Procuro

Existe algo que ficou. Está encaixotado com meus livros em Santa Maria, juntos com meus diários de menina, ou eu coloquei no bolso antes de sair para caminhar e perdi. Algo que ficou talvez depositado no fundo do rio onde aprendi a nadar, em São Martinho da Serra. Foi pela manhã ou à tarde, não lembro bem, mas ficou por lá. Era o meu segredo.

Estava escrito em Times 12, em um arquivo salvo no notebook antigo, que pifou porque esqueci a janela aberta e choveu em cima dele. Deletado por uma chuva de verão. Era o mais importante; talvez a única frase verdadeira que pude dizer, que me faz falta quando desperto e quando vou dormir. Tudo estava revelado, mas ficou numa gaveta naquela casa onde meus avós moravam, no Prado.

Pensamos que o que vem adiante traz a resposta e por isso seguimos, por isso anotamos os sonhos na caderneta; por isso as tardes, o quarto vazio, o amor, a cidade, a rua. Hoje eu sei, no entanto: a iluminação já aconteceu e foi perdida. Precisamos menos de surgimentos do que de resgates. E a vida, ao final, essa tentativa de consertar um extravio.

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