Roland Barthes

Aconteceremos

Eu não sei de ti e tu não sabes de mim. Por aí vamos nós, distraídos de solidão. Até quando, ninguém sabe, e ninguém ousa saber. O futuro é assim, de uma brancura, de uma imensidão de fazer de conta que não existe. Mas vai nascer um dia, que de tão banal vai ser bonito. Um dia em que um deus muito esquecido vai lembrar de uma tarefa antiga. Nesse dia, um senhor velho e muito rabugento vai abrir uma garrafa de vinho há muito guardada. Um pássaro atrevido vai invadir uma loja de decoração e piar do alto de um lustre. Um livro do Neruda vai saltar ao mesmo tempo da estante de várias bibliotecas ao redor de mundo e o insólito incidente não será noticiado. Um dia em que, tão sem razão quanto, como em um raro despertar, nos encontraremos. Eu vou te estranhar e vais me estranhar também. Seremos apresentados pela pessoa mais improvável, o acaso vai bolar uma estratagema que de tão real vai parecer ficção. Nossos rostos nunca vistos rejeitarão o espanto. Não vai dar pra simpatizar, assim, de cara, ninguém se aceita de uma hora pra outra. A gente vai discutir numa mesa de bar, vai discordar do pedido no cardápio. Tu vais falar mal de um artista que eu gosto, eu vou te irritar com um monólogo sobre qualquer coisa. Eu vou te achar chato e vais me achar louca. Será nada mais que inoportuno, e a presença um para o outro, bem ao contrário do encanto. Mas algo vai brilhar. Haverá um detalhe que vai sobressair. Gostei desse cara, eu vou pensar enquanto caminho pra casa. Ela tem algo que me atrai, vais dizer pro teu amigo.

A perturbação vai ir conosco pra casa, que nem aqueles cachorros de rua que nos seguem mesmo a gente não querendo. Vou me surpreender pensando em ti enquanto cozinho, tu vais lembrar de mim na hora de recolher a roupa do varal. A lembrança nos acompanhará como uma abelha gorda e insistente, difícil de espantar. É que no mais profundo de nós mesmos reina uma fatalidade absurda, alheia, que não se combate, só se vive. Um sentimento verdadeiro, mais que impactante, é insidioso. Mesmo sem estar seguro que deveria, vais me convidar pra sair. Eu, mesmo premeditando que não vou me divertir, vou aceitar e ainda me justificar dizendo “só porque não tenho nada a perder”. E de repente, meu Deus, quando foi que amanheceu e eu não vi?

O que descobriremos depois, mesmo que os incautos não vejam, é que vai amanhecer com outro sol. Esqueça tudo já vivido, vamos nos amar com alegria e profunda seriedade, como as crianças amam um brinquedo. E o amor maduro que a gente esperava vai ficar pra outra. Não vai ter nada a ver com isso. Haverá vexame, demonstrações públicas, ciúmes, cartas dramáticas, apelidos impronunciáveis. Faremos essas coisas que os casais fazem e a gente só odeia quando não estamos neles. Vamos viajar por lugares e dizer “estive aqui com meu amor”. Vai ser ridículo, vai ser lindo. Vamos nos amar de uma maneira nova e patenteá-la pra usar só entre a gente. Escrevemos uma rotina, teceremos uma rede, e nela deitaremos, à sombra. Passaremos dias trancafiados, até o fim dos mantimentos, que nem os amantes que nos contou Rubem Braga. Discutiremos pelas coisas mais ínfimas, disputaremos a atenção. “Não levem esses dois a sério”, as pessoas ao redor vão dizer. Compraremos brigas juntos e tantas vezes entre a gente mesmo. Vamos nos reconciliar com apelos de “nunca mais me faça isso!”. Esteja preparado, nos amaremos com sangue e com emoção. Não vai ser parecido com nada que nos passou antes, e ao mesmo tempo, será o amor como os bilhões de amores que passaram sobre a Terra, como um relicário de gerações de amores que passaram antes de nós. Como o sentimento que ecoou de corações que um dia se amaram e ficou passeando pelo cosmos, a esperar outros que o hospedassem.

Um dia, no entanto, depois de todo sangue e toda doçura, vamos nos separar. Morrerá uma verdade, morrerá uma versão do mundo criada juntos. Morrerão personagens de uma longa trama, se extinguirá uma língua. Nosso vir-a-ser ficará confinado a um mundo paralelo. Mas vamos nos esquecer disso, vamos fazer questão de esquecer, só assim funciona. Enquanto esse dia não chega, ahhh, enquanto não chega, seremos tomados de furor e aflição. Ninguém vê? A gente descobriu o segredo do universo, mas não podemos contar. Embora o amor passe, tem, ainda assim, que ser vivido segundo a eternidade. Acabamos feridos, esquecemos a ferida, e depois precisamos esquecer o trabalho que dá o esquecimento – talvez a etapa mais longa, mas só aí voltamos a amar. Então de novo estamos fortes, irresponsáveis, rindo na cara do perigo. Quem disse que não precisava de valentia?

E quando a gente acontecer, algumas coisas finalmente serão entendidas. Os desencontros e os abismos anteriores ficarão longe, nossos corações já não alcançarão, tamanha a distância que se abrirá. Os passeios solitários e sem rumo terão sido tentativas de gastar quilômetros para acelerar o momento de nos encontrarmos. Mas calma, eu te digo. Calma que o mundo ainda não está pronto pra gente. Nem a gente está pronto pra gente: é só quando morarmos tranquilos cada um dentro de si é que poderemos nos ver. Porque só quem não procura, acha. Calma, que os autores estão escrevendo as canções que a gente vai escutar juntos, e a nossa cafeteria preferida ainda nem inaugurou. Ainda estão reformando as praças que a gente vai passar os fins de tarde. As primaveras tem vindo fora de época, e precisa ser tudo no tempo exato. Devagar, porque é preciso seguir caminho para os nossos se cruzarem. Esperemos, mesmo sem saber o que se espera, porque aprendi em um poema que os frutos caem por seu próprio peso. Bem devagar e sem pressa, que um destino nunca falha, simplesmente é.

ERRÂNCIA. Apesar de que todo amor é vivido como único e que o sujeito rejeite a ideia de repeti-lo mais tarde em outro lugar, às vezes ele surpreende em si mesmo uma espécie de difusão do desejo amoroso; ele compreende então que está destinado a errar até a morte, de amor em amor.

(Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso)

Anúncios