inverno

Últimos postais de inverno

Se a cidade acordasse de repente, ao meio-dia ou no meio da noite. Ou se dormisse um dia inteiro, sem nenhuma razão senão a de descansar nossas dores. Se a madrugada insone trouxesse, ao menos, uma resolução. Se a noite nos acalmasse. Se as estrelas nos eximissem da culpa.

Se um relâmpago iluminasse o futuro por alguns segundos. Logo esqueceríamos, a memória desbotaria rápido, mas não se sofreria por não ter nenhuma ideia dele. Se as videntes soubessem do que falam.

Se eu não fizesse as coisas maiores do que são. Nem diminuísse o que é importante. Se eu acreditasse em alguém para me ensinar a medida das coisas (por enquanto, vou levando comigo mesmo).

Se eu pudesse te fazer as perguntas mais diretas: de que lado da rua caminhas quando estás triste? posso investigar teus olhos? quem deixarias morar na palma da tua mão?

Se não se amasse só para ficar junto, mas também para ser cúmplice na fuga. Se o meu vocabulário de amor fosse maior do que “paixão” e “não”. Se eu me livrasse de todos os analfabetismos. Se ninguém confundisse coragem com urgência. Se nunca tivesses escrito teus passos na minha calçada. Se eu tivesse mais do que palavras para oferecer.

Se a felicidade precisasse só ser testemunhada pelos envolvidos nela. Se a alegria caísse na clandestinidade, e só fosse notada por acaso, quando fosse tão verdadeira que não se conseguisse esconder. Se os que têm certezas soubessem como elas são fracas. Se houvesse mesmo o destino e bastasse esperar por ele.

Se a ingenuidade não fosse só das crianças. Se nunca esquecêssemos a poesia. Se os sonhos sobrevivessem à luz do sol. Se as orações funcionassem. Se as confissões se revertessem. Se a primavera chegasse.