memórias dos outros

A menor da Bilu-Bilu

Nada sintetiza mais meus tempos de menina que aquelas tardes. Minha infância na Mooca sou eu com uma cadeira perto da porta da loja, quase na calçada, com as mãos pequeninas e os olhos atentos, aproveitando a luz da rua para bordar. Foram mais de quinze anos dentro do comércio da família. Desde muito cedo tinha sido assim: caminhar direto da escola para lá para que meus pais almoçassem, cuidar para que ninguém levasse os triciclos que espalhávamos pela calçada, controlar os minutos de brincadeira nas redondezas para voltar em seguida. Além da papelaria, vendíamos presentes, brinquedos e livros. Até hoje não perdi a prática de fazer pacote, com todas as dobraduras que precisam ter. Até hoje não preciso de nada mais que segundos para as contas de cabeça; depois de ter aprendido a ler, o próximo passo foi saber fazer rapidamente o troco. Meus pais inventaram uma série de estratégias de venda que, na época, eram inovações. Como a exposição dos brinquedos na rua e a caderneta, para pagar à prestação aquelas bonecas enormes, que eu vendi muitas, mas nunca tive uma minha.

Se me perguntam se era bom ou ruim, eu tampouco saberia. Simplesmente era. A rotina da loja se converteu em algo natural para nós. Sei que, sem dúvida, lá dentro nos sentíamos bem, estávamos em família e sabíamos tirar proveito dos pequenos privilégios de ser filha do seu Zé, dono da loja Bilu-Bilu – eu e minha irmã éramos chamadas, pelos conhecidos, de “as biluzinhas”. Eu podia ler os livros do Monteiro Lobato, da coleção Jabuti, os gibis que eram trocados ali e ter em primeira mão os artigos de coleção, os modelos mais raros de caneta-tinteiro.

Verdade que não se passava, assim, só a bordados e leituras. Algumas épocas do ano o movimento apertava. Especialmente no dia das crianças e no Natal, quando o movimento era tanto que mobilizava toda a família, até meus tios e meus avós. A comemoração do dia 24 era sempre adiada para o dia 25, não podíamos perder o movimento dos retardatários, como dizia minha mãe. Aqueles, que, mesmo com a cortina de ferro baixa, apareciam para um último presente esquecido ou para uma visita que chegava sem avisar. Nos dias comuns fechávamos às 6 da tarde, mas no Natal poderíamos ir até a madrugada. De dentro da loja, eu via minhas amigas passarem despreocupadas e de banho tomado, subindo a rua para assistir a missa do galo. Eu me perguntava que teria de tão especial nesse galo aparecer – se é que ele dava as caras, eu nunca pude descobrir. O cansaço do dia de trabalho punha a família a dormir sem missa e sem ceia. Aquela refeição cerimoniosa da meia-noite eu só fui ver anos depois, na casa do namorado – e até hoje não preparo, nem mesmo agora que há tempo. Cacoete dos tempos da Bilu-Bilu.

Como algo que assimilamos sem sentir, tampouco sei dizer como eu e minha irmã, apesar de tão novas e sem saber bem o que era inflação, soubemos naquela época que as coisas andavam aumentando de preço. Talvez a gente somente intuísse, e a habilidade de fazer as contas rápido nos fazia ditar os preços já com uma porcentagem de aumento, mesmo que nosso pai não quisesse. Já dava pra ver que o negócio dele era menos o comércio do que a prosa. E todo mundo parava na loja pra dizer alguma coisa. Vizinhos, amigos, artistas, os italianos e os castelhanos, pronúncias que desde lá aprendi a reconhecer. Naquelas décadas, no entanto, eu era só espectadora. Criança não tomava partido nas conversas dos adultos. Mas eu era, isso sim, livre pra imaginar o que queria dizer dar um desfalque, ou como será que aquela moça andava perdida, se eu a via depois pelo bairro e não parecia nada sem rumo.

Foi mais tarde que eu aprendi a interpelar as pessoas, a usar melhor as palavras, a fazer as perguntas importantes. Mas a ouvir em silêncio e contemplar as palavras, isso eu já sabia. A habilidade da escuta havia sido aprendida na rotina daquela loja, desde menina. Sem ter sido “a mais nova das biluzinhas”, talvez eu nunca tivesse sido escritora. Apesar de ter me mudado e não pensar mais em morar no bairro, meu endereço ainda é, de vez em quando, a rua da Mooca. É pra lá que eu volto quando preciso. Já não bordo mais, mas uma parte de mim senta naquela cadeira perto da porta, com olhos atentos, aproveita a luz da rua e escreve.

(São Paulo, setembro de 2013.)

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