Pelas ruas

Máquina de instantes

No coração da Argentina estava Córdoba, e no coração dela, o bairro Güemes. Era lá onde a feira acontecia. Bastava seguir reto pela nossa rua e deixávamos para trás as quadras dos edifícios altos e modernos da parte nova da cidade para alcançar o bairro dos conventos, das galerias estreitas, dos ateliês de arte, das lojas de antiguidades e das moradias humildes. Em um terreno salpicado de ruínas, há décadas os artesãos se juntaram no chamado Paseo de las artes. Ali, em longos corredores de tendas, tudo era feito à mão: roupas, sapatos, cadernos, bolsas, cerâmica. Havia também livros, plantas, velharias, comida e alguns objetos sem categoria, invencionices. Não era preciso mesmo muito propósito para visitamos a feira. Íamos para ver e passear, especialmente, ou para saber os preços e de novo não comprar. Às vezes, caminhávamos até lá só para comer empanadas. Também muito do que acontecia era de graça: ganhar serenatas dos músicos de fraque imitando os antigos enamorados, fazer amizade com os vendedores de tortas e assistir caricaturas feitas ao vivo. Vender era só uma parte do que se passava ali, e os artesãos se importavam pouco se comprávamos ou não, nos davam conversa de qualquer forma. Eu ia por histórias e nunca voltava sem alguma.

Costumávamos comprar café que alguns estudantes vendiam, fatias de bolo das senhoras quase na saída da rua Belgrano e incensos de baunilha. Ao contrário dos incensos com cheiro sempre da mesma coisa, nos quais o aroma era mais uma ideia ou uma promessa, esses realmente cheiravam a baunilha. Uma moça fazia marcadores de páginas com colagens e frases manuscritas, de quem eu comprei vários e perdi todos. Outro vendia cartões de aquarela, que eu postava pouco a pouco aos amigos. Um senhor costurava animais de pano, com feições espantosamente simpáticas – parar ao lado deles era coletar suspiros – e foi ali que um lagarto verde foi prometido a meu sobrinho.

Na tenda da mulher morena e de cabelos longos, vinda de Mendoza, me interessei especialmente pelos caleidoscópios. Ao me ver espiar e alcançar um deles para minha amiga olhar, ela se apressou em esclarecer: chicas, chicas, não se vê a mesma imagem nunca. Quando chega na mão de quem está ao lado, a estrutura se desfez, já mudou, as peças já se mexeram. Ela me dizia que o momento do olho no caleidoscópio só acontecia uma vez. Olhar ali dentro era ver algo que ninguém mais via, ela nos assegurou, explicando que era um dos objetos mais antigos do mundo. No tempo necessário para ver todos os desenhos possíveis – ela conta com voz de espanto, como quem lê uma história a uma criança – os oceanos secariam e as montanhas desapareceriam. Dizia também que os vidros eram importados, mas nem precisava inventar essa inofensiva mentira, porque eu já tinha sido tocada a ter um daqueles só pelas palavras. O “infinito”, a “eternidade”: nunca mais eles seriam tão portáteis e custariam somente trinta pesos. Foi assim que eu levei um deles comigo, satisfeita. Usava para me distrair, em tardes ensolaradas, o que em Córdoba significavam muitas.

Tempos depois, aquelas ruas já se encontravam longe demais dos meus pés e os amigos com quem cruzava os quarteirões até o bairro Güemes estavam irremediavelmente espalhados pelo continente. Do mesmo modo, quase tudo comprado na feira, por alguma razão, já não estava mais comigo. Se os cartões se esvaem pelo correio, os marca-páginas somem no meio da literatura, o lagarto de pano mora no quarto da criança e os incensos viram aroma e cinza, o caleidoscópio se mantinha ali. Como se nada tivesse acontecido, intacto ao tempo. Então o tomo na mão, aponto bem pra lâmpada – é noite, mas poderia ser dia, porque o sol havia se esquecido daquele inverno – e com minha luneta sou uma exploradora de padrões de desenhos que dançam. Sou a única espectadora dentro de uma vitrine de pétalas de vidro.

Uma imagem bonita se forma, uma estranha combinação de amarelo e azul. Fico tentando fazê-lo aparecer de novo. Pode-se passar horas com o olho ali, nessa teimosia. Lembro então da artesã daquele bairro e me dou por conta que o desenho não volta. No movimento das imagens, somos a força que move, mas não a que decide. Tudo vai se espalhando por si e se perdendo, como um dente-de-leão que o vento vai soprando, como as geometrias que se esboçam sozinhas. Aí eu entendi, afinal, o que havia trazido pra casa: um antigo brinquedo que ensinava sobre o irrepetível. Um exemplificador do acaso. Uma máquina de ver instantes. Como a feira onde não voltei mais, e se voltasse, talvez não fosse nada do que eu lembro: as velhinhas já não prepararão mais bolos, os estudantes que vendiam café se formaram e no lugar das serenatas talvez eu só encontrasse silêncio. Pessoas e coisas tem esse estranho costume de mudar ou sumir e as constelações das circunstâncias são, sempre, ao azar. Talvez o caleidoscópio mostre a importância das lembranças, o fato de sermos as únicas testemunhas das nossas memórias, que a estampa delas é tudo que temos. Ou quem sabe tente dizer, na língua misteriosa dos fragmentos de vidro, que é preciso saber assistir a tudo seguir girando e girando, incontrolável, absurdo e colorido.

(Crônica publicada na seção Escotilha da edição #2 da Revista proa.)

Perdizes a pé

Para quem não tem medo de declives, andarilhar por esse bairro pode ser um bom programa em um domingo. São ruas estreitas, sinuosas, onde há muitos jardins para ver e, espalhadas pelas ladeiras, casas antigas que bem poderiam estar em uma cidadezinha do interior. Mesmo sem me deter, pude entrever redes na varanda, bicicletas de criança, gatos preguiçosos. Para dar ainda mais o ar de décadas passadas, um portentoso Ford Galaxie, daquele azul claro que não se pinta mais carro nenhum, estava estacionado ali pelos lados da rua Iperoig. Em um muro, uma frase espera toda a semana para fazer sentido: domingo lezado. Assim, com z.

Não é preciso andar muito para dar-se conta que certas casas estão com os dias contados. Como um sobrado com ar de abandonado, sem nenhum ‘vende-se’ ou ‘aluga-se’, que uma moradora, ela mesma testemunha das mudanças de um bairro de casas baixas de décadas atrás, garante estar só esperando a papelada da construtora. Algumas quadras adiante, já se comprova o horizonte obstruído pelos prédios enormes, alguns até com certo charme, outros simples mastodontes brilhantes com nomes derivados de “palace” ou “tower”. Vemos enormes tapumes, onde placas anunciam suítes, muitas vagas na garagem e “sacada gourmet”. Sou daquelas que lamenta o sumiço dos chalés de madeira da minha cidade, então tento não me comover, tento manter indiferença. Eu só não entendo mesmo a necessidade dessas pessoas entediadas segurando placas nas esquinas. Peço a quem tenha dinheiro para tal tomar por princípio: não comprar nenhum imóvel que deixe seres humanos com uma seta pendurada no pescoço.

Mas não é sobre isso que eu gostaria de falar.  Hoje me interessaram mais outras coisas, como pequenas transgressões vegetais. O chão coberto de folhas secas, mesmo que não seja outono; um jasmim que segue seu caminho enlaçado nos fios de luz; um flamboyant, nem aí para as divisões patrimoniais, que espalha suas flores por vários terrenos. Mesmo alcançando a avenida Sumaré, com o fluxo de carros e as franquias internacionais sem nos deixar dúvidas da enorme cidade e do ano em que nos encontramos, pode-se admirar figueiras majestosas e pitangueiras cheias de frutos. Ao contrário dos corredores da pista no meio da avenida e dos carros que passam, não sou do tipo que pode ignorar uma pitanga. Essa indiferença me custa ainda mais. Se caminhasse adiante, dava para ficar assistindo o metrô chegar e partir, na estação envidraçada. Mas volto, por outro caminho, e o domingo parece ser um dia especialmente bom para sentar nos bares de mesas na calçada, nas imediações da Alfonso Bovero. Em um canteiro, noto um catavento de papelão cravado na terra. Que se registre: Perdizes contém uma São Paulo que é também a cidade dos jasmins destemidos, das pitangas em meio ao trânsito e onde alguma criança, sabiamente, tentou plantar o vento.

(São Paulo, novembro de 2013)

Como andar na rua em Santa Maria

II_Santa_Anos_70

De cabeça baixa pela Rio Branco: errado. Ao meio-dia de outono na Saldanha Marinho: certo. Sorrindo pela avenida Medianeira: recomendável. De guarda-chuva embaixo das marquises: errado. Sem guarda-chuva e pisando nas poças: certo. De saia na Alberto Pasqualini, em dia de vento: temeroso. Com cachecol pela Acampamento: certo. Com pressa pelo parque Itaimbé: errado. Com fones de ouvido atravessando o calçadão: certo. Interromper a caminhada para conversar, cortando o fluxo dos demais pedestres: errado. Nas brechas dos carros na Floriano Peixoto: desaconselhável. De mãos dadas na Venâncio Aires: promissor. Ter um ponto de chegada: desnecessário.

De olhos fechados

Santiago de Chile - Setembro de 2012

Depois que meus amigos seguiram viagem, fiquei um dia sozinha em Santiago do Chile. Isso alguma coisa deve significar. Conversei com pessoas que provavelmente nunca mais verei, comprei um lenço colorido, comi comidas estranhas.  A onipresença das cordilheiras faz ver tudo ao redor diferente. Dá pra assistir o pôr-do-sol vir chegando rosado pelas montanhas e os tremores que os nativos nem sentem fazem questionar o sentido da vida. Não se pode pra ignorar a geografia daquele lugar, ela acena em todas as partes.

Mas mesmo sem cadeias montanhosas ou sacolejos de placas tectônicas, quando viajamos sozinhos despertamos para o que está ao redor – porque mesmo em um lugar onde tudo é novo, se não temos a solidão, nem sempre podemos ver as coisas ao nosso modo. Controlando os próprios passos, aguçamos os ouvidos para as palavras nas ruas. Foi assim que capturei uma conversa entre mãe e filho, a qual tive o cuidado de anotar no meu caderno, companheiro de andanças. Era um garotinho com não mais que cinco anos, mãos dadas com a mãe pela praça, naquela idade precisa em que as crianças se valem livremente das palavras. Assim foi o pedaço de conversa que ouvi:

– Entonces hoy vas a conocerlo!

– Sí, yo lo conozco mamá, pero lo vi de ojos cerrados.

– Lo imaginaste, entonces.

– Puede ser.

(Santiago do Chile, Setembro de 2012)