botões

Fábula dominical

Em um domingo eu caminhava. Era um desses domingos com cheiro de lenha pela cidade, de carnes assando em múltiplas churrasqueiras pelo caminho, e ao mesmo tempo um silêncio parecido com o fim dos tempos. As calçadas descontínuas e esburacadas não permitiam um trecho sem tropeços, e era obrigada a olhar cuidadosamente o chão, assistindo meus pés vencerem o deslocamento. Não gosto de domingo desde a manhã até à noite. Venho desenvolvendo práticas cada vez melhores para me livrar dessa fobia, algumas com relativo sucesso, mas tem vezes que esse dia chega de repente e me pega com todas as suas garras imobilizadoras e seu banzo de vidas passadas.

Há domingos que penso ser vítima de alguma interferência eletromagnética, porque sintonizo em tristezas que certamente não são minhas. Para melhorar, seria bom andar um pouco, pé atrás de pé. Troquei um pouco as esquinas, atalhei por ruas pouco observadas. Vi coisas estranhíssimas: casas encobertas por plantas selvagens, chinelos abandonados, pátios com derramamentos de cimento, cachorros com um olho de cada cor. Quando estava a poucas quadras de chegar, passei pela frente de uma casa anônima, até então nunca percebida por mim, de uma espécie que se costuma chamar de meia água. A janela era metálica, pequena, de correr, dessas que figuram na maioria das construções baratas. Pendurada nela, uma folha em que se lia: Forram-se botões.

Simples assim. Se você possui botões, podemos forrá-los, é isso que oferecemos. Quem anda pelo comércio informal dos bairros e conhece as publicidades caseiras sabe que a estratégia é sempre oferecer listas de coisas: bolos, doces, salgados, encomendas, consertos, lavagem, corte, manicure, pedicure, pintura, frete. Naquela casa, havia apenas uma opção. Fiquei me perguntando quem seriam essas pessoas que levariam, cuidadosamente, seus botões para forrar, e a serenidade daquela mulher ou daquele homem que dedicaria seu tempo a um ofício tão minimalista.

São como as esculturas na ponta do lápis de Dalton Ghetti ou as palavras inscritas no arroz que um senhor vendia em uma feira. Desde então, tenho meu nome encapsulado, escrito em um grão. Talvez me recorde do quanto sou pequena. Imaginei se em cada botão forrado, em algum pequeno vão que sobrasse, secretamente o artesão colocasse um grão de arroz com uma palavra inscrita. Seria como um jogo. Cada pessoa que aparecesse, dependendo da ideia que ele tivesse no momento, escolhia as palavras. Nada de somente boas vibrações, paz, amor, alegria. Podia ser xícara, trem, berinjela, algodão, serrote. Palavras que ele gostasse dos sons. Nos casacos de inverno, sequências temáticas; noutras peças, um hai-kai aleatório. E caminhando pelas ruas, pensaria na sua própria obra: no interior das roupas circulariam palavras que só ele saberia. Aqueles botões teriam o peso do mistério. O artista levaria no rosto o sorriso dos detentores de segredos.

A simplicidade é um pouco absurda, em certos domingos. Estranha como palavras em grãos, botões forrados, segredos escondidos no casaco. Como caminhar pelas ruas e parir pensamentos que não se entende.

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