Pedro Maciel

Carta para uma nova estação

Não corro do meu tempo; não tenho nenhuma pressa. Toda gente vive apressada, e sai-se no momento em que se deveria chegar. Quando me apresso, apresso-me lentamente.

(Pedro Maciel, Retornar com os pássaros)

Pode ser que, para uma nova estação, algumas coisas antes tão importantes passem a importar menos. Pode ser que a gente tenha que, calmamente, desistir de muito do que pensava. Mas não é uma desistência desiludida, não é uma calma feita de apatia ou de desesperança. São momentos antes de reconfigurar as importâncias, e antes que se possa fazer isso, algumas coisas importam pouco e pode-se sentir que está bem assim.

Talvez seja preciso não tentar pensar em soluções para o mundo, mas preocupar-se com as nossas próprias soluções. Os nossos problemas tem a propriedade de misturarem-se com outros, e se deixamos, acaba enorme para uma pessoa só. Será preciso não chorar pelos árvores mutiladas, nem pelos cães da rua, nem pelo que se perdeu na estrada, nem pelos mortos. Será preciso não abraçar nenhuma causa e tentar entender um pouco mais o que se passa no nosso próprio coração. Será como no conselho que o poeta deu: abrir a palavra que doeu e ver que não tem sementes. A palavra que machuca é infértil, no final. Logo o mundo vai me ter de volta, e aí poderei dar algo de mim. Depois.

Pode ser necessário saber que, por mais que a gente faça muito esforço para ser entendido, no final das contas, não se pode controlar a interpretação que nos dão. E não podemos parar de tentar ser bem interpretados – nunca, porque é importante.

Será um momento de deixar que tudo ecoe, ecoe, ecoe para que, de olhos fechados, possamos desenhar o ambiente. Deixar que o que nos pesa se dissolva lentamente. É coisa que demora: tire suas dúvidas com as pedras, com as árvores, com os que se sentam nos bancos das praças – eles devem saber sobre paciência. Se cada um tem o seu tempo, o meu será o dos pássaros. O dos que se movem depois. Quem quiser que mude de coração como de camisa, eu não. No mundo instantâneo, essa vai ser a minha resistência.

Então será hora de encontrar os amigos, os mais queridos, aqueles que parecem que tem a alma mais aborrecida e bem parecida com a nossa. Falaremos durante horas e horas, comeremos juntos e beberemos da mesma garrafa, para que então, em algum momento, aconteça: olharemos uns para os outros e pensaremos, cada um consigo, que chegamos a algo como uma compreensão. Dura alguns segundos e passa, quando retornamos para concretude das coisas, a garrafa, a mesa, os olhos, e o som das nossas próprias vozes.

Será preciso também sentir uma falta absurda da amiga que cantava pela manhã, que oferecia um pouco do jantar, que plantou uma oração debaixo do meu travesseiro (a amizade, sim, tem sementes). Aquela que chorava ao sair do cinema, que chorava caminhando pelas ruas, e tudo que podíamos dar era o silêncio, porque era o que ela queria. E quando deitou no sofá, confessou que tinha medo, que guardava dentro de si algumas coisas que doíam e que parecia temer que nunca conseguisse descobrir quem era. Então demos nossas palavras, e naquele momento, elas parecem ter servido para alguma coisa.

E passamos a não usar as palavras difíceis ou os labirintos de pontuação que costumávamos. Agora talvez seja hora das frases em ordem direta e verbos tão usados que nunca temos dúvida de como conjugá-los. Não pedimos palavras emprestadas para ninguém porque, ao final, precisamos nos dizer sozinhos. Temos que fazer o melhor e o mais simples com o que temos.

Nesse momento, nos sirvirá mais observar do que atuar. O que comumente se chama viver parece ser uma sucessão de acontecimentos, ações e mudanças. Às vezes a vida é assim, mas parar e ver as coisas também faz parte de viver. Também há vida no silêncio. Especialmente há vida nisso.

Então penso que, por mais que a gente tente ser feliz, às vezes esse ser feliz se trata de agarrar-se a algumas ideias que, por sua vez, estão amarradas em uma incerteza tremenda. Atenção, senhores, estamos flutuando. O tempo todo. Mas, espera: não significa que ser feliz seja uma bobagem. Não significa que a gente não deva se agarrar às coisas. Acontece que a se a gente pensa um pouco mais, talvez possa se atar a coisas mais bonitas e que, embora também incertas, valham um pouco mais a pena.

Questionar e refazer nosso mundo nunca deixa de ser importante, o que não quer dizer que tenhamos que fazer isso todos os dias. O caos está aí, caindo sobre as nossas cabeças. Temos que enfrentá-lo, é verdade. Mas um dia também podemos usar um guarda-chuva, por que não? Só não podemos esquecer que é um guarda-chuva. Não podemos achar que nunca mais vamos nos molhar. Não pára nunca de chover.

Mesmo assim, molhados de caos, não quer tampouco dizer que a gente não possa chegar a algumas conclusões. Eu mesmo já tenho algumas: Que, se existir algo como o entendimento, deve ser parecido com os amigos conversando. Que, se as palavras servem para alguma coisa, deve ser para dar a uma amiga que chora. Que as coisas que a gente sente falta (amigos que choram e que tem medo, silêncios, abraços, etc.) definem muito do que somos. Que, tão importante quanto aprender com a presença, é aprender da ausência. Que, se há alguma coisa que custa muito, é saber quando dar o silêncio e quando dar a palavra.

E no fim, precisamos ouvir muito e ler sobre muitas coisas. Precisamos escutar os velhos e as crianças, tomar conselhos dos taxistas e dos recepcionistas dos hotéis, travar discussões com nossos amigos, escutar o que tem a dizer os nos amam e os que não nos amam também; ler os filósofos dos livros e também os do Youtube, ouvir os sermões e as pregações, e também o que dizem as pessoas nas paradas de ônibus, o que uma moça triste esbravejou no fim do dia, o que contam os poetas do twitter e os cânones literários, as senhoras que tricotam mantas em silêncio e os que varrem as ruas. (talvez especialmente o varredor da rua, porque o que fazemos nessas horas se parece muito com varrer as nossas ruas.)

Tudo isso, para no final, sacar umas poucas conclusões e entender que não entendemos muito. Aceitar não entender já é bastante. De todos os conselhos, o único que pode ter valor é o que diz que temos que fazer aquilo que sentimos que temos que fazer.  Só que aprender a sentir demora – às vezes várias estações. Mas, quem sabe, pode funcionar.

(Santa Maria, abril de 2013)