Manhã de domingo

Passam alguns minutos das oito da manhã. Faz bem pouco que cheguei. Ao invés de, como sempre faço, chegar aqui perto do meio dia entrando e saindo de nuvens de fumaças de churrasqueiras espalhadas nas calçadas, andei pela manhã esbranquiçada de cerração. Não havia fumaça, sequer havia carvão nas churrasqueiras feitas de tonéis de metal cortados pela metade, modelo quase padrão do comércio de churrasco do bairro. O ar estava branco de cerração, da nuvem que desceu naquela manhã. Foi caminhando dentro da nuvem no chão que eu atravessei a Borges de Medeiros.

Cheguei, na verdade, um pouco atrasada. O desjejum já havia sido tomado: a xícara de café com leite e a fruta. O avô agora dorme na sua cadeira de rodas. Já encontrei a televisão ligada e me sento no sofá, com sono. Passa um programa dedicado exclusivamente a carros. Não há ninguém interessado em carros aqui.  Do público na sala, uma é somente pedestre, o outro anda de cadeira de rodas. Um dorme, a outra tem vontade de dormir. Sei que não sou obrigada a ver, mas não desligo; sem a tevê, há muito silêncio, pode ser que o avô acorde. Antes de sair, a cuidadora do turno anterior me deixou as recomendações. Meu almoço está pronto, minha tia se encarregou de deixar, basta aquecer. O do meu avô também, basta triturar.

Nove horas e dez minutos. Horário de Brasília, dizem na televisão. De Santa Maria também, complemento. De Buenos Aires igualmente, penso, que era onde eu me transportava naquele momento em devaneio. Ano passado eu morei nesse país aqui ao lado. Enquanto eu estava lá, meu avô também fez suas temporadas de viagens. Foi ao hospital. Pneumonia. O caderno de bordo que usaram para escrever a histórias dos dias da sua recuperação me conta o que eu não soube:

15:00 Nebulizei

17:00 Nebulizei

07:30 Febre 37.8. Dei remédio (50g)

09:00 Nebulização intermediária

00:00 Nebulizei.  Atrovent, Clenil A, Aerolim (seriam personagens? duendes? não, remédios para limpar os pulmões do avô)

09:30 Noite (21:00) Diluí remédio Acetilcisteína

08:00 Nebulizei. Atrovent, Clenil A, Aerolim

Após às 18:00 já estava bem disposto conversando. Dormiu das 22h às 24h, e 4 às 06:30.

Assina os versos Márcia, cuidadora que sequer conheci. O caderno me conta da sua presença nos primeiros registros hospitalares. Depois, como o meu avô, ele foi pra casa. As empregadas anotavam quando faltava leite, quando um remédio acabava. De anotações, em seguida ele foi suporte para relatos de manhãs e tardes silenciosas. Cada turno tem seu boletim. Alguns mais telegráficos, outros mais detalhados. A pauta estava aberta, então uma filha escreveu das saudades da mãe, da máquina de costura que ela tinha na sala. Outra aproveita o espaço para deixar conselhos para passar o tempo. Acidentalmente, começamos uma narração colaborativa. O caderno talvez possa nos ajudar a entender, ou simplesmente suportar, aquilo que nos ultrapassa: silêncio e ausência. Dizem que quem não lembra mais já não tem história e, já que esses dias não são mais registrados pelo meu avô, anotamos. A prótese de memória não existia, então tratamos de criar uma feita em casa e à mão, com várias caligrafias.

Dez horas e oito minutos. Meu avô de repente, exclama: Mãe! Mãe! Me pergunto, sabendo e não sabendo a resposta, por onde andaria a mãe do meu avô. Anda tão longe, que chamá-la já não se alcança mais. Não sei quase nada sobre ela, sequer lembro seu nome. Talvez tenha escrito alguma coisa sobre a sua vida, embora seja pouco provável. Quem sabe alguém escreveu sobre a vida dela, mas também é pouco provável. Ouço meu avô chamá-la e não respondo, não digo nada. Deixo que o chamado se esconda de volta no tempo. Será que a minha bisavó sabia escrever?

Dez horas e quarenta e cinco minutos. Horário do bairro Salgado Filho. Por alguma razão, a televisão se desliga. Alguém deve ter programado. Meu avô abre os olhos. Não foi programado por ninguém, sequer por mim. Digo oi. Ele levanta parte da sobrancelha direita. É o seu cumprimento para o momento. Ele volta a fechar os olhos, e eu decido cochilar até a hora do almoço.

Onze horas e trinta minutos. Ainda é cedo, mas almoçamos. O meu passa pelo microondas, o dele pelo liquidificador. Eu, embora sem pressa, almoço rápido. Meu avô, colher a colher. Alcanço o caderno na mesinha ao lado do telefone e escrevo minha contribuição. Começo assim: Passam alguns minutos das oito da manhã. Faz bem pouco que eu cheguei… 

O cheiro de carvão queimando anuncia que os trabalhos dos churrasqueiros na avenida já está avançado. Ainda temos uma tarde e o começo de uma noite. O sol na janela da cozinha nos conta que a nuvem que desceu pela manhã já foi esquecida.

(Santa Maria, julho de 2013.)

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