microcrônicas

Eu vim de Piripiri

Paulo Diniz foi quem me ensinou sobre o esquecimento. Estava no acervo de discos do pai, arrumados em uma estante fora do alcance dos meus olhos. Pela manhã, entre o cheiro de café e o perfume que ele usava antes de sair para trabalhar, Diniz soava sua rouquidão pernambucana. Ouvindo “Como vou deixar você” e “Um chope pra distrair”, senti pelas primeiras vezes um peso no peito, sem entender ainda do que se tratava. Hoje, sei que era algo como a tristeza –  eu, de tão pequena, ainda não conhecia, mas pode ter sido através daquela voz que eu começava a suspeitar.

Não voltei mais a ouvir. Vinte anos depois, ao me deparar com uma coleção de vinis, a capa de ilustrações azuis apareceu feito um cartão postal da Rua Olavo Bilac, onde morei até meus sete anos. Com uma urgência incomum, quis colocar para tocar, em um ato arriscado de acionar um mecanismo que eu desconhecia o funcionamento – não a vitrola, tão simples, mas a máquina das lembranças, que age sempre de modo tão inesperado.

Nunca entendi quem idealiza o passado, quem desgasta a nostalgia repetidamente. Se eu tivesse continuado a ouvir Paulo Diniz ao longo dessas duas décadas, talvez sua voz não exercesse sobre mim a mesma força. A agulha no disco restituiu em mim, naquela tarde, a emoção mais bruta da música. Se eu não tivesse esquecido, não poderia ter me sentido com cinco anos, olhando a cidade passar, indiferente àquele espanto denso e inesperado dentro de um apartamento qualquer. O tempo e o silêncio serviram para pôr sentido em versos que soaram tão leve-pesados, tão novo-velhos; serviram para o peito ter aprendido, ou ao menos intuído, algo sobre o amor, o desalento e as travessias.  E transbordou. Tive que ser aquele canoeiro – logo eu que nem sei remar, eu que nunca fui à Bahia. Resisto ao impulso de repetir. Em parte por medo dessa força, em parte para, quem sabe um dia, poder sentir de novo o mesmo assombro.

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Bairro distante

escadaria cardeal arcoverde foto carlos moreira

Fuga

A melancolia é uma mulher – vestido azul, olhar castanho profundo – que anda solta pelo centro. Passeia pela Praça Ramos, senta nas escadarias da ladeira, anda do viaduto de um lado a outro. Às vezes, ela pega uma sessão de cinema, aquelas de Nouvelle Vague da Tchecoslováquia ao meio-dia, e conversa com os mocinhos barbudos que sentam nas poltronas ao lado. Encantadora, teria dito um deles. Eu sei que é ela porque quando passa as pombas continuam no lugar, porque senta junto com os mendigos que ninguém consegue ficar perto, passa reto pelas catracas. Da minha parte, quando a avisto de longe, finjo que não vi e apresso o passo.

Faixa de segurança

Caso Deus exista, não gostaria de perturbá-lo muito. Minha vida tem dias um pouco difíceis, mas dá pra ir levando, uma hora algo dá certo, noutra algo dá errado, o balanço tem sido bom. Gostaria mesmo de demandar uma coisa importante: que proteja esses meninos que cruzam correndo a Nove de Julho, em qualquer horário do dia e da noite, enquanto eu, da sacada, tento ajudá-los como posso – com bons pensamentos e preces sem convicção de Deus. Cruzar uma avenida enorme, sozinhos e correndo, sem passarela, é uma metáfora para a forma como essas crianças levam a vida. Eles costumam sobreviver, mas a infância – dá pra ver aqui de cima – se vai um pouco a cada travessia.

Lonjuras

Acontece sempre de alguém me interpelar: como é viver lá no Sul? Nessa hora, o Sul se torna uma sílaba imensa, me sugerindo o infinito. Apequeno-me diante de uma pergunta que pede para definir, ao mesmo tempo, modos de vida e uma vasta região do mundo. Costumo dar respostas bem vagas, dizendo que é boa e ruim, como aqui. Algumas vezes, sem saber de onde venho, me advertem que aqui faz muito frio. Eu digo que estou acostumada, embora já tenha visto soprar em São Paulo um vento mais austero que o Norte ou o Minuano: a distância de casa. Não sou a única a sentir. É esse vento das cidades que são feitas de gente que veio de longe.

Pingentes

As coisas que eu gosto aqui são tão banais, tão bobas, que eu até tenho vergonha de contar. Gosto da fonte nas quais estão escritas as placas das ruas e das frutas penduradas nas lanchonetes baratas (bananas em cachos, abacaxis presos pelo cangote, laranjas em sacos de tela). Dos cafés de coador em copos pequenos de vidro, do vento que sopra antes do trem chegar. Constato que são justamente elas que me mantêm atenta, que fazem justificar para mim mesma a alegria e a cor dos dias. Há tempos em que nos agarramos mesmo é nas insignificâncias. Não é preciso ser feliz sempre, mas precisamos ao menos que brilhem, vez ou outra, algumas promessas de felicidade.

Descaminho

A história de uma mudança é também a história de uma sequência de perdas. Logo ao chegar, perdi um livro de poesias – um dos meus preferidos, comprado em Montevidéu. Nos meses seguintes, vim perdendo mais e mais objetos. O próximo foi um par de brincos de zircônia, em seguida uma caderneta marrom, um lenço azul florido e depois um celular. Sem contar as dezenas de canetas, que parecem buscar um gênero ou uma caligrafia sempre mais além. Semana passada, perdi minha carteira de identidade. A sabedoria popular diz que o que vai embora sempre volta, mas a verdade é que se engana. Aprender a seguir não é saber esperar a volta ou as compensações, mas saber que o trajeto também é feito de coisas que jamais serão restituídas.

Sapatos

Basicamente tudo no mundo envolvendo seres humanos pode ser explicado pela empatia. A música, a literatura, o amor, a política. A simplicidade é apenas aparente. Quanto menos tipos de vida experimentamos, menor a possibilidade de conseguirmos entender o outro. Por essa razão, é preciso em um só dia ser muitas pessoas, viver muitas vidas. Hoje mesmo, fui atendente de loja de bijuterias, malabarista de semáforo, namorada de um homem que gritava na calçada, executiva do Santander e imigrante africana recém chegada. Em inglês e espanhol, sei que se usa a metáfora dos pés: ponerse en sus zapatos, put oneself in somebody else’s shoes. Colocar os pés onde os outros pisam pode ser mais ou menos fácil, dependendo do caso. Tem vezes, aprendi, que só andando descalço.

Pinheiros

Um homem chora. Eu, ao seu lado, apenas observo. Ele segue chorando e sinto que preciso fazer alguma coisa. Encosto levemente minha mão no seu braço e digo: não fique nervoso, moço, tudo passa. Ele me olha, continua a chorar. Instantes depois, esfrega o rosto com a palma das mãos, se acalma. Então me diz: não estava nervoso, não. Eu sorrio, ele responde com outro sorriso, maior que o meu – quase rindo de si, de ter deixado pública sua tristeza, embora sem se envergonhar. Era saudade, ele continua. Saudade dói mesmo, eu comento. Ele então fica sério de novo e explica: quer dizer, não é bem saudade que dói… é o jeito que as coisas aconteceram. Até a próxima estação, seguimos em um silêncio confidente.

 

Stairs at Liljeholmen in Stockholm, Sweden (Photo by Michael Cavén)

 

(São Paulo, março de 2014)

Como andar na rua em Santa Maria

II_Santa_Anos_70

De cabeça baixa pela Rio Branco: errado. Ao meio-dia de outono na Saldanha Marinho: certo. Sorrindo pela avenida Medianeira: recomendável. De guarda-chuva embaixo das marquises: errado. Sem guarda-chuva e pisando nas poças: certo. De saia na Alberto Pasqualini, em dia de vento: temeroso. Com cachecol pela Acampamento: certo. Com pressa pelo parque Itaimbé: errado. Com fones de ouvido atravessando o calçadão: certo. Interromper a caminhada para conversar, cortando o fluxo dos demais pedestres: errado. Nas brechas dos carros na Floriano Peixoto: desaconselhável. De mãos dadas na Venâncio Aires: promissor. Ter um ponto de chegada: desnecessário.