Seu João e o mato

Seu João quer cortar galhos. Existem pessoas com firmeza em seus objetivos e ele é uma dessas. Seu João cuida quando chego em casa. “Eu vi quando a luz acendeu, descurpa incomodar”, diz ele. Descurpa, ele fala assim mesmo, que nem a gente de fora. “Eu sou de fora”, ele gosta de frisar. “Mas já saí do campo há trinta anos. Agora comprei um apartamento novo, num condomínio, com meu trabalho. Olha pra ele de fora e nem acredito que é meu”. Faz três dias que ele passa pela minha casa. E me conta um monte de coisas que eu não perguntei. Fica cuidando quando a luz acende.

Ele quer cortar galhos. Para isso, pleiteia uma autorização, porque os galhos que ele quer cortar tem raízes no nosso terreno. Só que autorização minha não basta, tem que ser da minha mãe. Agora pouco que ele se convenceu de que ela é a gestora oficial da casa; antes ele chegava perguntando pelo meu pai. “Seu pai ta aí?” Não, não está. Meu pai não mora nessa casa há uns 15 anos. Só que eu não disse nada para o seu João, porque isso o motivaria a muitas, infinitas perguntas. Depois de um certo tempo, seu João concedeu legitimidade à minha mãe para tratar de questões como essa. Mas ele não esquece, e numa dessas três vezes que ele tentava obter sua autorização ainda lamentou: “que pena que ele não está mais aqui, a gente se dava tão bem… um dia até me ajudou a capinar o mato”. Quem o auxilia em sua tarefa mais suprema ganha admiração eterna. Um homem que ajuda a roçar um terreno é um santo para seu João.

O mato é o seu inimigo. “É que tem muito galho, tá encobrindo nossa visão ali embaixo, guria.” Ele me chama de guria. Eu fico me perguntando que vista bonita seria essa que ele quer tanto apreciar. Melhor seria ficar vendo as folhas do abacateiro. Só que seu João não pensa assim. Ele gosta muita de cortar folhagens, galhos, arbustos, tudo, tudo o que estiver na frente. O abacateiro é um sobrevivente da luta de seu João contra o mato. Uma vez, ele cortou o galho principal do abacateiro. Minha mãe se enfureceu. Seu João não quis saber, e afinal, quem era ela?, essas questões ele lidava com o homem da casa. Além do mais, estava fazendo um favor, porque aquilo era mato. E mato a gente corta de facão. Depois, aos poucos, seu João foi entendendo das coisas. Por isso que ele tem vindo aqui em casa pedir autorização. Por isso ele vem puxando assunto e tenta não arrumar mais rupturas com os vizinhos.

Abro a janela e lá está ele, o desbravador. Cortando e cortando, feliz. Cortou os galhos incômodos: na quarta visita, eu disse a ele que fizesse o que queria, mas que não exagerasse. Mas menti que foi minha mãe que mandou dizer, porque duas décadas de vida é pouco para alcançar o posto de dar uma resposta a ele. É o preço que se paga pela paz aos fins de tarde. Enquanto seu João corta, o mato, sem nem sentir, ri dele e do seu desejo de vistas limpas. O mato é um resistente implacável. Vai crescer de novo e encobrir de novo toda a vista do seu João.

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