Itaara

Roteiro sentimental da cidade de Itaara

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Embarcamos no chevette branco do meu pai. O que mais lembro dos carros que usávamos são os ruídos: o estalo metálico da porta, o clic das travas mecânicas, a fechadura do porta-luvas. No som, desde a Avenida Medianeira, Bee Gees, Stevie Wonder ou Cartola – e posso ouvir, lá pela metade da viagem, o tlec-tlec da fita sendo trocada de lado. Me acomodo bem no meio do banco de trás, apoiando as mãos no encosto dos bancos onde só andavam adultos.

– Pai, que dia é hoje?

Deveria ser alguns dos primeiros de 1992. O tempo passava mais lento. De Santa Maria até Itaara, era uma jornada. Cansava, tinha começo, meio e fim. Depois de me responder, ele comenta, como quem diz qualquer coisa:

– Em março, vai começar a escola.

Aquilo me pareceu tão fatal. Em março, eu teria que ir para a escola, onde tínhamos que sentar em cadeiras separadas e escrever de caneta. Sabe o que acontece quando se escreve de caneta? Não dá pra apagar. Parecia que não tinha jeito, eles estavam decididos: eu iria para a escola. Mas antes, ainda bem, havia quase todo o verão. Eu não precisa saber dos dias, apenas de vez em quando verificava com alguém a quantas andavam os meses. Era uma estação imensa, era sempre verão em Itaara. Eu ainda não sabia ler, mas alguém sempre avisava na placa do viaduto: “saímos da cidade”. Apenas agora posso reconhecer que aquela foi, para mim, a primeira fronteira.

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Passamos da portaria da Sociedade Concórdia de Caça e Pesca. A rota dos pinheiros nos conduz até bem próximo do bar, onde estacionamos. Espalhados ao redor, havia viveiros de pavões, casinhas de boneca e estátuas de duendes, além de diversas crianças, com as quais nos misturávamos. E um lago, onde nadei por tardes inteiras. Uma vez, havia avistado sapos nas bordas, o que fez com que passasse a entrar na água com muito mais cuidado, por um bom tempo. Meu irmão estava sempre andando de bicicleta, o tempo todo. De vez em quando, alguém perguntava: “onde anda esse guri?”, e outro respondia “tá por lá”, localizando minimamente a rota que ele fazia, da ponte para cá, daquelas árvores pra lá, e estava tudo bem. Saindo do lago, tenho nos pés a sensação das tiras de pano dos meus chinelos molhadas – isso tudo se passou antes da popularização das havaianas.

Cruzando a ponte, uma área onde rareavam os brinquedos e havia mais mato. Era onde ficava também a sede dos escoteiros. É claro que eu queria ser uma também, mas não fui, minha mãe nunca deixou. Provavelmente devido a uma grande insistência, cheguei a participar de algumas atividades dos escoteiros sem ser uma. Deve ser essa minha primeira experiência como uma enviada. Não me tornei um deles, mas eu fui lá e vi como era. Não ter sido escoteira me tornou, talvez, o que eu sou hoje: uma curiosa inveterada, uma relatora de pequenos incidentes ou simplesmente alguém que inventa as coisas por si mesma. Porque afinal, eu não aprendi a dar nós, a fazer fogueira, a contabilizar boas ações. Tive que dar jeito de me mover no mato à meu modo, de explorar as coisas como podia.

Isso foi, muitas vezes, bastante interessante. Foi em um desses verões no clube que, durante um acampamento com a família, tomei a decisão de que passaria a me chamar Raquel. Não funcionou muito bem. As pessoas se mostraram, em matéria de trocas de nomes, extremamente conservadoras. Mas eu havia tentado. Nos últimos tempos, eu tinha conseguido grandes vitórias: andar de bicicleta, nadar e eventualmente até pegar alguns peixes sozinha. Ainda estava testando os limites do mundo. Itaara era uma enorme hortênsia azul.

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Oásis

Estou dentro de um dinossauro. Um dinossauro oco de cimento, e aqui dentro minha voz faz um eco interessante. De repente, me pergunto se os dinossauros seriam como os extraterrestres. Todo domingo à noite passava alguma coisa na televisão sobre os extraterrestres, o que me matava de medo. Eram quatro ou cinco dias para esquecer, e aí, no outro domingo, o terror começar de novo. Mas não, os dinossauros não deviam ser tão temíveis, são apenas lagartos bem grandes. Logo fujo pela boca, em um ato de coragem pulo do alto do dinossauro, me vomito de dentro do bicho de concreto e tenho um novo objetivo: andar de teleférico.

Estamos percorrendo o zoológico. Achei ele tão, tão parecido comigo. Será que… me entendia? Será que se eu dedicasse tempo suficiente conversando com ele, poderia me entender? Não pude saber. Quando, muitos anos depois, pensando no quanto podemos nos enxergar nos animais, foi espelhada naquela mirada intensa com o macaco do zoológico do Parque Oásis que eu pude entender. Olho no olho, eu era o macaco. Ele era eu mesma. Mas a conversa ficou pra depois. Estávamos a passeio, era logo a hora de seguir adiante, as cobras, os hipopótamos, as capivaras.

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Hoje acho que contemplar aquelas estátuas disformes e os castelos kitsch do parque Oásis é, de certa forma, nos deparar com a nossa própria inocência. Porque realmente acreditávamos neles, gostávamos deles. Porque eles estavam ali, sempre estiveram, ninguém os havia colocado, eles existiam desde o começo dos tempos. A tristeza do parque hoje abandonado tem menos a ver com a habitual melancolia das coisas fracassadas do que com a nossa localização no mundo, nós do final dos anos oitenta. Aqueles trens parados, aqueles teleféricos enferrujados, as jaulas vazias, são todas ruínas que não param de nos contar como faz tempo. Dentro dos nossos carros, aceleramos na frente do parque só para não lembrar que nossa infância acabou.

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Alugamos uma variedade incrível de casas no Balneário Lermen. Fomos inquilinos por largas temporadas. Experimentamos casas pequenas, grandes, de madeira, com piscina, de tijolos à vista, com escada caracol, de pedra, enormes, triste e alegres. Sempre havia colchões espalhados, roupas órfãos, protetores solares extraviados. Nas gavetas e nos roupeiros, encontrávamos vestígios dos que habitavam a casa no resto do ano. Acabávamos sempre nos perguntando, supondo o que queria dizer cada objeto. Olhávamos fotografias de desconhecidos, descobríamos as profissões dos outros moradores por indícios: uma caneca de uma empresa, algum papel, uma caixa de ferramentas. Nas pistas das casas, naqueles anos, aprendemos a contar histórias por fragmentos.

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Com os pés na água do lago que havia por ali, lembro de ter lido em voz alta, com uma amiga, o Best seller daqueles tempos: Coisas que toda garota deve saber. Nadar o dia inteiro já não tinha aquele mesmo gosto. Parece que queríamos mais, mas o quê?

– Oi, tudo bem? Qual é teu nome? Vocês vão ficar por aqui? É, a gente tá naquela casa.Tenho treze, e tu?

Em um desses verões no Lermen, minha primeira ousadia amorosa. Atravessei toda a extensão daquelas ruas internas, na escuridão da noite, para escutar, em um orelhão na estrada: “eu sabia que tu ia ligar”. Havia amor antes do celular. Eram intensos os primeiros anos 2000. Itaara era um imenso céu estrelado e eu voei.

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 O ônibus começa, enfim, a viagem pra valer. Não havia pensado direito na rota, e quando vi, tomamos a BR 158 e subimos a serra. Passamos a ponte sobre o vale onde, não importa pra onde se olhe, não há como ignorar o verde. Acabo me dando conta que um dos postais da minha cidade é, na verdade, uma saída. Estou deixando minha cidade. Não, isso seria pouco. Na curva das serras, sei que na verdade estou deixando as minhas cidades. Itaara é um pinheiro no meio da estrada, que espera e sabe que eu sempre vou voltar.

garganta

(Itaara, janeiro de 2014)

[fotos: Acervo digital do Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria]