Dia: 9 de janeiro de 2015

Anotações em trânsito

Curva

O começo do trajeto para a capital se sentiu mais ou menos assim: por distração, achei por algum tempo que estava indo para a Universidade, e me pus a colocar em ordem os pensamentos enquanto assistia as placas correrem na janela ao longo da rodovia (Aluga-se, Pedras, Papelaria, Atacado, Serralheria). Cumpri essa tarefa quase diariamente durante mais de quatro anos e é uma das coisas que eu acredito que mais faço bem na vida. Ao chegar perto da entrada da Avenida Roraima, no entanto, o ônibus não dobra; não sinto a troca de calçamento para as pedras, que sacolejando a todos no coletivo, avisa que a reflexão precisa ser interrompida. Seguimos então reto na estrada, em uma espécie de descontrole que todos parecem aceitar com normalidade. Enquanto a placa da cidade parece brincar de forca (S_ant_a Ma_ia) e um avião colado ao chão completa meu estranhamento, me conformo em pensar que ir pra longe de casa, não importa quantas vezes se faça, sempre vai parecer como embarcar em um ônibus desgovernado.

Som

Usar o modo aleatório no tocador de música é mais ou menos como tentar a sorte. Somos atravessados por lembranças e ritmos inesperados, nem sempre de forma oportuna. Outras vezes, no entanto, parece haver uma certa sensibilidade nessa escolha do aparelho, obtida sabe-se lá por que via. Para um trecho da minha viagem, dá a impressão de ter sido selecionado uma lista temática: Coração vagabundo, de Caetano Veloso, Semeadura, de Vitor Ramil, e A noite, de Marcelo Camelo. Dentre as centenas de combinações possíveis da memória, vendo o poente tardio dos verões do Sul, penso que seguir sem medo e não cansar de ter esperança não poderia ter sido mais apropriado.

Abrigo

Persiste nos seres humanos uma espera por condições ideais para realizar alguma coisa. Nos escritores, é recorrente um imaginário refúgio em uma casa isolada. Marguerite Duras, em seu livro ‘Escrever’ não hesita em atribuir sua produtividade ao seu local de trabalho: “meus livros e meus filmes saíram dessa casa”, afirma ela. Ao longo da BR 287, penso sobre onde esse meu retiro literário aconteceria. Não considero nenhuma cidade com um clima pretensamente charmoso, nem uma dessas cidades serranas que se vendem turísticas e agradáveis – tanto menos a intersecção desses dois fatores. Penso em uma bem rústica e desconhecida, da qual quase ninguém fala e que nem sequer o nome contém uma promessa de bem-estar: Candelária, por exemplo. Lá, eu alugaria uma pequena casa, plantaria uma horta e escreveria contos que incluíssem o cerro Botucaraí. Ao mesmo tempo em que imagino tudo isso, me dou conta do quanto esses mecanismos de adiamento e espera são perniciosos. A obrigação de sentir-se bem sempre gera o efeito reverso; o impulso de produzir não costuma satisfazer uma expectativa. As musas, já advertiu um poeta, não pactuam com nada. Tudo costuma se dar sem esperar a melhor circunstância: mesmo que, se vive; apesar de, se escreve. Assim tomo nota no meu caderno em letra tremida, enquanto o ônibus deixa Candelária cada vez mais para trás.

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