Antigüidades

Eu vim de Piripiri

Paulo Diniz foi quem me ensinou sobre o esquecimento. Estava no acervo de discos do pai, arrumados em uma estante fora do alcance dos meus olhos. Pela manhã, entre o cheiro de café e o perfume que ele usava antes de sair para trabalhar, Diniz soava sua rouquidão pernambucana. Ouvindo “Como vou deixar você” e “Um chope pra distrair”, senti pelas primeiras vezes um peso no peito, sem entender ainda do que se tratava. Hoje, sei que era algo como a tristeza –  eu, de tão pequena, ainda não conhecia, mas pode ter sido através daquela voz que eu começava a suspeitar.

Não voltei mais a ouvir. Vinte anos depois, ao me deparar com uma coleção de vinis, a capa de ilustrações azuis apareceu feito um cartão postal da Rua Olavo Bilac, onde morei até meus sete anos. Com uma urgência incomum, quis colocar para tocar, em um ato arriscado de acionar um mecanismo que eu desconhecia o funcionamento – não a vitrola, tão simples, mas a máquina das lembranças, que age sempre de modo tão inesperado.

Nunca entendi quem idealiza o passado, quem desgasta a nostalgia repetidamente. Se eu tivesse continuado a ouvir Paulo Diniz ao longo dessas duas décadas, talvez sua voz não exercesse sobre mim a mesma força. A agulha no disco restituiu em mim, naquela tarde, a emoção mais bruta da música. Se eu não tivesse esquecido, não poderia ter me sentido com cinco anos, olhando a cidade passar, indiferente àquele espanto denso e inesperado dentro de um apartamento qualquer. O tempo e o silêncio serviram para pôr sentido em versos que soaram tão leve-pesados, tão novo-velhos; serviram para o peito ter aprendido, ou ao menos intuído, algo sobre o amor, o desalento e as travessias.  E transbordou. Tive que ser aquele canoeiro – logo eu que nem sei remar, eu que nunca fui à Bahia. Resisto ao impulso de repetir. Em parte por medo dessa força, em parte para, quem sabe um dia, poder sentir de novo o mesmo assombro.

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O mais cruel dos meses

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera,
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.

(…)

Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,
E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o canto dos grilos,
E nenhum rumor de água a latejar a pedra seca. Apenas
Uma sombra medra sob esta rocha escarlate
(chega-te à sombra desta rocha escarlate),
E vou mostrar-te algo distinto
De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece
Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;
Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.

(O enterro dos mortos, T. S. Eliot)

Sujo meus sonhos de realidade. Levo meus desejos ao extremo da ponta de um lápis. Não vejo nada. Existem palavras e eu existo. Essas foram as coisas mais certas que consegui. Amanheço de luz acesa. Sujo meus sapatos de rua. Saio para onde se vê meu rastro confuso, onde se espalha a casca que fui arrancando das horas; ruas e praças tão minhas, de tanto que pousei nelas os olhos. Vou atrás de um pensamento esquivo, que teima em não se enclausurar na casa, da revelação que não quer acontecer aqui: coisas diluídas em ar. Os sapatos voltam ao armário, eu volto ao quarto-de-não-dormir. Deslocamento nenhum.

Não quero passar um mês esperando o outro. Penso muito ou não penso? Sento-me na beirada da vida. Espero-a acontecer, assisto? Espectadora que desceu de um trajeto e quer ser passageira de outra coisa. Que coisa? Simplesmente outra. Em toda decisão, acima do burburinho dos conselhos e da prudência recolhida em cada esquina, estamos necessariamente sozinhos. Seja no nosso crescimento ou nos nossos fracassos, não levamos ninguém. Na hora mais silenciosa da madrugada, fazemos nossas piores perguntas e desenterramos respostas.

Recordo-me, quando criança, de gritar desesperadamente por uma dor de ouvido. Não que doesse tanto, mas eu não tinha certeza se iria acabar: aquela dor nunca me havia doído, nunca havia sarado dela. Toleramos bem melhor aquilo que conhecemos o ciclo. Nenhuma mulher sente todo mês o desconforto da cólica como naquela primeira vez em que nosso corpo parecia agir fora de nosso controle. Acometida de mal inédito, adoeci. Anoiteci. Duvidei que visse o dia em que me visse revigorada. Mas aos poucos, amanheceu: aprendi que em algumas enfermidades, cura é escolha. Doeu-me a ansiedade, a aflição de que o mundo pudesse parar de girar ou que a vida cessasse de acontecer. Angústia que me fez cega para ver que há um ano eu era outra, me embrenhava em caminhos tão diferentes e me dizia estagnada, como se não estivesse imersa no rio – no rio que passa, e é a nossa vida.

Mais sã (ou menos, na visão de alguns) faço-me então aqui presente. Agradeço a minha leitora única, pelas visitas e pela insistência tão amável. Nos perguntamos, as duas, embora ignorando em partes as razões uma da outra: terá esse caminho um coração? (e poderá alguém saber de razões que não sejam suas?). Arrisco sem medo algum essa semelhança nossa, orgulho e ruína, de querer coisas com coração. Queria ter o poder também de provocar outras, denunciar ausências, trazer ainda mais para perto outros corações.

Concluo que não quero ser triste nem alegre. Não quero esperar epifanias nem revelações. Meu sossego, muito que perdi… nem procuro. Meu ato inaugural: indigente, passo em revista por mim mesma, caminho sobre os sonhos caídos, dobro a esquina da falta de senso. Ruas limpas de lembranças. Desencaminho-me. Caio no endereço das coisas minhas, que pouco ou nada conheço.

(Santa Maria, abril de 2007)

Austeras casinhas que se aventuram

“ (…) donde austeras casitas apenas se aventuran,
abrumadas por inmortales distancias,
a perderse en la honda visión
de cielo y llanura.”

Jorge Luis Borges

Dizem que a gente só mora em uma casa a vida inteira. Continuamos morando na mesma casa onde nascemos, mesmo que a tenham derrubado. A largura daqueles quartos, a extensão daquele pátio vai ser para sempre nosso modo infantil e inconsciente de medir os ambientes que nos cercam. Ao deixar a primeira casa em que habitamos, não há remédio senão nos sentirmos, no fundo, onde quer que estejamos, um pouco desalojados. Por isso, carrego para sempre comigo um chalé amarelo onde morei até meus três anos de idade, que hoje só existe nas minhas lembranças. Depois dele morei em outras casas, em prédios, embora nunca tenha me adaptado. Admito: sigo até hoje inconformada. Como uma filha das casas pequenas de madeira, sempre que avisto uma me enxergo um pouco. Sei que naquele vão embaixo da casa há sempre um mistério. Que no quintal deve haver uma horta, mesmo que pequena. Que as plantas ao redor da casa, por pouco ornamentais que sejam ou até mesmo as mais daninhas e sem vergonha, sempre carregam em si algo de espantoso e inimaginado para quem se detenha algum momento a olhá-las. O som dos passos no interior dessas casas permanece para sempre em quem morou nelas. Os moradores partilham um conhecimento que só se obtém com anos de escuta e observação, mas qualquer um, mesmo habitante dos apartamentos mais lacrados, com um pouco de sensibilidade pode sentir que entrar em uma dessas casas em um fim de tarde é como sentir um abraço. A razão pra isso é elementar: as casas feitas de madeira são diferentes porque as árvores possuem memórias que o tijolo não pode ter.

Assim como o centro de Santa Maria perde seus casarões para construírem prédios feios e sem riqueza arquitetônica alguma, os bairros perdem suas casinhas de madeira para que sejam construídos prédios igualmente feios e sem personalidade. Só que menores. Pintados de cores ainda mais enjoativas. Com sacadas tristemente minúsculas. Há quem pense que as roupas estendidas naqueles pequenos varais abarrotados são apenas roupas, mas aqueles mais atentos veem claramente que são bandeiras por liberdade. Provavelmente meu gosto por casas não faça sentido nenhum se analisado por outros pontos de vista – urbanos, econômicos, ou que quer que seja – mas ainda assim justifico que é minha formação interior que me fez assim, e as imperiosas razões da funcionalidade são, no meu raciocínio, simplesmente vencidas. Os prédios se estendem a quase os centímetros-limite do terreno, quase se encostam, apoiam-se uns nos outros como caixas ocas. A palavra pátio vem precisando cada vez mais de explicações, já que pouco a pouco cai na pura abstração.

Aqui onde moro, no bairro Bonfim, havia um desses chalezinhos: muro baixo, pintado de marrom, sem grades, um jardim alegremente bagunçado. Ao fundo se antevia uma parreira, e eu de passada espichava o pescoço para saber mais, quem sabe vislumbrar outro elemento do cenário. Em frente à casa, um senhor sentava durante horas quase todas as tardes, brincando e conversando com um bebê de pouco mais de um ano, que deduzi ser sua neta. Ele parecia às vezes mais alegre, noutras vezes mais fraco, mais calmo. Suas roupas não eram de quem chegava ou saía de algum lugar, eram de uma estadia contínua em casa, e ao ver um dia um curativo em um dos seus braços, me perguntei se ele estaria doente. Em vários horários cruzava por eles, voltando para casa, ou subindo a rua para alcançar o ônibus. Passamos a nos cumprimentar, mesmo sem nunca termos conversado. Talvez ele estranhasse meu interesse, meu modo de olhar; trocávamos sorrisos, a pequenina reagia a minha presença acenando os bracinhos.

Amanheceu um dia em que não havia casa, não havia velho, não havia criança. Havia uma terra revolvida e alguns tapumes. Senti-me traída, apunhalada. Não vi nem mesmo as madeiras caídas, não pude velar o pequeno chalé, aceitar sua perda. Ficava imaginando a pouca resistência que deve ter oferecido, entregando sua estrutura nos primeiros golpes. Já uma daquelas máquinas de fazer cimento se postava, implacável, em frente ao terreno. Logo começou a construção, que não trouxe surpresa alguma’. Um prédio quadrado, feio, com janelas gradeadas. Um mísero metro quadrado de grama, no jardim em frente. Um nome pomposo como qualquer prédio, de preferência em idioma estrangeiro, sugerindo algo muito requintado para disfarçar a tristeza de não ser um chalé de madeira com jardim, árvore e criança brincando.  Em seguida, não demorou para que outras três casas na mesma rua tivessem o mesmo destino. Há uma que se encontra sitiada, roubada de sol, vizinhando com dois prédios, mas resistente com uma nobreza exemplar – nobreza de árvore, como diria Manoel de Barros. Os chalés, já velhos, alguns de pintura descascada, estão em extinção. Alguns, cansados, vendo a o panorama de derrubadas e os maus tempos, se entortam, pendem para um dos lados como se quisessem descansar e desistir. Há tanta coisa preocupante, tanta urgência, e às vezes me pego pensando nesse problema: estão se acabando as casas de madeiras no bairro Bonfim. As novas construções, com suas sacadas diminutas, portões zumbindo como besouros, cartazes convocando para tediosas reuniões de condomínio, vão estar em todos os terrenos. Eu vou precisar então caminhar mais para encontrar algo que espelhe minhas lembranças mais antigas.  As crianças vão precisar de outros jardins e outros quintais, ou talvez nem sintam que precisem. O que sei é que a memória é implacável: ter nascido em uma casa dessas me condena a ficar triste por todas as outras que já se foram.

Sobre esquecer

Pensei hoje nas coisas perdidas, escondidas, ocultas. No tijolo que não vê mais sol embaixo do reboco da parede. No desenho das lajotas do piso, há anos encoberto pelo carpete. Na moeda que caiu dentro do sofá e não compra mais nada. Numa fotografia que escorreu para o fundo da gaveta e que ninguém sentiu falta. Pensei em todas as luvas e em todos os pés de meia desquitados e inutilizados. Na bicicleta que ensinou o equilíbrio e que nenhuma criança anda mais.

Pensei no silêncio dos porões das casas. Quis eu mesma estar nesse silêncio. Invejei as coisas obsoletas, ultrapassadas, velhas; queria dividir pó com elas, me deixar estar num vão de uma escada, ser empilhada junto com as enciclopédias que acentuam êrro e flôr. Eu quis um canto num sótão, talvez aninhada entre as roupas separadas para doação e nunca entregues. Desejei ser o guarda-chuva que ninguém quis porque estava roto, e foi deixado a um canto. Quando tudo nos oprime, deveríamos poder virar cistos, deixar tudo em suspenso. Permanecer muitos anos ausente, até que alguém mova um armário e, surpreso, nos encontre. Há dias em que se quer mesmo ser esquecida.