Memória

Eu vim de Piripiri

Paulo Diniz foi quem me ensinou sobre o esquecimento. Estava no acervo de discos do pai, arrumados em uma estante fora do alcance dos meus olhos. Pela manhã, entre o cheiro de café e o perfume que ele usava antes de sair para trabalhar, Diniz soava sua rouquidão pernambucana. Ouvindo “Como vou deixar você” e “Um chope pra distrair”, senti pelas primeiras vezes um peso no peito, sem entender ainda do que se tratava. Hoje, sei que era algo como a tristeza –  eu, de tão pequena, ainda não conhecia, mas pode ter sido através daquela voz que eu começava a suspeitar.

Não voltei mais a ouvir. Vinte anos depois, ao me deparar com uma coleção de vinis, a capa de ilustrações azuis apareceu feito um cartão postal da Rua Olavo Bilac, onde morei até meus sete anos. Com uma urgência incomum, quis colocar para tocar, em um ato arriscado de acionar um mecanismo que eu desconhecia o funcionamento – não a vitrola, tão simples, mas a máquina das lembranças, que age sempre de modo tão inesperado.

Nunca entendi quem idealiza o passado, quem desgasta a nostalgia repetidamente. Se eu tivesse continuado a ouvir Paulo Diniz ao longo dessas duas décadas, talvez sua voz não exercesse sobre mim a mesma força. A agulha no disco restituiu em mim, naquela tarde, a emoção mais bruta da música. Se eu não tivesse esquecido, não poderia ter me sentido com cinco anos, olhando a cidade passar, indiferente àquele espanto denso e inesperado dentro de um apartamento qualquer. O tempo e o silêncio serviram para pôr sentido em versos que soaram tão leve-pesados, tão novo-velhos; serviram para o peito ter aprendido, ou ao menos intuído, algo sobre o amor, o desalento e as travessias.  E transbordou. Tive que ser aquele canoeiro – logo eu que nem sei remar, eu que nunca fui à Bahia. Resisto ao impulso de repetir. Em parte por medo dessa força, em parte para, quem sabe um dia, poder sentir de novo o mesmo assombro.

Três amores

Mapa antigo.

Em um amor, a maioria procura eterno lar. Outros, muito poucos, o eterno viajar. Estes últimos são os melancólicos, os que temem o contato com a terra-mãe. Quem mantiver longe deles a melancolia do lar é quem eles procuram.

(Walter Benjamin, Rua de mão única)

 

Com V., o amor só chegou depois. Eu desacreditava que um dia poderíamos ficar seriamente juntos. O primeiro beijo foi negociado: depois de quatro ou cinco cervejas, diante de uma certa indecisão minha, ele disse que eu podia fingir que não era ele, e tirando os óculos, disse que ia fingir que não era eu. “Não seremos nós, seremos outros”, ele arrematara, e eu não pude negar aquele beijo imaginado. Estava apenas brincando, desfrutando o encanto dele diante da minha calma, experimentando aquela perspectiva interessante. “Você não está nem perto de onde eu estou, não é?”, ele constatara depois de uma tarde juntos, naquelas semanas. O caso é que chegar inofensivo é um passo para ficar. Não muito depois disso, atravessávamos a cidade de mãos dadas e nunca duas pessoas foram tão compatíveis. Eu me deixei ir, e quando dei por mim a sintonia fez parecer que nada era impossível para nós: tínhamos o mundo, tínhamos um ao outro. Elegemos uma cafeteria, um supermercado, uma livraria; lugares ao redor dos quais fazíamos um pequeno universo. Amansamos o tempo e soubemos, à nosso modo, fazer uma eternidade: quatro anos. Recordo essa época como um longa tarde de outono, alegre e doce, e ainda me vejo deitada no sofá da sala, lendo um livro, na serenidade de saber da presença dele no cômodo ao lado. Nos separamos no aeroporto, em uma noite de abril. Havia promessas de nos reencontrarmos, havia planos, mas de algum modo uma sombra nos tocou. Mesmo sem saber que era, ali, o final, choramos a verdadeira despedida. Na sala de embarque, recebi ainda uma mensagem dele: “você vai ser muito feliz, eu sei disso”, e caminhamos cada qual para o resto de sua vida. O que se seguiu foram madrugadas áridas, telefonemas que ecoaram como de outro mundo, e-mails sem assunto e históricos de conversas que nem o mais forte dos deuses releria. Nunca mais nos vimos. Às vezes eu apenas desejo que ele tivesse, naquela mensagem, feito uma profecia.

 

***

 

Na primeiras frases que recebi de M., eu estava certa de que me apaixonaria. Poderia mesmo existir alguém assim?, eu me perguntava. Muito rapidamente, senti que entrávamos em um patamar de diálogo muito difícil de ser atingido. Simplesmente não tive nenhuma força para questionar o que acontecia e disse a uma amiga – que repetiu depois minha frase com voz de incrédula – que eu “havia sido arrebatada”. Quando marcamos de nos encontrar, estava preparada para que, fosse ele como fosse, merecesse minha atenção, sem me importar com nada mais. Lembro-me de avistá-lo ao longe, alto, elegante, brilhando como uma manhã de sábado toda por acontecer. O momento em que percorremos aquele trecho de calçada um em direção ao outro, enquanto o mundo emudecia ao redor, está na minha memória como um instante radiante. Eu absorvia aqueles encontros com todos os poros. Depois de sonhar viagens, compartilhar confidências e assistir, lentamente, o rosto dele ser iluminado pelo dia nascendo, achei que tínhamos um grande patrimônio. Cinco meses mais tarde, em alguma madrugada, me vi com uma folha na mão, rabiscando repetidamente como talvez só tivera feito na adolescência: por que ele não me quer? por que ele não me quer? por que ele não… Achei que esquecê-lo fosse consumir todas as forças que eu tinha. Precisava fazer alguma coisa, caso quisesse sobreviver. Desenvolvi uma estratégia: ao invés de tentar apagar o sentimento, resolvi diluí-lo. Desfoquei minha paixão por M. em outras quatro, tão instantâneas quanto. Nenhuma seguiu muito longe, cada seguinte deixava de ter tanta eletricidade, mas o truque funcionou. Foi aí que vi com clareza algo que antes me parecia totalmente abstrato: o apaixonar-se por estar apaixonada. A experiência com M. me fez ver que a força do sentimento estava toda em mim. O êxtase, eu entendi, era meu. Ele fora, mais do que tudo, vítima das minhas fabulações. Compreendi desde então mais dos meus mecanismos, mas sigo buscando, mesmo que de outro jeito e sabe-se lá em que ruas, a sensação que só eu experimentei naquele dia: a de caminhar exatamente ao encontro do que se deseja.

 

***

 

Estava dobrando roupas despreocupadamente quando B. apertou a campainha. Havia o conhecido porque ele era colega de faculdade de uma amiga e em uma festa, começamos a conversar. Ele ria do meu sotaque e dizia que eu parecia com alguma atriz que eu nunca tinha ouvido falar. Gostei dele e senti que ele havia gostado de mim. Dois dias depois, ele apareceu na minha casa e disse que queria passear comigo. Enquanto percorríamos a avenida eu contava minha história para B. e estava recontando, também, para mim mesma. Logo me deixei acarinhar nos seus abraços e aprendi a gostar de ver a cidade desde a janela do apartamento dele, no sétimo andar da rua San Martín, para fazer meus problemas parecerem pequenos ali de cima. Quando, quatro meses mais tarde, eu disse que não poderíamos levar aquilo adiante, que não estava disposta a passar tempos sofrendo à distância e procurando passagens baratas de avião, lembro bem da chuva que me recebeu quando cruzei a portaria do prédio. A vontade de voltar que tive três quadras adiante, tomei o cuidado de reprimir. Nos meses que se seguiram, observamos a regra de não ligarmos mais um para o outro, e experimentei o gosto amargo de dispensar alguém que sabemos que gosta da gente e sentir-se pactuando com toda a canalhice que há no mundo. Eu sabia que era uma mentira: nunca media consequências quando me apaixonava, era ridículo o papel de precavida que eu inventara apenas para não dizer que ele não acendera todas as estrelas, que não podia apenas ceder ao conforto e que não o faria esperar por algo que nunca viria. Quando me mudei, no final daquele ano, nos vimos no meu último dia na cidade. Aquele reencontro pareceu ter despertado nele o perdão, e em mim, o arrependimento. O céu estava, de repente, aceso. Antes de tomar o táxi que nos levaria ao terminal, diante de uma mala enorme, caixas e sacolas abarrotadas, perguntei se ele cuidaria daquilo por um momento para que eu fosse buscar qualquer coisa dentro de casa. Eu te espero, ele dissera, e algo no tom de voz me fez corar. Gosto de pensar que somos, desde então, o amor desencontrado um do outro. Quando sinto como é difícil um lugar de onde olhar a vida de um ângulo melhor, sempre imagino que posso pegar a estrada, enfrentar a avenida de novo e apertar aquele interfone.

(São Paulo, março de 2014.)

Roteiro sentimental da cidade de Itaara

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Embarcamos no chevette branco do meu pai. O que mais lembro dos carros que usávamos são os ruídos: o estalo metálico da porta, o clic das travas mecânicas, a fechadura do porta-luvas. No som, desde a Avenida Medianeira, Bee Gees, Stevie Wonder ou Cartola – e posso ouvir, lá pela metade da viagem, o tlec-tlec da fita sendo trocada de lado. Me acomodo bem no meio do banco de trás, apoiando as mãos no encosto dos bancos onde só andavam adultos.

– Pai, que dia é hoje?

Deveria ser alguns dos primeiros de 1992. O tempo passava mais lento. De Santa Maria até Itaara, era uma jornada. Cansava, tinha começo, meio e fim. Depois de me responder, ele comenta, como quem diz qualquer coisa:

– Em março, vai começar a escola.

Aquilo me pareceu tão fatal. Em março, eu teria que ir para a escola, onde tínhamos que sentar em cadeiras separadas e escrever de caneta. Sabe o que acontece quando se escreve de caneta? Não dá pra apagar. Parecia que não tinha jeito, eles estavam decididos: eu iria para a escola. Mas antes, ainda bem, havia quase todo o verão. Eu não precisa saber dos dias, apenas de vez em quando verificava com alguém a quantas andavam os meses. Era uma estação imensa, era sempre verão em Itaara. Eu ainda não sabia ler, mas alguém sempre avisava na placa do viaduto: “saímos da cidade”. Apenas agora posso reconhecer que aquela foi, para mim, a primeira fronteira.

***

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Passamos da portaria da Sociedade Concórdia de Caça e Pesca. A rota dos pinheiros nos conduz até bem próximo do bar, onde estacionamos. Espalhados ao redor, havia viveiros de pavões, casinhas de boneca e estátuas de duendes, além de diversas crianças, com as quais nos misturávamos. E um lago, onde nadei por tardes inteiras. Uma vez, havia avistado sapos nas bordas, o que fez com que passasse a entrar na água com muito mais cuidado, por um bom tempo. Meu irmão estava sempre andando de bicicleta, o tempo todo. De vez em quando, alguém perguntava: “onde anda esse guri?”, e outro respondia “tá por lá”, localizando minimamente a rota que ele fazia, da ponte para cá, daquelas árvores pra lá, e estava tudo bem. Saindo do lago, tenho nos pés a sensação das tiras de pano dos meus chinelos molhadas – isso tudo se passou antes da popularização das havaianas.

Cruzando a ponte, uma área onde rareavam os brinquedos e havia mais mato. Era onde ficava também a sede dos escoteiros. É claro que eu queria ser uma também, mas não fui, minha mãe nunca deixou. Provavelmente devido a uma grande insistência, cheguei a participar de algumas atividades dos escoteiros sem ser uma. Deve ser essa minha primeira experiência como uma enviada. Não me tornei um deles, mas eu fui lá e vi como era. Não ter sido escoteira me tornou, talvez, o que eu sou hoje: uma curiosa inveterada, uma relatora de pequenos incidentes ou simplesmente alguém que inventa as coisas por si mesma. Porque afinal, eu não aprendi a dar nós, a fazer fogueira, a contabilizar boas ações. Tive que dar jeito de me mover no mato à meu modo, de explorar as coisas como podia.

Isso foi, muitas vezes, bastante interessante. Foi em um desses verões no clube que, durante um acampamento com a família, tomei a decisão de que passaria a me chamar Raquel. Não funcionou muito bem. As pessoas se mostraram, em matéria de trocas de nomes, extremamente conservadoras. Mas eu havia tentado. Nos últimos tempos, eu tinha conseguido grandes vitórias: andar de bicicleta, nadar e eventualmente até pegar alguns peixes sozinha. Ainda estava testando os limites do mundo. Itaara era uma enorme hortênsia azul.

 ***

Oásis

Estou dentro de um dinossauro. Um dinossauro oco de cimento, e aqui dentro minha voz faz um eco interessante. De repente, me pergunto se os dinossauros seriam como os extraterrestres. Todo domingo à noite passava alguma coisa na televisão sobre os extraterrestres, o que me matava de medo. Eram quatro ou cinco dias para esquecer, e aí, no outro domingo, o terror começar de novo. Mas não, os dinossauros não deviam ser tão temíveis, são apenas lagartos bem grandes. Logo fujo pela boca, em um ato de coragem pulo do alto do dinossauro, me vomito de dentro do bicho de concreto e tenho um novo objetivo: andar de teleférico.

Estamos percorrendo o zoológico. Achei ele tão, tão parecido comigo. Será que… me entendia? Será que se eu dedicasse tempo suficiente conversando com ele, poderia me entender? Não pude saber. Quando, muitos anos depois, pensando no quanto podemos nos enxergar nos animais, foi espelhada naquela mirada intensa com o macaco do zoológico do Parque Oásis que eu pude entender. Olho no olho, eu era o macaco. Ele era eu mesma. Mas a conversa ficou pra depois. Estávamos a passeio, era logo a hora de seguir adiante, as cobras, os hipopótamos, as capivaras.

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Hoje acho que contemplar aquelas estátuas disformes e os castelos kitsch do parque Oásis é, de certa forma, nos deparar com a nossa própria inocência. Porque realmente acreditávamos neles, gostávamos deles. Porque eles estavam ali, sempre estiveram, ninguém os havia colocado, eles existiam desde o começo dos tempos. A tristeza do parque hoje abandonado tem menos a ver com a habitual melancolia das coisas fracassadas do que com a nossa localização no mundo, nós do final dos anos oitenta. Aqueles trens parados, aqueles teleféricos enferrujados, as jaulas vazias, são todas ruínas que não param de nos contar como faz tempo. Dentro dos nossos carros, aceleramos na frente do parque só para não lembrar que nossa infância acabou.

***

Alugamos uma variedade incrível de casas no Balneário Lermen. Fomos inquilinos por largas temporadas. Experimentamos casas pequenas, grandes, de madeira, com piscina, de tijolos à vista, com escada caracol, de pedra, enormes, triste e alegres. Sempre havia colchões espalhados, roupas órfãos, protetores solares extraviados. Nas gavetas e nos roupeiros, encontrávamos vestígios dos que habitavam a casa no resto do ano. Acabávamos sempre nos perguntando, supondo o que queria dizer cada objeto. Olhávamos fotografias de desconhecidos, descobríamos as profissões dos outros moradores por indícios: uma caneca de uma empresa, algum papel, uma caixa de ferramentas. Nas pistas das casas, naqueles anos, aprendemos a contar histórias por fragmentos.

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Com os pés na água do lago que havia por ali, lembro de ter lido em voz alta, com uma amiga, o Best seller daqueles tempos: Coisas que toda garota deve saber. Nadar o dia inteiro já não tinha aquele mesmo gosto. Parece que queríamos mais, mas o quê?

– Oi, tudo bem? Qual é teu nome? Vocês vão ficar por aqui? É, a gente tá naquela casa.Tenho treze, e tu?

Em um desses verões no Lermen, minha primeira ousadia amorosa. Atravessei toda a extensão daquelas ruas internas, na escuridão da noite, para escutar, em um orelhão na estrada: “eu sabia que tu ia ligar”. Havia amor antes do celular. Eram intensos os primeiros anos 2000. Itaara era um imenso céu estrelado e eu voei.

***

 O ônibus começa, enfim, a viagem pra valer. Não havia pensado direito na rota, e quando vi, tomamos a BR 158 e subimos a serra. Passamos a ponte sobre o vale onde, não importa pra onde se olhe, não há como ignorar o verde. Acabo me dando conta que um dos postais da minha cidade é, na verdade, uma saída. Estou deixando minha cidade. Não, isso seria pouco. Na curva das serras, sei que na verdade estou deixando as minhas cidades. Itaara é um pinheiro no meio da estrada, que espera e sabe que eu sempre vou voltar.

garganta

(Itaara, janeiro de 2014)

[fotos: Acervo digital do Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria]

Manhã de domingo

Passam alguns minutos das oito da manhã. Faz bem pouco que cheguei. Ao invés de, como sempre faço, chegar aqui perto do meio dia entrando e saindo de nuvens de fumaças de churrasqueiras espalhadas nas calçadas, andei pela manhã esbranquiçada de cerração. Não havia fumaça, sequer havia carvão nas churrasqueiras feitas de tonéis de metal cortados pela metade, modelo quase padrão do comércio de churrasco do bairro. O ar estava branco de cerração, da nuvem que desceu naquela manhã. Foi caminhando dentro da nuvem no chão que eu atravessei a Borges de Medeiros.

Cheguei, na verdade, um pouco atrasada. O desjejum já havia sido tomado: a xícara de café com leite e a fruta. O avô agora dorme na sua cadeira de rodas. Já encontrei a televisão ligada e me sento no sofá, com sono. Passa um programa dedicado exclusivamente a carros. Não há ninguém interessado em carros aqui.  Do público na sala, uma é somente pedestre, o outro anda de cadeira de rodas. Um dorme, a outra tem vontade de dormir. Sei que não sou obrigada a ver, mas não desligo; sem a tevê, há muito silêncio, pode ser que o avô acorde. Antes de sair, a cuidadora do turno anterior me deixou as recomendações. Meu almoço está pronto, minha tia se encarregou de deixar, basta aquecer. O do meu avô também, basta triturar.

Nove horas e dez minutos. Horário de Brasília, dizem na televisão. De Santa Maria também, complemento. De Buenos Aires igualmente, penso, que era onde eu me transportava naquele momento em devaneio. Ano passado eu morei nesse país aqui ao lado. Enquanto eu estava lá, meu avô também fez suas temporadas de viagens. Foi ao hospital. Pneumonia. O caderno de bordo que usaram para escrever a histórias dos dias da sua recuperação me conta o que eu não soube:

15:00 Nebulizei

17:00 Nebulizei

07:30 Febre 37.8. Dei remédio (50g)

09:00 Nebulização intermediária

00:00 Nebulizei.  Atrovent, Clenil A, Aerolim (seriam personagens? duendes? não, remédios para limpar os pulmões do avô)

09:30 Noite (21:00) Diluí remédio Acetilcisteína

08:00 Nebulizei. Atrovent, Clenil A, Aerolim

Após às 18:00 já estava bem disposto conversando. Dormiu das 22h às 24h, e 4 às 06:30.

Assina os versos Márcia, cuidadora que sequer conheci. O caderno me conta da sua presença nos primeiros registros hospitalares. Depois, como o meu avô, ele foi pra casa. As empregadas anotavam quando faltava leite, quando um remédio acabava. De anotações, em seguida ele foi suporte para relatos de manhãs e tardes silenciosas. Cada turno tem seu boletim. Alguns mais telegráficos, outros mais detalhados. A pauta estava aberta, então uma filha escreveu das saudades da mãe, da máquina de costura que ela tinha na sala. Outra aproveita o espaço para deixar conselhos para passar o tempo. Acidentalmente, começamos uma narração colaborativa. O caderno talvez possa nos ajudar a entender, ou simplesmente suportar, aquilo que nos ultrapassa: silêncio e ausência. Dizem que quem não lembra mais já não tem história e, já que esses dias não são mais registrados pelo meu avô, anotamos. A prótese de memória não existia, então tratamos de criar uma feita em casa e à mão, com várias caligrafias.

Dez horas e oito minutos. Meu avô de repente, exclama: Mãe! Mãe! Me pergunto, sabendo e não sabendo a resposta, por onde andaria a mãe do meu avô. Anda tão longe, que chamá-la já não se alcança mais. Não sei quase nada sobre ela, sequer lembro seu nome. Talvez tenha escrito alguma coisa sobre a sua vida, embora seja pouco provável. Quem sabe alguém escreveu sobre a vida dela, mas também é pouco provável. Ouço meu avô chamá-la e não respondo, não digo nada. Deixo que o chamado se esconda de volta no tempo. Será que a minha bisavó sabia escrever?

Dez horas e quarenta e cinco minutos. Horário do bairro Salgado Filho. Por alguma razão, a televisão se desliga. Alguém deve ter programado. Meu avô abre os olhos. Não foi programado por ninguém, sequer por mim. Digo oi. Ele levanta parte da sobrancelha direita. É o seu cumprimento para o momento. Ele volta a fechar os olhos, e eu decido cochilar até a hora do almoço.

Onze horas e trinta minutos. Ainda é cedo, mas almoçamos. O meu passa pelo microondas, o dele pelo liquidificador. Eu, embora sem pressa, almoço rápido. Meu avô, colher a colher. Alcanço o caderno na mesinha ao lado do telefone e escrevo minha contribuição. Começo assim: Passam alguns minutos das oito da manhã. Faz bem pouco que eu cheguei… 

O cheiro de carvão queimando anuncia que os trabalhos dos churrasqueiros na avenida já está avançado. Ainda temos uma tarde e o começo de uma noite. O sol na janela da cozinha nos conta que a nuvem que desceu pela manhã já foi esquecida.

(Santa Maria, julho de 2013.)

João

Meu avô é grande. Sempre foi. Dirigia carros grandes, plantava árvores que eu subia, construía cataventos, alcançava os cachos de uva na parreira. Hoje, mais de oitenta anos, continua sendo grande. Especialmente quando o corpo já não obedeceu mais, e as ideias, como nunca, se embaralharam. Meu avô tem o orgulho intacto. Todos os anos e todos os reveses sofridos não lhe tiraram os desejos de fuga. Amanhã eu vou embora, ele diz. Ficamos eu e ele contemplando, olho no olho, sua fuga impossível. Estamos no seu quarto, é o fim de uma manhã. Com a cama reclinada justamente para receber o sol, observo o amarelo dourado da sua íris, iluminada. Tenho a impressão os anos foram deixando seus olhos mais claros – ou talvez seja porque agora seu olhar se demora, perguntador, confuso. Por um momento ele lembra, e em seguida esquece, que não pode fugir. Amanhã.

Quem é ela, alguém pergunta. Sempre estão a testar sua memória, a desgastar a paciência de um deslembrado. É a Carolina, ele responde. Eu sorrio – não sou Carolina, mas poderia ser. Quem disse que avô tem que acertar nome? Se ele não lembra, acho que a envergonhada deveria ser eu e não ele. Eu sou pequena e ele é grande.

Passamos a tarde em silêncio. Ele suspira. Às vezes é um suspiro denso, parece que vem da infância. Às vezes é um suspiro comum, como quem percebe que a tarde vai caindo. Posso comer essa maçã, vô? (não é cruel dar o poder de escolha para quem já não escolhe? mas é um jogo que inventamos, brincamos assim). Pode, ele me responde, como quem faz uma concessão. Como se dissesse: não coma demais. E outras vezes ele muda o tom das respostas, diz: pode, mas dessa vez quer dizer: é óbvio, pegue o que quiser. Assim ele vai alternando. Vamos extraindo palavras, com alguns métodos desenvolvidos. Me dá isso aqui, ele me ordena, pedindo o meu pão. Mas tu já comeu, vô, eu argumento, tentando preservar minha torrada. Ah, é. Ele desiste. E ri, levantando as sobrancelhas.

Com o olhar ele investiga as próprias mãos. Tateia uma substância invisível, apalpa os próprios dedos. Às vezes se surpreende com o que vê, exclama: olha isso! Ele esquece a velhice mas a pele fina e mole das mãos o faz recordar. Esquece os aniversários, que comeu, que dormiu. Podemos esconder dele algumas verdades, fingir um nome que não temos, concordar com algumas das suas invenções; pode-se esquecer o tempo, o sono, a saciedade, mas não se pode esquecer as próprias mãos. É um instrumento indisfarçável, um fóssil ao alcance dos dedos. Suas mãos dizem o que ele não quer saber. Então, às vezes, ele chora. E como a fuga impossível, como uma criança, ele esquece também porque chorou.

Enquanto ele sente a pele das mãos, me surpreende olhando pra ele. Não sei até onde eu chego, não sei até que ponto ele me vê. Como se a gente soubesse o que as pessoas normalmente lembram. Como se a gente soubesse se nos ouvem quando falamos. Mesmo que eu seja outra pessoa, e ele esqueça. Então ele abre um sorriso. Depois se vira, apoia a mão no queixo, olha fixamente para algum lugar, que não a televisão. Para ir embora, ultimamente, não anunciamos a saída. Simplesmente saímos, como uma lembrança que se esquece. Como algo que se perdeu, e achamos que é melhor assim. Depois dos oitenta, mesmo a mais banal das despedidas ganha algo de definitivo. Ele segue sua observação calada, e eu acho que é um bom momento, vou deslizar para a porta. Mesmo assim, perifericamente, ele percebe minha movimentação. E desponta, atira a frase no meu colo: eu não gostaria que tu fosse embora. Não era uma ordem, nem sequer um pedido. Apenas uma observação. E eu, atrasando a ida, largo a bolsa de novo no sofá e penso: nem eu, vô, nem eu.

O mais cruel dos meses

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera,
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.

(…)

Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,
E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o canto dos grilos,
E nenhum rumor de água a latejar a pedra seca. Apenas
Uma sombra medra sob esta rocha escarlate
(chega-te à sombra desta rocha escarlate),
E vou mostrar-te algo distinto
De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece
Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;
Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.

(O enterro dos mortos, T. S. Eliot)

Sujo meus sonhos de realidade. Levo meus desejos ao extremo da ponta de um lápis. Não vejo nada. Existem palavras e eu existo. Essas foram as coisas mais certas que consegui. Amanheço de luz acesa. Sujo meus sapatos de rua. Saio para onde se vê meu rastro confuso, onde se espalha a casca que fui arrancando das horas; ruas e praças tão minhas, de tanto que pousei nelas os olhos. Vou atrás de um pensamento esquivo, que teima em não se enclausurar na casa, da revelação que não quer acontecer aqui: coisas diluídas em ar. Os sapatos voltam ao armário, eu volto ao quarto-de-não-dormir. Deslocamento nenhum.

Não quero passar um mês esperando o outro. Penso muito ou não penso? Sento-me na beirada da vida. Espero-a acontecer, assisto? Espectadora que desceu de um trajeto e quer ser passageira de outra coisa. Que coisa? Simplesmente outra. Em toda decisão, acima do burburinho dos conselhos e da prudência recolhida em cada esquina, estamos necessariamente sozinhos. Seja no nosso crescimento ou nos nossos fracassos, não levamos ninguém. Na hora mais silenciosa da madrugada, fazemos nossas piores perguntas e desenterramos respostas.

Recordo-me, quando criança, de gritar desesperadamente por uma dor de ouvido. Não que doesse tanto, mas eu não tinha certeza se iria acabar: aquela dor nunca me havia doído, nunca havia sarado dela. Toleramos bem melhor aquilo que conhecemos o ciclo. Nenhuma mulher sente todo mês o desconforto da cólica como naquela primeira vez em que nosso corpo parecia agir fora de nosso controle. Acometida de mal inédito, adoeci. Anoiteci. Duvidei que visse o dia em que me visse revigorada. Mas aos poucos, amanheceu: aprendi que em algumas enfermidades, cura é escolha. Doeu-me a ansiedade, a aflição de que o mundo pudesse parar de girar ou que a vida cessasse de acontecer. Angústia que me fez cega para ver que há um ano eu era outra, me embrenhava em caminhos tão diferentes e me dizia estagnada, como se não estivesse imersa no rio – no rio que passa, e é a nossa vida.

Mais sã (ou menos, na visão de alguns) faço-me então aqui presente. Agradeço a minha leitora única, pelas visitas e pela insistência tão amável. Nos perguntamos, as duas, embora ignorando em partes as razões uma da outra: terá esse caminho um coração? (e poderá alguém saber de razões que não sejam suas?). Arrisco sem medo algum essa semelhança nossa, orgulho e ruína, de querer coisas com coração. Queria ter o poder também de provocar outras, denunciar ausências, trazer ainda mais para perto outros corações.

Concluo que não quero ser triste nem alegre. Não quero esperar epifanias nem revelações. Meu sossego, muito que perdi… nem procuro. Meu ato inaugural: indigente, passo em revista por mim mesma, caminho sobre os sonhos caídos, dobro a esquina da falta de senso. Ruas limpas de lembranças. Desencaminho-me. Caio no endereço das coisas minhas, que pouco ou nada conheço.

(Santa Maria, abril de 2007)

De olhos fechados

Santiago de Chile - Setembro de 2012

Depois que meus amigos seguiram viagem, fiquei um dia sozinha em Santiago do Chile. Isso alguma coisa deve significar. Conversei com pessoas que provavelmente nunca mais verei, comprei um lenço colorido, comi comidas estranhas.  A onipresença das cordilheiras faz ver tudo ao redor diferente. Dá pra assistir o pôr-do-sol vir chegando rosado pelas montanhas e os tremores que os nativos nem sentem fazem questionar o sentido da vida. Não se pode pra ignorar a geografia daquele lugar, ela acena em todas as partes.

Mas mesmo sem cadeias montanhosas ou sacolejos de placas tectônicas, quando viajamos sozinhos despertamos para o que está ao redor – porque mesmo em um lugar onde tudo é novo, se não temos a solidão, nem sempre podemos ver as coisas ao nosso modo. Controlando os próprios passos, aguçamos os ouvidos para as palavras nas ruas. Foi assim que capturei uma conversa entre mãe e filho, a qual tive o cuidado de anotar no meu caderno, companheiro de andanças. Era um garotinho com não mais que cinco anos, mãos dadas com a mãe pela praça, naquela idade precisa em que as crianças se valem livremente das palavras. Assim foi o pedaço de conversa que ouvi:

– Entonces hoy vas a conocerlo!

– Sí, yo lo conozco mamá, pero lo vi de ojos cerrados.

– Lo imaginaste, entonces.

– Puede ser.

(Santiago do Chile, Setembro de 2012)

A dupla

                “No entanto, na infância as descobertas terão sido como num laboratório onde se acha o que achar? (…) Mas como adulto terei a coragem infantil de me perder?”

                                                               (A paixão segundo G. H., Clarice Lispector)

Li uma vez que a memória tem alguns movimentos ao longo da vida. Quando um determinado tempo passa, as lembranças de uma época começam a voltar. Devo estar envelhecendo, porque eventos da minha infância me assaltam com vividez. E me surpreendem. Mais precisamente de alguns anos, quando passava tardes e tardes sozinha. Me sinto presa nesse momento específico. Não parece ser coisa só minha, tem um escritor que se declarou preso no ano de 1982: “É minha Caverna do Dragão”, diz ele. Sempre estive cercada de gente, mas toda infância tem uma face de solidão, e parece que essas são as partes que eu mais me lembro. Se eu tivesse que ilustrar com uma imagem, seria de estar sentada no meio fio da calçada da minha rua, esperando que aparecesse alguém para brincar. Porque era algo que se fazia, lá pelos anos 90. Sentava-se na rua e dava-se a chance ao acaso para que alguém aparecesse. Mas também era possível inventar algo nesse meio tempo. Acho que foi mais ou menos por aí que eu me perdi. Sozinha eu tinha umas ideias um pouco complicadas de serem aceitas pelas outras pessoas, como costuma passar com as crianças. Lembro que uma vez, em umas férias acampando com a família, tomei uma decisão: a partir de hoje meu nome era Raquel. A novela do momento era Mulheres de Areia, e eu, do alto dos meus cinco anos, decidi que me chamaria com o nome da gêmea má, obviamente – não é de hoje a indisposição que tenho com as pessoas boazinhas. A primeira reação foi de riso. Não entendi bem a razão. Quer dizer que então mudar de nome não estava no rol das coisas possíveis? Tudo bem, mas eu tentaria.

– Giuliana, vem cá.
– Meu nome é Raquel.
– Giuliana, hora de almoçar.
– É Raquel.
– Gi…
– Raquel!!

Não durou muito, é verdade. Mas a bravura do intento entrou para o folclore da família. Com o passar dos anos, a coisa foi ficando mais elaborada. Inventei uma brincadeira sozinha que até hoje segue fazendo parte da zona enigmática da minha personalidade. Consistia no seguinte: eu criei uma personagem, Mariana. Talvez tenha escolhido esse nome pela terminação parecida com o meu, ou simplesmente porque eu gostava dele. Ela era como uma pessoa abstrata. A graça da brincadeira era que eu poderia ser Mariana, desde que eu encarnasse Mariana. Como se fazia isso? Indo até uma determinada árvore onde, subindo em um galho específico, eu passaria a ser ela. Era como uma cerimônia, eu deveria esperar alguns segundos deitada no galho da árvore para que se desse a troca. Certamente eu havia criado isso influenciada pelas coisas sobre espiritismo que eu ouvia, mas o curioso é que isso me matava de medo e eu ainda inventava de simular que estava recebendo uma entidade. Vai entender. Depois, poderia voltar a ser eu mesma, bastava que se cumprissem os requintes desse mesmo ritual. Era algo que durava certo tempo, e o controle de quando trocar era meu. Podia ser Giuliana por uns dias e Mariana por outros.

Havia um certo planejamento nessa alternância e cada uma tinha suas características e seus modos de ser. Não consigo me lembrar quais eram as características de cada uma – o que seria bastante interessante para me conhecer mais a fundo – mas sei que estar como Mariana, ou seja, estar encarnando essa personagem que não era eu, me dava certas liberdades. “Posso estar agindo estranho, mas é que ninguém sabe nem pode saber que na verdade estou sendo outra pessoa”, era mais ou menos assim o raciocínio. Não, ninguém poderia saber. Minha experiência como Raquel revelou que as pessoas eram extremamente conservadoras em termos de identidade. Só que nessa estratégia de não compartilhar houve um esquecimento. Um dia, sem nenhum porquê, me sobrevém um pensamento: eu esqueci de mudar para voltar a ser eu e estava com a personagem encarnada há meses. Então era isso, eu andava diferente, aí estava a razão. Poderia subir até aquela árvore para mudar, mas parecia que não fazia sentido. Eu estava bem assim, pra quê mudar? Segundo a lógica dessa minha brincadeira, sou uma impostora. Deixei minhas persona original no galho de uma árvore e vivo uma personagem. Essa sou eu.

Essa estranha possessão talvez explique porque falo sozinha. Pode ser eu mesma querendo voltar. Faço isso diariamente, sempre que posso, e se não falo, imagino que falo. Suponho que seja normal, algumas vezes escutei gente que também fazia isso. Em uma entrevista com o escritor Cristóvão Tezza, ouvi ele dizer que sempre que pensamos conversamos com um outro dentro da nossa mente, e acreditei. Quando nos vemos no espelho é o outro que nos vê no espelho. No meu caso, Mariana. O que me parece é que, a cada fase da vida, mesmo mantendo o nome, a gente se reinventa. Fabulamos novas características e temos até uns rituais pra fazer efeito. Seguimos assim, esquecendo de voltar pra quem a gente era, como se tivessem cortado aquela árvore onde a mágica acontecia. E não contamos pra ninguém, porque ninguém, além da gente mesmo, iria entender.

Feiras e flores de Neca Ceccin

O balde largo e vermelho abriga um bouquet variado. Posto no chão, em um canto da barraca, dele pendem, murchos, cravos, rosas vermelhas e brancas, margaridas, flores banais do campo. Parecem ter sido apanhadas do jardim da casa de alguém. Com o avançado da hora, o efeito do sol não poderia ter sido mais devastador. As cabeças de repolho, as endívias, as beterrabas e os salgados foram todos mais atrativos. Faltava apenas uma hora para o meio-dia e as flores acabaram esquecidas; sem outro destino, murcharam sob o sol. Nos mercados e nas floriculturas, talvez tivessem mais tempo de vida – mas nas feiras livres, as condições e as regras de sobrevivência são bem outras.

Verdade que as feiras livres já tiveram bem mais liberdades do que têm hoje. As mãos que colheram as flores sabem bem disso. Cresceram vendo o pai encher a carroça e atravessar a escuridão durante toda uma madrugada, levando de São Marcos, localidade do distrito de Arroio Grande, frutas e verduras para o centro de Santa Maria. Se a travessia era dura, as vendas eram melhores. E o espaço concedido às barracas, maior. Gislaine Ceccin chegava depois da carroça do pai, na rodoviária. Ela e a mãe o alcançavam no comecinho da madrugada, pegando um táxi, cheias de sacolas. Ele foi um dos que começaram a feira na Praça Saldanha Marinho, que acontece há décadas na cidade. Para comer, uma galinha assada que traziam em um isopor, no almoço improvisado sem deixar de atender os clientes. Para esses trabalhadores foi de fato uma felicidade poder deixar a carroça no passado, para fugir da chuva, do frio e do peso. Gislaine, ou Neca, como é conhecida, poderia narrar sua vida através da sequência de automóveis que a família adquiriu. Uma camionete Chevrolet das antigas, uma Topic, uma Hilux usada (quatro por quatro, ela frisa, andava em qualquer terreno). Gislaine, desde pequena, entendia que para o trabalho no campo era necessário força e capricho.

A infância se deu por entre as cores e os cheiros das feiras – de alguma forma ela poderia suspeitar que esse seria o seu destino. Os irmãos seguiram profissões diferentes, deram a ela sobrinhos e auxílio quando ela precisa, enquanto Gislaine foi a filha mais nova que ficou para ajudar o pai e a mãe. A escola que freqüentava, Margarida Lopes, no bairro Camobi, ela teve que abandonar. Mais tarde, com a doença do pai, foi ela quem teve que assumir a frente das plantações e negócios da família.

Neca sabe que seu ofício é o de ser uma espécie de mediadora entre o chão e o alimento. Uma encantadora de alfaces, couves e berinjelas. Uma feiticeira de poções em vidros reaproveitados de Nescafé. Uma artesã de rapaduras, salgados e pães. Pelas suas mãos, nascem cravos, palmas, rosas, bolachas, repolhos, abóboras. Não bastasse todo o preparo, Gislaine ainda faz parte desse grupo de resistentes: na contra-mão do mercado e a despeito das complicações, ela ainda é feirante. Carrega sua Topic branca e traz sua produção bem ao alcance dos que vivem longe do campo. Faz o pão de cada dia. Colhe o que plantou. Sustenta com o suor do trabalho. Coisas que para tantos são uma série de metáforas, para Gislaine são expressões literais. O mundo para ela não poderia ser mais concreto. Para os urbanos, longe das lavouras e dos processos de produção, tudo parece miraculoso. Os que mal manejam as panelas, nem sonham em entender como ela pode saber tanto de tanta coisa diferente: cana-de-açúcar, amendoim, tomates, galinhas e margaridas. O que ela planta? O que dá. Nada mais simples e abrangente.

No início da manhã de uma sexta-feira, durante a feira na praça, ela adoraria ter mais do que dois braços. Recita preços sem pensar, recebe dinheiro, alcança tomates, garante que, sim, a mandioca cozinha bem, e que os morangos são bem caseiros. “São nossos mesmo, bem naturais”, ela deixa claro sobre quase todos os produtos. Neca não vende quase nada que não seja produzido por ela mesma, e quando o faz, precisa garantir a procedência. O pote de mel ela revende só porque conhece quem produz – seus tios. Naquela última noite, tinha dormido uma hora apenas.

O pouco descanso poderia ser entrevisto no rosto de pele rosada, enquadrado por cabelos pretos de franja na testa e quase sempre presos. As orelhas são nuas, os olhos são verde-claros e tem a expressão decidida daqueles que tem muito a fazer. Giselda é corpulenta como as matronas italianas. Mas, diferente delas, não tem filhos. A feirante de 38 anos está noiva, mas um noivado que não tem data pra acabar: não sabe quando pretende deixar a casa da mãe. Narrando sua vida, ela costuma dizer que foi indo, foi indo. Depois que deixou a escola, foi indo e foi indo. Depois que o pai de endividou com a plantação de fumo, foi indo, foi indo. Quando conseguiu comprar um tratorzinho, foi indo e foi indo. Neca parece não pensar muito nas coisas que deixou pra trás.

***

Não precisar mais cruzar a noite em uma carroça não significa que as coisas tenham ficado mais fáceis para aqueles que produzem em pequenas propriedades. Santa Maria está longe de ser receptiva com os feirantes. Neca desfaz a expressão tranqüila para falar dos problemas que têm com a prefeitura. Antes colocados perto da Rua Venâncio Aires e com feira nas terças e sextas, hoje lhes restou o entorno das ruas Roque Calage e Ângelo Uglione e um único dia na semana, conquistados a duras penas com os vereadores. “Alguém ainda deve estar perdido da gente”, lamenta ela, temendo que a barraca, que acabou colocada bem em frente aos banheiros públicos da praça, esteja escondida demais para os clientes. Com cara de séria, ela diz que, se pudesse, a prefeitura colocava fogo nos feirantes. Gislaine deve saber do que fala. Bom mesmo é vender nos interiores, como em Caçapava do Sul. Nos rodeios e feiras, a população de uma cidade simples e pequena a recebe como se “estivesse chegando o governador”. Não consegue entender como uma cidade menor que Santa Maria, sem universidade nem nada, é mais receptiva e educada. Para se estabeleceu no centro da cidade, ganharam uma armação de madeira, frágil, que “vai durar até sabe-se quando” sobre a qual Neca estende uma lona amarela, dividida com outra feirante.

– Tem pimenta?

– Só pronta já.

– Eu queria só a fruta.

– Não tem. Eu tive que apanhar e fazer conserva porque ninguém queria, ninguém queria, eu ia perder tudo e esses tempo eu fiz assim, conservinha. Tá bem forte já.

– É que é pra um trabalho, eu não sei se serve.

– Ah, eu sei. Tira e seca. Aí tu tem que ver com quem vai fazer o trabalho pra ti se aceita.

– Preciso de sete.

– Deixa eu contar.

Gislaine diariamente batalha contra o envelhecimento das coisas que produz – a matéria viva do que é orgânico. São necessárias estratégias para conservar mais tempo o que ameaça perecer. Quando a perda se aproxima, ela atrasa o tempo com a imersão em caldas, ou em sal e vinagre. A couve chinesa, sem agrotóxicos, foi vitimada por mordidas de insetos. “É natural, eu tento explicar, mas tem gente que não gosta”. Para as flores que não viram conservas, murchas em um balde quase esquecido, ela revela a maneira de fazê-las reviver, com um tom de quem sabe um segredo: “aquelas ali, é só trocar a água colocar no sereno. Ficam novas como se estivessem no pé, tu precisa ver!”

E se a prefeitura da cidade se encarrega de fazer de tudo mais complicado, por outro lado os clientes tratam de compensar. Neca volta sempre de Topic mais leve, e as vendas começam já às 7 da manhã. Os bancos e escritórios no entorno da praça já a reconhecem. Uma senhora lhe traz potes de vidro vazios. Uma mulher pergunta se ela deixou separado um brócolis. Um homem com ar de bonachão pede desconto em um doce – ela não faz muito caso da pechincha. Ele oferece um preço, mais baixo do que ela dissera, e Gislaine faz de conta que não ouve. O homem sai, fingindo desagrado. “É, a gente trabalha muito, produz muito, mas parece que o lucro mesmo vai sempre diminuindo. Tem coisas que não vale a pena, sabe? Querem colocar preço nas coisas da gente.” Uns minutos depois, o homem está de volta. “Eu vou levar então. Quanto fica?” “Sete.”, declara ela, como se nunca tivesse respondido à pergunta. “Tá bom. Mas bem que tu poderia me dar uma rapadura de brinde…”

Austeras casinhas que se aventuram

“ (…) donde austeras casitas apenas se aventuran,
abrumadas por inmortales distancias,
a perderse en la honda visión
de cielo y llanura.”

Jorge Luis Borges

Dizem que a gente só mora em uma casa a vida inteira. Continuamos morando na mesma casa onde nascemos, mesmo que a tenham derrubado. A largura daqueles quartos, a extensão daquele pátio vai ser para sempre nosso modo infantil e inconsciente de medir os ambientes que nos cercam. Ao deixar a primeira casa em que habitamos, não há remédio senão nos sentirmos, no fundo, onde quer que estejamos, um pouco desalojados. Por isso, carrego para sempre comigo um chalé amarelo onde morei até meus três anos de idade, que hoje só existe nas minhas lembranças. Depois dele morei em outras casas, em prédios, embora nunca tenha me adaptado. Admito: sigo até hoje inconformada. Como uma filha das casas pequenas de madeira, sempre que avisto uma me enxergo um pouco. Sei que naquele vão embaixo da casa há sempre um mistério. Que no quintal deve haver uma horta, mesmo que pequena. Que as plantas ao redor da casa, por pouco ornamentais que sejam ou até mesmo as mais daninhas e sem vergonha, sempre carregam em si algo de espantoso e inimaginado para quem se detenha algum momento a olhá-las. O som dos passos no interior dessas casas permanece para sempre em quem morou nelas. Os moradores partilham um conhecimento que só se obtém com anos de escuta e observação, mas qualquer um, mesmo habitante dos apartamentos mais lacrados, com um pouco de sensibilidade pode sentir que entrar em uma dessas casas em um fim de tarde é como sentir um abraço. A razão pra isso é elementar: as casas feitas de madeira são diferentes porque as árvores possuem memórias que o tijolo não pode ter.

Assim como o centro de Santa Maria perde seus casarões para construírem prédios feios e sem riqueza arquitetônica alguma, os bairros perdem suas casinhas de madeira para que sejam construídos prédios igualmente feios e sem personalidade. Só que menores. Pintados de cores ainda mais enjoativas. Com sacadas tristemente minúsculas. Há quem pense que as roupas estendidas naqueles pequenos varais abarrotados são apenas roupas, mas aqueles mais atentos veem claramente que são bandeiras por liberdade. Provavelmente meu gosto por casas não faça sentido nenhum se analisado por outros pontos de vista – urbanos, econômicos, ou que quer que seja – mas ainda assim justifico que é minha formação interior que me fez assim, e as imperiosas razões da funcionalidade são, no meu raciocínio, simplesmente vencidas. Os prédios se estendem a quase os centímetros-limite do terreno, quase se encostam, apoiam-se uns nos outros como caixas ocas. A palavra pátio vem precisando cada vez mais de explicações, já que pouco a pouco cai na pura abstração.

Aqui onde moro, no bairro Bonfim, havia um desses chalezinhos: muro baixo, pintado de marrom, sem grades, um jardim alegremente bagunçado. Ao fundo se antevia uma parreira, e eu de passada espichava o pescoço para saber mais, quem sabe vislumbrar outro elemento do cenário. Em frente à casa, um senhor sentava durante horas quase todas as tardes, brincando e conversando com um bebê de pouco mais de um ano, que deduzi ser sua neta. Ele parecia às vezes mais alegre, noutras vezes mais fraco, mais calmo. Suas roupas não eram de quem chegava ou saía de algum lugar, eram de uma estadia contínua em casa, e ao ver um dia um curativo em um dos seus braços, me perguntei se ele estaria doente. Em vários horários cruzava por eles, voltando para casa, ou subindo a rua para alcançar o ônibus. Passamos a nos cumprimentar, mesmo sem nunca termos conversado. Talvez ele estranhasse meu interesse, meu modo de olhar; trocávamos sorrisos, a pequenina reagia a minha presença acenando os bracinhos.

Amanheceu um dia em que não havia casa, não havia velho, não havia criança. Havia uma terra revolvida e alguns tapumes. Senti-me traída, apunhalada. Não vi nem mesmo as madeiras caídas, não pude velar o pequeno chalé, aceitar sua perda. Ficava imaginando a pouca resistência que deve ter oferecido, entregando sua estrutura nos primeiros golpes. Já uma daquelas máquinas de fazer cimento se postava, implacável, em frente ao terreno. Logo começou a construção, que não trouxe surpresa alguma’. Um prédio quadrado, feio, com janelas gradeadas. Um mísero metro quadrado de grama, no jardim em frente. Um nome pomposo como qualquer prédio, de preferência em idioma estrangeiro, sugerindo algo muito requintado para disfarçar a tristeza de não ser um chalé de madeira com jardim, árvore e criança brincando.  Em seguida, não demorou para que outras três casas na mesma rua tivessem o mesmo destino. Há uma que se encontra sitiada, roubada de sol, vizinhando com dois prédios, mas resistente com uma nobreza exemplar – nobreza de árvore, como diria Manoel de Barros. Os chalés, já velhos, alguns de pintura descascada, estão em extinção. Alguns, cansados, vendo a o panorama de derrubadas e os maus tempos, se entortam, pendem para um dos lados como se quisessem descansar e desistir. Há tanta coisa preocupante, tanta urgência, e às vezes me pego pensando nesse problema: estão se acabando as casas de madeiras no bairro Bonfim. As novas construções, com suas sacadas diminutas, portões zumbindo como besouros, cartazes convocando para tediosas reuniões de condomínio, vão estar em todos os terrenos. Eu vou precisar então caminhar mais para encontrar algo que espelhe minhas lembranças mais antigas.  As crianças vão precisar de outros jardins e outros quintais, ou talvez nem sintam que precisem. O que sei é que a memória é implacável: ter nascido em uma casa dessas me condena a ficar triste por todas as outras que já se foram.