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Feiras e flores de Neca Ceccin

O balde largo e vermelho abriga um bouquet variado. Posto no chão, em um canto da barraca, dele pendem, murchos, cravos, rosas vermelhas e brancas, margaridas, flores banais do campo. Parecem ter sido apanhadas do jardim da casa de alguém. Com o avançado da hora, o efeito do sol não poderia ter sido mais devastador. As cabeças de repolho, as endívias, as beterrabas e os salgados foram todos mais atrativos. Faltava apenas uma hora para o meio-dia e as flores acabaram esquecidas; sem outro destino, murcharam sob o sol. Nos mercados e nas floriculturas, talvez tivessem mais tempo de vida – mas nas feiras livres, as condições e as regras de sobrevivência são bem outras.

Verdade que as feiras livres já tiveram bem mais liberdades do que têm hoje. As mãos que colheram as flores sabem bem disso. Cresceram vendo o pai encher a carroça e atravessar a escuridão durante toda uma madrugada, levando de São Marcos, localidade do distrito de Arroio Grande, frutas e verduras para o centro de Santa Maria. Se a travessia era dura, as vendas eram melhores. E o espaço concedido às barracas, maior. Gislaine Ceccin chegava depois da carroça do pai, na rodoviária. Ela e a mãe o alcançavam no comecinho da madrugada, pegando um táxi, cheias de sacolas. Ele foi um dos que começaram a feira na Praça Saldanha Marinho, que acontece há décadas na cidade. Para comer, uma galinha assada que traziam em um isopor, no almoço improvisado sem deixar de atender os clientes. Para esses trabalhadores foi de fato uma felicidade poder deixar a carroça no passado, para fugir da chuva, do frio e do peso. Gislaine, ou Neca, como é conhecida, poderia narrar sua vida através da sequência de automóveis que a família adquiriu. Uma camionete Chevrolet das antigas, uma Topic, uma Hilux usada (quatro por quatro, ela frisa, andava em qualquer terreno). Gislaine, desde pequena, entendia que para o trabalho no campo era necessário força e capricho.

A infância se deu por entre as cores e os cheiros das feiras – de alguma forma ela poderia suspeitar que esse seria o seu destino. Os irmãos seguiram profissões diferentes, deram a ela sobrinhos e auxílio quando ela precisa, enquanto Gislaine foi a filha mais nova que ficou para ajudar o pai e a mãe. A escola que freqüentava, Margarida Lopes, no bairro Camobi, ela teve que abandonar. Mais tarde, com a doença do pai, foi ela quem teve que assumir a frente das plantações e negócios da família.

Neca sabe que seu ofício é o de ser uma espécie de mediadora entre o chão e o alimento. Uma encantadora de alfaces, couves e berinjelas. Uma feiticeira de poções em vidros reaproveitados de Nescafé. Uma artesã de rapaduras, salgados e pães. Pelas suas mãos, nascem cravos, palmas, rosas, bolachas, repolhos, abóboras. Não bastasse todo o preparo, Gislaine ainda faz parte desse grupo de resistentes: na contra-mão do mercado e a despeito das complicações, ela ainda é feirante. Carrega sua Topic branca e traz sua produção bem ao alcance dos que vivem longe do campo. Faz o pão de cada dia. Colhe o que plantou. Sustenta com o suor do trabalho. Coisas que para tantos são uma série de metáforas, para Gislaine são expressões literais. O mundo para ela não poderia ser mais concreto. Para os urbanos, longe das lavouras e dos processos de produção, tudo parece miraculoso. Os que mal manejam as panelas, nem sonham em entender como ela pode saber tanto de tanta coisa diferente: cana-de-açúcar, amendoim, tomates, galinhas e margaridas. O que ela planta? O que dá. Nada mais simples e abrangente.

No início da manhã de uma sexta-feira, durante a feira na praça, ela adoraria ter mais do que dois braços. Recita preços sem pensar, recebe dinheiro, alcança tomates, garante que, sim, a mandioca cozinha bem, e que os morangos são bem caseiros. “São nossos mesmo, bem naturais”, ela deixa claro sobre quase todos os produtos. Neca não vende quase nada que não seja produzido por ela mesma, e quando o faz, precisa garantir a procedência. O pote de mel ela revende só porque conhece quem produz – seus tios. Naquela última noite, tinha dormido uma hora apenas.

O pouco descanso poderia ser entrevisto no rosto de pele rosada, enquadrado por cabelos pretos de franja na testa e quase sempre presos. As orelhas são nuas, os olhos são verde-claros e tem a expressão decidida daqueles que tem muito a fazer. Giselda é corpulenta como as matronas italianas. Mas, diferente delas, não tem filhos. A feirante de 38 anos está noiva, mas um noivado que não tem data pra acabar: não sabe quando pretende deixar a casa da mãe. Narrando sua vida, ela costuma dizer que foi indo, foi indo. Depois que deixou a escola, foi indo e foi indo. Depois que o pai de endividou com a plantação de fumo, foi indo, foi indo. Quando conseguiu comprar um tratorzinho, foi indo e foi indo. Neca parece não pensar muito nas coisas que deixou pra trás.

***

Não precisar mais cruzar a noite em uma carroça não significa que as coisas tenham ficado mais fáceis para aqueles que produzem em pequenas propriedades. Santa Maria está longe de ser receptiva com os feirantes. Neca desfaz a expressão tranqüila para falar dos problemas que têm com a prefeitura. Antes colocados perto da Rua Venâncio Aires e com feira nas terças e sextas, hoje lhes restou o entorno das ruas Roque Calage e Ângelo Uglione e um único dia na semana, conquistados a duras penas com os vereadores. “Alguém ainda deve estar perdido da gente”, lamenta ela, temendo que a barraca, que acabou colocada bem em frente aos banheiros públicos da praça, esteja escondida demais para os clientes. Com cara de séria, ela diz que, se pudesse, a prefeitura colocava fogo nos feirantes. Gislaine deve saber do que fala. Bom mesmo é vender nos interiores, como em Caçapava do Sul. Nos rodeios e feiras, a população de uma cidade simples e pequena a recebe como se “estivesse chegando o governador”. Não consegue entender como uma cidade menor que Santa Maria, sem universidade nem nada, é mais receptiva e educada. Para se estabeleceu no centro da cidade, ganharam uma armação de madeira, frágil, que “vai durar até sabe-se quando” sobre a qual Neca estende uma lona amarela, dividida com outra feirante.

– Tem pimenta?

– Só pronta já.

– Eu queria só a fruta.

– Não tem. Eu tive que apanhar e fazer conserva porque ninguém queria, ninguém queria, eu ia perder tudo e esses tempo eu fiz assim, conservinha. Tá bem forte já.

– É que é pra um trabalho, eu não sei se serve.

– Ah, eu sei. Tira e seca. Aí tu tem que ver com quem vai fazer o trabalho pra ti se aceita.

– Preciso de sete.

– Deixa eu contar.

Gislaine diariamente batalha contra o envelhecimento das coisas que produz – a matéria viva do que é orgânico. São necessárias estratégias para conservar mais tempo o que ameaça perecer. Quando a perda se aproxima, ela atrasa o tempo com a imersão em caldas, ou em sal e vinagre. A couve chinesa, sem agrotóxicos, foi vitimada por mordidas de insetos. “É natural, eu tento explicar, mas tem gente que não gosta”. Para as flores que não viram conservas, murchas em um balde quase esquecido, ela revela a maneira de fazê-las reviver, com um tom de quem sabe um segredo: “aquelas ali, é só trocar a água colocar no sereno. Ficam novas como se estivessem no pé, tu precisa ver!”

E se a prefeitura da cidade se encarrega de fazer de tudo mais complicado, por outro lado os clientes tratam de compensar. Neca volta sempre de Topic mais leve, e as vendas começam já às 7 da manhã. Os bancos e escritórios no entorno da praça já a reconhecem. Uma senhora lhe traz potes de vidro vazios. Uma mulher pergunta se ela deixou separado um brócolis. Um homem com ar de bonachão pede desconto em um doce – ela não faz muito caso da pechincha. Ele oferece um preço, mais baixo do que ela dissera, e Gislaine faz de conta que não ouve. O homem sai, fingindo desagrado. “É, a gente trabalha muito, produz muito, mas parece que o lucro mesmo vai sempre diminuindo. Tem coisas que não vale a pena, sabe? Querem colocar preço nas coisas da gente.” Uns minutos depois, o homem está de volta. “Eu vou levar então. Quanto fica?” “Sete.”, declara ela, como se nunca tivesse respondido à pergunta. “Tá bom. Mas bem que tu poderia me dar uma rapadura de brinde…”

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