Concurso Literário Felippe D’Oliveira

O passado a dez passos

Foi num dia frio que me mudei pra cá. Vim na parte de trás de uma camionete junto com uns travesseiros e um violão antigo do meu pai. Achei divertidíssimo. Na confusão da mudança, esqueceram de me levar para a escola – mudança é uma coisa muito boa, pensei. No entanto, ao entrar na casa, calafrios de decepção. Quando eu viera com meus pais para conhecer o lugar onde moraríamos, estava cheio de móveis diferentes e almofadas felpudas. Inexperiente na arte de trocar de casa, pensei que a mobília estava incluída. Agora era um vazio enorme, talvez o maior vazio que eu tinha visto até então, e eu achava que as nossas coisas nunca iriam caber direito naquelas salas diferentes. No fim, acho que eu estava certa.

A rua, uma travessa sem saída em formato de T, com pedras extremamente irregulares. Isso eu constatei porque onde eu morava antes, em determinado ponto do calçamento, se encontrava uma pedra perfeitamente redonda. Era a minha preferida. Às vezes, quando estava caminhando à toa e não havia aquelas garotinhas que perambulavam por ali com as quais eu eventualmente brincava, gostava de ir procurar a pedra redonda. Era algo que só eu sabia, no mundo inteirinho. Levava algum tempo, ela se confundia com as outras, tortas, quebradas, mas sempre acabava localizando-a, belamente roliça e, por efeito do meu interesse, quase reluzente. Feliz de encontrá-la, às vezes até passava a mão para comprovar, uma vez mais, sua bela rotundidade.

Já nas ruas da travessa onde eu viera morar, pedras imperfeitas, anônimas, alguns pontos de areia e nem rastro de equivalência para minha pedra eleita. Mas crianças, várias delas, com idades muito parecidas com a minha. Toda a extensão daquela rua fechada era um grande parque e não fazíamos caso de diferenciar o que era rua e o que era propriedade do morador. Bom, ao menos era assim que eu e mais um punhado de gente pequena pensávamos naquela época. As escadas em frente à casa de um senhor carrancudo era o ponto de encontro onde não era preciso combinar – estávamos sempre por ali e nos sentíamos incomodados quando ele nos fazia levantar, no audaz ato de sair de sua própria casa (agora começo a compreender um pouco a razão dos seus poucos sorrisos). A varanda de uma senhora, sem muros nem grades, um ótimo chão de cimento para desenhar com um pedaço de tijolo qualquer ou eventualmente aquele toco de giz que ficava no quadro no fim da aula. Na casa ao lado, uma família cujo pátio tínhamos acesso livre, passando por um portão que ficava na lateral e que nunca estava trancado. Costumávamos esperar as duas garotas que moravam ali já penduradas na árvore que ficava no fundo da casa das duas.

Numa das extremidades do T, um pequeno casebre com um quintal enorme através do qual, como quem explorava o fim do mundo, constatamos que depois do mato e das árvores se chegava à outra rua, como um clarão de civilização. Passei a sonhar que no pátio da minha própria casa, numa caminhada, eu encontrava uma tribo de índios que sempre estivera morando ali e eu não sabia. Na outra ponta, uma casa grande e bonita, onde morava um menina também bonita, e é claro, má, uma figura que não poderia faltar em qualquer vizinhança. Naquela época, não conseguia constatar maldade assim, de pronto, e achei que tinha sido coincidência que minha boneca tivesse se perdido na casa dela e logo em seguida ela ganhasse uma igual. Eu até tinha visto a tal boneca num desses móveis monumentais que eu nunca possuí que se chamavam solenemente “Estante de Brinquedos”. Fiquei radiante e até agradecida quando ela me entregou a boneca de volta, um tanto mais suja, com um “olha, achei!” tão cheio de naturalidade que só as meninas más são capazes de pronunciar.

A verdade é que ela sabia muito bem ligar com a situação, e sabia também que eu não duvidaria das suas mentiras. Eu admirava tudo na casa dela: o desenho das lanças da grade, a sala com uma grande cortina branca, as plantas que cresciam na janela da cozinha, os móveis irmanados, as grandes portas de correr. Mas eu admirava, sobretudo, algo imaterial: o cheiro da casa. Não era algum cheiro de perfume ou incenso, nem de alguma comida sendo preparada ou de produtos de limpeza. Era simplesmente um cheiro bom que emanava da própria casa, mesmo se não estivesse acontecendo nada dentro dela, uma essência forte e permanente que estava em todos os cômodos. Foi outra vizinha minha quem me deu a boa notícia. Depois de voltar de uma viagem, nos encontramos na rua, ao acaso, e convidei para que ela subisse na minha casa para mostrar alguma coisa. Logo ao entrar, ela exclamou sorrindo: “Que saudades do cheiro da tua casa!”. Então minha casa também tinha um cheiro bom, só eu que não podia perceber. Me senti, ao menos um pouco, recompensada, sabendo que não era só a casa dos outros que agradava com uma aura própria.

Aquele brincar na rua, na nossa pequena rua, era sempre para o lado de dentro. A rua larga, de fora, asfaltada, onde era maior o tráfego de carros, era como uma avenida enorme, imensa, intransponível. Tempos depois, as companhias não redundaram, nenhuma, numa grande amizade. O fervilhante da infância passou e os interesses tomaram, de vez, caminhos diferentes. Algumas foram embora, outras ficaram morando aqui, viraram mães, viraram adultas e eu como adulta também as cumprimento quando nos encontramos na esquina, sempre indo para o lado de fora.

O hábito e o tempo criaram um cordão invisível por anos e anos. Morando numa das casas da frente, nunca mais tive razões para passear por aquelas ruas internas. Nem mesmo naquela tarde, quando despropositadamente dei aqueles passos para dentro, em direção a elas. Senti como podia ser forte o poder magnético da lembrança. As ruas, com suas pedras e areias, as fachadas das casas, com suas cores e rachaduras, a ferrugem das mesmas grades: tudo estava rigorosamente igual. Durante os quinze anos em que eu deixara de frequentar aqueles espaços, ninguém fizera um reforma, ninguém trocara um portão ou adicionara uma caixa de correio nova. Tudo permanecia como se fosse ainda minha infância. Flutuei por ali, encantada com a possibilidade do absurdo de uma volta ao tempo ao lado de casa. Tudo se passou como num extraordinário sonho lúcido, tendo ainda a vantagem de poder entrar e sair dele quando quisesse.  Parecia que a paisagem havia se conservado igual simplesmente para que pudesse vê-la, como se a partir do dia em que deixei de brincar na rua, sem nem mesmo dar-me conta do fato, tudo se mantivera esperando.

Como ninguém passava por ali naquele momento, nenhuma figura estranha desfazia o cenário. Passeei, espantada, com passos vacilantes, querendo manter o encanto onírico no qual me encontrava. Eu, visitando minha infância, sem querer. Voltei extasiada, subindo pé por pé da escada, como quem volta pra casa no sentido mais profundo dessa expressão. Com razão se diz que a infância só parece bonita em retrospecto; para a criança é uma época escura, sem compreensão, um percurso inocente no desconhecido, na estranheza, que só ganha um novo sentido no final – quando a criança aprende o que é infância começa a perdê-la. Se é no retrospecto que está a beleza, naquela visão encantada – que não pretendo repetir tão cedo – tive o privilégio de esquecer os recessos de luz e trazer de volta um pouco do que foi e um pouco do que eu fui. Não é preciso saudade da infância, aquela nostalgia romantizada que ignora que sofríamos, já que pobres ou ricos sempre carregamos nossas carências, mas às vezes há a necessidade de um encontro com ela. E ela pode, vez ou outra, repousar bem ao lado.

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