.
(Julio Cortázar, Instruções para chorar)

 

Ninguém conhece uma cidade até chorar nela. Podemos percorrê-la semanas e meses, passar pelas mais intensas alegrias, experimentar ruas em diversos horários e números, a pé ou transportados, mas só o choro dá a verdadeira dimensão do lugar. O choro é o que nos localiza. Dizem que o que diferencia São Paulo não é o tamanho, nem as chaminés das fábricas, nem as avenidas; tudo se deve ao fato de que, todos os dias, encontramos gente chorando pela cidade. São Paulo chove para que se mantenha o anonimato até no pranto. Um dia, foi também a minha vez.

 
É preciso que se esclareça antes de tudo: os grandes centros urbanos, além dos seus microclimas, também geram em si fenômenos próprios de ordem emocional. Se somos doze milhões, são doze milhões de corações. Às vezes, alguns sofrem interferências e então choramos, sem querer, de forma pouco explicável. Se chora porque a lágrima é uma forma de entender, porque a cidade e a vida mudam muito e o choro, ao contrário do que se pensa, serve menos para o desespero do que pra ir aceitando as coisas.
Minha vez aconteceu no metrô. Um choro subterrâneo, do inconsciente da cidade. Se a vida está cheia de abismos, quase todos invisíveis, é de uma admirável sinceridade dessas estações quando advertem que há, sim, um limite, que o fosso está aberto. Ao entrar naqueles compartimentos, a paisagem na janela é o nosso próprio rosto. Na escuridão do túnel, o que se vê é só o reflexo do interior, a paisagem fica para dentro. Não dá pra fugir da gente mesmo dentro desses trens, nada ali nos distrai, nada nos acena. O metrô é o pior lugar para esquecer-se de si. Então eu chorei.

 
Foi de lágrimas fartas, um deixar-se chorar como os trens escorrem pelos trilhos. Por motivos difusos, por nada e por tudo. A pior coisa que se pode fazer a quem chora é tentar decifrar os motivos objetivos. Cabe apenas aceitar e oferecer algo: um sorriso, um lenço. Assumir o pranto como parte do cenário. A gente daqui, aliás, não se surpreende. Com o mesmo entendimento que dão informações, orgulhosos de saber sua geografia, sabendo que é normal que alguém se perca, sabem que o choro acontece, sabem a cidade onde moram. Entendem. É a compreensão paulistana, de que quase não se fala. Tudo durou uma ou duas estações. O choro foi se reacomodando, como as pessoas pelo vagão; foi se esquecendo de si, como um passageiro que dorme sem querer, depois do trabalho.

 
Saindo de dentro da terra, sob um raro sol de outubro, me perguntava o porquê daquela comoção. Quase não me reconheci nessa melancolia. Pensei então que essas descidas são como pequenas madrugadas, escuras e densas, em que tudo parece mais dramático e insolucionável. Ao sair dali, a inesperada luz da rua simula uma manhã, e rapidamente o mundo se torna mais fácil e o drama de pouco tempo atrás, exagero. Na vulnerabilidade do subsolo, posso ter sofrido das interferências, posso ter chorado uma tristeza de alguém que por acaso cruzou meu trajeto. Tudo bem, eu penso, tudo bem. Sempre que choveu, parou. Sempre que se chorou, também. Depois as lágrimas secam e toca a outro, logo ali. Ao subir as escadarias, sorri imaginando alguém que, longe ou perto, anda por aí desfrutando alguma alegria minha que, em um dia desses, eu tenha deixado cair.

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Bairro distante

escadaria cardeal arcoverde foto carlos moreira

Fuga

A melancolia é uma mulher – vestido azul, olhar castanho profundo – que anda solta pelo centro. Passeia pela Praça Ramos, senta nas escadarias da ladeira, anda do viaduto de um lado a outro. Às vezes, ela pega uma sessão de cinema, aquelas de Nouvelle Vague da Tchecoslováquia ao meio-dia, e conversa com os mocinhos barbudos que sentam nas poltronas ao lado. Encantadora, teria dito um deles. Eu sei que é ela porque quando passa as pombas continuam no lugar, porque senta junto com os mendigos que ninguém consegue ficar perto, passa reto pelas catracas. Da minha parte, quando a avisto de longe, finjo que não vi e apresso o passo.

Faixa de segurança

Caso Deus exista, não gostaria de perturbá-lo muito. Minha vida tem dias um pouco difíceis, mas dá pra ir levando, uma hora algo dá certo, noutra algo dá errado, o balanço tem sido bom. Gostaria mesmo de demandar uma coisa importante: que proteja esses meninos que cruzam correndo a Nove de Julho, em qualquer horário do dia e da noite, enquanto eu, da sacada, tento ajudá-los como posso – com bons pensamentos e preces sem convicção de Deus. Cruzar uma avenida enorme, sozinhos e correndo, sem passarela, é uma metáfora para a forma como essas crianças levam a vida. Eles costumam sobreviver, mas a infância – dá pra ver aqui de cima – se vai um pouco a cada travessia.

Lonjuras

Acontece sempre de alguém me interpelar: como é viver lá no Sul? Nessa hora, o Sul se torna uma sílaba imensa, me sugerindo o infinito. Apequeno-me diante de uma pergunta que pede para definir, ao mesmo tempo, modos de vida e uma vasta região do mundo. Costumo dar respostas bem vagas, dizendo que é boa e ruim, como aqui. Algumas vezes, sem saber de onde venho, me advertem que aqui faz muito frio. Eu digo que estou acostumada, embora já tenha visto soprar em São Paulo um vento mais austero que o Norte ou o Minuano: a distância de casa. Não sou a única a sentir. É esse vento das cidades que são feitas de gente que veio de longe.

Pingentes

As coisas que eu gosto aqui são tão banais, tão bobas, que eu até tenho vergonha de contar. Gosto da fonte nas quais estão escritas as placas das ruas e das frutas penduradas nas lanchonetes baratas (bananas em cachos, abacaxis presos pelo cangote, laranjas em sacos de tela). Dos cafés de coador em copos pequenos de vidro, do vento que sopra antes do trem chegar. Constato que são justamente elas que me mantêm atenta, que fazem justificar para mim mesma a alegria e a cor dos dias. Há tempos em que nos agarramos mesmo é nas insignificâncias. Não é preciso ser feliz sempre, mas precisamos ao menos que brilhem, vez ou outra, algumas promessas de felicidade.

Descaminho

A história de uma mudança é também a história de uma sequência de perdas. Logo ao chegar, perdi um livro de poesias – um dos meus preferidos, comprado em Montevidéu. Nos meses seguintes, vim perdendo mais e mais objetos. O próximo foi um par de brincos de zircônia, em seguida uma caderneta marrom, um lenço azul florido e depois um celular. Sem contar as dezenas de canetas, que parecem buscar um gênero ou uma caligrafia sempre mais além. Semana passada, perdi minha carteira de identidade. A sabedoria popular diz que o que vai embora sempre volta, mas a verdade é que se engana. Aprender a seguir não é saber esperar a volta ou as compensações, mas saber que o trajeto também é feito de coisas que jamais serão restituídas.

Sapatos

Basicamente tudo no mundo envolvendo seres humanos pode ser explicado pela empatia. A música, a literatura, o amor, a política. A simplicidade é apenas aparente. Quanto menos tipos de vida experimentamos, menor a possibilidade de conseguirmos entender o outro. Por essa razão, é preciso em um só dia ser muitas pessoas, viver muitas vidas. Hoje mesmo, fui atendente de loja de bijuterias, malabarista de semáforo, namorada de um homem que gritava na calçada, executiva do Santander e imigrante africana recém chegada. Em inglês e espanhol, sei que se usa a metáfora dos pés: ponerse en sus zapatos, put oneself in somebody else’s shoes. Colocar os pés onde os outros pisam pode ser mais ou menos fácil, dependendo do caso. Tem vezes, aprendi, que só andando descalço.

Pinheiros

Um homem chora. Eu, ao seu lado, apenas observo. Ele segue chorando e sinto que preciso fazer alguma coisa. Encosto levemente minha mão no seu braço e digo: não fique nervoso, moço, tudo passa. Ele me olha, continua a chorar. Instantes depois, esfrega o rosto com a palma das mãos, se acalma. Então me diz: não estava nervoso, não. Eu sorrio, ele responde com outro sorriso, maior que o meu – quase rindo de si, de ter deixado pública sua tristeza, embora sem se envergonhar. Era saudade, ele continua. Saudade dói mesmo, eu comento. Ele então fica sério de novo e explica: quer dizer, não é bem saudade que dói… é o jeito que as coisas aconteceram. Até a próxima estação, seguimos em um silêncio confidente.

 

Stairs at Liljeholmen in Stockholm, Sweden (Photo by Michael Cavén)

 

(São Paulo, março de 2014)

Estampas da tarde

Tempos depois, você disse que naquele dia estava esperando a chuva. Sentado, como quem não tem o que fazer com o dia, levando o olhar longe. Você acariciou os cabelos, procurando uma forma de se certificar da própria presença, conferindo a cabeça no lugar. Eu havia oferecido os cabelos ao vento, tinha apenas sede e entrei ali sem pensar. Foi assim que eu te vi. Fiz da mesa um ponto de observação, pedi a água com gás, bebi tua imagem com os olhos molhados.

A primeira coisa em que me detive foram as mãos. Soube tanto de ti olhando suas mãos quanto olhando nos seus olhos, nos dias que se seguiram. Que as mãos podem dizer tanto, foi a primeira coisa que aprendi contigo. Eu li algo nelas, no seu rosto, na sua forma de ver o tempo passar. Você estava esperando a chuva, mas eu ainda não sabia.

Eu não sabia nada. Saber, às vezes, é menos importante do que sentir. Lembro de ter sido capturada por um pressentimento e pensar que o silêncio seria o pior por acontecer. Morri de medo e de vontade; a vontade venceu, eu mesma fui vencida. Quando eu sentei ao seu lado, sabíamos que não havia mais volta, que algo teria que ser feito. Nem que fosse o ridículo, o incômodo, ao menos uma perda de tempo. A minha voz e a sua se encontraram, aprendendo a falar pela primeira vez. Você também não é daqui, eu também não vou embora. Não sabia que podia acontecer assim. Nem eu, você disse.

Era bem pouco o que sabíamos. Um dia, eu achei que o amor demorava. Eu acreditei que o amor demorava. Mas eu estava errada, ou apenas menti para disfarçar. O amor não demora não, ele simplesmente puxa a cadeira e senta. Quem puxou a cadeira fui eu. Você esperava a chuva, eu não esperava nada.

Falamos apenas o importante. Sobre a formação das nuvens e das ideias, do gosto da água e da visão das praças à noite. Sobre como era mentira que uma pessoa fosse de um lugar, mesmo que essa mentira fosse, tantas vezes, tão bem contada. De onde você veio, alguém perguntou, e as perguntas caíam na mesa já com quatro ou cinco sentidos possíveis. Guardamos o beijo para depois, deixamos que ele crescesse, que se tornasse tão urgente a ponto de ter que acontecer de qualquer jeito. O beijo precisaria passar a noite ouvindo o barulho da janela, teria que atravessar a madrugada na espera, para ser verdade depois, sob o sol da manhã, sob a luz da noite azul.

Previ dias e noites difíceis e confusos, madrugadas em que eu me perguntaria por que haveria de ter sentado à mesa, por que eu teria permitido, por que eu não teria deixado livre o coração. Eu me deixei ir, eu aceitei o que viesse – recomecei, sempre recomeço.

Então nós falamos da chuva, amamos a chuva – esquecer é uma evaporação, eu sei, molécula a molécula, assumimos o risco da tempestade. Naquela tarde, caímos do céu como a chuva. Nós fomos a própria chuva. Quem caminhar por lá ainda pode nos ver, espalhados pelas poças da rua, refletindo presságios.

(São Paulo, fevereiro de 2014.)

Perdizes a pé

Para quem não tem medo de declives, andarilhar por esse bairro pode ser um bom programa em um domingo. São ruas estreitas, sinuosas, onde há muitos jardins para ver e, espalhadas pelas ladeiras, casas antigas que bem poderiam estar em uma cidadezinha do interior. Mesmo sem me deter, pude entrever redes na varanda, bicicletas de criança, gatos preguiçosos. Para dar ainda mais o ar de décadas passadas, um portentoso Ford Galaxie, daquele azul claro que não se pinta mais carro nenhum, estava estacionado ali pelos lados da rua Iperoig. Em um muro, uma frase espera toda a semana para fazer sentido: domingo lezado. Assim, com z.

Não é preciso andar muito para dar-se conta que certas casas estão com os dias contados. Como um sobrado com ar de abandonado, sem nenhum ‘vende-se’ ou ‘aluga-se’, que uma moradora, ela mesma testemunha das mudanças de um bairro de casas baixas de décadas atrás, garante estar só esperando a papelada da construtora. Algumas quadras adiante, já se comprova o horizonte obstruído pelos prédios enormes, alguns até com certo charme, outros simples mastodontes brilhantes com nomes derivados de “palace” ou “tower”. Vemos enormes tapumes, onde placas anunciam suítes, muitas vagas na garagem e “sacada gourmet”. Sou daquelas que lamenta o sumiço dos chalés de madeira da minha cidade, então tento não me comover, tento manter indiferença. Eu só não entendo mesmo a necessidade dessas pessoas entediadas segurando placas nas esquinas. Peço a quem tenha dinheiro para tal tomar por princípio: não comprar nenhum imóvel que deixe seres humanos com uma seta pendurada no pescoço.

Mas não é sobre isso que eu gostaria de falar.  Hoje me interessaram mais outras coisas, como pequenas transgressões vegetais. O chão coberto de folhas secas, mesmo que não seja outono; um jasmim que segue seu caminho enlaçado nos fios de luz; um flamboyant, nem aí para as divisões patrimoniais, que espalha suas flores por vários terrenos. Mesmo alcançando a avenida Sumaré, com o fluxo de carros e as franquias internacionais sem nos deixar dúvidas da enorme cidade e do ano em que nos encontramos, pode-se admirar figueiras majestosas e pitangueiras cheias de frutos. Ao contrário dos corredores da pista no meio da avenida e dos carros que passam, não sou do tipo que pode ignorar uma pitanga. Essa indiferença me custa ainda mais. Se caminhasse adiante, dava para ficar assistindo o metrô chegar e partir, na estação envidraçada. Mas volto, por outro caminho, e o domingo parece ser um dia especialmente bom para sentar nos bares de mesas na calçada, nas imediações da Alfonso Bovero. Em um canteiro, noto um catavento de papelão cravado na terra. Que se registre: Perdizes contém uma São Paulo que é também a cidade dos jasmins destemidos, das pitangas em meio ao trânsito e onde alguma criança, sabiamente, tentou plantar o vento.

(São Paulo, novembro de 2013)

A menor da Bilu-Bilu

Nada sintetiza mais meus tempos de menina que aquelas tardes. Minha infância na Mooca sou eu com uma cadeira perto da porta da loja, quase na calçada, com as mãos pequeninas e os olhos atentos, aproveitando a luz da rua para bordar. Foram mais de quinze anos dentro do comércio da família. Desde muito cedo tinha sido assim: caminhar direto da escola para lá para que meus pais almoçassem, cuidar para que ninguém levasse os triciclos que espalhávamos pela calçada, controlar os minutos de brincadeira nas redondezas para voltar em seguida. Além da papelaria, vendíamos presentes, brinquedos e livros. Até hoje não perdi a prática de fazer pacote, com todas as dobraduras que precisam ter. Até hoje não preciso de nada mais que segundos para as contas de cabeça; depois de ter aprendido a ler, o próximo passo foi saber fazer rapidamente o troco. Meus pais inventaram uma série de estratégias de venda que, na época, eram inovações. Como a exposição dos brinquedos na rua e a caderneta, para pagar à prestação aquelas bonecas enormes, que eu vendi muitas, mas nunca tive uma minha.

Se me perguntam se era bom ou ruim, eu tampouco saberia. Simplesmente era. A rotina da loja se converteu em algo natural para nós. Sei que, sem dúvida, lá dentro nos sentíamos bem, estávamos em família e sabíamos tirar proveito dos pequenos privilégios de ser filha do seu Zé, dono da loja Bilu-Bilu – eu e minha irmã éramos chamadas, pelos conhecidos, de “as biluzinhas”. Eu podia ler os livros do Monteiro Lobato, da coleção Jabuti, os gibis que eram trocados ali e ter em primeira mão os artigos de coleção, os modelos mais raros de caneta-tinteiro.

Verdade que não se passava, assim, só a bordados e leituras. Algumas épocas do ano o movimento apertava. Especialmente no dia das crianças e no Natal, quando o movimento era tanto que mobilizava toda a família, até meus tios e meus avós. A comemoração do dia 24 era sempre adiada para o dia 25, não podíamos perder o movimento dos retardatários, como dizia minha mãe. Aqueles, que, mesmo com a cortina de ferro baixa, apareciam para um último presente esquecido ou para uma visita que chegava sem avisar. Nos dias comuns fechávamos às 6 da tarde, mas no Natal poderíamos ir até a madrugada. De dentro da loja, eu via minhas amigas passarem despreocupadas e de banho tomado, subindo a rua para assistir a missa do galo. Eu me perguntava que teria de tão especial nesse galo aparecer – se é que ele dava as caras, eu nunca pude descobrir. O cansaço do dia de trabalho punha a família a dormir sem missa e sem ceia. Aquela refeição cerimoniosa da meia-noite eu só fui ver anos depois, na casa do namorado – e até hoje não preparo, nem mesmo agora que há tempo. Cacoete dos tempos da Bilu-Bilu.

Como algo que assimilamos sem sentir, tampouco sei dizer como eu e minha irmã, apesar de tão novas e sem saber bem o que era inflação, soubemos naquela época que as coisas andavam aumentando de preço. Talvez a gente somente intuísse, e a habilidade de fazer as contas rápido nos fazia ditar os preços já com uma porcentagem de aumento, mesmo que nosso pai não quisesse. Já dava pra ver que o negócio dele era menos o comércio do que a prosa. E todo mundo parava na loja pra dizer alguma coisa. Vizinhos, amigos, artistas, os italianos e os castelhanos, pronúncias que desde lá aprendi a reconhecer. Naquelas décadas, no entanto, eu era só espectadora. Criança não tomava partido nas conversas dos adultos. Mas eu era, isso sim, livre pra imaginar o que queria dizer dar um desfalque, ou como será que aquela moça andava perdida, se eu a via depois pelo bairro e não parecia nada sem rumo.

Foi mais tarde que eu aprendi a interpelar as pessoas, a usar melhor as palavras, a fazer as perguntas importantes. Mas a ouvir em silêncio e contemplar as palavras, isso eu já sabia. A habilidade da escuta havia sido aprendida na rotina daquela loja, desde menina. Sem ter sido “a mais nova das biluzinhas”, talvez eu nunca tivesse sido escritora. Apesar de ter me mudado e não pensar mais em morar no bairro, meu endereço ainda é, de vez em quando, a rua da Mooca. É pra lá que eu volto quando preciso. Já não bordo mais, mas uma parte de mim senta naquela cadeira perto da porta, com olhos atentos, aproveita a luz da rua e escreve.

(São Paulo, setembro de 2013.)

A terra e o ar

“O desconhecido era meu compasso. O desconhecido era minha enciclopédia.”

 (Anaïs Nin)

“Tenha paciência com o não-resolvido em sua vida, e tente amar as perguntas.”

(Rainer Maria Rilke)

Por que deixar aquela cidade? Parecia que as razões eram muito claras. A cidade que eu sabia de cor as ruas, e mais que tudo, os rostos. A cidade onde ventava frio, no meio do continente, sem ideia de rio ou de mar. O sufoco dos verões, longe do que eu queria encontrar, longe do que acontecia – exceto o que não podia, não deveria acontecer. Era, sobretudo, o lugar que perdeu a inocência pela morte. Algo havia morrido. Cidades são, afinal, feitas de pedras e sonhos. Se a esperança acaba, o que resta é duro, muito duro.

Quando já estava na estrada, no entanto, deixá-la me pareceu um erro.  É um erro, eu pensava, estou cometendo um erro. Fui surpreendida. O caminho da serra, que eu não achei que o ônibus tomaria, manteve a cidade sob meu olhar mais tempo do que eu planejava. Olha que beleza esses morros, esses prédios quadrados, esses trilhos vazios! Tenho tudo o que preciso para ser feliz. Eu poderia voltar a sonhar aqui. Eu poderia. Já não podia explicar porque eu tinha que ir. Como somos bichos insatisfeitos, queremos tudo… Sentimos tédio, queremos avenidas largas para abrigar nossos novos sonhos, queremos parques para repousar nossos domingos. Queremos dinheiro, mas não queremos fazer qualquer coisa por ele. Precisamos encher a barriga, mas não pode ser com qualquer comida. Queremos quadras floridas, montanhas de concreto e queremos alma também. Temos sede, muita sede, e água definitivamente não nos basta.

A decisão que eu forjava há meses sucumbiu bem cedo: não foram necessárias mais do que uma ou duas curvas. Se alguém tem uma cidade cercada de morros, um gato e algum patrimônio em livros, não precisa de mais nada. Mais nada. Posso ficar aqui, me deixem aqui. Mas eu já não podia parar. Eu não estava dirigindo, não podia pisar no freio, então tive que seguir, mesmo contra minha vontade. Pensei que aquele poderia ser o último apelo da cidade. A última sedução para que eu ficasse. Mas eu resisti.

Fui resistindo e seguindo, que era a única maneira. Fui me acomodando no banco, já que antes, assediada por aquela imagem, vinha sobressaltada. Foi quando lembrei a primeira vez que viajei de avião. Lembrei como foram longos os preparativos. Eu comentava com os colegas da escola: daqui a tantos meses, vou andar de avião. Voar era raro. Era quase como se a pessoa mesma voasse sozinha. “Ela já voou”, se dizia, e era como uma faculdade especial. Lembro minha mãe chegando em casa com os bilhetes grandes e coloridos, impressos na agência de viagens, para serem guardados na gaveta onde ficavam as contas pagas e as certidões. Foram tardes imaginando, degustando antecipadamente aquele voo. Se alguém falava em voar, em avião, eu já afiava os ouvidos: aquilo me interessava, aquele assunto era meu. Diziam que quando a gente estivesse lá em cima dava pra ver as nuvens. Dava pra sentir as nuvens. Parecia incrível.

Mas ao chegar ao aeroporto, da sacada de onde se viam as decolagens, me mostraram o avião em que eu andaria. Então é esse? Diante das enormes máquinas transoceânicas, o meu era um filhote. Mãe, esse avião é muito pequeno, não dá pra trocar? Por favor, eu quero maior! Já não bastava sair do solo, tinha que ser o maior. Diante da troca impossível – mesmo que eu tivesse insistido, mesmo que eu não me importasse com a mudança do destino – só me restou chorar e dormir, muito contrariada. Não lembro nada, nem de nuvem, nem da sensação leve de decolar. Minha decepção apagou tudo.

Eu já sabia há muito, nunca é como a gente espera. Quando eu era pequena, minhas expectativas não cabiam em qualquer aeronave. Hoje, o temor de partir me faz perguntar o que teria, nesse meio-tempo, me ligado tanto ao chão. Pode ser que a ideia de voar estimule a ambição. A máquina alça voo e diz que podemos tudo e podemos rápido. No ar, a cidade que a gente deixa não dura muito tempo, só uns poucos minutos, e algumas vezes encoberta. No terreno andar do ônibus aprende-se outras coisas: não se pode ignorar um caminho. Enquanto um cruza o céu, falseando superpoderes, o outro nos mostra cada camada do trajeto. Então me entreguei ao tempo, ao infinito daquele dia que eu percorreria. Deixei que a terra fizesse o que sabe; que me mostrasse o que, de outra forma, não se deixaria ver.

Assim foi que, nas primeiras cidades, imaginei como seriam minhas saudades futuras. Já comecei a senti-las. Em cada casa isolada, aprendi uma solidão. Em cada plantação, uma espera. Mais adiante, escolhi como se chamariam os meus filhos. Depois decidi que eles nunca nasceriam. Mais um pouco e os aceitei de novo, mas com outros nomes. Ao cruzar para o próximo estado, descarrilei para uma trágica desesperança. Nunca as coisas fizeram tão pouco sentido. Paramos para jantar e os ânimos mudaram muito, recobrei minha força. Bem próximo a uma capital acreditei em Deus – foi uma fé curta, coisa de uns sessenta quilômetros – depois veio a descrença, talvez em alguma placa, em alguma ponte. Em seguida, fui ingênua e esperançosa durante toda a madrugada. Na última parada, ainda no breu, fiz uma promessa. Recriei minha existência. Tudo será novo daqui pra frente, eu jurei. Como as grandes cidades, nossa vida também tem mais de uma fundação.

E conforme avançava, eu cada vez mais ia me deixando ir. Sem esperar, de repente me invadiu uma enorme alegria. Tanta terra percorrida acabou trazendo de volta uma satisfação depositada em alguma região escondida. Suspeito ter encontrado, na altura do chão, a alegria do meu primeiro voo, que aos oito anos eu não soube ter. Aquela estranha satisfação era, talvez, o prazer de voar que eu só tinha experimentado sonhando. Algumas alegrias a gente aprende a sentir.

Quando o terminal imenso me recebeu, eu fui novamente posta à prova, nas primeiras horas da manhã. Precisava ter trazido tanto peso? Precisava mesmo ter vindo? Ah, se os humanos se inspirassem mais nos meios de transporte, quaisquer que fossem… Porque eles, no solo, na água ou do alto, saem de um ponto e vão a outro. Já nós, seres de carne e de dúvidas, somos feito de inúmeros, infinitos avanços e retrocessos. Mas, outra vez, não dava pra voar atrás. Pra não me contradizer, não negar todo o percorrido, minha opção era só seguir e ir, quem sabe, crescendo com o tempo, crescendo com a cidade. Essa foi a solução, até que houvesse outra melhor. Acho que é para isso mesmo que as cidades servem: para completar o que a estrada não conseguiu dizer.

(São Paulo, agosto de 2013.)