Mês: abril 2013

João

Meu avô é grande. Sempre foi. Dirigia carros grandes, plantava árvores que eu subia, construía cataventos, alcançava os cachos de uva na parreira. Hoje, mais de oitenta anos, continua sendo grande. Especialmente quando o corpo já não obedeceu mais, e as ideias, como nunca, se embaralharam. Meu avô tem o orgulho intacto. Todos os anos e todos os reveses sofridos não lhe tiraram os desejos de fuga. Amanhã eu vou embora, ele diz. Ficamos eu e ele contemplando, olho no olho, sua fuga impossível. Estamos no seu quarto, é o fim de uma manhã. Com a cama reclinada justamente para receber o sol, observo o amarelo dourado da sua íris, iluminada. Tenho a impressão os anos foram deixando seus olhos mais claros – ou talvez seja porque agora seu olhar se demora, perguntador, confuso. Por um momento ele lembra, e em seguida esquece, que não pode fugir. Amanhã.

Quem é ela, alguém pergunta. Sempre estão a testar sua memória, a desgastar a paciência de um deslembrado. É a Carolina, ele responde. Eu sorrio – não sou Carolina, mas poderia ser. Quem disse que avô tem que acertar nome? Se ele não lembra, acho que a envergonhada deveria ser eu e não ele. Eu sou pequena e ele é grande.

Passamos a tarde em silêncio. Ele suspira. Às vezes é um suspiro denso, parece que vem da infância. Às vezes é um suspiro comum, como quem percebe que a tarde vai caindo. Posso comer essa maçã, vô? (não é cruel dar o poder de escolha para quem já não escolhe? mas é um jogo que inventamos, brincamos assim). Pode, ele me responde, como quem faz uma concessão. Como se dissesse: não coma demais. E outras vezes ele muda o tom das respostas, diz: pode, mas dessa vez quer dizer: é óbvio, pegue o que quiser. Assim ele vai alternando. Vamos extraindo palavras, com alguns métodos desenvolvidos. Me dá isso aqui, ele me ordena, pedindo o meu pão. Mas tu já comeu, vô, eu argumento, tentando preservar minha torrada. Ah, é. Ele desiste. E ri, levantando as sobrancelhas.

Com o olhar ele investiga as próprias mãos. Tateia uma substância invisível, apalpa os próprios dedos. Às vezes se surpreende com o que vê, exclama: olha isso! Ele esquece a velhice mas a pele fina e mole das mãos o faz recordar. Esquece os aniversários, que comeu, que dormiu. Podemos esconder dele algumas verdades, fingir um nome que não temos, concordar com algumas das suas invenções; pode-se esquecer o tempo, o sono, a saciedade, mas não se pode esquecer as próprias mãos. É um instrumento indisfarçável, um fóssil ao alcance dos dedos. Suas mãos dizem o que ele não quer saber. Então, às vezes, ele chora. E como a fuga impossível, como uma criança, ele esquece também porque chorou.

Enquanto ele sente a pele das mãos, me surpreende olhando pra ele. Não sei até onde eu chego, não sei até que ponto ele me vê. Como se a gente soubesse o que as pessoas normalmente lembram. Como se a gente soubesse se nos ouvem quando falamos. Mesmo que eu seja outra pessoa, e ele esqueça. Então ele abre um sorriso. Depois se vira, apoia a mão no queixo, olha fixamente para algum lugar, que não a televisão. Para ir embora, ultimamente, não anunciamos a saída. Simplesmente saímos, como uma lembrança que se esquece. Como algo que se perdeu, e achamos que é melhor assim. Depois dos oitenta, mesmo a mais banal das despedidas ganha algo de definitivo. Ele segue sua observação calada, e eu acho que é um bom momento, vou deslizar para a porta. Mesmo assim, perifericamente, ele percebe minha movimentação. E desponta, atira a frase no meu colo: eu não gostaria que tu fosse embora. Não era uma ordem, nem sequer um pedido. Apenas uma observação. E eu, atrasando a ida, largo a bolsa de novo no sofá e penso: nem eu, vô, nem eu.

O mais cruel dos meses

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera,
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.

(…)

Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,
E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o canto dos grilos,
E nenhum rumor de água a latejar a pedra seca. Apenas
Uma sombra medra sob esta rocha escarlate
(chega-te à sombra desta rocha escarlate),
E vou mostrar-te algo distinto
De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece
Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;
Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.

(O enterro dos mortos, T. S. Eliot)

Sujo meus sonhos de realidade. Levo meus desejos ao extremo da ponta de um lápis. Não vejo nada. Existem palavras e eu existo. Essas foram as coisas mais certas que consegui. Amanheço de luz acesa. Sujo meus sapatos de rua. Saio para onde se vê meu rastro confuso, onde se espalha a casca que fui arrancando das horas; ruas e praças tão minhas, de tanto que pousei nelas os olhos. Vou atrás de um pensamento esquivo, que teima em não se enclausurar na casa, da revelação que não quer acontecer aqui: coisas diluídas em ar. Os sapatos voltam ao armário, eu volto ao quarto-de-não-dormir. Deslocamento nenhum.

Não quero passar um mês esperando o outro. Penso muito ou não penso? Sento-me na beirada da vida. Espero-a acontecer, assisto? Espectadora que desceu de um trajeto e quer ser passageira de outra coisa. Que coisa? Simplesmente outra. Em toda decisão, acima do burburinho dos conselhos e da prudência recolhida em cada esquina, estamos necessariamente sozinhos. Seja no nosso crescimento ou nos nossos fracassos, não levamos ninguém. Na hora mais silenciosa da madrugada, fazemos nossas piores perguntas e desenterramos respostas.

Recordo-me, quando criança, de gritar desesperadamente por uma dor de ouvido. Não que doesse tanto, mas eu não tinha certeza se iria acabar: aquela dor nunca me havia doído, nunca havia sarado dela. Toleramos bem melhor aquilo que conhecemos o ciclo. Nenhuma mulher sente todo mês o desconforto da cólica como naquela primeira vez em que nosso corpo parecia agir fora de nosso controle. Acometida de mal inédito, adoeci. Anoiteci. Duvidei que visse o dia em que me visse revigorada. Mas aos poucos, amanheceu: aprendi que em algumas enfermidades, cura é escolha. Doeu-me a ansiedade, a aflição de que o mundo pudesse parar de girar ou que a vida cessasse de acontecer. Angústia que me fez cega para ver que há um ano eu era outra, me embrenhava em caminhos tão diferentes e me dizia estagnada, como se não estivesse imersa no rio – no rio que passa, e é a nossa vida.

Mais sã (ou menos, na visão de alguns) faço-me então aqui presente. Agradeço a minha leitora única, pelas visitas e pela insistência tão amável. Nos perguntamos, as duas, embora ignorando em partes as razões uma da outra: terá esse caminho um coração? (e poderá alguém saber de razões que não sejam suas?). Arrisco sem medo algum essa semelhança nossa, orgulho e ruína, de querer coisas com coração. Queria ter o poder também de provocar outras, denunciar ausências, trazer ainda mais para perto outros corações.

Concluo que não quero ser triste nem alegre. Não quero esperar epifanias nem revelações. Meu sossego, muito que perdi… nem procuro. Meu ato inaugural: indigente, passo em revista por mim mesma, caminho sobre os sonhos caídos, dobro a esquina da falta de senso. Ruas limpas de lembranças. Desencaminho-me. Caio no endereço das coisas minhas, que pouco ou nada conheço.

(Santa Maria, abril de 2007)