crônica

Máquina de instantes

No coração da Argentina estava Córdoba, e no coração dela, o bairro Güemes. Era lá onde a feira acontecia. Bastava seguir reto pela nossa rua e deixávamos para trás as quadras dos edifícios altos e modernos da parte nova da cidade para alcançar o bairro dos conventos, das galerias estreitas, dos ateliês de arte, das lojas de antiguidades e das moradias humildes. Em um terreno salpicado de ruínas, há décadas os artesãos se juntaram no chamado Paseo de las artes. Ali, em longos corredores de tendas, tudo era feito à mão: roupas, sapatos, cadernos, bolsas, cerâmica. Havia também livros, plantas, velharias, comida e alguns objetos sem categoria, invencionices. Não era preciso mesmo muito propósito para visitamos a feira. Íamos para ver e passear, especialmente, ou para saber os preços e de novo não comprar. Às vezes, caminhávamos até lá só para comer empanadas. Também muito do que acontecia era de graça: ganhar serenatas dos músicos de fraque imitando os antigos enamorados, fazer amizade com os vendedores de tortas e assistir caricaturas feitas ao vivo. Vender era só uma parte do que se passava ali, e os artesãos se importavam pouco se comprávamos ou não, nos davam conversa de qualquer forma. Eu ia por histórias e nunca voltava sem alguma.

Costumávamos comprar café que alguns estudantes vendiam, fatias de bolo das senhoras quase na saída da rua Belgrano e incensos de baunilha. Ao contrário dos incensos com cheiro sempre da mesma coisa, nos quais o aroma era mais uma ideia ou uma promessa, esses realmente cheiravam a baunilha. Uma moça fazia marcadores de páginas com colagens e frases manuscritas, de quem eu comprei vários e perdi todos. Outro vendia cartões de aquarela, que eu postava pouco a pouco aos amigos. Um senhor costurava animais de pano, com feições espantosamente simpáticas – parar ao lado deles era coletar suspiros – e foi ali que um lagarto verde foi prometido a meu sobrinho.

Na tenda da mulher morena e de cabelos longos, vinda de Mendoza, me interessei especialmente pelos caleidoscópios. Ao me ver espiar e alcançar um deles para minha amiga olhar, ela se apressou em esclarecer: chicas, chicas, não se vê a mesma imagem nunca. Quando chega na mão de quem está ao lado, a estrutura se desfez, já mudou, as peças já se mexeram. Ela me dizia que o momento do olho no caleidoscópio só acontecia uma vez. Olhar ali dentro era ver algo que ninguém mais via, ela nos assegurou, explicando que era um dos objetos mais antigos do mundo. No tempo necessário para ver todos os desenhos possíveis – ela conta com voz de espanto, como quem lê uma história a uma criança – os oceanos secariam e as montanhas desapareceriam. Dizia também que os vidros eram importados, mas nem precisava inventar essa inofensiva mentira, porque eu já tinha sido tocada a ter um daqueles só pelas palavras. O “infinito”, a “eternidade”: nunca mais eles seriam tão portáteis e custariam somente trinta pesos. Foi assim que eu levei um deles comigo, satisfeita. Usava para me distrair, em tardes ensolaradas, o que em Córdoba significavam muitas.

Tempos depois, aquelas ruas já se encontravam longe demais dos meus pés e os amigos com quem cruzava os quarteirões até o bairro Güemes estavam irremediavelmente espalhados pelo continente. Do mesmo modo, quase tudo comprado na feira, por alguma razão, já não estava mais comigo. Se os cartões se esvaem pelo correio, os marca-páginas somem no meio da literatura, o lagarto de pano mora no quarto da criança e os incensos viram aroma e cinza, o caleidoscópio se mantinha ali. Como se nada tivesse acontecido, intacto ao tempo. Então o tomo na mão, aponto bem pra lâmpada – é noite, mas poderia ser dia, porque o sol havia se esquecido daquele inverno – e com minha luneta sou uma exploradora de padrões de desenhos que dançam. Sou a única espectadora dentro de uma vitrine de pétalas de vidro.

Uma imagem bonita se forma, uma estranha combinação de amarelo e azul. Fico tentando fazê-lo aparecer de novo. Pode-se passar horas com o olho ali, nessa teimosia. Lembro então da artesã daquele bairro e me dou por conta que o desenho não volta. No movimento das imagens, somos a força que move, mas não a que decide. Tudo vai se espalhando por si e se perdendo, como um dente-de-leão que o vento vai soprando, como as geometrias que se esboçam sozinhas. Aí eu entendi, afinal, o que havia trazido pra casa: um antigo brinquedo que ensinava sobre o irrepetível. Um exemplificador do acaso. Uma máquina de ver instantes. Como a feira onde não voltei mais, e se voltasse, talvez não fosse nada do que eu lembro: as velhinhas já não prepararão mais bolos, os estudantes que vendiam café se formaram e no lugar das serenatas talvez eu só encontrasse silêncio. Pessoas e coisas tem esse estranho costume de mudar ou sumir e as constelações das circunstâncias são, sempre, ao azar. Talvez o caleidoscópio mostre a importância das lembranças, o fato de sermos as únicas testemunhas das nossas memórias, que a estampa delas é tudo que temos. Ou quem sabe tente dizer, na língua misteriosa dos fragmentos de vidro, que é preciso saber assistir a tudo seguir girando e girando, incontrolável, absurdo e colorido.

(Crônica publicada na seção Escotilha da edição #2 da Revista proa.)

Como extrañar uma cidade

Córdoba - turística

Não quero nunca mais voltar a Córdoba. Não quero voltar só pra poder sonhar como poderia ter sido se eu voltasse. Não volto para poder imaginar o que talvez encontrasse.

Por que vou ter saudades mortas, se posso tê-las vivas? É um erro achar que todas as saudades precisam ser curadas. Tem saudades que não sanam, foram feitas somente para serem sentidas. Não se volta à casa da infância, ela é bem menos interessante do que pensávamos. Não se repetem as receitas de outros tempos, os ingredientes já não funcionam mais juntos. Escolher uma cidade para viver e nunca mais voltar é escrever uma receita de utopia. Córdoba estará lá, sempre. E aqui, comigo.

Se eu não tiver mais saudade de Córdoba, o que farei aos domingos? É uma das atividades que melhor tenho desempenhado, não tirem o pouco que me resta. A saudade também nos constitui. Se não sinto mais a falta daqueles dias, o perigo é que eu me desfaça – e eu bem sei, nesses tempos, como é preciso estar inteira.

Por isso nunca mais voltarei. Não tenho o que buscar. Os amigos se espalharam pelos continentes. As paixões foram dadas por perdidas. Pode ser que tenham derrubado o Cabildo. Pode ser que tenham pintado a catedral de outra cor. A vendedora de caleidoscópios não vai mais à feira. É preciso entender que as configurações do vivido se desfizeram. Se havia um modo para ser feliz que foi inventado em passeios pelas ruelas do centro, ele não funciona em nenhum outro lugar do mundo. Deixo esse meu rascunho por lá, uma mensagem dentro de uma garrafa que segue ao longo do canal de La Cañada. Que alguém a encontre e reescreva, ou leia no meio da tarde como um relato de um pedaço de vida.

É preciso esquecer Córdoba. É preciso esquecer tudo. Esquecer as avenidas cinzentas, os terraços ensolarados, as pedras das ruas. Esquecer que lá eu conheci gente de coração tão grande que parece que aumentei o meu. Até que lá eu aprendi a esquecer, até isso é preciso deixar para trás. É preciso empenhar-se muito no esquecimento, para o prazer de voltar a lembrar. Porque aí as recordações não doem. É preciso amansar as lembranças. É inútil matar saudades, é um crime matar essas saudades. Não quero voltar a Córdoba.

Que escrevam da minha passagem: chegou numa madrugada de inverno, andou pelas ruas alegre e triste, tomou o trem em uma tarde de dezembro e nunca mais foi vista.

(Santa Maria, julho de 2013)

Manhã de domingo

Passam alguns minutos das oito da manhã. Faz bem pouco que cheguei. Ao invés de, como sempre faço, chegar aqui perto do meio dia entrando e saindo de nuvens de fumaças de churrasqueiras espalhadas nas calçadas, andei pela manhã esbranquiçada de cerração. Não havia fumaça, sequer havia carvão nas churrasqueiras feitas de tonéis de metal cortados pela metade, modelo quase padrão do comércio de churrasco do bairro. O ar estava branco de cerração, da nuvem que desceu naquela manhã. Foi caminhando dentro da nuvem no chão que eu atravessei a Borges de Medeiros.

Cheguei, na verdade, um pouco atrasada. O desjejum já havia sido tomado: a xícara de café com leite e a fruta. O avô agora dorme na sua cadeira de rodas. Já encontrei a televisão ligada e me sento no sofá, com sono. Passa um programa dedicado exclusivamente a carros. Não há ninguém interessado em carros aqui.  Do público na sala, uma é somente pedestre, o outro anda de cadeira de rodas. Um dorme, a outra tem vontade de dormir. Sei que não sou obrigada a ver, mas não desligo; sem a tevê, há muito silêncio, pode ser que o avô acorde. Antes de sair, a cuidadora do turno anterior me deixou as recomendações. Meu almoço está pronto, minha tia se encarregou de deixar, basta aquecer. O do meu avô também, basta triturar.

Nove horas e dez minutos. Horário de Brasília, dizem na televisão. De Santa Maria também, complemento. De Buenos Aires igualmente, penso, que era onde eu me transportava naquele momento em devaneio. Ano passado eu morei nesse país aqui ao lado. Enquanto eu estava lá, meu avô também fez suas temporadas de viagens. Foi ao hospital. Pneumonia. O caderno de bordo que usaram para escrever a histórias dos dias da sua recuperação me conta o que eu não soube:

15:00 Nebulizei

17:00 Nebulizei

07:30 Febre 37.8. Dei remédio (50g)

09:00 Nebulização intermediária

00:00 Nebulizei.  Atrovent, Clenil A, Aerolim (seriam personagens? duendes? não, remédios para limpar os pulmões do avô)

09:30 Noite (21:00) Diluí remédio Acetilcisteína

08:00 Nebulizei. Atrovent, Clenil A, Aerolim

Após às 18:00 já estava bem disposto conversando. Dormiu das 22h às 24h, e 4 às 06:30.

Assina os versos Márcia, cuidadora que sequer conheci. O caderno me conta da sua presença nos primeiros registros hospitalares. Depois, como o meu avô, ele foi pra casa. As empregadas anotavam quando faltava leite, quando um remédio acabava. De anotações, em seguida ele foi suporte para relatos de manhãs e tardes silenciosas. Cada turno tem seu boletim. Alguns mais telegráficos, outros mais detalhados. A pauta estava aberta, então uma filha escreveu das saudades da mãe, da máquina de costura que ela tinha na sala. Outra aproveita o espaço para deixar conselhos para passar o tempo. Acidentalmente, começamos uma narração colaborativa. O caderno talvez possa nos ajudar a entender, ou simplesmente suportar, aquilo que nos ultrapassa: silêncio e ausência. Dizem que quem não lembra mais já não tem história e, já que esses dias não são mais registrados pelo meu avô, anotamos. A prótese de memória não existia, então tratamos de criar uma feita em casa e à mão, com várias caligrafias.

Dez horas e oito minutos. Meu avô de repente, exclama: Mãe! Mãe! Me pergunto, sabendo e não sabendo a resposta, por onde andaria a mãe do meu avô. Anda tão longe, que chamá-la já não se alcança mais. Não sei quase nada sobre ela, sequer lembro seu nome. Talvez tenha escrito alguma coisa sobre a sua vida, embora seja pouco provável. Quem sabe alguém escreveu sobre a vida dela, mas também é pouco provável. Ouço meu avô chamá-la e não respondo, não digo nada. Deixo que o chamado se esconda de volta no tempo. Será que a minha bisavó sabia escrever?

Dez horas e quarenta e cinco minutos. Horário do bairro Salgado Filho. Por alguma razão, a televisão se desliga. Alguém deve ter programado. Meu avô abre os olhos. Não foi programado por ninguém, sequer por mim. Digo oi. Ele levanta parte da sobrancelha direita. É o seu cumprimento para o momento. Ele volta a fechar os olhos, e eu decido cochilar até a hora do almoço.

Onze horas e trinta minutos. Ainda é cedo, mas almoçamos. O meu passa pelo microondas, o dele pelo liquidificador. Eu, embora sem pressa, almoço rápido. Meu avô, colher a colher. Alcanço o caderno na mesinha ao lado do telefone e escrevo minha contribuição. Começo assim: Passam alguns minutos das oito da manhã. Faz bem pouco que eu cheguei… 

O cheiro de carvão queimando anuncia que os trabalhos dos churrasqueiros na avenida já está avançado. Ainda temos uma tarde e o começo de uma noite. O sol na janela da cozinha nos conta que a nuvem que desceu pela manhã já foi esquecida.

(Santa Maria, julho de 2013.)

O mapa da casa

Subiu cada degrau bem devagar. Meio sem forças, foi se segurando na trepadeira enlaçada na escada, um corrimão que cresceu enquanto ela não estava. Ainda tinha a chave da porta da frente. Boa tarde, disseram solenes as formigas. Já é quase de noite, replicaram as aranhas do alto das suas teias. A camada de pó dos móveis denunciava que dia era. A sala estava ali, com a televisão desligada como um brutamonte domado, meses e meses. O sofá, como os gatos, odiava visitas. A ausência humana faz as coisas se modificarem, ou talvez mostrarem o que eram de fato. A cristaleira, na verdade, era um compacto museu. Cada portarretrato, um pequeno altar.

Quebrou o silêncio do quarto abrindo a porta pesada de madeira e entrou. Sentiu que era pouco. Entrou no roupeiro. Ficou ali, brincando por um momento um esconde-esconde sem medo de ser achada. Notou que os casacos de lã hibernam no verão e que as saias coloridas estão sempre prontas para passear. Confidenciaram-lhe os sutiãs que seu lugar favorito é ao lado da cama, caídos. Lá dentro, o mais sério de todos é o chapéu: não se dobra nunca, exibe sempre seu vazio. Achou roupas de pessoas ausentes e sentiu que era como receber cartas atrasadas – contas que já chegam vencidas e não sabemos o que fazer com elas. Ao sair do esconderijo, viu que a cama estava com lembranças demais para permitir o descanso. Parece que murmurava sem parar coisas que ela não queria escutar. Fugiu.

A cozinha nunca havia passado tanto tempo limpa. Algumas louças tinham ficado na pia, para escorrer, o que deve ter durado uma ou duas horas, o resto foi espera. Decidiu guardá-las e acabou derrubando aquelas esculturas improvisadas. Os garfos e as facas gritaram, as colherinhas de chá deram pequenas risadas. Dois pratos com estampas geométricas se perderam. Os copos de plástico não puderam se quebrar – não têm graça justamente por essa falta de perigo. Na despensa os mantimentos são poucos, não podia juntá-los para preparar nada. São, como ela, sobreviventes. O frasco de café reaproveitado para o açúcar seguia confuso. Os parafusos de massa espalharam-se no chão do armário. Ficaram os cravos-da-índia que não acabam (moram nos potes para sempre) e a essência de baunilha, quase eterna, com a soberba das poções mágicas.

No banheiro, os azulejos contavam as mesmas histórias de flores. A lâmpada perto do espelho ainda estava queimada. Tentou ligar por uma esperança que, por alguma espécie de milagre, houvesse ressuscitado. A calcinha no chão interpretava uma nudez antiga. O chuveiro, de tão sedento, demorou mais para abrir. O grande problema da economia de água e luz, pensou ela debaixo d’água, é que é quase impossível não confundir banho com meditação. O frasco de xampu que ficara seguia incansável, cheio de promessas, para quem quisesse acreditar. Os cabelos poderiam até cair – de fato, havia perdido alguns – mas o que iria amaciar a vida?

Com túnica e véu de toalha, atravessou a casa e acabou ali, na biblioteca em miniatura. Pensou que muitos objetos, depois de tempo sem uso, acabam esquecendo o que são. Menos os livros: os únicos que sabem ser pacientes, os que foram feitos para a espera. Poderia ser ali que começaria a escavar. Poderiam ser eles que a ajudariam, lentamente, a lembrar o que nunca soube. “Nunca mais deixo de morar em mim”, ela prometeu. Admirava quem encontrava grandes motivos, horizontes, causas. Até agora ela só havia encontrado palavras e outras coisas miúdas – desde pequena tinha sido assim, dada a pequenezas. Foi com isso mesmo que seguiu o seu caminho. E essa mesma casa, real e absurda , ela aprenderia de novo a habitar.

Aconteceremos

Eu não sei de ti e tu não sabes de mim. Por aí vamos nós, distraídos de solidão. Até quando, ninguém sabe, e ninguém ousa saber. O futuro é assim, de uma brancura, de uma imensidão de fazer de conta que não existe. Mas vai nascer um dia, que de tão banal vai ser bonito. Um dia em que um deus muito esquecido vai lembrar de uma tarefa antiga. Nesse dia, um senhor velho e muito rabugento vai abrir uma garrafa de vinho há muito guardada. Um pássaro atrevido vai invadir uma loja de decoração e piar do alto de um lustre. Um livro do Neruda vai saltar ao mesmo tempo da estante de várias bibliotecas ao redor de mundo e o insólito incidente não será noticiado. Um dia em que, tão sem razão quanto, como em um raro despertar, nos encontraremos. Eu vou te estranhar e vais me estranhar também. Seremos apresentados pela pessoa mais improvável, o acaso vai bolar uma estratagema que de tão real vai parecer ficção. Nossos rostos nunca vistos rejeitarão o espanto. Não vai dar pra simpatizar, assim, de cara, ninguém se aceita de uma hora pra outra. A gente vai discutir numa mesa de bar, vai discordar do pedido no cardápio. Tu vais falar mal de um artista que eu gosto, eu vou te irritar com um monólogo sobre qualquer coisa. Eu vou te achar chato e vais me achar louca. Será nada mais que inoportuno, e a presença um para o outro, bem ao contrário do encanto. Mas algo vai brilhar. Haverá um detalhe que vai sobressair. Gostei desse cara, eu vou pensar enquanto caminho pra casa. Ela tem algo que me atrai, vais dizer pro teu amigo.

A perturbação vai ir conosco pra casa, que nem aqueles cachorros de rua que nos seguem mesmo a gente não querendo. Vou me surpreender pensando em ti enquanto cozinho, tu vais lembrar de mim na hora de recolher a roupa do varal. A lembrança nos acompanhará como uma abelha gorda e insistente, difícil de espantar. É que no mais profundo de nós mesmos reina uma fatalidade absurda, alheia, que não se combate, só se vive. Um sentimento verdadeiro, mais que impactante, é insidioso. Mesmo sem estar seguro que deveria, vais me convidar pra sair. Eu, mesmo premeditando que não vou me divertir, vou aceitar e ainda me justificar dizendo “só porque não tenho nada a perder”. E de repente, meu Deus, quando foi que amanheceu e eu não vi?

O que descobriremos depois, mesmo que os incautos não vejam, é que vai amanhecer com outro sol. Esqueça tudo já vivido, vamos nos amar com alegria e profunda seriedade, como as crianças amam um brinquedo. E o amor maduro que a gente esperava vai ficar pra outra. Não vai ter nada a ver com isso. Haverá vexame, demonstrações públicas, ciúmes, cartas dramáticas, apelidos impronunciáveis. Faremos essas coisas que os casais fazem e a gente só odeia quando não estamos neles. Vamos viajar por lugares e dizer “estive aqui com meu amor”. Vai ser ridículo, vai ser lindo. Vamos nos amar de uma maneira nova e patenteá-la pra usar só entre a gente. Escrevemos uma rotina, teceremos uma rede, e nela deitaremos, à sombra. Passaremos dias trancafiados, até o fim dos mantimentos, que nem os amantes que nos contou Rubem Braga. Discutiremos pelas coisas mais ínfimas, disputaremos a atenção. “Não levem esses dois a sério”, as pessoas ao redor vão dizer. Compraremos brigas juntos e tantas vezes entre a gente mesmo. Vamos nos reconciliar com apelos de “nunca mais me faça isso!”. Esteja preparado, nos amaremos com sangue e com emoção. Não vai ser parecido com nada que nos passou antes, e ao mesmo tempo, será o amor como os bilhões de amores que passaram sobre a Terra, como um relicário de gerações de amores que passaram antes de nós. Como o sentimento que ecoou de corações que um dia se amaram e ficou passeando pelo cosmos, a esperar outros que o hospedassem.

Um dia, no entanto, depois de todo sangue e toda doçura, vamos nos separar. Morrerá uma verdade, morrerá uma versão do mundo criada juntos. Morrerão personagens de uma longa trama, se extinguirá uma língua. Nosso vir-a-ser ficará confinado a um mundo paralelo. Mas vamos nos esquecer disso, vamos fazer questão de esquecer, só assim funciona. Enquanto esse dia não chega, ahhh, enquanto não chega, seremos tomados de furor e aflição. Ninguém vê? A gente descobriu o segredo do universo, mas não podemos contar. Embora o amor passe, tem, ainda assim, que ser vivido segundo a eternidade. Acabamos feridos, esquecemos a ferida, e depois precisamos esquecer o trabalho que dá o esquecimento – talvez a etapa mais longa, mas só aí voltamos a amar. Então de novo estamos fortes, irresponsáveis, rindo na cara do perigo. Quem disse que não precisava de valentia?

E quando a gente acontecer, algumas coisas finalmente serão entendidas. Os desencontros e os abismos anteriores ficarão longe, nossos corações já não alcançarão, tamanha a distância que se abrirá. Os passeios solitários e sem rumo terão sido tentativas de gastar quilômetros para acelerar o momento de nos encontrarmos. Mas calma, eu te digo. Calma que o mundo ainda não está pronto pra gente. Nem a gente está pronto pra gente: é só quando morarmos tranquilos cada um dentro de si é que poderemos nos ver. Porque só quem não procura, acha. Calma, que os autores estão escrevendo as canções que a gente vai escutar juntos, e a nossa cafeteria preferida ainda nem inaugurou. Ainda estão reformando as praças que a gente vai passar os fins de tarde. As primaveras tem vindo fora de época, e precisa ser tudo no tempo exato. Devagar, porque é preciso seguir caminho para os nossos se cruzarem. Esperemos, mesmo sem saber o que se espera, porque aprendi em um poema que os frutos caem por seu próprio peso. Bem devagar e sem pressa, que um destino nunca falha, simplesmente é.

ERRÂNCIA. Apesar de que todo amor é vivido como único e que o sujeito rejeite a ideia de repeti-lo mais tarde em outro lugar, às vezes ele surpreende em si mesmo uma espécie de difusão do desejo amoroso; ele compreende então que está destinado a errar até a morte, de amor em amor.

(Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso)

Rubem Braga e a moderna crônica brasileira

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Da carta de Pero Vaz de Caminha às apócrifas via e-mail de Arnaldo Jabor, foi um grande percurso. Ela está há mais de um século e meio nos jornais e segue como campeã de aceitação popular. Não fala dos deuses gregos, mas das figuras da esquina. A crônica de todos os dias, inserida nos jornais do século retrasado para fazer simplesmente um apanhado dos fatos da semana, evolui para adquirir o refinamento de retratar os costumes sociais, trazer à tona o incomum, mapear a cidade, iluminar o banal. O gênero soube driblar o perecimento e se estabelecer como literatura genuína, o mais cotidiano contato dos brasileiros com os grandes autores.

A tarefa do relato dos fatos acabou por cair nas mãos de nomes como Machado de Assis, Olavo Bilac, João do Rio, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade. E é quando o modernismo aparece para tirar da crônica qualquer traço de intelectualismo, que surge em cena a figura de Rubem Braga. A crônica como conhecemos hoje, leve, livre de preciosismos, dado ao incidente pequeno, ao tom confessional, deve muito a ele. Faz história porque é a partir da sua produção que se configura de fato a moderna crônica; começa a ser um fenômeno sui generis dentro do panorama da literatura brasileira. Rubem Braga traz o lirismo e a sensibilidade, colocando nos textos as memórias da infância, as pitangueiras que não existem mais, os formidáveis embrulhos que vinham do Rio de Janeiro, os amantes que se isolam no apartamento, a aula de inglês quase surreal.

O capixaba, que acreditava que a origem de Cachoeiro de Itapemirim lhe garantia um lugar no céu, veio para se tornar um dos nomes mais respeitados da crônica brasileira. Não é à toa que é um texto seu que abre As Cem Melhores Crônicas Brasileiras, na seleção de Joaquim Ferreira dos Santos. É o escritor que pela primeira vez estabelece toda sua obra nos limites desse gênero. Um cronista por excelência. Trabalhou como jornalista por várias décadas, tendo sido repórter policial, repórter de guerra na Itália, correspondente em Paris, assumindo posteriormente cargo de embaixador, mas sem deixar de exercer sua função de cronista diário. “Sempre escrevi para ser publicado no dia seguinte”, reitera ele, para muitos o maior cronista brasileiro desde Machado de Assis, escrevendo no limiar da crônica e do poético. Manuel Bandeira, contemporâneo e amigo seu, garante que com assunto Braga era muito bom; sem assunto, era melhor ainda: “Aí começa ele com o puxa-puxa, em que espreme nas crônicas as gotas de certa inefável poesia que é só dele.”

No final dos anos 30, então ainda um jovem escritor, junta-se ao corpo de colaboradores da revista Diretrizes, sob o comando do inesquecível jornalista Samuel Wainer. Já naquele tempo era uma figura destacada a ponto de intimidar Samuel: “No começo, eu me limitava a escrever notas curtas, tímidas. Não me considerava um bom redator, não conhecia a fundo o idioma, e me retraía diante dos grandes nomes que haviam aderido à idéia [da revista]. Um deles foi Rubem Braga, meu grande amigo naquela época, que escrevia magnificamente bem. Rubem criou uma seção com o título O Homem da Rua, que abrigaria crônicas maravilhosas.”

O homem da rua – uma bela definição do que é o cronista. O observador que flana pelas calçadas, escrevendo sobre o que vê. O cão vadio que fareja o cotidiano, virando latas da percepção humana. Flâneur ou canino – e Rubem soube captar isso como ninguém – é sobretudo aquele que põe o pé na rua. É literatura, mas está bem fincado na realidade.

Quando comecei a ler o volume das 50 crônicas escolhidas, organizadas em 2009 pela Best-Bolso [recorte a partir do volume 200 crônicas escolhidas, com textos selecionados pelo próprio autor em parceria com Fernando Sabino, em 1977] percebi que havia ali uma familiaridade. Meditando um pouquinho, me dei por conta que Braga ressoava desde a infância, lá em meados da década de 90, naquelas famosas edições “Para Gostar de Ler”, que pipocavam pela biblioteca. Formei-me no colégio com o enredo de vários livros decorados, mas sem nunca ouvir ser pronunciado em sala de aula o nome de Rubem Braga. O que é uma perda tamanha. Porque sua crônica é poética, lírica, esclarecedora, crítica, tudo isso sem cansar, sem ser a maçada de algumas obras que, por melhores que sejam, muitas vezes não dizem nada aos mais jovens. Não raro eu vi, posteriormente, aqueles volumes nas mãos de gente mais velha, claro, porque nunca é tarde pra gostar de ler e sempre é tempo de uma boa crônica. Essas sabem agradar aos pequenos e deleitar os maiorzinhos.

Rubem Braga queria escrever uma história que colocasse o riso na boca da moça doente que morava numa casa cinzenta, que fizesse o casal aborrecido descobrir a alegria de estar junto novamente, que de tão boa impelisse o oficial de distrito a soltar os pobres bêbados e as mulheres colhidas na rua. Para a nossa sorte, em 62 anos de jornalismo, foram mais de 15 mil. O riso e o lirismo de um dos cronistas fundamentais seguem atuais como a crônica que saiu no jornal de hoje.

(Texto publicado na semana passada na Revista O Viés.)