muros

Perdizes a pé

Para quem não tem medo de declives, andarilhar por esse bairro pode ser um bom programa em um domingo. São ruas estreitas, sinuosas, onde há muitos jardins para ver e, espalhadas pelas ladeiras, casas antigas que bem poderiam estar em uma cidadezinha do interior. Mesmo sem me deter, pude entrever redes na varanda, bicicletas de criança, gatos preguiçosos. Para dar ainda mais o ar de décadas passadas, um portentoso Ford Galaxie, daquele azul claro que não se pinta mais carro nenhum, estava estacionado ali pelos lados da rua Iperoig. Em um muro, uma frase espera toda a semana para fazer sentido: domingo lezado. Assim, com z.

Não é preciso andar muito para dar-se conta que certas casas estão com os dias contados. Como um sobrado com ar de abandonado, sem nenhum ‘vende-se’ ou ‘aluga-se’, que uma moradora, ela mesma testemunha das mudanças de um bairro de casas baixas de décadas atrás, garante estar só esperando a papelada da construtora. Algumas quadras adiante, já se comprova o horizonte obstruído pelos prédios enormes, alguns até com certo charme, outros simples mastodontes brilhantes com nomes derivados de “palace” ou “tower”. Vemos enormes tapumes, onde placas anunciam suítes, muitas vagas na garagem e “sacada gourmet”. Sou daquelas que lamenta o sumiço dos chalés de madeira da minha cidade, então tento não me comover, tento manter indiferença. Eu só não entendo mesmo a necessidade dessas pessoas entediadas segurando placas nas esquinas. Peço a quem tenha dinheiro para tal tomar por princípio: não comprar nenhum imóvel que deixe seres humanos com uma seta pendurada no pescoço.

Mas não é sobre isso que eu gostaria de falar.  Hoje me interessaram mais outras coisas, como pequenas transgressões vegetais. O chão coberto de folhas secas, mesmo que não seja outono; um jasmim que segue seu caminho enlaçado nos fios de luz; um flamboyant, nem aí para as divisões patrimoniais, que espalha suas flores por vários terrenos. Mesmo alcançando a avenida Sumaré, com o fluxo de carros e as franquias internacionais sem nos deixar dúvidas da enorme cidade e do ano em que nos encontramos, pode-se admirar figueiras majestosas e pitangueiras cheias de frutos. Ao contrário dos corredores da pista no meio da avenida e dos carros que passam, não sou do tipo que pode ignorar uma pitanga. Essa indiferença me custa ainda mais. Se caminhasse adiante, dava para ficar assistindo o metrô chegar e partir, na estação envidraçada. Mas volto, por outro caminho, e o domingo parece ser um dia especialmente bom para sentar nos bares de mesas na calçada, nas imediações da Alfonso Bovero. Em um canteiro, noto um catavento de papelão cravado na terra. Que se registre: Perdizes contém uma São Paulo que é também a cidade dos jasmins destemidos, das pitangas em meio ao trânsito e onde alguma criança, sabiamente, tentou plantar o vento.

(São Paulo, novembro de 2013)

Anúncios