Minhas inutilidades

Tem casa que é quieta, arrumada demais. Casas em que tudo está em silêncio. Quase uma impessoalidade. Não adianta nem abrir uma gaveta para ver se sai um gritinho, uma risadinha de bagunça: tudo no seu devido e silencioso lugar. Roupeiros tão alinhados que parecem depósitos de roupas para robôs. Não dá pra adivinhar nenhum movimento, nenhum deslize ou ato apressado. Os livros estão dispostos por ordem alfabética, como um exército. Casas que mensalmente sofrem varreduras nos papéis, nos potinhos, no fundo dos baús: o desnecessário nunca se acumula.

Em muitos lugares, usando de argumentos colhidos até em religiões orientais, se defende que tudo aquilo que não é usado deve ser descartado. Conselho que eu ignoro solenemente. Sou uma coleção de inutilidades e não tenho – ao menos ainda – vontade de me desfazer delas. Quando faço arrumações nos meus papéis e livros, separo uma pilha de coisas que vão fora e coisas que vão para o arquivo (mesmo que esse arquivo não tenha horizonte de ser consultado em 10 anos). Quando coloco o lixo fora, sempre sinto no fundo um temor de ter confundido as pilhas e descartado o que eu queria que ficasse.

Distribuídos pelos mais diversos locais e esconderijos nos móveis, organizados conforme se pôde fazer, lá se vão bilhetes de aula do primeiro grau, coleção de cartões de aniversário, cartas, bibelôs lascados, roupas de criança, agendas da adolescência, livros que não consegui ler, folhinhas secas de lembrança, anotações sem muito sentido, caixinhas de embalagens que acho bonitas, chaves que já não tem mais porta, folders de eventos da década passada, tocos de lápis e mais todo um arsenal. Tem gente que se espanta com o tanto de coisa que guardamos em casa. Eu me arrependo de não ter juntado algumas mais. Recordo ainda com um pouquinho de rancor o dia em que doaram meus brinquedos de criança sem me consultar. Não é apego material: eu teria doado, sim, os mais novos, que outras crianças ainda poderiam brincar, mas certamente deixaria uma ou duas preferidas (especialmente uma bonequinha de vestido lilás, que dava umas piscadelas bem engraçadinhas toda vez que se mexia nela).

Uma casa sem algo de inútil é um ser calado. Ninguém poderá remexer num armário e encontrar um pedaço de uma existência esquecida, talvez melhor, talvez pior. É espantoso como nossa memória pode se grudar em objetos, em pedaços, em coisas; embora nosso passado não seja esses objetos, essa matéria fossilizada. Os papéis, as memórias, os objetos, no entanto, têm eles os seus discursos. Não é uma mania de limpeza que deve calá-los.

Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser. Garante a soberania de Ser mais do que Ter. (Manoel de Barros)

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4 comentários

  1. Ótimo texto, Giu. Com a tua poesia de sempre. Mas pense, um dia, você pode ter de ir por um longo tempo e só levar uma mala grande com um peso X, pq o avião não carrega mais que isso para você e não tem ninguém que fique com seus tesouros. É a vida. Já me aconteceu duas vezes.

    1. Nika, essa é uma situação complicada que já me ocorreu, mas como tudo sempre parece distante até acontecer, continuo vivendo como se nunca fosse me mudar e não cogitando ter que me desfazer de nada. Tonta, né. Penso em caixas, caixas de madeiras miraculosas que organizariam minhas vida e meus livros. A verdade é que estou bem espalhada e sofreria um bocado para fazer sobrar só uma malinha de todos os meus (inúteis) pertences. O que tu fizeste nessas situações? Abandonar algumas coisas e confiar os livros a alguém?

      Um beijão e obrigada pela visita!

      1. Deixei os livros em caixas na casa da mãe e mais de 90% das roupas. Tive de empilhar os móveis em um quartinho e mal deu para resgatá-los depois. Dos tesouros, resta uma pasta, só uma pasta.

  2. Olá … conheci o blog há pouco … li vários textos e nem percebi … a leitura fui muito rapidamente!
    Nucna sei o que comentar … mas achei de deveria deixar algumas palavras! Me encantei com tudo que li por aqui!

    ;*

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