A melhor viagem

No dia da melhor viagem que já fiz, acordei atrasada. E a viagem só durou um dia. Acordei na manhã já irremediavelmente instalada e em 5 minutos já tinha saído de casa com a primeira roupa que eu vi, de cabelos molhados e absolutamente desmaquilada. Porque eu iria fazer aquela viagem tão bonita e minha vaidade tinha planejado várias camadas de rímel, uma a uma, antes de o sol nascer – para fingir que a gente já acorda assim, sabe? Só fui recuperar a dignidade bem depois, já em meu destino, quando ele, depois de jurar que eu estava linda daquele jeito mesmo, espontaneamente tinha dito que eu voltei do banheiro mais “luminosa”. Antes disso, cruzando a estrada, me fiz de forte e nem tomei remédio para não enjoar, ganhando como prêmio a oportunidade primeira de dormir nuns braços que muito mais vezes me fariam adormecer tranqüila.

Eu estava guardando dinheiro para alguma coisa – talvez fosse minha câmera fotográfica, talvez fosse alguma conta que eu tinha que pagar – mas peguei uma quantia desse tanto destinado e fui gastar na minha viagem de um dia. Porque eu estava com um pressentimento.

Viajei e comprei livros que depois nunca consegui ler – um porque me pareceu de fato ruim e outro porque era em francês, veja só, uma língua que eu não dominava e até agora não domino. Porque aqueles eram os tempos das grandes pretensões.

Passeei na cidade, andei por ruas que eu não conhecia, tomei cafés ruins e tomei bons cafés. Escovei os dentes dentro do banheiro minúsculo do restaurante que almoçamos, bem quando faltou luz. Comprei remédio para dor de cabeça, claro, porque ela viajou comigo – companheirismo é isso.

As praças estavam cheias de gente, crianças brotavam, pais buscavam essas mesmas crianças que tinham se perdido e o mundo parecia feliz porque as pessoas se acotovelavam em busca da boa literatura. Ou de bons preços, apenas. Cogitamos tirar uma foto com um lambe-lambe, fato que não foi levado adiante devido a nossa distração e aparente encantamento. Eu com um visual de atrasada e tu com aqueles óculos que tinhas pedido emprestado para poder ver bem os livros que traria. Coisa que não te impediu de comprar Carpinejar, autor que caiu no meu gosto mas não no teu – irônico porque lendo-o penso sempre e muito em ti.

Pavilhões com areia, chuveiros de sons, uma sentença cantada, Kant lido por uma criança de 6 anos e duas almas expulsas da exposição porque era hora de fechar as portas. E assim fomos, para o jantar num shopping qualquer e partirmos de volta.

Lá estávamos nós, no terminal cheio de gente e mala e coisas passando. Só que os ônibus tardavam e não tínhamos casa. A rodoviária era hostil e assim começamos a assediar ônibus aleatórios para perguntar se, por acaso, não passariam por Santa Maria. Até um que ia pro Chuí eu abordei, porque nessas horas de leve desespero a noção geográfica some.

Embarcamos. Uma vez mais, o imprevisível batia à porta: já não podíamos sentar lado a lado, como a ida. Entre nós, um corredor estreito que naquele momento parecia imenso, intransponível, e dois mal-amados que se negaram, mesmo sob nossos pedidos gentis, a trocar de lugar – para eles, roguei maldições terríveis que até hoje reverberam no cosmos.

Em horas como essa, o que se faz é estender a mão e encontrar a mão que te espera no além-corredor, mesmo que algo inesperado, como um pé humano vindo do banco de trás, surja aparentemente do nada, se pondo entre nós e fazendo do ataque de risos a única solução viável.

Ou ficar em silêncio de mãos dadas e ler nos lábios algo que você não sabe se entendeu bem (parece que sim, mas está escuro) e responder que, sim, eu também, e não saber se a outra pessoa também entendeu. Levar para casa o dito pelo não dito, o mistério e a alegria baseada numa grande, enorme pretensão de ter nessa vida ingrata a conjunção de amar e ao mesmo tempo ser amado. Isso sim, deixa a gente luminosa. Foi a melhor viagem que fiz.

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