Estampas da tarde

Tempos depois, você disse que naquele dia estava esperando a chuva. Sentado, como quem não tem o que fazer com o dia, levando o olhar longe. Você acariciou os cabelos, procurando uma forma de se certificar da própria presença, conferindo a cabeça no lugar. Eu havia oferecido os cabelos ao vento, tinha apenas sede e entrei ali sem pensar. Foi assim que eu te vi. Fiz da mesa um ponto de observação, pedi a água com gás, bebi tua imagem com os olhos molhados.

A primeira coisa em que me detive foram as mãos. Soube tanto de ti olhando suas mãos quanto olhando nos seus olhos, nos dias que se seguiram. Que as mãos podem dizer tanto, foi a primeira coisa que aprendi contigo. Eu li algo nelas, no seu rosto, na sua forma de ver o tempo passar. Você estava esperando a chuva, mas eu ainda não sabia.

Eu não sabia nada. Saber, às vezes, é menos importante do que sentir. Lembro de ter sido capturada por um pressentimento e pensar que o silêncio seria o pior por acontecer. Morri de medo e de vontade; a vontade venceu, eu mesma fui vencida. Quando eu sentei ao seu lado, sabíamos que não havia mais volta, que algo teria que ser feito. Nem que fosse o ridículo, o incômodo, ao menos uma perda de tempo. A minha voz e a sua se encontraram, aprendendo a falar pela primeira vez. Você também não é daqui, eu também não vou embora. Não sabia que podia acontecer assim. Nem eu, você disse.

Era bem pouco o que sabíamos. Um dia, eu achei que o amor demorava. Eu acreditei que o amor demorava. Mas eu estava errada, ou apenas menti para disfarçar. O amor não demora não, ele simplesmente puxa a cadeira e senta. Quem puxou a cadeira fui eu. Você esperava a chuva, eu não esperava nada.

Falamos apenas o importante. Sobre a formação das nuvens e das ideias, do gosto da água e da visão das praças à noite. Sobre como era mentira que uma pessoa fosse de um lugar, mesmo que essa mentira fosse, tantas vezes, tão bem contada. De onde você veio, alguém perguntou, e as perguntas caíam na mesa já com quatro ou cinco sentidos possíveis. Guardamos o beijo para depois, deixamos que ele crescesse, que se tornasse tão urgente a ponto de ter que acontecer de qualquer jeito. O beijo precisaria passar a noite ouvindo o barulho da janela, teria que atravessar a madrugada na espera, para ser verdade depois, sob o sol da manhã, sob a luz da noite azul.

Previ dias e noites difíceis e confusos, madrugadas em que eu me perguntaria por que haveria de ter sentado à mesa, por que eu teria permitido, por que eu não teria deixado livre o coração. Eu me deixei ir, eu aceitei o que viesse – recomecei, sempre recomeço.

Então nós falamos da chuva, amamos a chuva – esquecer é uma evaporação, eu sei, molécula a molécula, assumimos o risco da tempestade. Naquela tarde, caímos do céu como a chuva. Nós fomos a própria chuva. Quem caminhar por lá ainda pode nos ver, espalhados pelas poças da rua, refletindo presságios.

(São Paulo, fevereiro de 2014.)

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Roteiro sentimental da cidade de Itaara

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Embarcamos no chevette branco do meu pai. O que mais lembro dos carros que usávamos são os ruídos: o estalo metálico da porta, o clic das travas mecânicas, a fechadura do porta-luvas. No som, desde a Avenida Medianeira, Bee Gees, Stevie Wonder ou Cartola – e posso ouvir, lá pela metade da viagem, o tlec-tlec da fita sendo trocada de lado. Me acomodo bem no meio do banco de trás, apoiando as mãos no encosto dos bancos onde só andavam adultos.

– Pai, que dia é hoje?

Deveria ser alguns dos primeiros de 1992. O tempo passava mais lento. De Santa Maria até Itaara, era uma jornada. Cansava, tinha começo, meio e fim. Depois de me responder, ele comenta, como quem diz qualquer coisa:

– Em março, vai começar a escola.

Aquilo me pareceu tão fatal. Em março, eu teria que ir para a escola, onde tínhamos que sentar em cadeiras separadas e escrever de caneta. Sabe o que acontece quando se escreve de caneta? Não dá pra apagar. Parecia que não tinha jeito, eles estavam decididos: eu iria para a escola. Mas antes, ainda bem, havia quase todo o verão. Eu não precisa saber dos dias, apenas de vez em quando verificava com alguém a quantas andavam os meses. Era uma estação imensa, era sempre verão em Itaara. Eu ainda não sabia ler, mas alguém sempre avisava na placa do viaduto: “saímos da cidade”. Apenas agora posso reconhecer que aquela foi, para mim, a primeira fronteira.

***

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Passamos da portaria da Sociedade Concórdia de Caça e Pesca. A rota dos pinheiros nos conduz até bem próximo do bar, onde estacionamos. Espalhados ao redor, havia viveiros de pavões, casinhas de boneca e estátuas de duendes, além de diversas crianças, com as quais nos misturávamos. E um lago, onde nadei por tardes inteiras. Uma vez, havia avistado sapos nas bordas, o que fez com que passasse a entrar na água com muito mais cuidado, por um bom tempo. Meu irmão estava sempre andando de bicicleta, o tempo todo. De vez em quando, alguém perguntava: “onde anda esse guri?”, e outro respondia “tá por lá”, localizando minimamente a rota que ele fazia, da ponte para cá, daquelas árvores pra lá, e estava tudo bem. Saindo do lago, tenho nos pés a sensação das tiras de pano dos meus chinelos molhadas – isso tudo se passou antes da popularização das havaianas.

Cruzando a ponte, uma área onde rareavam os brinquedos e havia mais mato. Era onde ficava também a sede dos escoteiros. É claro que eu queria ser uma também, mas não fui, minha mãe nunca deixou. Provavelmente devido a uma grande insistência, cheguei a participar de algumas atividades dos escoteiros sem ser uma. Deve ser essa minha primeira experiência como uma enviada. Não me tornei um deles, mas eu fui lá e vi como era. Não ter sido escoteira me tornou, talvez, o que eu sou hoje: uma curiosa inveterada, uma relatora de pequenos incidentes ou simplesmente alguém que inventa as coisas por si mesma. Porque afinal, eu não aprendi a dar nós, a fazer fogueira, a contabilizar boas ações. Tive que dar jeito de me mover no mato à meu modo, de explorar as coisas como podia.

Isso foi, muitas vezes, bastante interessante. Foi em um desses verões no clube que, durante um acampamento com a família, tomei a decisão de que passaria a me chamar Raquel. Não funcionou muito bem. As pessoas se mostraram, em matéria de trocas de nomes, extremamente conservadoras. Mas eu havia tentado. Nos últimos tempos, eu tinha conseguido grandes vitórias: andar de bicicleta, nadar e eventualmente até pegar alguns peixes sozinha. Ainda estava testando os limites do mundo. Itaara era uma enorme hortênsia azul.

 ***

Oásis

Estou dentro de um dinossauro. Um dinossauro oco de cimento, e aqui dentro minha voz faz um eco interessante. De repente, me pergunto se os dinossauros seriam como os extraterrestres. Todo domingo à noite passava alguma coisa na televisão sobre os extraterrestres, o que me matava de medo. Eram quatro ou cinco dias para esquecer, e aí, no outro domingo, o terror começar de novo. Mas não, os dinossauros não deviam ser tão temíveis, são apenas lagartos bem grandes. Logo fujo pela boca, em um ato de coragem pulo do alto do dinossauro, me vomito de dentro do bicho de concreto e tenho um novo objetivo: andar de teleférico.

Estamos percorrendo o zoológico. Achei ele tão, tão parecido comigo. Será que… me entendia? Será que se eu dedicasse tempo suficiente conversando com ele, poderia me entender? Não pude saber. Quando, muitos anos depois, pensando no quanto podemos nos enxergar nos animais, foi espelhada naquela mirada intensa com o macaco do zoológico do Parque Oásis que eu pude entender. Olho no olho, eu era o macaco. Ele era eu mesma. Mas a conversa ficou pra depois. Estávamos a passeio, era logo a hora de seguir adiante, as cobras, os hipopótamos, as capivaras.

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Hoje acho que contemplar aquelas estátuas disformes e os castelos kitsch do parque Oásis é, de certa forma, nos deparar com a nossa própria inocência. Porque realmente acreditávamos neles, gostávamos deles. Porque eles estavam ali, sempre estiveram, ninguém os havia colocado, eles existiam desde o começo dos tempos. A tristeza do parque hoje abandonado tem menos a ver com a habitual melancolia das coisas fracassadas do que com a nossa localização no mundo, nós do final dos anos oitenta. Aqueles trens parados, aqueles teleféricos enferrujados, as jaulas vazias, são todas ruínas que não param de nos contar como faz tempo. Dentro dos nossos carros, aceleramos na frente do parque só para não lembrar que nossa infância acabou.

***

Alugamos uma variedade incrível de casas no Balneário Lermen. Fomos inquilinos por largas temporadas. Experimentamos casas pequenas, grandes, de madeira, com piscina, de tijolos à vista, com escada caracol, de pedra, enormes, triste e alegres. Sempre havia colchões espalhados, roupas órfãos, protetores solares extraviados. Nas gavetas e nos roupeiros, encontrávamos vestígios dos que habitavam a casa no resto do ano. Acabávamos sempre nos perguntando, supondo o que queria dizer cada objeto. Olhávamos fotografias de desconhecidos, descobríamos as profissões dos outros moradores por indícios: uma caneca de uma empresa, algum papel, uma caixa de ferramentas. Nas pistas das casas, naqueles anos, aprendemos a contar histórias por fragmentos.

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Com os pés na água do lago que havia por ali, lembro de ter lido em voz alta, com uma amiga, o Best seller daqueles tempos: Coisas que toda garota deve saber. Nadar o dia inteiro já não tinha aquele mesmo gosto. Parece que queríamos mais, mas o quê?

– Oi, tudo bem? Qual é teu nome? Vocês vão ficar por aqui? É, a gente tá naquela casa.Tenho treze, e tu?

Em um desses verões no Lermen, minha primeira ousadia amorosa. Atravessei toda a extensão daquelas ruas internas, na escuridão da noite, para escutar, em um orelhão na estrada: “eu sabia que tu ia ligar”. Havia amor antes do celular. Eram intensos os primeiros anos 2000. Itaara era um imenso céu estrelado e eu voei.

***

 O ônibus começa, enfim, a viagem pra valer. Não havia pensado direito na rota, e quando vi, tomamos a BR 158 e subimos a serra. Passamos a ponte sobre o vale onde, não importa pra onde se olhe, não há como ignorar o verde. Acabo me dando conta que um dos postais da minha cidade é, na verdade, uma saída. Estou deixando minha cidade. Não, isso seria pouco. Na curva das serras, sei que na verdade estou deixando as minhas cidades. Itaara é um pinheiro no meio da estrada, que espera e sabe que eu sempre vou voltar.

garganta

(Itaara, janeiro de 2014)

[fotos: Acervo digital do Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria]

Máquina de instantes

No coração da Argentina estava Córdoba, e no coração dela, o bairro Güemes. Era lá onde a feira acontecia. Bastava seguir reto pela nossa rua e deixávamos para trás as quadras dos edifícios altos e modernos da parte nova da cidade para alcançar o bairro dos conventos, das galerias estreitas, dos ateliês de arte, das lojas de antiguidades e das moradias humildes. Em um terreno salpicado de ruínas, há décadas os artesãos se juntaram no chamado Paseo de las artes. Ali, em longos corredores de tendas, tudo era feito à mão: roupas, sapatos, cadernos, bolsas, cerâmica. Havia também livros, plantas, velharias, comida e alguns objetos sem categoria, invencionices. Não era preciso mesmo muito propósito para visitamos a feira. Íamos para ver e passear, especialmente, ou para saber os preços e de novo não comprar. Às vezes, caminhávamos até lá só para comer empanadas. Também muito do que acontecia era de graça: ganhar serenatas dos músicos de fraque imitando os antigos enamorados, fazer amizade com os vendedores de tortas e assistir caricaturas feitas ao vivo. Vender era só uma parte do que se passava ali, e os artesãos se importavam pouco se comprávamos ou não, nos davam conversa de qualquer forma. Eu ia por histórias e nunca voltava sem alguma.

Costumávamos comprar café que alguns estudantes vendiam, fatias de bolo das senhoras quase na saída da rua Belgrano e incensos de baunilha. Ao contrário dos incensos com cheiro sempre da mesma coisa, nos quais o aroma era mais uma ideia ou uma promessa, esses realmente cheiravam a baunilha. Uma moça fazia marcadores de páginas com colagens e frases manuscritas, de quem eu comprei vários e perdi todos. Outro vendia cartões de aquarela, que eu postava pouco a pouco aos amigos. Um senhor costurava animais de pano, com feições espantosamente simpáticas – parar ao lado deles era coletar suspiros – e foi ali que um lagarto verde foi prometido a meu sobrinho.

Na tenda da mulher morena e de cabelos longos, vinda de Mendoza, me interessei especialmente pelos caleidoscópios. Ao me ver espiar e alcançar um deles para minha amiga olhar, ela se apressou em esclarecer: chicas, chicas, não se vê a mesma imagem nunca. Quando chega na mão de quem está ao lado, a estrutura se desfez, já mudou, as peças já se mexeram. Ela me dizia que o momento do olho no caleidoscópio só acontecia uma vez. Olhar ali dentro era ver algo que ninguém mais via, ela nos assegurou, explicando que era um dos objetos mais antigos do mundo. No tempo necessário para ver todos os desenhos possíveis – ela conta com voz de espanto, como quem lê uma história a uma criança – os oceanos secariam e as montanhas desapareceriam. Dizia também que os vidros eram importados, mas nem precisava inventar essa inofensiva mentira, porque eu já tinha sido tocada a ter um daqueles só pelas palavras. O “infinito”, a “eternidade”: nunca mais eles seriam tão portáteis e custariam somente trinta pesos. Foi assim que eu levei um deles comigo, satisfeita. Usava para me distrair, em tardes ensolaradas, o que em Córdoba significavam muitas.

Tempos depois, aquelas ruas já se encontravam longe demais dos meus pés e os amigos com quem cruzava os quarteirões até o bairro Güemes estavam irremediavelmente espalhados pelo continente. Do mesmo modo, quase tudo comprado na feira, por alguma razão, já não estava mais comigo. Se os cartões se esvaem pelo correio, os marca-páginas somem no meio da literatura, o lagarto de pano mora no quarto da criança e os incensos viram aroma e cinza, o caleidoscópio se mantinha ali. Como se nada tivesse acontecido, intacto ao tempo. Então o tomo na mão, aponto bem pra lâmpada – é noite, mas poderia ser dia, porque o sol havia se esquecido daquele inverno – e com minha luneta sou uma exploradora de padrões de desenhos que dançam. Sou a única espectadora dentro de uma vitrine de pétalas de vidro.

Uma imagem bonita se forma, uma estranha combinação de amarelo e azul. Fico tentando fazê-lo aparecer de novo. Pode-se passar horas com o olho ali, nessa teimosia. Lembro então da artesã daquele bairro e me dou por conta que o desenho não volta. No movimento das imagens, somos a força que move, mas não a que decide. Tudo vai se espalhando por si e se perdendo, como um dente-de-leão que o vento vai soprando, como as geometrias que se esboçam sozinhas. Aí eu entendi, afinal, o que havia trazido pra casa: um antigo brinquedo que ensinava sobre o irrepetível. Um exemplificador do acaso. Uma máquina de ver instantes. Como a feira onde não voltei mais, e se voltasse, talvez não fosse nada do que eu lembro: as velhinhas já não prepararão mais bolos, os estudantes que vendiam café se formaram e no lugar das serenatas talvez eu só encontrasse silêncio. Pessoas e coisas tem esse estranho costume de mudar ou sumir e as constelações das circunstâncias são, sempre, ao azar. Talvez o caleidoscópio mostre a importância das lembranças, o fato de sermos as únicas testemunhas das nossas memórias, que a estampa delas é tudo que temos. Ou quem sabe tente dizer, na língua misteriosa dos fragmentos de vidro, que é preciso saber assistir a tudo seguir girando e girando, incontrolável, absurdo e colorido.

(Crônica publicada na seção Escotilha da edição #2 da Revista proa.)

Perdizes a pé

Para quem não tem medo de declives, andarilhar por esse bairro pode ser um bom programa em um domingo. São ruas estreitas, sinuosas, onde há muitos jardins para ver e, espalhadas pelas ladeiras, casas antigas que bem poderiam estar em uma cidadezinha do interior. Mesmo sem me deter, pude entrever redes na varanda, bicicletas de criança, gatos preguiçosos. Para dar ainda mais o ar de décadas passadas, um portentoso Ford Galaxie, daquele azul claro que não se pinta mais carro nenhum, estava estacionado ali pelos lados da rua Iperoig. Em um muro, uma frase espera toda a semana para fazer sentido: domingo lezado. Assim, com z.

Não é preciso andar muito para dar-se conta que certas casas estão com os dias contados. Como um sobrado com ar de abandonado, sem nenhum ‘vende-se’ ou ‘aluga-se’, que uma moradora, ela mesma testemunha das mudanças de um bairro de casas baixas de décadas atrás, garante estar só esperando a papelada da construtora. Algumas quadras adiante, já se comprova o horizonte obstruído pelos prédios enormes, alguns até com certo charme, outros simples mastodontes brilhantes com nomes derivados de “palace” ou “tower”. Vemos enormes tapumes, onde placas anunciam suítes, muitas vagas na garagem e “sacada gourmet”. Sou daquelas que lamenta o sumiço dos chalés de madeira da minha cidade, então tento não me comover, tento manter indiferença. Eu só não entendo mesmo a necessidade dessas pessoas entediadas segurando placas nas esquinas. Peço a quem tenha dinheiro para tal tomar por princípio: não comprar nenhum imóvel que deixe seres humanos com uma seta pendurada no pescoço.

Mas não é sobre isso que eu gostaria de falar.  Hoje me interessaram mais outras coisas, como pequenas transgressões vegetais. O chão coberto de folhas secas, mesmo que não seja outono; um jasmim que segue seu caminho enlaçado nos fios de luz; um flamboyant, nem aí para as divisões patrimoniais, que espalha suas flores por vários terrenos. Mesmo alcançando a avenida Sumaré, com o fluxo de carros e as franquias internacionais sem nos deixar dúvidas da enorme cidade e do ano em que nos encontramos, pode-se admirar figueiras majestosas e pitangueiras cheias de frutos. Ao contrário dos corredores da pista no meio da avenida e dos carros que passam, não sou do tipo que pode ignorar uma pitanga. Essa indiferença me custa ainda mais. Se caminhasse adiante, dava para ficar assistindo o metrô chegar e partir, na estação envidraçada. Mas volto, por outro caminho, e o domingo parece ser um dia especialmente bom para sentar nos bares de mesas na calçada, nas imediações da Alfonso Bovero. Em um canteiro, noto um catavento de papelão cravado na terra. Que se registre: Perdizes contém uma São Paulo que é também a cidade dos jasmins destemidos, das pitangas em meio ao trânsito e onde alguma criança, sabiamente, tentou plantar o vento.

(São Paulo, novembro de 2013)

A menor da Bilu-Bilu

Nada sintetiza mais meus tempos de menina que aquelas tardes. Minha infância na Mooca sou eu com uma cadeira perto da porta da loja, quase na calçada, com as mãos pequeninas e os olhos atentos, aproveitando a luz da rua para bordar. Foram mais de quinze anos dentro do comércio da família. Desde muito cedo tinha sido assim: caminhar direto da escola para lá para que meus pais almoçassem, cuidar para que ninguém levasse os triciclos que espalhávamos pela calçada, controlar os minutos de brincadeira nas redondezas para voltar em seguida. Além da papelaria, vendíamos presentes, brinquedos e livros. Até hoje não perdi a prática de fazer pacote, com todas as dobraduras que precisam ter. Até hoje não preciso de nada mais que segundos para as contas de cabeça; depois de ter aprendido a ler, o próximo passo foi saber fazer rapidamente o troco. Meus pais inventaram uma série de estratégias de venda que, na época, eram inovações. Como a exposição dos brinquedos na rua e a caderneta, para pagar à prestação aquelas bonecas enormes, que eu vendi muitas, mas nunca tive uma minha.

Se me perguntam se era bom ou ruim, eu tampouco saberia. Simplesmente era. A rotina da loja se converteu em algo natural para nós. Sei que, sem dúvida, lá dentro nos sentíamos bem, estávamos em família e sabíamos tirar proveito dos pequenos privilégios de ser filha do seu Zé, dono da loja Bilu-Bilu – eu e minha irmã éramos chamadas, pelos conhecidos, de “as biluzinhas”. Eu podia ler os livros do Monteiro Lobato, da coleção Jabuti, os gibis que eram trocados ali e ter em primeira mão os artigos de coleção, os modelos mais raros de caneta-tinteiro.

Verdade que não se passava, assim, só a bordados e leituras. Algumas épocas do ano o movimento apertava. Especialmente no dia das crianças e no Natal, quando o movimento era tanto que mobilizava toda a família, até meus tios e meus avós. A comemoração do dia 24 era sempre adiada para o dia 25, não podíamos perder o movimento dos retardatários, como dizia minha mãe. Aqueles, que, mesmo com a cortina de ferro baixa, apareciam para um último presente esquecido ou para uma visita que chegava sem avisar. Nos dias comuns fechávamos às 6 da tarde, mas no Natal poderíamos ir até a madrugada. De dentro da loja, eu via minhas amigas passarem despreocupadas e de banho tomado, subindo a rua para assistir a missa do galo. Eu me perguntava que teria de tão especial nesse galo aparecer – se é que ele dava as caras, eu nunca pude descobrir. O cansaço do dia de trabalho punha a família a dormir sem missa e sem ceia. Aquela refeição cerimoniosa da meia-noite eu só fui ver anos depois, na casa do namorado – e até hoje não preparo, nem mesmo agora que há tempo. Cacoete dos tempos da Bilu-Bilu.

Como algo que assimilamos sem sentir, tampouco sei dizer como eu e minha irmã, apesar de tão novas e sem saber bem o que era inflação, soubemos naquela época que as coisas andavam aumentando de preço. Talvez a gente somente intuísse, e a habilidade de fazer as contas rápido nos fazia ditar os preços já com uma porcentagem de aumento, mesmo que nosso pai não quisesse. Já dava pra ver que o negócio dele era menos o comércio do que a prosa. E todo mundo parava na loja pra dizer alguma coisa. Vizinhos, amigos, artistas, os italianos e os castelhanos, pronúncias que desde lá aprendi a reconhecer. Naquelas décadas, no entanto, eu era só espectadora. Criança não tomava partido nas conversas dos adultos. Mas eu era, isso sim, livre pra imaginar o que queria dizer dar um desfalque, ou como será que aquela moça andava perdida, se eu a via depois pelo bairro e não parecia nada sem rumo.

Foi mais tarde que eu aprendi a interpelar as pessoas, a usar melhor as palavras, a fazer as perguntas importantes. Mas a ouvir em silêncio e contemplar as palavras, isso eu já sabia. A habilidade da escuta havia sido aprendida na rotina daquela loja, desde menina. Sem ter sido “a mais nova das biluzinhas”, talvez eu nunca tivesse sido escritora. Apesar de ter me mudado e não pensar mais em morar no bairro, meu endereço ainda é, de vez em quando, a rua da Mooca. É pra lá que eu volto quando preciso. Já não bordo mais, mas uma parte de mim senta naquela cadeira perto da porta, com olhos atentos, aproveita a luz da rua e escreve.

(São Paulo, setembro de 2013.)

A terra e o ar

“O desconhecido era meu compasso. O desconhecido era minha enciclopédia.”

 (Anaïs Nin)

“Tenha paciência com o não-resolvido em sua vida, e tente amar as perguntas.”

(Rainer Maria Rilke)

Por que deixar aquela cidade? Parecia que as razões eram muito claras. A cidade que eu sabia de cor as ruas, e mais que tudo, os rostos. A cidade onde ventava frio, no meio do continente, sem ideia de rio ou de mar. O sufoco dos verões, longe do que eu queria encontrar, longe do que acontecia – exceto o que não podia, não deveria acontecer. Era, sobretudo, o lugar que perdeu a inocência pela morte. Algo havia morrido. Cidades são, afinal, feitas de pedras e sonhos. Se a esperança acaba, o que resta é duro, muito duro.

Quando já estava na estrada, no entanto, deixá-la me pareceu um erro.  É um erro, eu pensava, estou cometendo um erro. Fui surpreendida. O caminho da serra, que eu não achei que o ônibus tomaria, manteve a cidade sob meu olhar mais tempo do que eu planejava. Olha que beleza esses morros, esses prédios quadrados, esses trilhos vazios! Tenho tudo o que preciso para ser feliz. Eu poderia voltar a sonhar aqui. Eu poderia. Já não podia explicar porque eu tinha que ir. Como somos bichos insatisfeitos, queremos tudo… Sentimos tédio, queremos avenidas largas para abrigar nossos novos sonhos, queremos parques para repousar nossos domingos. Queremos dinheiro, mas não queremos fazer qualquer coisa por ele. Precisamos encher a barriga, mas não pode ser com qualquer comida. Queremos quadras floridas, montanhas de concreto e queremos alma também. Temos sede, muita sede, e água definitivamente não nos basta.

A decisão que eu forjava há meses sucumbiu bem cedo: não foram necessárias mais do que uma ou duas curvas. Se alguém tem uma cidade cercada de morros, um gato e algum patrimônio em livros, não precisa de mais nada. Mais nada. Posso ficar aqui, me deixem aqui. Mas eu já não podia parar. Eu não estava dirigindo, não podia pisar no freio, então tive que seguir, mesmo contra minha vontade. Pensei que aquele poderia ser o último apelo da cidade. A última sedução para que eu ficasse. Mas eu resisti.

Fui resistindo e seguindo, que era a única maneira. Fui me acomodando no banco, já que antes, assediada por aquela imagem, vinha sobressaltada. Foi quando lembrei a primeira vez que viajei de avião. Lembrei como foram longos os preparativos. Eu comentava com os colegas da escola: daqui a tantos meses, vou andar de avião. Voar era raro. Era quase como se a pessoa mesma voasse sozinha. “Ela já voou”, se dizia, e era como uma faculdade especial. Lembro minha mãe chegando em casa com os bilhetes grandes e coloridos, impressos na agência de viagens, para serem guardados na gaveta onde ficavam as contas pagas e as certidões. Foram tardes imaginando, degustando antecipadamente aquele voo. Se alguém falava em voar, em avião, eu já afiava os ouvidos: aquilo me interessava, aquele assunto era meu. Diziam que quando a gente estivesse lá em cima dava pra ver as nuvens. Dava pra sentir as nuvens. Parecia incrível.

Mas ao chegar ao aeroporto, da sacada de onde se viam as decolagens, me mostraram o avião em que eu andaria. Então é esse? Diante das enormes máquinas transoceânicas, o meu era um filhote. Mãe, esse avião é muito pequeno, não dá pra trocar? Por favor, eu quero maior! Já não bastava sair do solo, tinha que ser o maior. Diante da troca impossível – mesmo que eu tivesse insistido, mesmo que eu não me importasse com a mudança do destino – só me restou chorar e dormir, muito contrariada. Não lembro nada, nem de nuvem, nem da sensação leve de decolar. Minha decepção apagou tudo.

Eu já sabia há muito, nunca é como a gente espera. Quando eu era pequena, minhas expectativas não cabiam em qualquer aeronave. Hoje, o temor de partir me faz perguntar o que teria, nesse meio-tempo, me ligado tanto ao chão. Pode ser que a ideia de voar estimule a ambição. A máquina alça voo e diz que podemos tudo e podemos rápido. No ar, a cidade que a gente deixa não dura muito tempo, só uns poucos minutos, e algumas vezes encoberta. No terreno andar do ônibus aprende-se outras coisas: não se pode ignorar um caminho. Enquanto um cruza o céu, falseando superpoderes, o outro nos mostra cada camada do trajeto. Então me entreguei ao tempo, ao infinito daquele dia que eu percorreria. Deixei que a terra fizesse o que sabe; que me mostrasse o que, de outra forma, não se deixaria ver.

Assim foi que, nas primeiras cidades, imaginei como seriam minhas saudades futuras. Já comecei a senti-las. Em cada casa isolada, aprendi uma solidão. Em cada plantação, uma espera. Mais adiante, escolhi como se chamariam os meus filhos. Depois decidi que eles nunca nasceriam. Mais um pouco e os aceitei de novo, mas com outros nomes. Ao cruzar para o próximo estado, descarrilei para uma trágica desesperança. Nunca as coisas fizeram tão pouco sentido. Paramos para jantar e os ânimos mudaram muito, recobrei minha força. Bem próximo a uma capital acreditei em Deus – foi uma fé curta, coisa de uns sessenta quilômetros – depois veio a descrença, talvez em alguma placa, em alguma ponte. Em seguida, fui ingênua e esperançosa durante toda a madrugada. Na última parada, ainda no breu, fiz uma promessa. Recriei minha existência. Tudo será novo daqui pra frente, eu jurei. Como as grandes cidades, nossa vida também tem mais de uma fundação.

E conforme avançava, eu cada vez mais ia me deixando ir. Sem esperar, de repente me invadiu uma enorme alegria. Tanta terra percorrida acabou trazendo de volta uma satisfação depositada em alguma região escondida. Suspeito ter encontrado, na altura do chão, a alegria do meu primeiro voo, que aos oito anos eu não soube ter. Aquela estranha satisfação era, talvez, o prazer de voar que eu só tinha experimentado sonhando. Algumas alegrias a gente aprende a sentir.

Quando o terminal imenso me recebeu, eu fui novamente posta à prova, nas primeiras horas da manhã. Precisava ter trazido tanto peso? Precisava mesmo ter vindo? Ah, se os humanos se inspirassem mais nos meios de transporte, quaisquer que fossem… Porque eles, no solo, na água ou do alto, saem de um ponto e vão a outro. Já nós, seres de carne e de dúvidas, somos feito de inúmeros, infinitos avanços e retrocessos. Mas, outra vez, não dava pra voar atrás. Pra não me contradizer, não negar todo o percorrido, minha opção era só seguir e ir, quem sabe, crescendo com o tempo, crescendo com a cidade. Essa foi a solução, até que houvesse outra melhor. Acho que é para isso mesmo que as cidades servem: para completar o que a estrada não conseguiu dizer.

(São Paulo, agosto de 2013.)

Últimos postais de inverno

Se a cidade acordasse de repente, ao meio-dia ou no meio da noite. Ou se dormisse um dia inteiro, sem nenhuma razão senão a de descansar nossas dores. Se a madrugada insone trouxesse, ao menos, uma resolução. Se a noite nos acalmasse. Se as estrelas nos eximissem da culpa.

Se um relâmpago iluminasse o futuro por alguns segundos. Logo esqueceríamos, a memória desbotaria rápido, mas não se sofreria por não ter nenhuma ideia dele. Se as videntes soubessem do que falam.

Se eu não fizesse as coisas maiores do que são. Nem diminuísse o que é importante. Se eu acreditasse em alguém para me ensinar a medida das coisas (por enquanto, vou levando comigo mesmo).

Se eu pudesse te fazer as perguntas mais diretas: de que lado da rua caminhas quando estás triste? posso investigar teus olhos? quem deixarias morar na palma da tua mão?

Se não se amasse só para ficar junto, mas também para ser cúmplice na fuga. Se o meu vocabulário de amor fosse maior do que “paixão” e “não”. Se eu me livrasse de todos os analfabetismos. Se ninguém confundisse coragem com urgência. Se nunca tivesses escrito teus passos na minha calçada. Se eu tivesse mais do que palavras para oferecer.

Se a felicidade precisasse só ser testemunhada pelos envolvidos nela. Se a alegria caísse na clandestinidade, e só fosse notada por acaso, quando fosse tão verdadeira que não se conseguisse esconder. Se os que têm certezas soubessem como elas são fracas. Se houvesse mesmo o destino e bastasse esperar por ele.

Se a ingenuidade não fosse só das crianças. Se nunca esquecêssemos a poesia. Se os sonhos sobrevivessem à luz do sol. Se as orações funcionassem. Se as confissões se revertessem. Se a primavera chegasse.