Mês: setembro 2014

Procuro

Existe algo que ficou. Está encaixotado com meus livros em Santa Maria, juntos com meus diários de menina, ou eu coloquei no bolso antes de sair para caminhar e perdi. Algo que ficou talvez depositado no fundo do rio onde aprendi a nadar, em São Martinho da Serra. Foi pela manhã ou à tarde, não lembro bem, mas ficou por lá. Era o meu segredo.

Estava escrito em Times 12, em um arquivo salvo no notebook antigo, que pifou porque esqueci a janela aberta e choveu em cima dele. Deletado por uma chuva de verão. Era o mais importante; talvez a única frase verdadeira que pude dizer, que me faz falta quando desperto e quando vou dormir. Tudo estava revelado, mas ficou numa gaveta naquela casa onde meus avós moravam, no Prado.

Pensamos que o que vem adiante traz a resposta e por isso seguimos, por isso anotamos os sonhos na caderneta; por isso as tardes, o quarto vazio, o amor, a cidade, a rua. Hoje eu sei, no entanto: a iluminação já aconteceu e foi perdida. Precisamos menos de surgimentos do que de resgates. E a vida, ao final, essa tentativa de consertar um extravio.