Infância

Eu vim de Piripiri

Paulo Diniz foi quem me ensinou sobre o esquecimento. Estava no acervo de discos do pai, arrumados em uma estante fora do alcance dos meus olhos. Pela manhã, entre o cheiro de café e o perfume que ele usava antes de sair para trabalhar, Diniz soava sua rouquidão pernambucana. Ouvindo “Como vou deixar você” e “Um chope pra distrair”, senti pelas primeiras vezes um peso no peito, sem entender ainda do que se tratava. Hoje, sei que era algo como a tristeza –  eu, de tão pequena, ainda não conhecia, mas pode ter sido através daquela voz que eu começava a suspeitar.

Não voltei mais a ouvir. Vinte anos depois, ao me deparar com uma coleção de vinis, a capa de ilustrações azuis apareceu feito um cartão postal da Rua Olavo Bilac, onde morei até meus sete anos. Com uma urgência incomum, quis colocar para tocar, em um ato arriscado de acionar um mecanismo que eu desconhecia o funcionamento – não a vitrola, tão simples, mas a máquina das lembranças, que age sempre de modo tão inesperado.

Nunca entendi quem idealiza o passado, quem desgasta a nostalgia repetidamente. Se eu tivesse continuado a ouvir Paulo Diniz ao longo dessas duas décadas, talvez sua voz não exercesse sobre mim a mesma força. A agulha no disco restituiu em mim, naquela tarde, a emoção mais bruta da música. Se eu não tivesse esquecido, não poderia ter me sentido com cinco anos, olhando a cidade passar, indiferente àquele espanto denso e inesperado dentro de um apartamento qualquer. O tempo e o silêncio serviram para pôr sentido em versos que soaram tão leve-pesados, tão novo-velhos; serviram para o peito ter aprendido, ou ao menos intuído, algo sobre o amor, o desalento e as travessias.  E transbordou. Tive que ser aquele canoeiro – logo eu que nem sei remar, eu que nunca fui à Bahia. Resisto ao impulso de repetir. Em parte por medo dessa força, em parte para, quem sabe um dia, poder sentir de novo o mesmo assombro.

Roteiro sentimental da cidade de Itaara

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Embarcamos no chevette branco do meu pai. O que mais lembro dos carros que usávamos são os ruídos: o estalo metálico da porta, o clic das travas mecânicas, a fechadura do porta-luvas. No som, desde a Avenida Medianeira, Bee Gees, Stevie Wonder ou Cartola – e posso ouvir, lá pela metade da viagem, o tlec-tlec da fita sendo trocada de lado. Me acomodo bem no meio do banco de trás, apoiando as mãos no encosto dos bancos onde só andavam adultos.

– Pai, que dia é hoje?

Deveria ser alguns dos primeiros de 1992. O tempo passava mais lento. De Santa Maria até Itaara, era uma jornada. Cansava, tinha começo, meio e fim. Depois de me responder, ele comenta, como quem diz qualquer coisa:

– Em março, vai começar a escola.

Aquilo me pareceu tão fatal. Em março, eu teria que ir para a escola, onde tínhamos que sentar em cadeiras separadas e escrever de caneta. Sabe o que acontece quando se escreve de caneta? Não dá pra apagar. Parecia que não tinha jeito, eles estavam decididos: eu iria para a escola. Mas antes, ainda bem, havia quase todo o verão. Eu não precisa saber dos dias, apenas de vez em quando verificava com alguém a quantas andavam os meses. Era uma estação imensa, era sempre verão em Itaara. Eu ainda não sabia ler, mas alguém sempre avisava na placa do viaduto: “saímos da cidade”. Apenas agora posso reconhecer que aquela foi, para mim, a primeira fronteira.

***

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Passamos da portaria da Sociedade Concórdia de Caça e Pesca. A rota dos pinheiros nos conduz até bem próximo do bar, onde estacionamos. Espalhados ao redor, havia viveiros de pavões, casinhas de boneca e estátuas de duendes, além de diversas crianças, com as quais nos misturávamos. E um lago, onde nadei por tardes inteiras. Uma vez, havia avistado sapos nas bordas, o que fez com que passasse a entrar na água com muito mais cuidado, por um bom tempo. Meu irmão estava sempre andando de bicicleta, o tempo todo. De vez em quando, alguém perguntava: “onde anda esse guri?”, e outro respondia “tá por lá”, localizando minimamente a rota que ele fazia, da ponte para cá, daquelas árvores pra lá, e estava tudo bem. Saindo do lago, tenho nos pés a sensação das tiras de pano dos meus chinelos molhadas – isso tudo se passou antes da popularização das havaianas.

Cruzando a ponte, uma área onde rareavam os brinquedos e havia mais mato. Era onde ficava também a sede dos escoteiros. É claro que eu queria ser uma também, mas não fui, minha mãe nunca deixou. Provavelmente devido a uma grande insistência, cheguei a participar de algumas atividades dos escoteiros sem ser uma. Deve ser essa minha primeira experiência como uma enviada. Não me tornei um deles, mas eu fui lá e vi como era. Não ter sido escoteira me tornou, talvez, o que eu sou hoje: uma curiosa inveterada, uma relatora de pequenos incidentes ou simplesmente alguém que inventa as coisas por si mesma. Porque afinal, eu não aprendi a dar nós, a fazer fogueira, a contabilizar boas ações. Tive que dar jeito de me mover no mato à meu modo, de explorar as coisas como podia.

Isso foi, muitas vezes, bastante interessante. Foi em um desses verões no clube que, durante um acampamento com a família, tomei a decisão de que passaria a me chamar Raquel. Não funcionou muito bem. As pessoas se mostraram, em matéria de trocas de nomes, extremamente conservadoras. Mas eu havia tentado. Nos últimos tempos, eu tinha conseguido grandes vitórias: andar de bicicleta, nadar e eventualmente até pegar alguns peixes sozinha. Ainda estava testando os limites do mundo. Itaara era uma enorme hortênsia azul.

 ***

Oásis

Estou dentro de um dinossauro. Um dinossauro oco de cimento, e aqui dentro minha voz faz um eco interessante. De repente, me pergunto se os dinossauros seriam como os extraterrestres. Todo domingo à noite passava alguma coisa na televisão sobre os extraterrestres, o que me matava de medo. Eram quatro ou cinco dias para esquecer, e aí, no outro domingo, o terror começar de novo. Mas não, os dinossauros não deviam ser tão temíveis, são apenas lagartos bem grandes. Logo fujo pela boca, em um ato de coragem pulo do alto do dinossauro, me vomito de dentro do bicho de concreto e tenho um novo objetivo: andar de teleférico.

Estamos percorrendo o zoológico. Achei ele tão, tão parecido comigo. Será que… me entendia? Será que se eu dedicasse tempo suficiente conversando com ele, poderia me entender? Não pude saber. Quando, muitos anos depois, pensando no quanto podemos nos enxergar nos animais, foi espelhada naquela mirada intensa com o macaco do zoológico do Parque Oásis que eu pude entender. Olho no olho, eu era o macaco. Ele era eu mesma. Mas a conversa ficou pra depois. Estávamos a passeio, era logo a hora de seguir adiante, as cobras, os hipopótamos, as capivaras.

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Hoje acho que contemplar aquelas estátuas disformes e os castelos kitsch do parque Oásis é, de certa forma, nos deparar com a nossa própria inocência. Porque realmente acreditávamos neles, gostávamos deles. Porque eles estavam ali, sempre estiveram, ninguém os havia colocado, eles existiam desde o começo dos tempos. A tristeza do parque hoje abandonado tem menos a ver com a habitual melancolia das coisas fracassadas do que com a nossa localização no mundo, nós do final dos anos oitenta. Aqueles trens parados, aqueles teleféricos enferrujados, as jaulas vazias, são todas ruínas que não param de nos contar como faz tempo. Dentro dos nossos carros, aceleramos na frente do parque só para não lembrar que nossa infância acabou.

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Alugamos uma variedade incrível de casas no Balneário Lermen. Fomos inquilinos por largas temporadas. Experimentamos casas pequenas, grandes, de madeira, com piscina, de tijolos à vista, com escada caracol, de pedra, enormes, triste e alegres. Sempre havia colchões espalhados, roupas órfãos, protetores solares extraviados. Nas gavetas e nos roupeiros, encontrávamos vestígios dos que habitavam a casa no resto do ano. Acabávamos sempre nos perguntando, supondo o que queria dizer cada objeto. Olhávamos fotografias de desconhecidos, descobríamos as profissões dos outros moradores por indícios: uma caneca de uma empresa, algum papel, uma caixa de ferramentas. Nas pistas das casas, naqueles anos, aprendemos a contar histórias por fragmentos.

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Com os pés na água do lago que havia por ali, lembro de ter lido em voz alta, com uma amiga, o Best seller daqueles tempos: Coisas que toda garota deve saber. Nadar o dia inteiro já não tinha aquele mesmo gosto. Parece que queríamos mais, mas o quê?

– Oi, tudo bem? Qual é teu nome? Vocês vão ficar por aqui? É, a gente tá naquela casa.Tenho treze, e tu?

Em um desses verões no Lermen, minha primeira ousadia amorosa. Atravessei toda a extensão daquelas ruas internas, na escuridão da noite, para escutar, em um orelhão na estrada: “eu sabia que tu ia ligar”. Havia amor antes do celular. Eram intensos os primeiros anos 2000. Itaara era um imenso céu estrelado e eu voei.

***

 O ônibus começa, enfim, a viagem pra valer. Não havia pensado direito na rota, e quando vi, tomamos a BR 158 e subimos a serra. Passamos a ponte sobre o vale onde, não importa pra onde se olhe, não há como ignorar o verde. Acabo me dando conta que um dos postais da minha cidade é, na verdade, uma saída. Estou deixando minha cidade. Não, isso seria pouco. Na curva das serras, sei que na verdade estou deixando as minhas cidades. Itaara é um pinheiro no meio da estrada, que espera e sabe que eu sempre vou voltar.

garganta

(Itaara, janeiro de 2014)

[fotos: Acervo digital do Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria]

De olhos fechados

Santiago de Chile - Setembro de 2012

Depois que meus amigos seguiram viagem, fiquei um dia sozinha em Santiago do Chile. Isso alguma coisa deve significar. Conversei com pessoas que provavelmente nunca mais verei, comprei um lenço colorido, comi comidas estranhas.  A onipresença das cordilheiras faz ver tudo ao redor diferente. Dá pra assistir o pôr-do-sol vir chegando rosado pelas montanhas e os tremores que os nativos nem sentem fazem questionar o sentido da vida. Não se pode pra ignorar a geografia daquele lugar, ela acena em todas as partes.

Mas mesmo sem cadeias montanhosas ou sacolejos de placas tectônicas, quando viajamos sozinhos despertamos para o que está ao redor – porque mesmo em um lugar onde tudo é novo, se não temos a solidão, nem sempre podemos ver as coisas ao nosso modo. Controlando os próprios passos, aguçamos os ouvidos para as palavras nas ruas. Foi assim que capturei uma conversa entre mãe e filho, a qual tive o cuidado de anotar no meu caderno, companheiro de andanças. Era um garotinho com não mais que cinco anos, mãos dadas com a mãe pela praça, naquela idade precisa em que as crianças se valem livremente das palavras. Assim foi o pedaço de conversa que ouvi:

– Entonces hoy vas a conocerlo!

– Sí, yo lo conozco mamá, pero lo vi de ojos cerrados.

– Lo imaginaste, entonces.

– Puede ser.

(Santiago do Chile, Setembro de 2012)

A dupla

                “No entanto, na infância as descobertas terão sido como num laboratório onde se acha o que achar? (…) Mas como adulto terei a coragem infantil de me perder?”

                                                               (A paixão segundo G. H., Clarice Lispector)

Li uma vez que a memória tem alguns movimentos ao longo da vida. Quando um determinado tempo passa, as lembranças de uma época começam a voltar. Devo estar envelhecendo, porque eventos da minha infância me assaltam com vividez. E me surpreendem. Mais precisamente de alguns anos, quando passava tardes e tardes sozinha. Me sinto presa nesse momento específico. Não parece ser coisa só minha, tem um escritor que se declarou preso no ano de 1982: “É minha Caverna do Dragão”, diz ele. Sempre estive cercada de gente, mas toda infância tem uma face de solidão, e parece que essas são as partes que eu mais me lembro. Se eu tivesse que ilustrar com uma imagem, seria de estar sentada no meio fio da calçada da minha rua, esperando que aparecesse alguém para brincar. Porque era algo que se fazia, lá pelos anos 90. Sentava-se na rua e dava-se a chance ao acaso para que alguém aparecesse. Mas também era possível inventar algo nesse meio tempo. Acho que foi mais ou menos por aí que eu me perdi. Sozinha eu tinha umas ideias um pouco complicadas de serem aceitas pelas outras pessoas, como costuma passar com as crianças. Lembro que uma vez, em umas férias acampando com a família, tomei uma decisão: a partir de hoje meu nome era Raquel. A novela do momento era Mulheres de Areia, e eu, do alto dos meus cinco anos, decidi que me chamaria com o nome da gêmea má, obviamente – não é de hoje a indisposição que tenho com as pessoas boazinhas. A primeira reação foi de riso. Não entendi bem a razão. Quer dizer que então mudar de nome não estava no rol das coisas possíveis? Tudo bem, mas eu tentaria.

– Giuliana, vem cá.
– Meu nome é Raquel.
– Giuliana, hora de almoçar.
– É Raquel.
– Gi…
– Raquel!!

Não durou muito, é verdade. Mas a bravura do intento entrou para o folclore da família. Com o passar dos anos, a coisa foi ficando mais elaborada. Inventei uma brincadeira sozinha que até hoje segue fazendo parte da zona enigmática da minha personalidade. Consistia no seguinte: eu criei uma personagem, Mariana. Talvez tenha escolhido esse nome pela terminação parecida com o meu, ou simplesmente porque eu gostava dele. Ela era como uma pessoa abstrata. A graça da brincadeira era que eu poderia ser Mariana, desde que eu encarnasse Mariana. Como se fazia isso? Indo até uma determinada árvore onde, subindo em um galho específico, eu passaria a ser ela. Era como uma cerimônia, eu deveria esperar alguns segundos deitada no galho da árvore para que se desse a troca. Certamente eu havia criado isso influenciada pelas coisas sobre espiritismo que eu ouvia, mas o curioso é que isso me matava de medo e eu ainda inventava de simular que estava recebendo uma entidade. Vai entender. Depois, poderia voltar a ser eu mesma, bastava que se cumprissem os requintes desse mesmo ritual. Era algo que durava certo tempo, e o controle de quando trocar era meu. Podia ser Giuliana por uns dias e Mariana por outros.

Havia um certo planejamento nessa alternância e cada uma tinha suas características e seus modos de ser. Não consigo me lembrar quais eram as características de cada uma – o que seria bastante interessante para me conhecer mais a fundo – mas sei que estar como Mariana, ou seja, estar encarnando essa personagem que não era eu, me dava certas liberdades. “Posso estar agindo estranho, mas é que ninguém sabe nem pode saber que na verdade estou sendo outra pessoa”, era mais ou menos assim o raciocínio. Não, ninguém poderia saber. Minha experiência como Raquel revelou que as pessoas eram extremamente conservadoras em termos de identidade. Só que nessa estratégia de não compartilhar houve um esquecimento. Um dia, sem nenhum porquê, me sobrevém um pensamento: eu esqueci de mudar para voltar a ser eu e estava com a personagem encarnada há meses. Então era isso, eu andava diferente, aí estava a razão. Poderia subir até aquela árvore para mudar, mas parecia que não fazia sentido. Eu estava bem assim, pra quê mudar? Segundo a lógica dessa minha brincadeira, sou uma impostora. Deixei minhas persona original no galho de uma árvore e vivo uma personagem. Essa sou eu.

Essa estranha possessão talvez explique porque falo sozinha. Pode ser eu mesma querendo voltar. Faço isso diariamente, sempre que posso, e se não falo, imagino que falo. Suponho que seja normal, algumas vezes escutei gente que também fazia isso. Em uma entrevista com o escritor Cristóvão Tezza, ouvi ele dizer que sempre que pensamos conversamos com um outro dentro da nossa mente, e acreditei. Quando nos vemos no espelho é o outro que nos vê no espelho. No meu caso, Mariana. O que me parece é que, a cada fase da vida, mesmo mantendo o nome, a gente se reinventa. Fabulamos novas características e temos até uns rituais pra fazer efeito. Seguimos assim, esquecendo de voltar pra quem a gente era, como se tivessem cortado aquela árvore onde a mágica acontecia. E não contamos pra ninguém, porque ninguém, além da gente mesmo, iria entender.

Austeras casinhas que se aventuram

“ (…) donde austeras casitas apenas se aventuran,
abrumadas por inmortales distancias,
a perderse en la honda visión
de cielo y llanura.”

Jorge Luis Borges

Dizem que a gente só mora em uma casa a vida inteira. Continuamos morando na mesma casa onde nascemos, mesmo que a tenham derrubado. A largura daqueles quartos, a extensão daquele pátio vai ser para sempre nosso modo infantil e inconsciente de medir os ambientes que nos cercam. Ao deixar a primeira casa em que habitamos, não há remédio senão nos sentirmos, no fundo, onde quer que estejamos, um pouco desalojados. Por isso, carrego para sempre comigo um chalé amarelo onde morei até meus três anos de idade, que hoje só existe nas minhas lembranças. Depois dele morei em outras casas, em prédios, embora nunca tenha me adaptado. Admito: sigo até hoje inconformada. Como uma filha das casas pequenas de madeira, sempre que avisto uma me enxergo um pouco. Sei que naquele vão embaixo da casa há sempre um mistério. Que no quintal deve haver uma horta, mesmo que pequena. Que as plantas ao redor da casa, por pouco ornamentais que sejam ou até mesmo as mais daninhas e sem vergonha, sempre carregam em si algo de espantoso e inimaginado para quem se detenha algum momento a olhá-las. O som dos passos no interior dessas casas permanece para sempre em quem morou nelas. Os moradores partilham um conhecimento que só se obtém com anos de escuta e observação, mas qualquer um, mesmo habitante dos apartamentos mais lacrados, com um pouco de sensibilidade pode sentir que entrar em uma dessas casas em um fim de tarde é como sentir um abraço. A razão pra isso é elementar: as casas feitas de madeira são diferentes porque as árvores possuem memórias que o tijolo não pode ter.

Assim como o centro de Santa Maria perde seus casarões para construírem prédios feios e sem riqueza arquitetônica alguma, os bairros perdem suas casinhas de madeira para que sejam construídos prédios igualmente feios e sem personalidade. Só que menores. Pintados de cores ainda mais enjoativas. Com sacadas tristemente minúsculas. Há quem pense que as roupas estendidas naqueles pequenos varais abarrotados são apenas roupas, mas aqueles mais atentos veem claramente que são bandeiras por liberdade. Provavelmente meu gosto por casas não faça sentido nenhum se analisado por outros pontos de vista – urbanos, econômicos, ou que quer que seja – mas ainda assim justifico que é minha formação interior que me fez assim, e as imperiosas razões da funcionalidade são, no meu raciocínio, simplesmente vencidas. Os prédios se estendem a quase os centímetros-limite do terreno, quase se encostam, apoiam-se uns nos outros como caixas ocas. A palavra pátio vem precisando cada vez mais de explicações, já que pouco a pouco cai na pura abstração.

Aqui onde moro, no bairro Bonfim, havia um desses chalezinhos: muro baixo, pintado de marrom, sem grades, um jardim alegremente bagunçado. Ao fundo se antevia uma parreira, e eu de passada espichava o pescoço para saber mais, quem sabe vislumbrar outro elemento do cenário. Em frente à casa, um senhor sentava durante horas quase todas as tardes, brincando e conversando com um bebê de pouco mais de um ano, que deduzi ser sua neta. Ele parecia às vezes mais alegre, noutras vezes mais fraco, mais calmo. Suas roupas não eram de quem chegava ou saía de algum lugar, eram de uma estadia contínua em casa, e ao ver um dia um curativo em um dos seus braços, me perguntei se ele estaria doente. Em vários horários cruzava por eles, voltando para casa, ou subindo a rua para alcançar o ônibus. Passamos a nos cumprimentar, mesmo sem nunca termos conversado. Talvez ele estranhasse meu interesse, meu modo de olhar; trocávamos sorrisos, a pequenina reagia a minha presença acenando os bracinhos.

Amanheceu um dia em que não havia casa, não havia velho, não havia criança. Havia uma terra revolvida e alguns tapumes. Senti-me traída, apunhalada. Não vi nem mesmo as madeiras caídas, não pude velar o pequeno chalé, aceitar sua perda. Ficava imaginando a pouca resistência que deve ter oferecido, entregando sua estrutura nos primeiros golpes. Já uma daquelas máquinas de fazer cimento se postava, implacável, em frente ao terreno. Logo começou a construção, que não trouxe surpresa alguma’. Um prédio quadrado, feio, com janelas gradeadas. Um mísero metro quadrado de grama, no jardim em frente. Um nome pomposo como qualquer prédio, de preferência em idioma estrangeiro, sugerindo algo muito requintado para disfarçar a tristeza de não ser um chalé de madeira com jardim, árvore e criança brincando.  Em seguida, não demorou para que outras três casas na mesma rua tivessem o mesmo destino. Há uma que se encontra sitiada, roubada de sol, vizinhando com dois prédios, mas resistente com uma nobreza exemplar – nobreza de árvore, como diria Manoel de Barros. Os chalés, já velhos, alguns de pintura descascada, estão em extinção. Alguns, cansados, vendo a o panorama de derrubadas e os maus tempos, se entortam, pendem para um dos lados como se quisessem descansar e desistir. Há tanta coisa preocupante, tanta urgência, e às vezes me pego pensando nesse problema: estão se acabando as casas de madeiras no bairro Bonfim. As novas construções, com suas sacadas diminutas, portões zumbindo como besouros, cartazes convocando para tediosas reuniões de condomínio, vão estar em todos os terrenos. Eu vou precisar então caminhar mais para encontrar algo que espelhe minhas lembranças mais antigas.  As crianças vão precisar de outros jardins e outros quintais, ou talvez nem sintam que precisem. O que sei é que a memória é implacável: ter nascido em uma casa dessas me condena a ficar triste por todas as outras que já se foram.

O passado a dez passos

Foi num dia frio que me mudei pra cá. Vim na parte de trás de uma camionete junto com uns travesseiros e um violão antigo do meu pai. Achei divertidíssimo. Na confusão da mudança, esqueceram de me levar para a escola – mudança é uma coisa muito boa, pensei. No entanto, ao entrar na casa, calafrios de decepção. Quando eu viera com meus pais para conhecer o lugar onde moraríamos, estava cheio de móveis diferentes e almofadas felpudas. Inexperiente na arte de trocar de casa, pensei que a mobília estava incluída. Agora era um vazio enorme, talvez o maior vazio que eu tinha visto até então, e eu achava que as nossas coisas nunca iriam caber direito naquelas salas diferentes. No fim, acho que eu estava certa.

A rua, uma travessa sem saída em formato de T, com pedras extremamente irregulares. Isso eu constatei porque onde eu morava antes, em determinado ponto do calçamento, se encontrava uma pedra perfeitamente redonda. Era a minha preferida. Às vezes, quando estava caminhando à toa e não havia aquelas garotinhas que perambulavam por ali com as quais eu eventualmente brincava, gostava de ir procurar a pedra redonda. Era algo que só eu sabia, no mundo inteirinho. Levava algum tempo, ela se confundia com as outras, tortas, quebradas, mas sempre acabava localizando-a, belamente roliça e, por efeito do meu interesse, quase reluzente. Feliz de encontrá-la, às vezes até passava a mão para comprovar, uma vez mais, sua bela rotundidade.

Já nas ruas da travessa onde eu viera morar, pedras imperfeitas, anônimas, alguns pontos de areia e nem rastro de equivalência para minha pedra eleita. Mas crianças, várias delas, com idades muito parecidas com a minha. Toda a extensão daquela rua fechada era um grande parque e não fazíamos caso de diferenciar o que era rua e o que era propriedade do morador. Bom, ao menos era assim que eu e mais um punhado de gente pequena pensávamos naquela época. As escadas em frente à casa de um senhor carrancudo era o ponto de encontro onde não era preciso combinar – estávamos sempre por ali e nos sentíamos incomodados quando ele nos fazia levantar, no audaz ato de sair de sua própria casa (agora começo a compreender um pouco a razão dos seus poucos sorrisos). A varanda de uma senhora, sem muros nem grades, um ótimo chão de cimento para desenhar com um pedaço de tijolo qualquer ou eventualmente aquele toco de giz que ficava no quadro no fim da aula. Na casa ao lado, uma família cujo pátio tínhamos acesso livre, passando por um portão que ficava na lateral e que nunca estava trancado. Costumávamos esperar as duas garotas que moravam ali já penduradas na árvore que ficava no fundo da casa das duas.

Numa das extremidades do T, um pequeno casebre com um quintal enorme através do qual, como quem explorava o fim do mundo, constatamos que depois do mato e das árvores se chegava à outra rua, como um clarão de civilização. Passei a sonhar que no pátio da minha própria casa, numa caminhada, eu encontrava uma tribo de índios que sempre estivera morando ali e eu não sabia. Na outra ponta, uma casa grande e bonita, onde morava um menina também bonita, e é claro, má, uma figura que não poderia faltar em qualquer vizinhança. Naquela época, não conseguia constatar maldade assim, de pronto, e achei que tinha sido coincidência que minha boneca tivesse se perdido na casa dela e logo em seguida ela ganhasse uma igual. Eu até tinha visto a tal boneca num desses móveis monumentais que eu nunca possuí que se chamavam solenemente “Estante de Brinquedos”. Fiquei radiante e até agradecida quando ela me entregou a boneca de volta, um tanto mais suja, com um “olha, achei!” tão cheio de naturalidade que só as meninas más são capazes de pronunciar.

A verdade é que ela sabia muito bem ligar com a situação, e sabia também que eu não duvidaria das suas mentiras. Eu admirava tudo na casa dela: o desenho das lanças da grade, a sala com uma grande cortina branca, as plantas que cresciam na janela da cozinha, os móveis irmanados, as grandes portas de correr. Mas eu admirava, sobretudo, algo imaterial: o cheiro da casa. Não era algum cheiro de perfume ou incenso, nem de alguma comida sendo preparada ou de produtos de limpeza. Era simplesmente um cheiro bom que emanava da própria casa, mesmo se não estivesse acontecendo nada dentro dela, uma essência forte e permanente que estava em todos os cômodos. Foi outra vizinha minha quem me deu a boa notícia. Depois de voltar de uma viagem, nos encontramos na rua, ao acaso, e convidei para que ela subisse na minha casa para mostrar alguma coisa. Logo ao entrar, ela exclamou sorrindo: “Que saudades do cheiro da tua casa!”. Então minha casa também tinha um cheiro bom, só eu que não podia perceber. Me senti, ao menos um pouco, recompensada, sabendo que não era só a casa dos outros que agradava com uma aura própria.

Aquele brincar na rua, na nossa pequena rua, era sempre para o lado de dentro. A rua larga, de fora, asfaltada, onde era maior o tráfego de carros, era como uma avenida enorme, imensa, intransponível. Tempos depois, as companhias não redundaram, nenhuma, numa grande amizade. O fervilhante da infância passou e os interesses tomaram, de vez, caminhos diferentes. Algumas foram embora, outras ficaram morando aqui, viraram mães, viraram adultas e eu como adulta também as cumprimento quando nos encontramos na esquina, sempre indo para o lado de fora.

O hábito e o tempo criaram um cordão invisível por anos e anos. Morando numa das casas da frente, nunca mais tive razões para passear por aquelas ruas internas. Nem mesmo naquela tarde, quando despropositadamente dei aqueles passos para dentro, em direção a elas. Senti como podia ser forte o poder magnético da lembrança. As ruas, com suas pedras e areias, as fachadas das casas, com suas cores e rachaduras, a ferrugem das mesmas grades: tudo estava rigorosamente igual. Durante os quinze anos em que eu deixara de frequentar aqueles espaços, ninguém fizera um reforma, ninguém trocara um portão ou adicionara uma caixa de correio nova. Tudo permanecia como se fosse ainda minha infância. Flutuei por ali, encantada com a possibilidade do absurdo de uma volta ao tempo ao lado de casa. Tudo se passou como num extraordinário sonho lúcido, tendo ainda a vantagem de poder entrar e sair dele quando quisesse.  Parecia que a paisagem havia se conservado igual simplesmente para que pudesse vê-la, como se a partir do dia em que deixei de brincar na rua, sem nem mesmo dar-me conta do fato, tudo se mantivera esperando.

Como ninguém passava por ali naquele momento, nenhuma figura estranha desfazia o cenário. Passeei, espantada, com passos vacilantes, querendo manter o encanto onírico no qual me encontrava. Eu, visitando minha infância, sem querer. Voltei extasiada, subindo pé por pé da escada, como quem volta pra casa no sentido mais profundo dessa expressão. Com razão se diz que a infância só parece bonita em retrospecto; para a criança é uma época escura, sem compreensão, um percurso inocente no desconhecido, na estranheza, que só ganha um novo sentido no final – quando a criança aprende o que é infância começa a perdê-la. Se é no retrospecto que está a beleza, naquela visão encantada – que não pretendo repetir tão cedo – tive o privilégio de esquecer os recessos de luz e trazer de volta um pouco do que foi e um pouco do que eu fui. Não é preciso saudade da infância, aquela nostalgia romantizada que ignora que sofríamos, já que pobres ou ricos sempre carregamos nossas carências, mas às vezes há a necessidade de um encontro com ela. E ela pode, vez ou outra, repousar bem ao lado.