Clarice Lispector

A dupla

                “No entanto, na infância as descobertas terão sido como num laboratório onde se acha o que achar? (…) Mas como adulto terei a coragem infantil de me perder?”

                                                               (A paixão segundo G. H., Clarice Lispector)

Li uma vez que a memória tem alguns movimentos ao longo da vida. Quando um determinado tempo passa, as lembranças de uma época começam a voltar. Devo estar envelhecendo, porque eventos da minha infância me assaltam com vividez. E me surpreendem. Mais precisamente de alguns anos, quando passava tardes e tardes sozinha. Me sinto presa nesse momento específico. Não parece ser coisa só minha, tem um escritor que se declarou preso no ano de 1982: “É minha Caverna do Dragão”, diz ele. Sempre estive cercada de gente, mas toda infância tem uma face de solidão, e parece que essas são as partes que eu mais me lembro. Se eu tivesse que ilustrar com uma imagem, seria de estar sentada no meio fio da calçada da minha rua, esperando que aparecesse alguém para brincar. Porque era algo que se fazia, lá pelos anos 90. Sentava-se na rua e dava-se a chance ao acaso para que alguém aparecesse. Mas também era possível inventar algo nesse meio tempo. Acho que foi mais ou menos por aí que eu me perdi. Sozinha eu tinha umas ideias um pouco complicadas de serem aceitas pelas outras pessoas, como costuma passar com as crianças. Lembro que uma vez, em umas férias acampando com a família, tomei uma decisão: a partir de hoje meu nome era Raquel. A novela do momento era Mulheres de Areia, e eu, do alto dos meus cinco anos, decidi que me chamaria com o nome da gêmea má, obviamente – não é de hoje a indisposição que tenho com as pessoas boazinhas. A primeira reação foi de riso. Não entendi bem a razão. Quer dizer que então mudar de nome não estava no rol das coisas possíveis? Tudo bem, mas eu tentaria.

– Giuliana, vem cá.
– Meu nome é Raquel.
– Giuliana, hora de almoçar.
– É Raquel.
– Gi…
– Raquel!!

Não durou muito, é verdade. Mas a bravura do intento entrou para o folclore da família. Com o passar dos anos, a coisa foi ficando mais elaborada. Inventei uma brincadeira sozinha que até hoje segue fazendo parte da zona enigmática da minha personalidade. Consistia no seguinte: eu criei uma personagem, Mariana. Talvez tenha escolhido esse nome pela terminação parecida com o meu, ou simplesmente porque eu gostava dele. Ela era como uma pessoa abstrata. A graça da brincadeira era que eu poderia ser Mariana, desde que eu encarnasse Mariana. Como se fazia isso? Indo até uma determinada árvore onde, subindo em um galho específico, eu passaria a ser ela. Era como uma cerimônia, eu deveria esperar alguns segundos deitada no galho da árvore para que se desse a troca. Certamente eu havia criado isso influenciada pelas coisas sobre espiritismo que eu ouvia, mas o curioso é que isso me matava de medo e eu ainda inventava de simular que estava recebendo uma entidade. Vai entender. Depois, poderia voltar a ser eu mesma, bastava que se cumprissem os requintes desse mesmo ritual. Era algo que durava certo tempo, e o controle de quando trocar era meu. Podia ser Giuliana por uns dias e Mariana por outros.

Havia um certo planejamento nessa alternância e cada uma tinha suas características e seus modos de ser. Não consigo me lembrar quais eram as características de cada uma – o que seria bastante interessante para me conhecer mais a fundo – mas sei que estar como Mariana, ou seja, estar encarnando essa personagem que não era eu, me dava certas liberdades. “Posso estar agindo estranho, mas é que ninguém sabe nem pode saber que na verdade estou sendo outra pessoa”, era mais ou menos assim o raciocínio. Não, ninguém poderia saber. Minha experiência como Raquel revelou que as pessoas eram extremamente conservadoras em termos de identidade. Só que nessa estratégia de não compartilhar houve um esquecimento. Um dia, sem nenhum porquê, me sobrevém um pensamento: eu esqueci de mudar para voltar a ser eu e estava com a personagem encarnada há meses. Então era isso, eu andava diferente, aí estava a razão. Poderia subir até aquela árvore para mudar, mas parecia que não fazia sentido. Eu estava bem assim, pra quê mudar? Segundo a lógica dessa minha brincadeira, sou uma impostora. Deixei minhas persona original no galho de uma árvore e vivo uma personagem. Essa sou eu.

Essa estranha possessão talvez explique porque falo sozinha. Pode ser eu mesma querendo voltar. Faço isso diariamente, sempre que posso, e se não falo, imagino que falo. Suponho que seja normal, algumas vezes escutei gente que também fazia isso. Em uma entrevista com o escritor Cristóvão Tezza, ouvi ele dizer que sempre que pensamos conversamos com um outro dentro da nossa mente, e acreditei. Quando nos vemos no espelho é o outro que nos vê no espelho. No meu caso, Mariana. O que me parece é que, a cada fase da vida, mesmo mantendo o nome, a gente se reinventa. Fabulamos novas características e temos até uns rituais pra fazer efeito. Seguimos assim, esquecendo de voltar pra quem a gente era, como se tivessem cortado aquela árvore onde a mágica acontecia. E não contamos pra ninguém, porque ninguém, além da gente mesmo, iria entender.