Sobre chorar e outros roteiros

Para chorar, dirija a imaginação para você mesmo, e se isto for impossível, por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nos golfos do estreito de Magalhães nos quais ninguém entra, nunca.
(Julio Cortázar, Instruções para chorar)

 

Ninguém conhece uma cidade até chorar nela. Podemos percorrê-la semanas e meses, passar pelas mais intensas alegrias, experimentar ruas em diversos horários e números, a pé ou transportados, mas só o choro dá a verdadeira dimensão do lugar. O choro é o que nos localiza. Dizem que o que diferencia São Paulo não é o tamanho, nem as chaminés das fábricas, nem as avenidas; tudo se deve ao fato de que, todos os dias, encontramos gente chorando pela cidade. São Paulo chove para que se mantenha o anonimato até no pranto. Um dia, foi também a minha vez.

 
É preciso que se esclareça antes de tudo: os grandes centros urbanos, além dos seus microclimas, também geram em si fenômenos próprios de ordem emocional. Se somos doze milhões, são doze milhões de corações. Às vezes, alguns sofrem interferências e então choramos, sem querer, de forma pouco explicável. Se chora porque a lágrima é uma forma de entender, porque a cidade e a vida mudam muito e o choro, ao contrário do que se pensa, serve menos para o desespero do que pra ir aceitando as coisas.
Minha vez aconteceu no metrô. Um choro subterrâneo, do inconsciente da cidade. Se a vida está cheia de abismos, quase todos invisíveis, é de uma admirável sinceridade dessas estações quando advertem que há, sim, um limite, que o fosso está aberto. Ao entrar naqueles compartimentos, a paisagem na janela é o nosso próprio rosto. Na escuridão do túnel, o que se vê é só o reflexo do interior, a paisagem fica para dentro. Não dá pra fugir da gente mesmo dentro desses trens, nada ali nos distrai, nada nos acena. O metrô é o pior lugar para esquecer-se de si. Então eu chorei.

 
Foi de lágrimas fartas, um deixar-se chorar como os trens escorrem pelos trilhos. Por motivos difusos, por nada e por tudo. A pior coisa que se pode fazer a quem chora é tentar decifrar os motivos objetivos. Cabe apenas aceitar e oferecer algo: um sorriso, um lenço. Assumir o pranto como parte do cenário. A gente daqui, aliás, não se surpreende. Com o mesmo entendimento que dão informações, orgulhosos de saber sua geografia, sabendo que é normal que alguém se perca, sabem que o choro acontece, sabem a cidade onde moram. Entendem. É a compreensão paulistana, de que quase não se fala. Tudo durou uma ou duas estações. O choro foi se reacomodando, como as pessoas pelo vagão; foi se esquecendo de si, como um passageiro que dorme sem querer, depois do trabalho.

 
Saindo de dentro da terra, sob um raro sol de outubro, me perguntava o porquê daquela comoção. Quase não me reconheci nessa melancolia. Pensei então que essas descidas são como pequenas madrugadas, escuras e densas, em que tudo parece mais dramático e insolucionável. Ao sair dali, a inesperada luz da rua simula uma manhã, e rapidamente o mundo se torna mais fácil e o drama de pouco tempo atrás, exagero. Na vulnerabilidade do subsolo, posso ter sofrido das interferências, posso ter chorado uma tristeza de alguém que por acaso cruzou meu trajeto. Tudo bem, eu penso, tudo bem. Sempre que choveu, parou. Sempre que se chorou, também. Depois as lágrimas secam e toca a outro, logo ali. Ao subir as escadarias, sorri imaginando alguém que, longe ou perto, anda por aí desfrutando alguma alegria minha que, em um dia desses, eu tenha deixado cair.

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