O mapa da casa

Subiu cada degrau bem devagar. Meio sem forças, foi se segurando na trepadeira enlaçada na escada, um corrimão que cresceu enquanto ela não estava. Ainda tinha a chave da porta da frente. Boa tarde, disseram solenes as formigas. Já é quase de noite, replicaram as aranhas do alto das suas teias. A camada de pó dos móveis denunciava que dia era. A sala estava ali, com a televisão desligada como um brutamonte domado, meses e meses. O sofá, como os gatos, odiava visitas. A ausência humana faz as coisas se modificarem, ou talvez mostrarem o que eram de fato. A cristaleira, na verdade, era um compacto museu. Cada portarretrato, um pequeno altar.

Quebrou o silêncio do quarto abrindo a porta pesada de madeira e entrou. Sentiu que era pouco. Entrou no roupeiro. Ficou ali, brincando por um momento um esconde-esconde sem medo de ser achada. Notou que os casacos de lã hibernam no verão e que as saias coloridas estão sempre prontas para passear. Confidenciaram-lhe os sutiãs que seu lugar favorito é ao lado da cama, caídos. Lá dentro, o mais sério de todos é o chapéu: não se dobra nunca, exibe sempre seu vazio. Achou roupas de pessoas ausentes e sentiu que era como receber cartas atrasadas – contas que já chegam vencidas e não sabemos o que fazer com elas. Ao sair do esconderijo, viu que a cama estava com lembranças demais para permitir o descanso. Parece que murmurava sem parar coisas que ela não queria escutar. Fugiu.

A cozinha nunca havia passado tanto tempo limpa. Algumas louças tinham ficado na pia, para escorrer, o que deve ter durado uma ou duas horas, o resto foi espera. Decidiu guardá-las e acabou derrubando aquelas esculturas improvisadas. Os garfos e as facas gritaram, as colherinhas de chá deram pequenas risadas. Dois pratos com estampas geométricas se perderam. Os copos de plástico não puderam se quebrar – não têm graça justamente por essa falta de perigo. Na despensa os mantimentos são poucos, não podia juntá-los para preparar nada. São, como ela, sobreviventes. O frasco de café reaproveitado para o açúcar seguia confuso. Os parafusos de massa espalharam-se no chão do armário. Ficaram os cravos-da-índia que não acabam (moram nos potes para sempre) e a essência de baunilha, quase eterna, com a soberba das poções mágicas.

No banheiro, os azulejos contavam as mesmas histórias de flores. A lâmpada perto do espelho ainda estava queimada. Tentou ligar por uma esperança que, por alguma espécie de milagre, houvesse ressuscitado. A calcinha no chão interpretava uma nudez antiga. O chuveiro, de tão sedento, demorou mais para abrir. O grande problema da economia de água e luz, pensou ela debaixo d’água, é que é quase impossível não confundir banho com meditação. O frasco de xampu que ficara seguia incansável, cheio de promessas, para quem quisesse acreditar. Os cabelos poderiam até cair – de fato, havia perdido alguns – mas o que iria amaciar a vida?

Com túnica e véu de toalha, atravessou a casa e acabou ali, na biblioteca em miniatura. Pensou que muitos objetos, depois de tempo sem uso, acabam esquecendo o que são. Menos os livros: os únicos que sabem ser pacientes, os que foram feitos para a espera. Poderia ser ali que começaria a escavar. Poderiam ser eles que a ajudariam, lentamente, a lembrar o que nunca soube. “Nunca mais deixo de morar em mim”, ela prometeu. Admirava quem encontrava grandes motivos, horizontes, causas. Até agora ela só havia encontrado palavras e outras coisas miúdas – desde pequena tinha sido assim, dada a pequenezas. Foi com isso mesmo que seguiu o seu caminho. E essa mesma casa, real e absurda , ela aprenderia de novo a habitar.

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