Deverias frequentar um outro mundo

O problema é que o amor não acaba: se às vezes é preciso pular, é sempre por outras forças, impasses, apelos, mas não porque o amor acaba. Se o amor acabasse, não haveria o luto. O luto é precisamente o fato de que o amor só acaba depois. O luto é o operar-se vivo do amor. É preciso separar os mundos, disjuntar o tempo, afastar-se libidinalmente – para que então, depois, o amor acabe: “Se pudesses, deverias frequentar um outro mundo”, diz Ovídio. (Francisco Bosco, ‘Banalogias’, 2007)

Como te serviu bem minha ausência. Agora caminhas por essas ruas mais tranquilo, mais leve ainda. Dormes melhor com a cama de solteiro folgada – ao menos por esses primeiros dias. Já não terás mais que disputar o melhor travesseiro e te despertas mais calmo, sem aquele barulho da minha alegria infantil pelas manhãs. Sem ter que aceitar a xícara de café que eu te trazia pra só então voltar a dormir. Por sinal, não derramo mais café no teu sofá enquanto te espero acordar e tua faxineira já não precisa esconder minhas coisas naquele banheiro nos fundos da casa. Não me espalho mais com casacos, livros, brincos, computador e voz alta pela tua sala.

Como te caiu bem a solidão. A cozinha da tua casa já não é importunada pelas minhas aventuras nas panelas. Já não precisas te preocupar com a louça que poderia ficar por lavar. Não esqueço mais frigideiras sujas no fogão. Toda essa bagunça passou, agora podes decorar o número de todas as tele-entregas da cidade. Já não vou mais criticar os vizinhos que fazem os entregadores subirem três lances de escada. Aliás, não se criticará mais nada. Tudo será como é e ponto final.

Que oportuna foi a minha partida. Nenhum carro clandestino vai estacionar mais no teu prédio. Minha risada já não vai mais ecoar da sacada para o parque, chacoalhando o sono leve dos teus vizinhos. Serás um inocente nas reuniões de condomínio. A vida será tão calma e ordeira que em pouco tempo poderás até reclamar do barulho estrondoso que faz o roupeiro do apartamento de cima.

Vais poder voltar a usar aquele moletom do Grêmio surrado que eu te proibia. Ninguém vai ameaçar jogar fora as caixas de leite há dias na geladeira. Não vão assaltar tua despensa sem aviso prévio. O xampu vai permanecer no mesmo nível que deixaste no último banho. Os sachês de açúcar serão somente o que são: para adoçar, e não terás mais nenhuma responsabilidade com essa minha coleção sem sentido. Tuas prateleiras estarão para sempre intocadas – ninguém mais vai traficar livros sem que tu saibas.

Parece que me deixar te fez um bem. Afinal, era tudo mesmo tão complicado… Agora aquelas canções tristes que tu gostas farão todo o sentido – porque era tão banal ser feliz, melhor assim. Teu pai te dará aquele tapinha orgulhoso nas costas: “É isso aí, tem que aproveitar a vida, não dá pra se prender.”

O combinado de sushi vai render mais. A conta de telefone vai custar menos. Poderás, enfim, confraternizar com meus desafetos. Não haverá mais as minhas raivas, o desconforto da minha ira. Ninguém vai te interromper a leitura. Teu nome será esse mesmo, nada de invenções em línguas estranhas, até que ganhes outro batismo. O trem vai viajar pra Buenos Aires sem a gente. Não vamos mais dividir os fones de ouvido até a universidade. Não serei mais a revisora dos teus textos, nem tu dos meus.

Poderás encontrar alguém que durma até mais tarde, que mantenha sempre a calma, que goste de futebol, que não enjoe no ônibus, que escreva cartas mais rápido, que ouça música alta, que fale mais baixo, que beba cerveja, que não durma nas festas. Alguém que vá te servir bem, assim como te serviu minha ausência.

O triste de tudo é um amor morrer assim de morte matada. De golpe covarde. Morreu inocente, sem ficha na polícia, sem má conduta. Morreu sem quebrar pratos, sem dizer uma palavra; morreu mudo. Por isso que eu preciso falar sozinha, na solidão do meu quarto. Expio meus pecados na ponta do lápis, organizo os restos da tua presença em uma caixa. Vim para um velório sem corpo presente e andei rezando aquela oração que me enviaste por e-mail, dizendo que não era culpa de nada nem de ninguém, somente um mal-entendido universal.

E se o luto é operar-se vivo do amor, fui extirpada em uma daquelas cirurgias modernas, feitas a distância. O caso é que não importa que o cirurgião não suje as mãos, a cura é sempre lenta. Tu não quiseste a contaminação e os pontos ficaram, todos, em mim. Extirpada, então, eu sigo a vida… melhor assim, não? Tu me conheces, eu sempre ponho tudo pra fora, não faço média com ninguém. Não tenho uma poupança clandestina de insatisfações. Nunca tive problemas com ser transparente. Tampouco tenho a mínima paciência pra fingir que não sofri: não sofrer depois de tudo seria depor contra toda felicidade vivida. A vida não é esse caminho onde a gente se esquiva sempre da dor. Há a facada de tristeza em quem está nas graças da euforia. Há a puxada de tapete de quem tenta se equilibrar em um pé só. Agora, me resta agir com todo cuidado que não tiveste – a mim coube ser grande, já que foste tão pequeno.

E, assim, baby, já não somos mais o que éramos, não fomos o que poderíamos ser. Confirmamos as piores expectativas. Eu que nunca soube me conter, sei bem que não vou conseguir colocar o coração no modo econômico – tenho todos os defeitos, menos a avareza. Vou ter que me curar a base de taças de vinho, salivas estranhas, viagens, golpes de horizonte. Seguirei exagerada, expansiva, inoportuna, sedenta. Vou refazer a minha rota e me entusiasmar com qualquer bobagem – simplesmente não há outro jeito de ser eu mesma. E no final, sou aquele tipo de mulher louca capaz de qualquer coisa. Ainda bem. O mundo, meu caro, começou de novo. Para ti e para mim.

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