outono

O mais cruel dos meses

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera,
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.

(…)

Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,
E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o canto dos grilos,
E nenhum rumor de água a latejar a pedra seca. Apenas
Uma sombra medra sob esta rocha escarlate
(chega-te à sombra desta rocha escarlate),
E vou mostrar-te algo distinto
De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece
Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;
Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.

(O enterro dos mortos, T. S. Eliot)

Sujo meus sonhos de realidade. Levo meus desejos ao extremo da ponta de um lápis. Não vejo nada. Existem palavras e eu existo. Essas foram as coisas mais certas que consegui. Amanheço de luz acesa. Sujo meus sapatos de rua. Saio para onde se vê meu rastro confuso, onde se espalha a casca que fui arrancando das horas; ruas e praças tão minhas, de tanto que pousei nelas os olhos. Vou atrás de um pensamento esquivo, que teima em não se enclausurar na casa, da revelação que não quer acontecer aqui: coisas diluídas em ar. Os sapatos voltam ao armário, eu volto ao quarto-de-não-dormir. Deslocamento nenhum.

Não quero passar um mês esperando o outro. Penso muito ou não penso? Sento-me na beirada da vida. Espero-a acontecer, assisto? Espectadora que desceu de um trajeto e quer ser passageira de outra coisa. Que coisa? Simplesmente outra. Em toda decisão, acima do burburinho dos conselhos e da prudência recolhida em cada esquina, estamos necessariamente sozinhos. Seja no nosso crescimento ou nos nossos fracassos, não levamos ninguém. Na hora mais silenciosa da madrugada, fazemos nossas piores perguntas e desenterramos respostas.

Recordo-me, quando criança, de gritar desesperadamente por uma dor de ouvido. Não que doesse tanto, mas eu não tinha certeza se iria acabar: aquela dor nunca me havia doído, nunca havia sarado dela. Toleramos bem melhor aquilo que conhecemos o ciclo. Nenhuma mulher sente todo mês o desconforto da cólica como naquela primeira vez em que nosso corpo parecia agir fora de nosso controle. Acometida de mal inédito, adoeci. Anoiteci. Duvidei que visse o dia em que me visse revigorada. Mas aos poucos, amanheceu: aprendi que em algumas enfermidades, cura é escolha. Doeu-me a ansiedade, a aflição de que o mundo pudesse parar de girar ou que a vida cessasse de acontecer. Angústia que me fez cega para ver que há um ano eu era outra, me embrenhava em caminhos tão diferentes e me dizia estagnada, como se não estivesse imersa no rio – no rio que passa, e é a nossa vida.

Mais sã (ou menos, na visão de alguns) faço-me então aqui presente. Agradeço a minha leitora única, pelas visitas e pela insistência tão amável. Nos perguntamos, as duas, embora ignorando em partes as razões uma da outra: terá esse caminho um coração? (e poderá alguém saber de razões que não sejam suas?). Arrisco sem medo algum essa semelhança nossa, orgulho e ruína, de querer coisas com coração. Queria ter o poder também de provocar outras, denunciar ausências, trazer ainda mais para perto outros corações.

Concluo que não quero ser triste nem alegre. Não quero esperar epifanias nem revelações. Meu sossego, muito que perdi… nem procuro. Meu ato inaugural: indigente, passo em revista por mim mesma, caminho sobre os sonhos caídos, dobro a esquina da falta de senso. Ruas limpas de lembranças. Desencaminho-me. Caio no endereço das coisas minhas, que pouco ou nada conheço.

(Santa Maria, abril de 2007)

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Receita Minimalista para o Outono

Por alguma razão obscura comecei a não me dar bem com cafés passados. Deve ser a mesma razão pela qual chocolate, depois de uns anos, começou a me dar uma dor de cabeça chata, persistente, no fundo dos olhos. A verdade é que chocolate não fez muita falta, mas a restrição com o tipo de café me traz problemas. Sobram para mim as opções: café expresso e, quando estou em casa, café batido, porque café preto de nescafé, assim, sem nada, é amargo  demais.

Não sabe fazer café batido? É uma das receitas mais simplórias da vida: absolutamente necessário aprender. Também é chamado, em outras bandas desse Brasil, café cremoso. Lembra um momento bom depois do almoço, barulhinho de colheres nas xícaras e conversas alongadas.

Como começar: pegue uma xícara qualquer e imagine quanto de café quer tomar e coloque tantas colherinhas de café solúvel (pó ou granulado, tanto faz) quantas julgar o bastante para essa quantidade de líquido imaginada. Coloque açúcar, mas lembre-se que não pode ser tão pouco assim: uma quantidade igual ou maior do que o café solúvel. Em seguida, o momento de colocar um pouquinho de água. Atenção: é bem pouquinho. O que você imaginar que precisa, diminua pela metade e coloque. Comece com uma colherinha de chá com pouca água e, caso precise, adicione umas gotinhas. Se colocar água demais, vai virar um líquido que nunca vai dar ponto e você vai se obrigar a colocar mais açúcar e café. Quando ele ficar uma pastinha já está bom de água (a temperatura desse pouquinho de água não interfere). Mexa bem com a colher por alguns minutos e a mistura vai gradualmente se tornar esbranquiçada e mais firme. Se estiver pensando na solução de um problema, pode contemplar o horizonte com olhos esperançosos e continuar misturando até ficar quase em ponto de neve, que além de uma saída para suas agruras ganhará um café bem mais cremoso (dizem os antigos que esse tipo de café clareia a mente humana). Ou, se estiver em um dia mais tranquilo ou sem tanto tempo para contemplações, basta esbranquiçar um pouco. Quando estiver em um ponto que julgar bom (veja que a receita é toda personalizável), adicione água ou leite quente. Pronto! Com açúcar mascavo funciona tão bem quanto, inclusive fica branquinho. Para completar, pode polvilhar canela por cima.

Como se pôde ver, para acertar nesse café precisa de um pouco de intuição. Essa é a grande sacada. Já vi receitas para fazer em grande quantidade, na batedeira, e deixar congelado. Pessoalmente não achei graça, mas é possível e prático, embora estrague um pouco do ritual e subestime os poderes que o preparo da bebida tem sobre o estado de espírito das pessoas. De qualquer forma, uma boa receita para esperar o outono.