Estampas da tarde

Tempos depois, você disse que naquele dia estava esperando a chuva. Sentado, como quem não tem o que fazer com o dia, levando o olhar longe. Você acariciou os cabelos, procurando uma forma de se certificar da própria presença, conferindo a cabeça no lugar. Eu havia oferecido os cabelos ao vento, tinha apenas sede e entrei ali sem pensar. Foi assim que eu te vi. Fiz da mesa um ponto de observação, pedi a água com gás, bebi tua imagem com os olhos molhados.

A primeira coisa em que me detive foram as mãos. Soube tanto de ti olhando suas mãos quanto olhando nos seus olhos, nos dias que se seguiram. Que as mãos podem dizer tanto, foi a primeira coisa que aprendi contigo. Eu li algo nelas, no seu rosto, na sua forma de ver o tempo passar. Você estava esperando a chuva, mas eu ainda não sabia.

Eu não sabia nada. Saber, às vezes, é menos importante do que sentir. Lembro de ter sido capturada por um pressentimento e pensar que o silêncio seria o pior por acontecer. Morri de medo e de vontade; a vontade venceu, eu mesma fui vencida. Quando eu sentei ao seu lado, sabíamos que não havia mais volta, que algo teria que ser feito. Nem que fosse o ridículo, o incômodo, ao menos uma perda de tempo. A minha voz e a sua se encontraram, aprendendo a falar pela primeira vez. Você também não é daqui, eu também não vou embora. Não sabia que podia acontecer assim. Nem eu, você disse.

Era bem pouco o que sabíamos. Um dia, eu achei que o amor demorava. Eu acreditei que o amor demorava. Mas eu estava errada, ou apenas menti para disfarçar. O amor não demora não, ele simplesmente puxa a cadeira e senta. Quem puxou a cadeira fui eu. Você esperava a chuva, eu não esperava nada.

Falamos apenas o importante. Sobre a formação das nuvens e das ideias, do gosto da água e da visão das praças à noite. Sobre como era mentira que uma pessoa fosse de um lugar, mesmo que essa mentira fosse, tantas vezes, tão bem contada. De onde você veio, alguém perguntou, e as perguntas caíam na mesa já com quatro ou cinco sentidos possíveis. Guardamos o beijo para depois, deixamos que ele crescesse, que se tornasse tão urgente a ponto de ter que acontecer de qualquer jeito. O beijo precisaria passar a noite ouvindo o barulho da janela, teria que atravessar a madrugada na espera, para ser verdade depois, sob o sol da manhã, sob a luz da noite azul.

Previ dias e noites difíceis e confusos, madrugadas em que eu me perguntaria por que haveria de ter sentado à mesa, por que eu teria permitido, por que eu não teria deixado livre o coração. Eu me deixei ir, eu aceitei o que viesse – recomecei, sempre recomeço.

Então nós falamos da chuva, amamos a chuva – esquecer é uma evaporação, eu sei, molécula a molécula, assumimos o risco da tempestade. Naquela tarde, caímos do céu como a chuva. Nós fomos a própria chuva. Quem caminhar por lá ainda pode nos ver, espalhados pelas poças da rua, refletindo presságios.

(São Paulo, fevereiro de 2014.)

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2 comentários

  1. Gostei bastante. Me agrada essa idéia de descrever as sitações sem precisar falar ostensivamente delas, descrever de um modo mais sutil, mas não raso. Gostei especialmente na conclusão. Acho que, aliás, você tem uma habilidade muito boa na conclusão dos seus escritos.
    E, no mais, seguimos na luta com as linhas, beijo!

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