avô

João

Meu avô é grande. Sempre foi. Dirigia carros grandes, plantava árvores que eu subia, construía cataventos, alcançava os cachos de uva na parreira. Hoje, mais de oitenta anos, continua sendo grande. Especialmente quando o corpo já não obedeceu mais, e as ideias, como nunca, se embaralharam. Meu avô tem o orgulho intacto. Todos os anos e todos os reveses sofridos não lhe tiraram os desejos de fuga. Amanhã eu vou embora, ele diz. Ficamos eu e ele contemplando, olho no olho, sua fuga impossível. Estamos no seu quarto, é o fim de uma manhã. Com a cama reclinada justamente para receber o sol, observo o amarelo dourado da sua íris, iluminada. Tenho a impressão os anos foram deixando seus olhos mais claros – ou talvez seja porque agora seu olhar se demora, perguntador, confuso. Por um momento ele lembra, e em seguida esquece, que não pode fugir. Amanhã.

Quem é ela, alguém pergunta. Sempre estão a testar sua memória, a desgastar a paciência de um deslembrado. É a Carolina, ele responde. Eu sorrio – não sou Carolina, mas poderia ser. Quem disse que avô tem que acertar nome? Se ele não lembra, acho que a envergonhada deveria ser eu e não ele. Eu sou pequena e ele é grande.

Passamos a tarde em silêncio. Ele suspira. Às vezes é um suspiro denso, parece que vem da infância. Às vezes é um suspiro comum, como quem percebe que a tarde vai caindo. Posso comer essa maçã, vô? (não é cruel dar o poder de escolha para quem já não escolhe? mas é um jogo que inventamos, brincamos assim). Pode, ele me responde, como quem faz uma concessão. Como se dissesse: não coma demais. E outras vezes ele muda o tom das respostas, diz: pode, mas dessa vez quer dizer: é óbvio, pegue o que quiser. Assim ele vai alternando. Vamos extraindo palavras, com alguns métodos desenvolvidos. Me dá isso aqui, ele me ordena, pedindo o meu pão. Mas tu já comeu, vô, eu argumento, tentando preservar minha torrada. Ah, é. Ele desiste. E ri, levantando as sobrancelhas.

Com o olhar ele investiga as próprias mãos. Tateia uma substância invisível, apalpa os próprios dedos. Às vezes se surpreende com o que vê, exclama: olha isso! Ele esquece a velhice mas a pele fina e mole das mãos o faz recordar. Esquece os aniversários, que comeu, que dormiu. Podemos esconder dele algumas verdades, fingir um nome que não temos, concordar com algumas das suas invenções; pode-se esquecer o tempo, o sono, a saciedade, mas não se pode esquecer as próprias mãos. É um instrumento indisfarçável, um fóssil ao alcance dos dedos. Suas mãos dizem o que ele não quer saber. Então, às vezes, ele chora. E como a fuga impossível, como uma criança, ele esquece também porque chorou.

Enquanto ele sente a pele das mãos, me surpreende olhando pra ele. Não sei até onde eu chego, não sei até que ponto ele me vê. Como se a gente soubesse o que as pessoas normalmente lembram. Como se a gente soubesse se nos ouvem quando falamos. Mesmo que eu seja outra pessoa, e ele esqueça. Então ele abre um sorriso. Depois se vira, apoia a mão no queixo, olha fixamente para algum lugar, que não a televisão. Para ir embora, ultimamente, não anunciamos a saída. Simplesmente saímos, como uma lembrança que se esquece. Como algo que se perdeu, e achamos que é melhor assim. Depois dos oitenta, mesmo a mais banal das despedidas ganha algo de definitivo. Ele segue sua observação calada, e eu acho que é um bom momento, vou deslizar para a porta. Mesmo assim, perifericamente, ele percebe minha movimentação. E desponta, atira a frase no meu colo: eu não gostaria que tu fosse embora. Não era uma ordem, nem sequer um pedido. Apenas uma observação. E eu, atrasando a ida, largo a bolsa de novo no sofá e penso: nem eu, vô, nem eu.

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