Como extrañar uma cidade

Córdoba - turística

Não quero nunca mais voltar a Córdoba. Não quero voltar só pra poder sonhar como poderia ter sido se eu voltasse. Não volto para poder imaginar o que talvez encontrasse.

Por que vou ter saudades mortas, se posso tê-las vivas? É um erro achar que todas as saudades precisam ser curadas. Tem saudades que não sanam, foram feitas somente para serem sentidas. Não se volta à casa da infância, ela é bem menos interessante do que pensávamos. Não se repetem as receitas de outros tempos, os ingredientes já não funcionam mais juntos. Escolher uma cidade para viver e nunca mais voltar é escrever uma receita de utopia. Córdoba estará lá, sempre. E aqui, comigo.

Se eu não tiver mais saudade de Córdoba, o que farei aos domingos? É uma das atividades que melhor tenho desempenhado, não tirem o pouco que me resta. A saudade também nos constitui. Se não sinto mais a falta daqueles dias, o perigo é que eu me desfaça – e eu bem sei, nesses tempos, como é preciso estar inteira.

Por isso nunca mais voltarei. Não tenho o que buscar. Os amigos se espalharam pelos continentes. As paixões foram dadas por perdidas. Pode ser que tenham derrubado o Cabildo. Pode ser que tenham pintado a catedral de outra cor. A vendedora de caleidoscópios não vai mais à feira. É preciso entender que as configurações do vivido se desfizeram. Se havia um modo para ser feliz que foi inventado em passeios pelas ruelas do centro, ele não funciona em nenhum outro lugar do mundo. Deixo esse meu rascunho por lá, uma mensagem dentro de uma garrafa que segue ao longo do canal de La Cañada. Que alguém a encontre e reescreva, ou leia no meio da tarde como um relato de um pedaço de vida.

É preciso esquecer Córdoba. É preciso esquecer tudo. Esquecer as avenidas cinzentas, os terraços ensolarados, as pedras das ruas. Esquecer que lá eu conheci gente de coração tão grande que parece que aumentei o meu. Até que lá eu aprendi a esquecer, até isso é preciso deixar para trás. É preciso empenhar-se muito no esquecimento, para o prazer de voltar a lembrar. Porque aí as recordações não doem. É preciso amansar as lembranças. É inútil matar saudades, é um crime matar essas saudades. Não quero voltar a Córdoba.

Que escrevam da minha passagem: chegou numa madrugada de inverno, andou pelas ruas alegre e triste, tomou o trem em uma tarde de dezembro e nunca mais foi vista.

(Santa Maria, julho de 2013)

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2 comentários

  1. As cidades têm vida e transformam-se com os sentimentos das pessoas que a habitam. Certamente, a “tua Córdoba” não existe mais!
    Notícia boa, existem milhares de cidades “sem nome” que haveremos de lembrar e esquecer.

  2. Reli tantas vezes que visualizei algumas ‘Córdobas’ perdidas… Quando o mundo se mostra estranho, não há mais volta. Só é possível se sentir em casa, reconhecendo essa estranheza, esse perpétuo não estar em casa. No fim, todos os lugares são essa Córdoba, como o lugar que dá sentido a todos as paixões e amizades e que, no fim, se perderão. Mas se manterão vivas pela saudade… Excelente escrito.

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