Pitada de arte conceitual ou É agosto e estou estafada.

Aproveitar o tempo é maravilhoso: ser uma pessoa cumpridora de tarefas e ter aquela sensação, ao final do dia, de consciência leve e organização. Mas a gente exagera. Porque queremos tudo e tudo agora. Porque muitas vezes nos julgamos mais fortes do que somos – e é tão saudável e tão humano admitir fraquezas e impossibilidades. E diante da ameaça duma profissão que tem “relação fetichista com o tempo”, em que é urgente dominar essa besta-fera ao invés de ser dominada por ela, eu crio casca e me reinvento. Tento respirar fundo e lembrar que o ano ainda nem setembreou. Que ainda tem um outubro e um novembro de estrada. Busco forças nas lembranças de quando o tédio e a falta de sentido eram cargas mais pesadas que essa rotina, que nem mãe que dá sermão quando se reclama de barriga cheia.

Só que se sabe que alguns impulsos perduram, porque nosso espírito teima em habitar a calmaria. Dá saudade de ficar olhando pras paredes. De dispor de uma tarde como um patrimônio temporal imenso de  possibilidades, para desperdiçar pelas papelarias da cidade em busca do bloquinho de papel ideal. Agir que nem quando éramos crianças e aceitávamos qualquer proposta tonta – como catar pedrinhas coloridas – só para ter o que fazer (se sabe que a infância dispõe da eternidade e o maior crime é preencher todo o tempo duma criança, tolhendo-lhe o impulso de inventar). Ou para fazer uma lista de música brasileiras que precisam ser ouvidas e gastar horas tentando descobrir o que será que o Cazuza quis dizer com segredos de liquidificador.  Bom esse exercício para relembrar a real medida das coisas: que o mundo é concreto e que a vida é curta demais para fazermos só coisas importantes.

1- Estudo para tempo:

Numa praia ou num deserto, cavar um buraco (do tamanho que quiser) na areia, sentar-se e esperar em silêncio até que o vento o preencha inteiramente.

2- Estudo para espaço:

Num lugar qualquer, fechar os olhos e estabelecer uma área delimitada pelos sons que os ouvidos possam alcançar.

3- Estudo para espaço/tempo:

Depois de 12 horas em jejum, beber 1/2 litro de água fria numa jarra de prata.

(Cildo Meirelles, 1969, RJ – Bienal do Mercosul 2009)

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