doze de abril

O mais cruel dos meses

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera,
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.

(…)

Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,
E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o canto dos grilos,
E nenhum rumor de água a latejar a pedra seca. Apenas
Uma sombra medra sob esta rocha escarlate
(chega-te à sombra desta rocha escarlate),
E vou mostrar-te algo distinto
De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece
Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;
Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.

(O enterro dos mortos, T. S. Eliot)

Sujo meus sonhos de realidade. Levo meus desejos ao extremo da ponta de um lápis. Não vejo nada. Existem palavras e eu existo. Essas foram as coisas mais certas que consegui. Amanheço de luz acesa. Sujo meus sapatos de rua. Saio para onde se vê meu rastro confuso, onde se espalha a casca que fui arrancando das horas; ruas e praças tão minhas, de tanto que pousei nelas os olhos. Vou atrás de um pensamento esquivo, que teima em não se enclausurar na casa, da revelação que não quer acontecer aqui: coisas diluídas em ar. Os sapatos voltam ao armário, eu volto ao quarto-de-não-dormir. Deslocamento nenhum.

Não quero passar um mês esperando o outro. Penso muito ou não penso? Sento-me na beirada da vida. Espero-a acontecer, assisto? Espectadora que desceu de um trajeto e quer ser passageira de outra coisa. Que coisa? Simplesmente outra. Em toda decisão, acima do burburinho dos conselhos e da prudência recolhida em cada esquina, estamos necessariamente sozinhos. Seja no nosso crescimento ou nos nossos fracassos, não levamos ninguém. Na hora mais silenciosa da madrugada, fazemos nossas piores perguntas e desenterramos respostas.

Recordo-me, quando criança, de gritar desesperadamente por uma dor de ouvido. Não que doesse tanto, mas eu não tinha certeza se iria acabar: aquela dor nunca me havia doído, nunca havia sarado dela. Toleramos bem melhor aquilo que conhecemos o ciclo. Nenhuma mulher sente todo mês o desconforto da cólica como naquela primeira vez em que nosso corpo parecia agir fora de nosso controle. Acometida de mal inédito, adoeci. Anoiteci. Duvidei que visse o dia em que me visse revigorada. Mas aos poucos, amanheceu: aprendi que em algumas enfermidades, cura é escolha. Doeu-me a ansiedade, a aflição de que o mundo pudesse parar de girar ou que a vida cessasse de acontecer. Angústia que me fez cega para ver que há um ano eu era outra, me embrenhava em caminhos tão diferentes e me dizia estagnada, como se não estivesse imersa no rio – no rio que passa, e é a nossa vida.

Mais sã (ou menos, na visão de alguns) faço-me então aqui presente. Agradeço a minha leitora única, pelas visitas e pela insistência tão amável. Nos perguntamos, as duas, embora ignorando em partes as razões uma da outra: terá esse caminho um coração? (e poderá alguém saber de razões que não sejam suas?). Arrisco sem medo algum essa semelhança nossa, orgulho e ruína, de querer coisas com coração. Queria ter o poder também de provocar outras, denunciar ausências, trazer ainda mais para perto outros corações.

Concluo que não quero ser triste nem alegre. Não quero esperar epifanias nem revelações. Meu sossego, muito que perdi… nem procuro. Meu ato inaugural: indigente, passo em revista por mim mesma, caminho sobre os sonhos caídos, dobro a esquina da falta de senso. Ruas limpas de lembranças. Desencaminho-me. Caio no endereço das coisas minhas, que pouco ou nada conheço.

(Santa Maria, abril de 2007)

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Sobre esquecer

Pensei hoje nas coisas perdidas, escondidas, ocultas. No tijolo que não vê mais sol embaixo do reboco da parede. No desenho das lajotas do piso, há anos encoberto pelo carpete. Na moeda que caiu dentro do sofá e não compra mais nada. Numa fotografia que escorreu para o fundo da gaveta e que ninguém sentiu falta. Pensei em todas as luvas e em todos os pés de meia desquitados e inutilizados. Na bicicleta que ensinou o equilíbrio e que nenhuma criança anda mais.

Pensei no silêncio dos porões das casas. Quis eu mesma estar nesse silêncio. Invejei as coisas obsoletas, ultrapassadas, velhas; queria dividir pó com elas, me deixar estar num vão de uma escada, ser empilhada junto com as enciclopédias que acentuam êrro e flôr. Eu quis um canto num sótão, talvez aninhada entre as roupas separadas para doação e nunca entregues. Desejei ser o guarda-chuva que ninguém quis porque estava roto, e foi deixado a um canto. Quando tudo nos oprime, deveríamos poder virar cistos, deixar tudo em suspenso. Permanecer muitos anos ausente, até que alguém mova um armário e, surpreso, nos encontre. Há dias em que se quer mesmo ser esquecida.