Na boca de um monte

Foto: Guilherme Escosteguy

Se tem algo que eu faço bem é caminhar. Caminho como ninguém. Lembro bem do processo que foi para conquistar o direito de ir a pé sozinha até o colégio. Minha mãe insistia em me acompanhar. Depois de uma série de promessas, de que quando estivesse em tal série aí poderia caminhar sozinha, depois de cumprir entediada o trajeto e dispensar a pobre mãe meia quadra antes para que ninguém visse minha condição vexatória (já que vários colegas chegavam desacompanhados) finalmente, um dia, passei a alcançar o colégio somente com meus próprios pés. Estava inaugurado o momento de reflexão em que tive os pensamentos mais iluminadores da minha vida. Acabei me viciando em caminhar. Caminhava de tarde, perto da minha casa. De vez em quando alguém questionava o que eu fazia naquela rua, ao me encontrar. Não sabiam que caminhar era uma maneira muito interessante de ver coisas novas, sem ninguém para marcar o ritmo dos passos nem tolher uma parada inusitada. Mesmo sem saber disso, eu tinha intuído que conhecer uma cidade é percorrê-la sem querer chegar a lugar nenhum, como perambulam os cachorros sem casa. Escrever os sapatos nas ruas é a melhor forma de encher ou esvaziar a cabeça, a gosto do que se precise no momento. O andar solitário facilita algo muito raro e difícil: conseguir enxergar verdadeiramente um lugar.

Um dos caminhos que mais fiz durante a minha vida foi descer a avenida em direção à casa dos meus avós. Casa que eu nunca entendi e demorei muito, muito tempo para ver. Ver é muito complicado, leva tempo. Nem mesmo conseguia ver o caminho, já que quase sempre ia de carona nos carros dos meus pais, dos meus tios. Já mais velha, pelo simples gosto adquirido de caminhar, comecei lentamente a ver. Desacelerava quando já estava quase chegando, só pra sentir minuciosamente cada passo, concluir aquilo que estava pensando e fixar na memória o que se mostrava. O que vi, afinal, era uma periferia com todos os seus elementos universais. Ao mesmo tempo em que eu sempre estive por ali, não fazia propriamente parte. Eu vivia aquele lugar aos fins de semana, durante as férias, quando passávamos na casa dos meus avós, gastando horas intermináveis andando de bicicleta.  Na maior parte do tempo, porém, eu não estava ali, não pertencia.

Do mesmo modo como foi penoso enxergar aquele bairro, foi extremamente difícil ver a cidade onde nasci, cresci e vivo até hoje. Olhava para Santa Maria e não a encontrava, não a via. O princípio é o mesmo: tomar uma certa distância, e foi com o passar dos anos que aprendi que só se vê uma cidade quando mudar-se dela é uma iminência. Mesmo que essa mudança seja imaginada, sonhada. Nos momento em que mais me imaginei longe daqui, fosse temporária ou eternamente, é que pude, como quem consegue uma fresta na cerca, enxergar um pedaço dessa cidade. Quando conversava com pessoas antigas, que viveram a Santa Maria de outros tempos, conseguia imaginar como teria sido, me imaginava também vivendo aquelas épocas. Me via esperando o trem chegar, fazendo fila nos cinemas antigos, passeando pela Rio Branco ou fazendo footing na primeira quadra. Mas era só me despedir e ganhar a rua para passar a não ver mais nada. Eram as ruas de todos os dias, sem forma nem cor, sem calçada, sem céu. Simplesmente era o que era e sempre foi.

 Muitas caminhadas depois, já era meio claro que, não demoraria muito, eu não viveria mais aqui. Era assim que as coisas se encaminhavam, era assim que eu queria que fosse. Mesmo sem data, sem adeus ainda para dar, Santa Maria começou a aparecer. Foram nas caminhadas mais ociosas, sem rumo, que as pistas foram aparecendo. No começo, foram as lombadas. Comecei a me dar por conta do desenho das ruas, passei a contemplar as curvas que ela tinha, parecia que tinham sido recém feitas. Depois foram os ladrilhos das praças, planos geométricos que se entrecruzavam. Algumas árvores antigas que pareciam ter sido transplantadas de uma hora para outra. Um dia, levantando os olhos, com um susto vi um prédio estranhíssimo: era o teatro Treze de Maio. Mas a fase mais espantosa de todas foi quando eles começaram a surgir. Os morros. Para onde quer que eu olhasse, lá estavam eles, com os formatos mais variados. A cidade era abraçada por eles em todas as direções. E eles eram verdes, verdes. Algumas vezes, vindo do bairro Camobi para o centro, me surpreendia pensando nos morros. Se era possível subir até o topo, se alguém moraria lá, que animais andariam por entre aquelas árvores. Passei a fotografá-los. Passei a temer que deixassem de ser verdes, que tirassem suas árvores; medo que talvez sumissem, que passasse a não vê-los mais.

Um dia qualquer, como que me dei conta: então foi aqui que eu sempre morei? Como um náufrago que enfim consegue saber em que parte do globo se encontra, enfim me localizei. Passei a ver Santa Maria e acho que ela também me viu. Agora, me sinto melhor para qualquer caminho.

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8 comentários

  1. Giuliana, quando deixei SM sentia que ainda não a tinha conhecido. Mudei para outras paragens e penso que também não as conheço, mas me sinto confortável com isso. Assim, posso abraçar qualquer lugar como sendo uma possibilidade para conhecer e encontrar a mim.
    Só conhecemos as coisas quando as sentimos, estudei geopolítica, as guerras, os movimentos revolucionários e culturais com interpretações teóricas, frias nos livros e apostilhas decorando nomes, porém, ontem, visitando obras de Picasso, Dali, Goya e outros pintores do passado, entendi que um quadro, retrado de cada época, é capaz de nos revelar muito mais, pelo sentimento que nos transimte.

  2. Belo texto!
    Caminhar é tudo de bom e os morros de Santa Maria exercem esse fascínio mesmo, porém me preocupa, as vezes, não saber que forma eles possuem. E como você disse, de repente surgem “algumas árvores antigas que pareciam ter sido transplantadas de uma hora para outra”, e acho que não há momento mais intrigante, reflexivo e feliz do que este durante uma caminha pela cidade.

  3. Queridos, estou muito lisonjeada pelas visitas e pelos comentários! Conhecer uma cidade é muito complicado, às vezes um detalhe nos fascina sem alguma razão aparente. Aprendi a gostar da minha cidade, apesar de todas os desentendimentos que eu e ela tivemos. Um escritor que conheci há pouco, Ernesto Sábato, diz que aquele que se envergonha de seu povoado de origem, por mais pobre e ruim que seja, não pode admirar outras belezas mundo afora. Acho que isso me ajudou, porque entender-se com suas origens é algo bem diferente do bairrismo e do patriotismo, de não admitir os defeitos; é como fazer as pazes, sabendo o que há de bom e de mau, e sentir-se melhor sendo quem se é. Um beijão pra todos, e deixo a promessa de escrever os (não) diários cordobeses em breve.

  4. Giuli!

    Lindo e maduro texto, me deportei para minha vida, quando em muitas mudanças que fiz, somente tive esse olhar bem mais tarde do lugar onde nasci e passei minha infância . É um sentimento de pertencimento mesmo. Uma saudade e um desejo de voltar em alguns momentos no tempo e olhar com os olhos de hoje aquele lugar.
    Parabéns
    Valquirea

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