primavera

Diário de viagem extraviada

Não sei quanto tempo durou a espera. Talvez tenha sido menos de um minuto, pouco mais de trinta segundos. Eu e uma cidade ventando frio no alto de uma madrugada, um lugar onde nunca antes havia pousado meus olhos. Enquanto eu tratava de colocar a mala na calçada, mal deu tempo de subir o olhar e o táxi já partira. Não me lembrei de pedir que esperasse. Foram longos aqueles cinco metros que percorri arrastando as rodinhas esfoladas da mala na calçada. Ali estava a porta, eu e minha bagagem. Não estava certa de que me abririam. Se não me abrissem, não havia como, para onde nem quem chamar, e naqueles segundos entre o som distante da campainha e o girar da maçaneta, senti um calor estranho. Uma vibração. Era o hálito do medo. Entrei. A verdade é que aquele não era o primeiro sopro de temor que eu sentia. Nas poucas horas de voo, mal deu tempo de pensar. Parece que em quinze minutos tudo já havia mudado. E era verdade.

Deve fazer uma semana ou uns dois anos que cheguei. Desde então, peregrino por Córdoba em busca de alguma coisa que não sei o que é. Compro livros que não vou ter tempo de ler, porque os dias são os mais curtos que já vivi. Misturo-me anônima entre mil rostos que não conheço e despenteio meu cabelo ao vento que sopra no parque. Faço amigos como criança na pracinha e desenvolvo planos econômicos que falham portentosamente. Me desloco até a universidade farejando padarias, enquanto assisto a primavera sair rosada pelos jacarandás renascidos – nem parecem os mesmos do inverno seco e polvorento que me recebeu. Por entre largas avenidas e estreitas calçadas, duelo com carros e praguejo em português. As flores que caem por cima dos capôs andam de carona por bairros de puro concreto e os lenços passeiam atados em longos cabelos. A realidade não cessa nunca de surpreender: todo dia me pego balbuciando palavras novas. Numa tarde, chove pedras, garoa e em seguida sai o sol, iluminando as gotículas no ar. Por entre os prédios de tijolo à vista do bairro de Nueva Córdoba, o arco-íris me manda uma mensagem que ainda não entendi. Sempre me pegam desprevenida, porque aqui não leio jornal, não vejo a previsão do tempo, não vejo televisão, não falo ao telefone, e por supuesto, não levo guarda-chuva.

Os dias me escapam, escorrem, e entre uma risada e outra me levaram a madrugada. A moça grávida que atendia naquele café sumiu; em poucos dias meu sobrinho já abrirá os olhos para esse mundo: é a vida que não para nunca de acontecer. E em outras temporadas, o tempo custa a passar como um trem velho. Melhor descer do vagão e caminhar a pé, seria mais rápido. Tem dias que o tempo anda mais devagar que a fila no Banco de La Nación – mas a gente não pode descer do tempo, nem controlá-lo. Nem mesmo podemos sentar-nos no chão para esperar: temos que aguentar em pé. Nos dias mais difíceis, escapo da melancolia recorrendo La Cañada como uma fugitiva, para na luz da próxima manhã saltar do andar de cima do beliche e pensar que ainda preciso aprender um monte de coisas mais. Me apaixono e desapaixono, e com tanta paixão uma hora me canso e entro num bar para sonhar. Aprendo que a solidão é necessária, e quando todos se foram da casa, meu quarto silencioso em uma tarde é um presente. Finjo que o espaço é todo meu e até imagino minha gata escondida no roupeiro embutido. Fujo dos amigos para em seguida bater de porta em porta, desesperada. É que numa dessas esquinas arredondadas de Córdoba, solidões se encontram e tomam estranhas misturas de quarta a domingo.

Ninguém adivinha de onde venho e sei que não sou desse Brasil alegre que me falam, tampouco me sinto dessas terras. Não pertenço, por fim, a nada. Em teoria era tão bonita a vida de forasteira… Ah, claro, eu tinha falado e pensado tanto sobre a grande jornada, sobre conhecer os limites, mas não fazia ideia do quanto estava falando sério. Pensava nisso tudo enquanto flanava distraída, escutando uma dessas músicas alegres que a gente canta como uma reza, buscando sem muita esperança meu ponto de equilíbrio pela Veléz Sarsfield. De repente, a voz robótica do aparelho assalta os fones de ouvido para uma aclaração importante: bateria fraca. “É, eu também”, penso, e mesmo podendo ouvir uma canção mais, enfrento o silêncio até a porta de casa.

Subo para o andar mais alto para um balanço de perdas e danos. A adaptação me havia custado um agosto inteiro: eu tinha aprendido ao menos o necessário para sobreviver e quando vi já era hora de voltar a tatear no escuro. Alguém teve que, de novo, me abrir a porta. Tive que recomeçar a costurar ponto por ponto da rotina. Agora preciso estender todos meus sentimentos no varal da terraza e esperar secar. Preciso esperar outra pele pra recobrir minha carne viva. As lições foram duras, eu bem sei, mas a gente precisa aprender a perder. Alguns escalam o Aconcágua, outros cruzam os Andes com o coração roto; cada qual com seus desafios.

Mirando o farol do Parque Sarmiento, inútil nessa terra firme, penso que há algo bonito até na tristeza. E aí lembro que eu mesma que escolhi. Temos que bancar nossas escolhas, e – pior – também o que não escolhemos. Assim, como quem aceita um destino, como adaptar-se ao vento que sopra. E justamente nessa noite, ele é calmo, morno, não desafia a resistência dos prendedores, não arrasta as peças de roupa para a vizinhança, como costuma fazer. A noite é cálida, feita só para mim. O céu aberto perdoa meus lamentos, meus reclames, minhas ingratidões. Córdoba é generosa, me redime de tudo: me aceitou de volta mesmo eu tendo voltado amarga, cabisbaixa. Me abraçou como um dos seus. Então é verdade que muito azar vem sempre com muita sorte… Não haveria nem um tempo nem um lugar melhor para se viver do que nessa cidade, nessa primavera.

(Córdoba, AR, outubro de 2012.)

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