cidade

Roteiro sentimental da cidade de Itaara

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Embarcamos no chevette branco do meu pai. O que mais lembro dos carros que usávamos são os ruídos: o estalo metálico da porta, o clic das travas mecânicas, a fechadura do porta-luvas. No som, desde a Avenida Medianeira, Bee Gees, Stevie Wonder ou Cartola – e posso ouvir, lá pela metade da viagem, o tlec-tlec da fita sendo trocada de lado. Me acomodo bem no meio do banco de trás, apoiando as mãos no encosto dos bancos onde só andavam adultos.

– Pai, que dia é hoje?

Deveria ser alguns dos primeiros de 1992. O tempo passava mais lento. De Santa Maria até Itaara, era uma jornada. Cansava, tinha começo, meio e fim. Depois de me responder, ele comenta, como quem diz qualquer coisa:

– Em março, vai começar a escola.

Aquilo me pareceu tão fatal. Em março, eu teria que ir para a escola, onde tínhamos que sentar em cadeiras separadas e escrever de caneta. Sabe o que acontece quando se escreve de caneta? Não dá pra apagar. Parecia que não tinha jeito, eles estavam decididos: eu iria para a escola. Mas antes, ainda bem, havia quase todo o verão. Eu não precisa saber dos dias, apenas de vez em quando verificava com alguém a quantas andavam os meses. Era uma estação imensa, era sempre verão em Itaara. Eu ainda não sabia ler, mas alguém sempre avisava na placa do viaduto: “saímos da cidade”. Apenas agora posso reconhecer que aquela foi, para mim, a primeira fronteira.

***

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Passamos da portaria da Sociedade Concórdia de Caça e Pesca. A rota dos pinheiros nos conduz até bem próximo do bar, onde estacionamos. Espalhados ao redor, havia viveiros de pavões, casinhas de boneca e estátuas de duendes, além de diversas crianças, com as quais nos misturávamos. E um lago, onde nadei por tardes inteiras. Uma vez, havia avistado sapos nas bordas, o que fez com que passasse a entrar na água com muito mais cuidado, por um bom tempo. Meu irmão estava sempre andando de bicicleta, o tempo todo. De vez em quando, alguém perguntava: “onde anda esse guri?”, e outro respondia “tá por lá”, localizando minimamente a rota que ele fazia, da ponte para cá, daquelas árvores pra lá, e estava tudo bem. Saindo do lago, tenho nos pés a sensação das tiras de pano dos meus chinelos molhadas – isso tudo se passou antes da popularização das havaianas.

Cruzando a ponte, uma área onde rareavam os brinquedos e havia mais mato. Era onde ficava também a sede dos escoteiros. É claro que eu queria ser uma também, mas não fui, minha mãe nunca deixou. Provavelmente devido a uma grande insistência, cheguei a participar de algumas atividades dos escoteiros sem ser uma. Deve ser essa minha primeira experiência como uma enviada. Não me tornei um deles, mas eu fui lá e vi como era. Não ter sido escoteira me tornou, talvez, o que eu sou hoje: uma curiosa inveterada, uma relatora de pequenos incidentes ou simplesmente alguém que inventa as coisas por si mesma. Porque afinal, eu não aprendi a dar nós, a fazer fogueira, a contabilizar boas ações. Tive que dar jeito de me mover no mato à meu modo, de explorar as coisas como podia.

Isso foi, muitas vezes, bastante interessante. Foi em um desses verões no clube que, durante um acampamento com a família, tomei a decisão de que passaria a me chamar Raquel. Não funcionou muito bem. As pessoas se mostraram, em matéria de trocas de nomes, extremamente conservadoras. Mas eu havia tentado. Nos últimos tempos, eu tinha conseguido grandes vitórias: andar de bicicleta, nadar e eventualmente até pegar alguns peixes sozinha. Ainda estava testando os limites do mundo. Itaara era uma enorme hortênsia azul.

 ***

Oásis

Estou dentro de um dinossauro. Um dinossauro oco de cimento, e aqui dentro minha voz faz um eco interessante. De repente, me pergunto se os dinossauros seriam como os extraterrestres. Todo domingo à noite passava alguma coisa na televisão sobre os extraterrestres, o que me matava de medo. Eram quatro ou cinco dias para esquecer, e aí, no outro domingo, o terror começar de novo. Mas não, os dinossauros não deviam ser tão temíveis, são apenas lagartos bem grandes. Logo fujo pela boca, em um ato de coragem pulo do alto do dinossauro, me vomito de dentro do bicho de concreto e tenho um novo objetivo: andar de teleférico.

Estamos percorrendo o zoológico. Achei ele tão, tão parecido comigo. Será que… me entendia? Será que se eu dedicasse tempo suficiente conversando com ele, poderia me entender? Não pude saber. Quando, muitos anos depois, pensando no quanto podemos nos enxergar nos animais, foi espelhada naquela mirada intensa com o macaco do zoológico do Parque Oásis que eu pude entender. Olho no olho, eu era o macaco. Ele era eu mesma. Mas a conversa ficou pra depois. Estávamos a passeio, era logo a hora de seguir adiante, as cobras, os hipopótamos, as capivaras.

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Hoje acho que contemplar aquelas estátuas disformes e os castelos kitsch do parque Oásis é, de certa forma, nos deparar com a nossa própria inocência. Porque realmente acreditávamos neles, gostávamos deles. Porque eles estavam ali, sempre estiveram, ninguém os havia colocado, eles existiam desde o começo dos tempos. A tristeza do parque hoje abandonado tem menos a ver com a habitual melancolia das coisas fracassadas do que com a nossa localização no mundo, nós do final dos anos oitenta. Aqueles trens parados, aqueles teleféricos enferrujados, as jaulas vazias, são todas ruínas que não param de nos contar como faz tempo. Dentro dos nossos carros, aceleramos na frente do parque só para não lembrar que nossa infância acabou.

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Alugamos uma variedade incrível de casas no Balneário Lermen. Fomos inquilinos por largas temporadas. Experimentamos casas pequenas, grandes, de madeira, com piscina, de tijolos à vista, com escada caracol, de pedra, enormes, triste e alegres. Sempre havia colchões espalhados, roupas órfãos, protetores solares extraviados. Nas gavetas e nos roupeiros, encontrávamos vestígios dos que habitavam a casa no resto do ano. Acabávamos sempre nos perguntando, supondo o que queria dizer cada objeto. Olhávamos fotografias de desconhecidos, descobríamos as profissões dos outros moradores por indícios: uma caneca de uma empresa, algum papel, uma caixa de ferramentas. Nas pistas das casas, naqueles anos, aprendemos a contar histórias por fragmentos.

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Com os pés na água do lago que havia por ali, lembro de ter lido em voz alta, com uma amiga, o Best seller daqueles tempos: Coisas que toda garota deve saber. Nadar o dia inteiro já não tinha aquele mesmo gosto. Parece que queríamos mais, mas o quê?

– Oi, tudo bem? Qual é teu nome? Vocês vão ficar por aqui? É, a gente tá naquela casa.Tenho treze, e tu?

Em um desses verões no Lermen, minha primeira ousadia amorosa. Atravessei toda a extensão daquelas ruas internas, na escuridão da noite, para escutar, em um orelhão na estrada: “eu sabia que tu ia ligar”. Havia amor antes do celular. Eram intensos os primeiros anos 2000. Itaara era um imenso céu estrelado e eu voei.

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 O ônibus começa, enfim, a viagem pra valer. Não havia pensado direito na rota, e quando vi, tomamos a BR 158 e subimos a serra. Passamos a ponte sobre o vale onde, não importa pra onde se olhe, não há como ignorar o verde. Acabo me dando conta que um dos postais da minha cidade é, na verdade, uma saída. Estou deixando minha cidade. Não, isso seria pouco. Na curva das serras, sei que na verdade estou deixando as minhas cidades. Itaara é um pinheiro no meio da estrada, que espera e sabe que eu sempre vou voltar.

garganta

(Itaara, janeiro de 2014)

[fotos: Acervo digital do Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria]

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Máquina de instantes

No coração da Argentina estava Córdoba, e no coração dela, o bairro Güemes. Era lá onde a feira acontecia. Bastava seguir reto pela nossa rua e deixávamos para trás as quadras dos edifícios altos e modernos da parte nova da cidade para alcançar o bairro dos conventos, das galerias estreitas, dos ateliês de arte, das lojas de antiguidades e das moradias humildes. Em um terreno salpicado de ruínas, há décadas os artesãos se juntaram no chamado Paseo de las artes. Ali, em longos corredores de tendas, tudo era feito à mão: roupas, sapatos, cadernos, bolsas, cerâmica. Havia também livros, plantas, velharias, comida e alguns objetos sem categoria, invencionices. Não era preciso mesmo muito propósito para visitamos a feira. Íamos para ver e passear, especialmente, ou para saber os preços e de novo não comprar. Às vezes, caminhávamos até lá só para comer empanadas. Também muito do que acontecia era de graça: ganhar serenatas dos músicos de fraque imitando os antigos enamorados, fazer amizade com os vendedores de tortas e assistir caricaturas feitas ao vivo. Vender era só uma parte do que se passava ali, e os artesãos se importavam pouco se comprávamos ou não, nos davam conversa de qualquer forma. Eu ia por histórias e nunca voltava sem alguma.

Costumávamos comprar café que alguns estudantes vendiam, fatias de bolo das senhoras quase na saída da rua Belgrano e incensos de baunilha. Ao contrário dos incensos com cheiro sempre da mesma coisa, nos quais o aroma era mais uma ideia ou uma promessa, esses realmente cheiravam a baunilha. Uma moça fazia marcadores de páginas com colagens e frases manuscritas, de quem eu comprei vários e perdi todos. Outro vendia cartões de aquarela, que eu postava pouco a pouco aos amigos. Um senhor costurava animais de pano, com feições espantosamente simpáticas – parar ao lado deles era coletar suspiros – e foi ali que um lagarto verde foi prometido a meu sobrinho.

Na tenda da mulher morena e de cabelos longos, vinda de Mendoza, me interessei especialmente pelos caleidoscópios. Ao me ver espiar e alcançar um deles para minha amiga olhar, ela se apressou em esclarecer: chicas, chicas, não se vê a mesma imagem nunca. Quando chega na mão de quem está ao lado, a estrutura se desfez, já mudou, as peças já se mexeram. Ela me dizia que o momento do olho no caleidoscópio só acontecia uma vez. Olhar ali dentro era ver algo que ninguém mais via, ela nos assegurou, explicando que era um dos objetos mais antigos do mundo. No tempo necessário para ver todos os desenhos possíveis – ela conta com voz de espanto, como quem lê uma história a uma criança – os oceanos secariam e as montanhas desapareceriam. Dizia também que os vidros eram importados, mas nem precisava inventar essa inofensiva mentira, porque eu já tinha sido tocada a ter um daqueles só pelas palavras. O “infinito”, a “eternidade”: nunca mais eles seriam tão portáteis e custariam somente trinta pesos. Foi assim que eu levei um deles comigo, satisfeita. Usava para me distrair, em tardes ensolaradas, o que em Córdoba significavam muitas.

Tempos depois, aquelas ruas já se encontravam longe demais dos meus pés e os amigos com quem cruzava os quarteirões até o bairro Güemes estavam irremediavelmente espalhados pelo continente. Do mesmo modo, quase tudo comprado na feira, por alguma razão, já não estava mais comigo. Se os cartões se esvaem pelo correio, os marca-páginas somem no meio da literatura, o lagarto de pano mora no quarto da criança e os incensos viram aroma e cinza, o caleidoscópio se mantinha ali. Como se nada tivesse acontecido, intacto ao tempo. Então o tomo na mão, aponto bem pra lâmpada – é noite, mas poderia ser dia, porque o sol havia se esquecido daquele inverno – e com minha luneta sou uma exploradora de padrões de desenhos que dançam. Sou a única espectadora dentro de uma vitrine de pétalas de vidro.

Uma imagem bonita se forma, uma estranha combinação de amarelo e azul. Fico tentando fazê-lo aparecer de novo. Pode-se passar horas com o olho ali, nessa teimosia. Lembro então da artesã daquele bairro e me dou por conta que o desenho não volta. No movimento das imagens, somos a força que move, mas não a que decide. Tudo vai se espalhando por si e se perdendo, como um dente-de-leão que o vento vai soprando, como as geometrias que se esboçam sozinhas. Aí eu entendi, afinal, o que havia trazido pra casa: um antigo brinquedo que ensinava sobre o irrepetível. Um exemplificador do acaso. Uma máquina de ver instantes. Como a feira onde não voltei mais, e se voltasse, talvez não fosse nada do que eu lembro: as velhinhas já não prepararão mais bolos, os estudantes que vendiam café se formaram e no lugar das serenatas talvez eu só encontrasse silêncio. Pessoas e coisas tem esse estranho costume de mudar ou sumir e as constelações das circunstâncias são, sempre, ao azar. Talvez o caleidoscópio mostre a importância das lembranças, o fato de sermos as únicas testemunhas das nossas memórias, que a estampa delas é tudo que temos. Ou quem sabe tente dizer, na língua misteriosa dos fragmentos de vidro, que é preciso saber assistir a tudo seguir girando e girando, incontrolável, absurdo e colorido.

(Crônica publicada na seção Escotilha da edição #2 da Revista proa.)

Perdizes a pé

Para quem não tem medo de declives, andarilhar por esse bairro pode ser um bom programa em um domingo. São ruas estreitas, sinuosas, onde há muitos jardins para ver e, espalhadas pelas ladeiras, casas antigas que bem poderiam estar em uma cidadezinha do interior. Mesmo sem me deter, pude entrever redes na varanda, bicicletas de criança, gatos preguiçosos. Para dar ainda mais o ar de décadas passadas, um portentoso Ford Galaxie, daquele azul claro que não se pinta mais carro nenhum, estava estacionado ali pelos lados da rua Iperoig. Em um muro, uma frase espera toda a semana para fazer sentido: domingo lezado. Assim, com z.

Não é preciso andar muito para dar-se conta que certas casas estão com os dias contados. Como um sobrado com ar de abandonado, sem nenhum ‘vende-se’ ou ‘aluga-se’, que uma moradora, ela mesma testemunha das mudanças de um bairro de casas baixas de décadas atrás, garante estar só esperando a papelada da construtora. Algumas quadras adiante, já se comprova o horizonte obstruído pelos prédios enormes, alguns até com certo charme, outros simples mastodontes brilhantes com nomes derivados de “palace” ou “tower”. Vemos enormes tapumes, onde placas anunciam suítes, muitas vagas na garagem e “sacada gourmet”. Sou daquelas que lamenta o sumiço dos chalés de madeira da minha cidade, então tento não me comover, tento manter indiferença. Eu só não entendo mesmo a necessidade dessas pessoas entediadas segurando placas nas esquinas. Peço a quem tenha dinheiro para tal tomar por princípio: não comprar nenhum imóvel que deixe seres humanos com uma seta pendurada no pescoço.

Mas não é sobre isso que eu gostaria de falar.  Hoje me interessaram mais outras coisas, como pequenas transgressões vegetais. O chão coberto de folhas secas, mesmo que não seja outono; um jasmim que segue seu caminho enlaçado nos fios de luz; um flamboyant, nem aí para as divisões patrimoniais, que espalha suas flores por vários terrenos. Mesmo alcançando a avenida Sumaré, com o fluxo de carros e as franquias internacionais sem nos deixar dúvidas da enorme cidade e do ano em que nos encontramos, pode-se admirar figueiras majestosas e pitangueiras cheias de frutos. Ao contrário dos corredores da pista no meio da avenida e dos carros que passam, não sou do tipo que pode ignorar uma pitanga. Essa indiferença me custa ainda mais. Se caminhasse adiante, dava para ficar assistindo o metrô chegar e partir, na estação envidraçada. Mas volto, por outro caminho, e o domingo parece ser um dia especialmente bom para sentar nos bares de mesas na calçada, nas imediações da Alfonso Bovero. Em um canteiro, noto um catavento de papelão cravado na terra. Que se registre: Perdizes contém uma São Paulo que é também a cidade dos jasmins destemidos, das pitangas em meio ao trânsito e onde alguma criança, sabiamente, tentou plantar o vento.

(São Paulo, novembro de 2013)

A terra e o ar

“O desconhecido era meu compasso. O desconhecido era minha enciclopédia.”

 (Anaïs Nin)

“Tenha paciência com o não-resolvido em sua vida, e tente amar as perguntas.”

(Rainer Maria Rilke)

Por que deixar aquela cidade? Parecia que as razões eram muito claras. A cidade que eu sabia de cor as ruas, e mais que tudo, os rostos. A cidade onde ventava frio, no meio do continente, sem ideia de rio ou de mar. O sufoco dos verões, longe do que eu queria encontrar, longe do que acontecia – exceto o que não podia, não deveria acontecer. Era, sobretudo, o lugar que perdeu a inocência pela morte. Algo havia morrido. Cidades são, afinal, feitas de pedras e sonhos. Se a esperança acaba, o que resta é duro, muito duro.

Quando já estava na estrada, no entanto, deixá-la me pareceu um erro.  É um erro, eu pensava, estou cometendo um erro. Fui surpreendida. O caminho da serra, que eu não achei que o ônibus tomaria, manteve a cidade sob meu olhar mais tempo do que eu planejava. Olha que beleza esses morros, esses prédios quadrados, esses trilhos vazios! Tenho tudo o que preciso para ser feliz. Eu poderia voltar a sonhar aqui. Eu poderia. Já não podia explicar porque eu tinha que ir. Como somos bichos insatisfeitos, queremos tudo… Sentimos tédio, queremos avenidas largas para abrigar nossos novos sonhos, queremos parques para repousar nossos domingos. Queremos dinheiro, mas não queremos fazer qualquer coisa por ele. Precisamos encher a barriga, mas não pode ser com qualquer comida. Queremos quadras floridas, montanhas de concreto e queremos alma também. Temos sede, muita sede, e água definitivamente não nos basta.

A decisão que eu forjava há meses sucumbiu bem cedo: não foram necessárias mais do que uma ou duas curvas. Se alguém tem uma cidade cercada de morros, um gato e algum patrimônio em livros, não precisa de mais nada. Mais nada. Posso ficar aqui, me deixem aqui. Mas eu já não podia parar. Eu não estava dirigindo, não podia pisar no freio, então tive que seguir, mesmo contra minha vontade. Pensei que aquele poderia ser o último apelo da cidade. A última sedução para que eu ficasse. Mas eu resisti.

Fui resistindo e seguindo, que era a única maneira. Fui me acomodando no banco, já que antes, assediada por aquela imagem, vinha sobressaltada. Foi quando lembrei a primeira vez que viajei de avião. Lembrei como foram longos os preparativos. Eu comentava com os colegas da escola: daqui a tantos meses, vou andar de avião. Voar era raro. Era quase como se a pessoa mesma voasse sozinha. “Ela já voou”, se dizia, e era como uma faculdade especial. Lembro minha mãe chegando em casa com os bilhetes grandes e coloridos, impressos na agência de viagens, para serem guardados na gaveta onde ficavam as contas pagas e as certidões. Foram tardes imaginando, degustando antecipadamente aquele voo. Se alguém falava em voar, em avião, eu já afiava os ouvidos: aquilo me interessava, aquele assunto era meu. Diziam que quando a gente estivesse lá em cima dava pra ver as nuvens. Dava pra sentir as nuvens. Parecia incrível.

Mas ao chegar ao aeroporto, da sacada de onde se viam as decolagens, me mostraram o avião em que eu andaria. Então é esse? Diante das enormes máquinas transoceânicas, o meu era um filhote. Mãe, esse avião é muito pequeno, não dá pra trocar? Por favor, eu quero maior! Já não bastava sair do solo, tinha que ser o maior. Diante da troca impossível – mesmo que eu tivesse insistido, mesmo que eu não me importasse com a mudança do destino – só me restou chorar e dormir, muito contrariada. Não lembro nada, nem de nuvem, nem da sensação leve de decolar. Minha decepção apagou tudo.

Eu já sabia há muito, nunca é como a gente espera. Quando eu era pequena, minhas expectativas não cabiam em qualquer aeronave. Hoje, o temor de partir me faz perguntar o que teria, nesse meio-tempo, me ligado tanto ao chão. Pode ser que a ideia de voar estimule a ambição. A máquina alça voo e diz que podemos tudo e podemos rápido. No ar, a cidade que a gente deixa não dura muito tempo, só uns poucos minutos, e algumas vezes encoberta. No terreno andar do ônibus aprende-se outras coisas: não se pode ignorar um caminho. Enquanto um cruza o céu, falseando superpoderes, o outro nos mostra cada camada do trajeto. Então me entreguei ao tempo, ao infinito daquele dia que eu percorreria. Deixei que a terra fizesse o que sabe; que me mostrasse o que, de outra forma, não se deixaria ver.

Assim foi que, nas primeiras cidades, imaginei como seriam minhas saudades futuras. Já comecei a senti-las. Em cada casa isolada, aprendi uma solidão. Em cada plantação, uma espera. Mais adiante, escolhi como se chamariam os meus filhos. Depois decidi que eles nunca nasceriam. Mais um pouco e os aceitei de novo, mas com outros nomes. Ao cruzar para o próximo estado, descarrilei para uma trágica desesperança. Nunca as coisas fizeram tão pouco sentido. Paramos para jantar e os ânimos mudaram muito, recobrei minha força. Bem próximo a uma capital acreditei em Deus – foi uma fé curta, coisa de uns sessenta quilômetros – depois veio a descrença, talvez em alguma placa, em alguma ponte. Em seguida, fui ingênua e esperançosa durante toda a madrugada. Na última parada, ainda no breu, fiz uma promessa. Recriei minha existência. Tudo será novo daqui pra frente, eu jurei. Como as grandes cidades, nossa vida também tem mais de uma fundação.

E conforme avançava, eu cada vez mais ia me deixando ir. Sem esperar, de repente me invadiu uma enorme alegria. Tanta terra percorrida acabou trazendo de volta uma satisfação depositada em alguma região escondida. Suspeito ter encontrado, na altura do chão, a alegria do meu primeiro voo, que aos oito anos eu não soube ter. Aquela estranha satisfação era, talvez, o prazer de voar que eu só tinha experimentado sonhando. Algumas alegrias a gente aprende a sentir.

Quando o terminal imenso me recebeu, eu fui novamente posta à prova, nas primeiras horas da manhã. Precisava ter trazido tanto peso? Precisava mesmo ter vindo? Ah, se os humanos se inspirassem mais nos meios de transporte, quaisquer que fossem… Porque eles, no solo, na água ou do alto, saem de um ponto e vão a outro. Já nós, seres de carne e de dúvidas, somos feito de inúmeros, infinitos avanços e retrocessos. Mas, outra vez, não dava pra voar atrás. Pra não me contradizer, não negar todo o percorrido, minha opção era só seguir e ir, quem sabe, crescendo com o tempo, crescendo com a cidade. Essa foi a solução, até que houvesse outra melhor. Acho que é para isso mesmo que as cidades servem: para completar o que a estrada não conseguiu dizer.

(São Paulo, agosto de 2013.)

Como extrañar uma cidade

Córdoba - turística

Não quero nunca mais voltar a Córdoba. Não quero voltar só pra poder sonhar como poderia ter sido se eu voltasse. Não volto para poder imaginar o que talvez encontrasse.

Por que vou ter saudades mortas, se posso tê-las vivas? É um erro achar que todas as saudades precisam ser curadas. Tem saudades que não sanam, foram feitas somente para serem sentidas. Não se volta à casa da infância, ela é bem menos interessante do que pensávamos. Não se repetem as receitas de outros tempos, os ingredientes já não funcionam mais juntos. Escolher uma cidade para viver e nunca mais voltar é escrever uma receita de utopia. Córdoba estará lá, sempre. E aqui, comigo.

Se eu não tiver mais saudade de Córdoba, o que farei aos domingos? É uma das atividades que melhor tenho desempenhado, não tirem o pouco que me resta. A saudade também nos constitui. Se não sinto mais a falta daqueles dias, o perigo é que eu me desfaça – e eu bem sei, nesses tempos, como é preciso estar inteira.

Por isso nunca mais voltarei. Não tenho o que buscar. Os amigos se espalharam pelos continentes. As paixões foram dadas por perdidas. Pode ser que tenham derrubado o Cabildo. Pode ser que tenham pintado a catedral de outra cor. A vendedora de caleidoscópios não vai mais à feira. É preciso entender que as configurações do vivido se desfizeram. Se havia um modo para ser feliz que foi inventado em passeios pelas ruelas do centro, ele não funciona em nenhum outro lugar do mundo. Deixo esse meu rascunho por lá, uma mensagem dentro de uma garrafa que segue ao longo do canal de La Cañada. Que alguém a encontre e reescreva, ou leia no meio da tarde como um relato de um pedaço de vida.

É preciso esquecer Córdoba. É preciso esquecer tudo. Esquecer as avenidas cinzentas, os terraços ensolarados, as pedras das ruas. Esquecer que lá eu conheci gente de coração tão grande que parece que aumentei o meu. Até que lá eu aprendi a esquecer, até isso é preciso deixar para trás. É preciso empenhar-se muito no esquecimento, para o prazer de voltar a lembrar. Porque aí as recordações não doem. É preciso amansar as lembranças. É inútil matar saudades, é um crime matar essas saudades. Não quero voltar a Córdoba.

Que escrevam da minha passagem: chegou numa madrugada de inverno, andou pelas ruas alegre e triste, tomou o trem em uma tarde de dezembro e nunca mais foi vista.

(Santa Maria, julho de 2013)

Como andar na rua em Santa Maria

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De cabeça baixa pela Rio Branco: errado. Ao meio-dia de outono na Saldanha Marinho: certo. Sorrindo pela avenida Medianeira: recomendável. De guarda-chuva embaixo das marquises: errado. Sem guarda-chuva e pisando nas poças: certo. De saia na Alberto Pasqualini, em dia de vento: temeroso. Com cachecol pela Acampamento: certo. Com pressa pelo parque Itaimbé: errado. Com fones de ouvido atravessando o calçadão: certo. Interromper a caminhada para conversar, cortando o fluxo dos demais pedestres: errado. Nas brechas dos carros na Floriano Peixoto: desaconselhável. De mãos dadas na Venâncio Aires: promissor. Ter um ponto de chegada: desnecessário.

Na boca de um monte

Foto: Guilherme Escosteguy

Se tem algo que eu faço bem é caminhar. Caminho como ninguém. Lembro bem do processo que foi para conquistar o direito de ir a pé sozinha até o colégio. Minha mãe insistia em me acompanhar. Depois de uma série de promessas, de que quando estivesse em tal série aí poderia caminhar sozinha, depois de cumprir entediada o trajeto e dispensar a pobre mãe meia quadra antes para que ninguém visse minha condição vexatória (já que vários colegas chegavam desacompanhados) finalmente, um dia, passei a alcançar o colégio somente com meus próprios pés. Estava inaugurado o momento de reflexão em que tive os pensamentos mais iluminadores da minha vida. Acabei me viciando em caminhar. Caminhava de tarde, perto da minha casa. De vez em quando alguém questionava o que eu fazia naquela rua, ao me encontrar. Não sabiam que caminhar era uma maneira muito interessante de ver coisas novas, sem ninguém para marcar o ritmo dos passos nem tolher uma parada inusitada. Mesmo sem saber disso, eu tinha intuído que conhecer uma cidade é percorrê-la sem querer chegar a lugar nenhum, como perambulam os cachorros sem casa. Escrever os sapatos nas ruas é a melhor forma de encher ou esvaziar a cabeça, a gosto do que se precise no momento. O andar solitário facilita algo muito raro e difícil: conseguir enxergar verdadeiramente um lugar.

Um dos caminhos que mais fiz durante a minha vida foi descer a avenida em direção à casa dos meus avós. Casa que eu nunca entendi e demorei muito, muito tempo para ver. Ver é muito complicado, leva tempo. Nem mesmo conseguia ver o caminho, já que quase sempre ia de carona nos carros dos meus pais, dos meus tios. Já mais velha, pelo simples gosto adquirido de caminhar, comecei lentamente a ver. Desacelerava quando já estava quase chegando, só pra sentir minuciosamente cada passo, concluir aquilo que estava pensando e fixar na memória o que se mostrava. O que vi, afinal, era uma periferia com todos os seus elementos universais. Ao mesmo tempo em que eu sempre estive por ali, não fazia propriamente parte. Eu vivia aquele lugar aos fins de semana, durante as férias, quando passávamos na casa dos meus avós, gastando horas intermináveis andando de bicicleta.  Na maior parte do tempo, porém, eu não estava ali, não pertencia.

Do mesmo modo como foi penoso enxergar aquele bairro, foi extremamente difícil ver a cidade onde nasci, cresci e vivo até hoje. Olhava para Santa Maria e não a encontrava, não a via. O princípio é o mesmo: tomar uma certa distância, e foi com o passar dos anos que aprendi que só se vê uma cidade quando mudar-se dela é uma iminência. Mesmo que essa mudança seja imaginada, sonhada. Nos momento em que mais me imaginei longe daqui, fosse temporária ou eternamente, é que pude, como quem consegue uma fresta na cerca, enxergar um pedaço dessa cidade. Quando conversava com pessoas antigas, que viveram a Santa Maria de outros tempos, conseguia imaginar como teria sido, me imaginava também vivendo aquelas épocas. Me via esperando o trem chegar, fazendo fila nos cinemas antigos, passeando pela Rio Branco ou fazendo footing na primeira quadra. Mas era só me despedir e ganhar a rua para passar a não ver mais nada. Eram as ruas de todos os dias, sem forma nem cor, sem calçada, sem céu. Simplesmente era o que era e sempre foi.

 Muitas caminhadas depois, já era meio claro que, não demoraria muito, eu não viveria mais aqui. Era assim que as coisas se encaminhavam, era assim que eu queria que fosse. Mesmo sem data, sem adeus ainda para dar, Santa Maria começou a aparecer. Foram nas caminhadas mais ociosas, sem rumo, que as pistas foram aparecendo. No começo, foram as lombadas. Comecei a me dar por conta do desenho das ruas, passei a contemplar as curvas que ela tinha, parecia que tinham sido recém feitas. Depois foram os ladrilhos das praças, planos geométricos que se entrecruzavam. Algumas árvores antigas que pareciam ter sido transplantadas de uma hora para outra. Um dia, levantando os olhos, com um susto vi um prédio estranhíssimo: era o teatro Treze de Maio. Mas a fase mais espantosa de todas foi quando eles começaram a surgir. Os morros. Para onde quer que eu olhasse, lá estavam eles, com os formatos mais variados. A cidade era abraçada por eles em todas as direções. E eles eram verdes, verdes. Algumas vezes, vindo do bairro Camobi para o centro, me surpreendia pensando nos morros. Se era possível subir até o topo, se alguém moraria lá, que animais andariam por entre aquelas árvores. Passei a fotografá-los. Passei a temer que deixassem de ser verdes, que tirassem suas árvores; medo que talvez sumissem, que passasse a não vê-los mais.

Um dia qualquer, como que me dei conta: então foi aqui que eu sempre morei? Como um náufrago que enfim consegue saber em que parte do globo se encontra, enfim me localizei. Passei a ver Santa Maria e acho que ela também me viu. Agora, me sinto melhor para qualquer caminho.