Viagem

Sobre chorar e outros roteiros

Para chorar, dirija a imaginação para você mesmo, e se isto for impossível, por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nos golfos do estreito de Magalhães nos quais ninguém entra, nunca.
(Julio Cortázar, Instruções para chorar)

 

Ninguém conhece uma cidade até chorar nela. Podemos percorrê-la semanas e meses, passar pelas mais intensas alegrias, experimentar ruas em diversos horários e números, a pé ou transportados, mas só o choro dá a verdadeira dimensão do lugar. O choro é o que nos localiza. Dizem que o que diferencia São Paulo não é o tamanho, nem as chaminés das fábricas, nem as avenidas; tudo se deve ao fato de que, todos os dias, encontramos gente chorando pela cidade. São Paulo chove para que se mantenha o anonimato até no pranto. Um dia, foi também a minha vez.

 
É preciso que se esclareça antes de tudo: os grandes centros urbanos, além dos seus microclimas, também geram em si fenômenos próprios de ordem emocional. Se somos doze milhões, são doze milhões de corações. Às vezes, alguns sofrem interferências e então choramos, sem querer, de forma pouco explicável. Se chora porque a lágrima é uma forma de entender, porque a cidade e a vida mudam muito e o choro, ao contrário do que se pensa, serve menos para o desespero do que pra ir aceitando as coisas.
Minha vez aconteceu no metrô. Um choro subterrâneo, do inconsciente da cidade. Se a vida está cheia de abismos, quase todos invisíveis, é de uma admirável sinceridade dessas estações quando advertem que há, sim, um limite, que o fosso está aberto. Ao entrar naqueles compartimentos, a paisagem na janela é o nosso próprio rosto. Na escuridão do túnel, o que se vê é só o reflexo do interior, a paisagem fica para dentro. Não dá pra fugir da gente mesmo dentro desses trens, nada ali nos distrai, nada nos acena. O metrô é o pior lugar para esquecer-se de si. Então eu chorei.

 
Foi de lágrimas fartas, um deixar-se chorar como os trens escorrem pelos trilhos. Por motivos difusos, por nada e por tudo. A pior coisa que se pode fazer a quem chora é tentar decifrar os motivos objetivos. Cabe apenas aceitar e oferecer algo: um sorriso, um lenço. Assumir o pranto como parte do cenário. A gente daqui, aliás, não se surpreende. Com o mesmo entendimento que dão informações, orgulhosos de saber sua geografia, sabendo que é normal que alguém se perca, sabem que o choro acontece, sabem a cidade onde moram. Entendem. É a compreensão paulistana, de que quase não se fala. Tudo durou uma ou duas estações. O choro foi se reacomodando, como as pessoas pelo vagão; foi se esquecendo de si, como um passageiro que dorme sem querer, depois do trabalho.

 
Saindo de dentro da terra, sob um raro sol de outubro, me perguntava o porquê daquela comoção. Quase não me reconheci nessa melancolia. Pensei então que essas descidas são como pequenas madrugadas, escuras e densas, em que tudo parece mais dramático e insolucionável. Ao sair dali, a inesperada luz da rua simula uma manhã, e rapidamente o mundo se torna mais fácil e o drama de pouco tempo atrás, exagero. Na vulnerabilidade do subsolo, posso ter sofrido das interferências, posso ter chorado uma tristeza de alguém que por acaso cruzou meu trajeto. Tudo bem, eu penso, tudo bem. Sempre que choveu, parou. Sempre que se chorou, também. Depois as lágrimas secam e toca a outro, logo ali. Ao subir as escadarias, sorri imaginando alguém que, longe ou perto, anda por aí desfrutando alguma alegria minha que, em um dia desses, eu tenha deixado cair.

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Três amores

Mapa antigo.

Em um amor, a maioria procura eterno lar. Outros, muito poucos, o eterno viajar. Estes últimos são os melancólicos, os que temem o contato com a terra-mãe. Quem mantiver longe deles a melancolia do lar é quem eles procuram.

(Walter Benjamin, Rua de mão única)

 

Com V., o amor só chegou depois. Eu desacreditava que um dia poderíamos ficar seriamente juntos. O primeiro beijo foi negociado: depois de quatro ou cinco cervejas, diante de uma certa indecisão minha, ele disse que eu podia fingir que não era ele, e tirando os óculos, disse que ia fingir que não era eu. “Não seremos nós, seremos outros”, ele arrematara, e eu não pude negar aquele beijo imaginado. Estava apenas brincando, desfrutando o encanto dele diante da minha calma, experimentando aquela perspectiva interessante. “Você não está nem perto de onde eu estou, não é?”, ele constatara depois de uma tarde juntos, naquelas semanas. O caso é que chegar inofensivo é um passo para ficar. Não muito depois disso, atravessávamos a cidade de mãos dadas e nunca duas pessoas foram tão compatíveis. Eu me deixei ir, e quando dei por mim a sintonia fez parecer que nada era impossível para nós: tínhamos o mundo, tínhamos um ao outro. Elegemos uma cafeteria, um supermercado, uma livraria; lugares ao redor dos quais fazíamos um pequeno universo. Amansamos o tempo e soubemos, à nosso modo, fazer uma eternidade: quatro anos. Recordo essa época como um longa tarde de outono, alegre e doce, e ainda me vejo deitada no sofá da sala, lendo um livro, na serenidade de saber da presença dele no cômodo ao lado. Nos separamos no aeroporto, em uma noite de abril. Havia promessas de nos reencontrarmos, havia planos, mas de algum modo uma sombra nos tocou. Mesmo sem saber que era, ali, o final, choramos a verdadeira despedida. Na sala de embarque, recebi ainda uma mensagem dele: “você vai ser muito feliz, eu sei disso”, e caminhamos cada qual para o resto de sua vida. O que se seguiu foram madrugadas áridas, telefonemas que ecoaram como de outro mundo, e-mails sem assunto e históricos de conversas que nem o mais forte dos deuses releria. Nunca mais nos vimos. Às vezes eu apenas desejo que ele tivesse, naquela mensagem, feito uma profecia.

 

***

 

Na primeiras frases que recebi de M., eu estava certa de que me apaixonaria. Poderia mesmo existir alguém assim?, eu me perguntava. Muito rapidamente, senti que entrávamos em um patamar de diálogo muito difícil de ser atingido. Simplesmente não tive nenhuma força para questionar o que acontecia e disse a uma amiga – que repetiu depois minha frase com voz de incrédula – que eu “havia sido arrebatada”. Quando marcamos de nos encontrar, estava preparada para que, fosse ele como fosse, merecesse minha atenção, sem me importar com nada mais. Lembro-me de avistá-lo ao longe, alto, elegante, brilhando como uma manhã de sábado toda por acontecer. O momento em que percorremos aquele trecho de calçada um em direção ao outro, enquanto o mundo emudecia ao redor, está na minha memória como um instante radiante. Eu absorvia aqueles encontros com todos os poros. Depois de sonhar viagens, compartilhar confidências e assistir, lentamente, o rosto dele ser iluminado pelo dia nascendo, achei que tínhamos um grande patrimônio. Cinco meses mais tarde, em alguma madrugada, me vi com uma folha na mão, rabiscando repetidamente como talvez só tivera feito na adolescência: por que ele não me quer? por que ele não me quer? por que ele não… Achei que esquecê-lo fosse consumir todas as forças que eu tinha. Precisava fazer alguma coisa, caso quisesse sobreviver. Desenvolvi uma estratégia: ao invés de tentar apagar o sentimento, resolvi diluí-lo. Desfoquei minha paixão por M. em outras quatro, tão instantâneas quanto. Nenhuma seguiu muito longe, cada seguinte deixava de ter tanta eletricidade, mas o truque funcionou. Foi aí que vi com clareza algo que antes me parecia totalmente abstrato: o apaixonar-se por estar apaixonada. A experiência com M. me fez ver que a força do sentimento estava toda em mim. O êxtase, eu entendi, era meu. Ele fora, mais do que tudo, vítima das minhas fabulações. Compreendi desde então mais dos meus mecanismos, mas sigo buscando, mesmo que de outro jeito e sabe-se lá em que ruas, a sensação que só eu experimentei naquele dia: a de caminhar exatamente ao encontro do que se deseja.

 

***

 

Estava dobrando roupas despreocupadamente quando B. apertou a campainha. Havia o conhecido porque ele era colega de faculdade de uma amiga e em uma festa, começamos a conversar. Ele ria do meu sotaque e dizia que eu parecia com alguma atriz que eu nunca tinha ouvido falar. Gostei dele e senti que ele havia gostado de mim. Dois dias depois, ele apareceu na minha casa e disse que queria passear comigo. Enquanto percorríamos a avenida eu contava minha história para B. e estava recontando, também, para mim mesma. Logo me deixei acarinhar nos seus abraços e aprendi a gostar de ver a cidade desde a janela do apartamento dele, no sétimo andar da rua San Martín, para fazer meus problemas parecerem pequenos ali de cima. Quando, quatro meses mais tarde, eu disse que não poderíamos levar aquilo adiante, que não estava disposta a passar tempos sofrendo à distância e procurando passagens baratas de avião, lembro bem da chuva que me recebeu quando cruzei a portaria do prédio. A vontade de voltar que tive três quadras adiante, tomei o cuidado de reprimir. Nos meses que se seguiram, observamos a regra de não ligarmos mais um para o outro, e experimentei o gosto amargo de dispensar alguém que sabemos que gosta da gente e sentir-se pactuando com toda a canalhice que há no mundo. Eu sabia que era uma mentira: nunca media consequências quando me apaixonava, era ridículo o papel de precavida que eu inventara apenas para não dizer que ele não acendera todas as estrelas, que não podia apenas ceder ao conforto e que não o faria esperar por algo que nunca viria. Quando me mudei, no final daquele ano, nos vimos no meu último dia na cidade. Aquele reencontro pareceu ter despertado nele o perdão, e em mim, o arrependimento. O céu estava, de repente, aceso. Antes de tomar o táxi que nos levaria ao terminal, diante de uma mala enorme, caixas e sacolas abarrotadas, perguntei se ele cuidaria daquilo por um momento para que eu fosse buscar qualquer coisa dentro de casa. Eu te espero, ele dissera, e algo no tom de voz me fez corar. Gosto de pensar que somos, desde então, o amor desencontrado um do outro. Quando sinto como é difícil um lugar de onde olhar a vida de um ângulo melhor, sempre imagino que posso pegar a estrada, enfrentar a avenida de novo e apertar aquele interfone.

(São Paulo, março de 2014.)

A terra e o ar

“O desconhecido era meu compasso. O desconhecido era minha enciclopédia.”

 (Anaïs Nin)

“Tenha paciência com o não-resolvido em sua vida, e tente amar as perguntas.”

(Rainer Maria Rilke)

Por que deixar aquela cidade? Parecia que as razões eram muito claras. A cidade que eu sabia de cor as ruas, e mais que tudo, os rostos. A cidade onde ventava frio, no meio do continente, sem ideia de rio ou de mar. O sufoco dos verões, longe do que eu queria encontrar, longe do que acontecia – exceto o que não podia, não deveria acontecer. Era, sobretudo, o lugar que perdeu a inocência pela morte. Algo havia morrido. Cidades são, afinal, feitas de pedras e sonhos. Se a esperança acaba, o que resta é duro, muito duro.

Quando já estava na estrada, no entanto, deixá-la me pareceu um erro.  É um erro, eu pensava, estou cometendo um erro. Fui surpreendida. O caminho da serra, que eu não achei que o ônibus tomaria, manteve a cidade sob meu olhar mais tempo do que eu planejava. Olha que beleza esses morros, esses prédios quadrados, esses trilhos vazios! Tenho tudo o que preciso para ser feliz. Eu poderia voltar a sonhar aqui. Eu poderia. Já não podia explicar porque eu tinha que ir. Como somos bichos insatisfeitos, queremos tudo… Sentimos tédio, queremos avenidas largas para abrigar nossos novos sonhos, queremos parques para repousar nossos domingos. Queremos dinheiro, mas não queremos fazer qualquer coisa por ele. Precisamos encher a barriga, mas não pode ser com qualquer comida. Queremos quadras floridas, montanhas de concreto e queremos alma também. Temos sede, muita sede, e água definitivamente não nos basta.

A decisão que eu forjava há meses sucumbiu bem cedo: não foram necessárias mais do que uma ou duas curvas. Se alguém tem uma cidade cercada de morros, um gato e algum patrimônio em livros, não precisa de mais nada. Mais nada. Posso ficar aqui, me deixem aqui. Mas eu já não podia parar. Eu não estava dirigindo, não podia pisar no freio, então tive que seguir, mesmo contra minha vontade. Pensei que aquele poderia ser o último apelo da cidade. A última sedução para que eu ficasse. Mas eu resisti.

Fui resistindo e seguindo, que era a única maneira. Fui me acomodando no banco, já que antes, assediada por aquela imagem, vinha sobressaltada. Foi quando lembrei a primeira vez que viajei de avião. Lembrei como foram longos os preparativos. Eu comentava com os colegas da escola: daqui a tantos meses, vou andar de avião. Voar era raro. Era quase como se a pessoa mesma voasse sozinha. “Ela já voou”, se dizia, e era como uma faculdade especial. Lembro minha mãe chegando em casa com os bilhetes grandes e coloridos, impressos na agência de viagens, para serem guardados na gaveta onde ficavam as contas pagas e as certidões. Foram tardes imaginando, degustando antecipadamente aquele voo. Se alguém falava em voar, em avião, eu já afiava os ouvidos: aquilo me interessava, aquele assunto era meu. Diziam que quando a gente estivesse lá em cima dava pra ver as nuvens. Dava pra sentir as nuvens. Parecia incrível.

Mas ao chegar ao aeroporto, da sacada de onde se viam as decolagens, me mostraram o avião em que eu andaria. Então é esse? Diante das enormes máquinas transoceânicas, o meu era um filhote. Mãe, esse avião é muito pequeno, não dá pra trocar? Por favor, eu quero maior! Já não bastava sair do solo, tinha que ser o maior. Diante da troca impossível – mesmo que eu tivesse insistido, mesmo que eu não me importasse com a mudança do destino – só me restou chorar e dormir, muito contrariada. Não lembro nada, nem de nuvem, nem da sensação leve de decolar. Minha decepção apagou tudo.

Eu já sabia há muito, nunca é como a gente espera. Quando eu era pequena, minhas expectativas não cabiam em qualquer aeronave. Hoje, o temor de partir me faz perguntar o que teria, nesse meio-tempo, me ligado tanto ao chão. Pode ser que a ideia de voar estimule a ambição. A máquina alça voo e diz que podemos tudo e podemos rápido. No ar, a cidade que a gente deixa não dura muito tempo, só uns poucos minutos, e algumas vezes encoberta. No terreno andar do ônibus aprende-se outras coisas: não se pode ignorar um caminho. Enquanto um cruza o céu, falseando superpoderes, o outro nos mostra cada camada do trajeto. Então me entreguei ao tempo, ao infinito daquele dia que eu percorreria. Deixei que a terra fizesse o que sabe; que me mostrasse o que, de outra forma, não se deixaria ver.

Assim foi que, nas primeiras cidades, imaginei como seriam minhas saudades futuras. Já comecei a senti-las. Em cada casa isolada, aprendi uma solidão. Em cada plantação, uma espera. Mais adiante, escolhi como se chamariam os meus filhos. Depois decidi que eles nunca nasceriam. Mais um pouco e os aceitei de novo, mas com outros nomes. Ao cruzar para o próximo estado, descarrilei para uma trágica desesperança. Nunca as coisas fizeram tão pouco sentido. Paramos para jantar e os ânimos mudaram muito, recobrei minha força. Bem próximo a uma capital acreditei em Deus – foi uma fé curta, coisa de uns sessenta quilômetros – depois veio a descrença, talvez em alguma placa, em alguma ponte. Em seguida, fui ingênua e esperançosa durante toda a madrugada. Na última parada, ainda no breu, fiz uma promessa. Recriei minha existência. Tudo será novo daqui pra frente, eu jurei. Como as grandes cidades, nossa vida também tem mais de uma fundação.

E conforme avançava, eu cada vez mais ia me deixando ir. Sem esperar, de repente me invadiu uma enorme alegria. Tanta terra percorrida acabou trazendo de volta uma satisfação depositada em alguma região escondida. Suspeito ter encontrado, na altura do chão, a alegria do meu primeiro voo, que aos oito anos eu não soube ter. Aquela estranha satisfação era, talvez, o prazer de voar que eu só tinha experimentado sonhando. Algumas alegrias a gente aprende a sentir.

Quando o terminal imenso me recebeu, eu fui novamente posta à prova, nas primeiras horas da manhã. Precisava ter trazido tanto peso? Precisava mesmo ter vindo? Ah, se os humanos se inspirassem mais nos meios de transporte, quaisquer que fossem… Porque eles, no solo, na água ou do alto, saem de um ponto e vão a outro. Já nós, seres de carne e de dúvidas, somos feito de inúmeros, infinitos avanços e retrocessos. Mas, outra vez, não dava pra voar atrás. Pra não me contradizer, não negar todo o percorrido, minha opção era só seguir e ir, quem sabe, crescendo com o tempo, crescendo com a cidade. Essa foi a solução, até que houvesse outra melhor. Acho que é para isso mesmo que as cidades servem: para completar o que a estrada não conseguiu dizer.

(São Paulo, agosto de 2013.)

De olhos fechados

Santiago de Chile - Setembro de 2012

Depois que meus amigos seguiram viagem, fiquei um dia sozinha em Santiago do Chile. Isso alguma coisa deve significar. Conversei com pessoas que provavelmente nunca mais verei, comprei um lenço colorido, comi comidas estranhas.  A onipresença das cordilheiras faz ver tudo ao redor diferente. Dá pra assistir o pôr-do-sol vir chegando rosado pelas montanhas e os tremores que os nativos nem sentem fazem questionar o sentido da vida. Não se pode pra ignorar a geografia daquele lugar, ela acena em todas as partes.

Mas mesmo sem cadeias montanhosas ou sacolejos de placas tectônicas, quando viajamos sozinhos despertamos para o que está ao redor – porque mesmo em um lugar onde tudo é novo, se não temos a solidão, nem sempre podemos ver as coisas ao nosso modo. Controlando os próprios passos, aguçamos os ouvidos para as palavras nas ruas. Foi assim que capturei uma conversa entre mãe e filho, a qual tive o cuidado de anotar no meu caderno, companheiro de andanças. Era um garotinho com não mais que cinco anos, mãos dadas com a mãe pela praça, naquela idade precisa em que as crianças se valem livremente das palavras. Assim foi o pedaço de conversa que ouvi:

– Entonces hoy vas a conocerlo!

– Sí, yo lo conozco mamá, pero lo vi de ojos cerrados.

– Lo imaginaste, entonces.

– Puede ser.

(Santiago do Chile, Setembro de 2012)

Diário de viagem extraviada

Não sei quanto tempo durou a espera. Talvez tenha sido menos de um minuto, pouco mais de trinta segundos. Eu e uma cidade ventando frio no alto de uma madrugada, um lugar onde nunca antes havia pousado meus olhos. Enquanto eu tratava de colocar a mala na calçada, mal deu tempo de subir o olhar e o táxi já partira. Não me lembrei de pedir que esperasse. Foram longos aqueles cinco metros que percorri arrastando as rodinhas esfoladas da mala na calçada. Ali estava a porta, eu e minha bagagem. Não estava certa de que me abririam. Se não me abrissem, não havia como, para onde nem quem chamar, e naqueles segundos entre o som distante da campainha e o girar da maçaneta, senti um calor estranho. Uma vibração. Era o hálito do medo. Entrei. A verdade é que aquele não era o primeiro sopro de temor que eu sentia. Nas poucas horas de voo, mal deu tempo de pensar. Parece que em quinze minutos tudo já havia mudado. E era verdade.

Deve fazer uma semana ou uns dois anos que cheguei. Desde então, peregrino por Córdoba em busca de alguma coisa que não sei o que é. Compro livros que não vou ter tempo de ler, porque os dias são os mais curtos que já vivi. Misturo-me anônima entre mil rostos que não conheço e despenteio meu cabelo ao vento que sopra no parque. Faço amigos como criança na pracinha e desenvolvo planos econômicos que falham portentosamente. Me desloco até a universidade farejando padarias, enquanto assisto a primavera sair rosada pelos jacarandás renascidos – nem parecem os mesmos do inverno seco e polvorento que me recebeu. Por entre largas avenidas e estreitas calçadas, duelo com carros e praguejo em português. As flores que caem por cima dos capôs andam de carona por bairros de puro concreto e os lenços passeiam atados em longos cabelos. A realidade não cessa nunca de surpreender: todo dia me pego balbuciando palavras novas. Numa tarde, chove pedras, garoa e em seguida sai o sol, iluminando as gotículas no ar. Por entre os prédios de tijolo à vista do bairro de Nueva Córdoba, o arco-íris me manda uma mensagem que ainda não entendi. Sempre me pegam desprevenida, porque aqui não leio jornal, não vejo a previsão do tempo, não vejo televisão, não falo ao telefone, e por supuesto, não levo guarda-chuva.

Os dias me escapam, escorrem, e entre uma risada e outra me levaram a madrugada. A moça grávida que atendia naquele café sumiu; em poucos dias meu sobrinho já abrirá os olhos para esse mundo: é a vida que não para nunca de acontecer. E em outras temporadas, o tempo custa a passar como um trem velho. Melhor descer do vagão e caminhar a pé, seria mais rápido. Tem dias que o tempo anda mais devagar que a fila no Banco de La Nación – mas a gente não pode descer do tempo, nem controlá-lo. Nem mesmo podemos sentar-nos no chão para esperar: temos que aguentar em pé. Nos dias mais difíceis, escapo da melancolia recorrendo La Cañada como uma fugitiva, para na luz da próxima manhã saltar do andar de cima do beliche e pensar que ainda preciso aprender um monte de coisas mais. Me apaixono e desapaixono, e com tanta paixão uma hora me canso e entro num bar para sonhar. Aprendo que a solidão é necessária, e quando todos se foram da casa, meu quarto silencioso em uma tarde é um presente. Finjo que o espaço é todo meu e até imagino minha gata escondida no roupeiro embutido. Fujo dos amigos para em seguida bater de porta em porta, desesperada. É que numa dessas esquinas arredondadas de Córdoba, solidões se encontram e tomam estranhas misturas de quarta a domingo.

Ninguém adivinha de onde venho e sei que não sou desse Brasil alegre que me falam, tampouco me sinto dessas terras. Não pertenço, por fim, a nada. Em teoria era tão bonita a vida de forasteira… Ah, claro, eu tinha falado e pensado tanto sobre a grande jornada, sobre conhecer os limites, mas não fazia ideia do quanto estava falando sério. Pensava nisso tudo enquanto flanava distraída, escutando uma dessas músicas alegres que a gente canta como uma reza, buscando sem muita esperança meu ponto de equilíbrio pela Veléz Sarsfield. De repente, a voz robótica do aparelho assalta os fones de ouvido para uma aclaração importante: bateria fraca. “É, eu também”, penso, e mesmo podendo ouvir uma canção mais, enfrento o silêncio até a porta de casa.

Subo para o andar mais alto para um balanço de perdas e danos. A adaptação me havia custado um agosto inteiro: eu tinha aprendido ao menos o necessário para sobreviver e quando vi já era hora de voltar a tatear no escuro. Alguém teve que, de novo, me abrir a porta. Tive que recomeçar a costurar ponto por ponto da rotina. Agora preciso estender todos meus sentimentos no varal da terraza e esperar secar. Preciso esperar outra pele pra recobrir minha carne viva. As lições foram duras, eu bem sei, mas a gente precisa aprender a perder. Alguns escalam o Aconcágua, outros cruzam os Andes com o coração roto; cada qual com seus desafios.

Mirando o farol do Parque Sarmiento, inútil nessa terra firme, penso que há algo bonito até na tristeza. E aí lembro que eu mesma que escolhi. Temos que bancar nossas escolhas, e – pior – também o que não escolhemos. Assim, como quem aceita um destino, como adaptar-se ao vento que sopra. E justamente nessa noite, ele é calmo, morno, não desafia a resistência dos prendedores, não arrasta as peças de roupa para a vizinhança, como costuma fazer. A noite é cálida, feita só para mim. O céu aberto perdoa meus lamentos, meus reclames, minhas ingratidões. Córdoba é generosa, me redime de tudo: me aceitou de volta mesmo eu tendo voltado amarga, cabisbaixa. Me abraçou como um dos seus. Então é verdade que muito azar vem sempre com muita sorte… Não haveria nem um tempo nem um lugar melhor para se viver do que nessa cidade, nessa primavera.

(Córdoba, AR, outubro de 2012.)

A melhor viagem

No dia da melhor viagem que já fiz, acordei atrasada. E a viagem só durou um dia. Acordei na manhã já irremediavelmente instalada e em 5 minutos já tinha saído de casa com a primeira roupa que eu vi, de cabelos molhados e absolutamente desmaquilada. Porque eu iria fazer aquela viagem tão bonita e minha vaidade tinha planejado várias camadas de rímel, uma a uma, antes de o sol nascer – para fingir que a gente já acorda assim, sabe? Só fui recuperar a dignidade bem depois, já em meu destino, quando ele, depois de jurar que eu estava linda daquele jeito mesmo, espontaneamente tinha dito que eu voltei do banheiro mais “luminosa”. Antes disso, cruzando a estrada, me fiz de forte e nem tomei remédio para não enjoar, ganhando como prêmio a oportunidade primeira de dormir nuns braços que muito mais vezes me fariam adormecer tranqüila.

Eu estava guardando dinheiro para alguma coisa – talvez fosse minha câmera fotográfica, talvez fosse alguma conta que eu tinha que pagar – mas peguei uma quantia desse tanto destinado e fui gastar na minha viagem de um dia. Porque eu estava com um pressentimento.

Viajei e comprei livros que depois nunca consegui ler – um porque me pareceu de fato ruim e outro porque era em francês, veja só, uma língua que eu não dominava e até agora não domino. Porque aqueles eram os tempos das grandes pretensões.

Passeei na cidade, andei por ruas que eu não conhecia, tomei cafés ruins e tomei bons cafés. Escovei os dentes dentro do banheiro minúsculo do restaurante que almoçamos, bem quando faltou luz. Comprei remédio para dor de cabeça, claro, porque ela viajou comigo – companheirismo é isso.

As praças estavam cheias de gente, crianças brotavam, pais buscavam essas mesmas crianças que tinham se perdido e o mundo parecia feliz porque as pessoas se acotovelavam em busca da boa literatura. Ou de bons preços, apenas. Cogitamos tirar uma foto com um lambe-lambe, fato que não foi levado adiante devido a nossa distração e aparente encantamento. Eu com um visual de atrasada e tu com aqueles óculos que tinhas pedido emprestado para poder ver bem os livros que traria. Coisa que não te impediu de comprar Carpinejar, autor que caiu no meu gosto mas não no teu – irônico porque lendo-o penso sempre e muito em ti.

Pavilhões com areia, chuveiros de sons, uma sentença cantada, Kant lido por uma criança de 6 anos e duas almas expulsas da exposição porque era hora de fechar as portas. E assim fomos, para o jantar num shopping qualquer e partirmos de volta.

Lá estávamos nós, no terminal cheio de gente e mala e coisas passando. Só que os ônibus tardavam e não tínhamos casa. A rodoviária era hostil e assim começamos a assediar ônibus aleatórios para perguntar se, por acaso, não passariam por Santa Maria. Até um que ia pro Chuí eu abordei, porque nessas horas de leve desespero a noção geográfica some.

Embarcamos. Uma vez mais, o imprevisível batia à porta: já não podíamos sentar lado a lado, como a ida. Entre nós, um corredor estreito que naquele momento parecia imenso, intransponível, e dois mal-amados que se negaram, mesmo sob nossos pedidos gentis, a trocar de lugar – para eles, roguei maldições terríveis que até hoje reverberam no cosmos.

Em horas como essa, o que se faz é estender a mão e encontrar a mão que te espera no além-corredor, mesmo que algo inesperado, como um pé humano vindo do banco de trás, surja aparentemente do nada, se pondo entre nós e fazendo do ataque de risos a única solução viável.

Ou ficar em silêncio de mãos dadas e ler nos lábios algo que você não sabe se entendeu bem (parece que sim, mas está escuro) e responder que, sim, eu também, e não saber se a outra pessoa também entendeu. Levar para casa o dito pelo não dito, o mistério e a alegria baseada numa grande, enorme pretensão de ter nessa vida ingrata a conjunção de amar e ao mesmo tempo ser amado. Isso sim, deixa a gente luminosa. Foi a melhor viagem que fiz.