Anotações em trânsito

Curva

O começo do trajeto para a capital se sentiu mais ou menos assim: por distração, achei por algum tempo que estava indo para a Universidade, e me pus a colocar em ordem os pensamentos enquanto assistia as placas correrem na janela ao longo da rodovia (Aluga-se, Pedras, Papelaria, Atacado, Serralheria). Cumpri essa tarefa quase diariamente durante mais de quatro anos e é uma das coisas que eu acredito que mais faço bem na vida. Ao chegar perto da entrada da Avenida Roraima, no entanto, o ônibus não dobra; não sinto a troca de calçamento para as pedras, que sacolejando a todos no coletivo, avisa que a reflexão precisa ser interrompida. Seguimos então reto na estrada, em uma espécie de descontrole que todos parecem aceitar com normalidade. Enquanto a placa da cidade parece brincar de forca (S_ant_a Ma_ia) e um avião colado ao chão completa meu estranhamento, me conformo em pensar que ir pra longe de casa, não importa quantas vezes se faça, sempre vai parecer como embarcar em um ônibus desgovernado.

Som

Usar o modo aleatório no tocador de música é mais ou menos como tentar a sorte. Somos atravessados por lembranças e ritmos inesperados, nem sempre de forma oportuna. Outras vezes, no entanto, parece haver uma certa sensibilidade nessa escolha do aparelho, obtida sabe-se lá por que via. Para um trecho da minha viagem, dá a impressão de ter sido selecionado uma lista temática: Coração vagabundo, de Caetano Veloso, Semeadura, de Vitor Ramil, e A noite, de Marcelo Camelo. Dentre as centenas de combinações possíveis da memória, vendo o poente tardio dos verões do Sul, penso que seguir sem medo e não cansar de ter esperança não poderia ter sido mais apropriado.

Abrigo

Persiste nos seres humanos uma espera por condições ideais para realizar alguma coisa. Nos escritores, é recorrente um imaginário refúgio em uma casa isolada. Marguerite Duras, em seu livro ‘Escrever’ não hesita em atribuir sua produtividade ao seu local de trabalho: “meus livros e meus filmes saíram dessa casa”, afirma ela. Ao longo da BR 287, penso sobre onde esse meu retiro literário aconteceria. Não considero nenhuma cidade com um clima pretensamente charmoso, nem uma dessas cidades serranas que se vendem turísticas e agradáveis – tanto menos a intersecção desses dois fatores. Penso em uma bem rústica e desconhecida, da qual quase ninguém fala e que nem sequer o nome contém uma promessa de bem-estar: Candelária, por exemplo. Lá, eu alugaria uma pequena casa, plantaria uma horta e escreveria contos que incluíssem o cerro Botucaraí. Ao mesmo tempo em que imagino tudo isso, me dou conta do quanto esses mecanismos de adiamento e espera são perniciosos. A obrigação de sentir-se bem sempre gera o efeito reverso; o impulso de produzir não costuma satisfazer uma expectativa. As musas, já advertiu um poeta, não pactuam com nada. Tudo costuma se dar sem esperar a melhor circunstância: mesmo que, se vive; apesar de, se escreve. Assim tomo nota no meu caderno em letra tremida, enquanto o ônibus deixa Candelária cada vez mais para trás.

Bolha

A despeito do fato de que completarei 27 anos mês que vem, está cada vez mais difícil dissimular meu interesse por uma espécie de arma de bolhinhas de sabão da galinha pintadinha (presumo que seja essa personagem pois trata-se de uma ave azul, embora o elo entre galinha e sabão siga um pouco indecifrável). O negócio vai fazendo bolhas ininterruptamente, e em alguns segundos, sem o esforço de soprar, forma uma cortina de bolhas extraordinária. Penso que se tivesse umas duas décadas a menos eu seria muito feliz com aquilo. Penso, talvez, que a alegria de usá-lo nos dias atuais não seja muito diferente. O vendedor, sempre pelos arredores da biblioteca Mário de Andrade, além de uma boa garganta e boas apostas no setor de brinquedos, possui uma excelente percepção de possíveis clientes. Hoje, no começo da tarde, me abordou certeiro:

– Compra, moça, você sempre passa olhando!

Posso comprar para o meu sobrinho, penso eu, e entregar só no Natal. Até lá, em um prédio no centro da cidade, quem sabe se note uma estranha nuvem de bolhas que verterá da janela do quinto andar.

Procuro

Existe algo que ficou. Está encaixotado com meus livros em Santa Maria, juntos com meus diários de menina, ou eu coloquei no bolso antes de sair para caminhar e perdi. Algo que ficou talvez depositado no fundo do rio onde aprendi a nadar, em São Martinho da Serra. Foi pela manhã ou à tarde, não lembro bem, mas ficou por lá. Era o meu segredo.

Estava escrito em Times 12, em um arquivo salvo no notebook antigo, que pifou porque esqueci a janela aberta e choveu em cima dele. Deletado por uma chuva de verão. Era o mais importante; talvez a única frase verdadeira que pude dizer, que me faz falta quando desperto e quando vou dormir. Tudo estava revelado, mas ficou numa gaveta naquela casa onde meus avós moravam, no Prado.

Pensamos que o que vem adiante traz a resposta e por isso seguimos, por isso anotamos os sonhos na caderneta; por isso as tardes, o quarto vazio, o amor, a cidade, a rua. Hoje eu sei, no entanto: a iluminação já aconteceu e foi perdida. Precisamos menos de surgimentos do que de resgates. E a vida, ao final, essa tentativa de consertar um extravio.

Sobre chorar e outros roteiros

Para chorar, dirija a imaginação para você mesmo, e se isto for impossível, por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nos golfos do estreito de Magalhães nos quais ninguém entra, nunca.
(Julio Cortázar, Instruções para chorar)

 

Ninguém conhece uma cidade até chorar nela. Podemos percorrê-la semanas e meses, passar pelas mais intensas alegrias, experimentar ruas em diversos horários e números, a pé ou transportados, mas só o choro dá a verdadeira dimensão do lugar. O choro é o que nos localiza. Dizem que o que diferencia São Paulo não é o tamanho, nem as chaminés das fábricas, nem as avenidas; tudo se deve ao fato de que, todos os dias, encontramos gente chorando pela cidade. São Paulo chove para que se mantenha o anonimato até no pranto. Um dia, foi também a minha vez.

 
É preciso que se esclareça antes de tudo: os grandes centros urbanos, além dos seus microclimas, também geram em si fenômenos próprios de ordem emocional. Se somos doze milhões, são doze milhões de corações. Às vezes, alguns sofrem interferências e então choramos, sem querer, de forma pouco explicável. Se chora porque a lágrima é uma forma de entender, porque a cidade e a vida mudam muito e o choro, ao contrário do que se pensa, serve menos para o desespero do que pra ir aceitando as coisas.
Minha vez aconteceu no metrô. Um choro subterrâneo, do inconsciente da cidade. Se a vida está cheia de abismos, quase todos invisíveis, é de uma admirável sinceridade dessas estações quando advertem que há, sim, um limite, que o fosso está aberto. Ao entrar naqueles compartimentos, a paisagem na janela é o nosso próprio rosto. Na escuridão do túnel, o que se vê é só o reflexo do interior, a paisagem fica para dentro. Não dá pra fugir da gente mesmo dentro desses trens, nada ali nos distrai, nada nos acena. O metrô é o pior lugar para esquecer-se de si. Então eu chorei.

 
Foi de lágrimas fartas, um deixar-se chorar como os trens escorrem pelos trilhos. Por motivos difusos, por nada e por tudo. A pior coisa que se pode fazer a quem chora é tentar decifrar os motivos objetivos. Cabe apenas aceitar e oferecer algo: um sorriso, um lenço. Assumir o pranto como parte do cenário. A gente daqui, aliás, não se surpreende. Com o mesmo entendimento que dão informações, orgulhosos de saber sua geografia, sabendo que é normal que alguém se perca, sabem que o choro acontece, sabem a cidade onde moram. Entendem. É a compreensão paulistana, de que quase não se fala. Tudo durou uma ou duas estações. O choro foi se reacomodando, como as pessoas pelo vagão; foi se esquecendo de si, como um passageiro que dorme sem querer, depois do trabalho.

 
Saindo de dentro da terra, sob um raro sol de outubro, me perguntava o porquê daquela comoção. Quase não me reconheci nessa melancolia. Pensei então que essas descidas são como pequenas madrugadas, escuras e densas, em que tudo parece mais dramático e insolucionável. Ao sair dali, a inesperada luz da rua simula uma manhã, e rapidamente o mundo se torna mais fácil e o drama de pouco tempo atrás, exagero. Na vulnerabilidade do subsolo, posso ter sofrido das interferências, posso ter chorado uma tristeza de alguém que por acaso cruzou meu trajeto. Tudo bem, eu penso, tudo bem. Sempre que choveu, parou. Sempre que se chorou, também. Depois as lágrimas secam e toca a outro, logo ali. Ao subir as escadarias, sorri imaginando alguém que, longe ou perto, anda por aí desfrutando alguma alegria minha que, em um dia desses, eu tenha deixado cair.

Eu vim de Piripiri

Paulo Diniz foi quem me ensinou sobre o esquecimento. Estava no acervo de discos do pai, arrumados em uma estante fora do alcance dos meus olhos. Pela manhã, entre o cheiro de café e o perfume que ele usava antes de sair para trabalhar, Diniz soava sua rouquidão pernambucana. Ouvindo “Como vou deixar você” e “Um chope pra distrair”, senti pelas primeiras vezes um peso no peito, sem entender ainda do que se tratava. Hoje, sei que era algo como a tristeza –  eu, de tão pequena, ainda não conhecia, mas pode ter sido através daquela voz que eu começava a suspeitar.

Não voltei mais a ouvir. Vinte anos depois, ao me deparar com uma coleção de vinis, a capa de ilustrações azuis apareceu feito um cartão postal da Rua Olavo Bilac, onde morei até meus sete anos. Com uma urgência incomum, quis colocar para tocar, em um ato arriscado de acionar um mecanismo que eu desconhecia o funcionamento – não a vitrola, tão simples, mas a máquina das lembranças, que age sempre de modo tão inesperado.

Nunca entendi quem idealiza o passado, quem desgasta a nostalgia repetidamente. Se eu tivesse continuado a ouvir Paulo Diniz ao longo dessas duas décadas, talvez sua voz não exercesse sobre mim a mesma força. A agulha no disco restituiu em mim, naquela tarde, a emoção mais bruta da música. Se eu não tivesse esquecido, não poderia ter me sentido com cinco anos, olhando a cidade passar, indiferente àquele espanto denso e inesperado dentro de um apartamento qualquer. O tempo e o silêncio serviram para pôr sentido em versos que soaram tão leve-pesados, tão novo-velhos; serviram para o peito ter aprendido, ou ao menos intuído, algo sobre o amor, o desalento e as travessias.  E transbordou. Tive que ser aquele canoeiro – logo eu que nem sei remar, eu que nunca fui à Bahia. Resisto ao impulso de repetir. Em parte por medo dessa força, em parte para, quem sabe um dia, poder sentir de novo o mesmo assombro.

Bairro distante

escadaria cardeal arcoverde foto carlos moreira

Fuga

A melancolia é uma mulher – vestido azul, olhar castanho profundo – que anda solta pelo centro. Passeia pela Praça Ramos, senta nas escadarias da ladeira, anda do viaduto de um lado a outro. Às vezes, ela pega uma sessão de cinema, aquelas de Nouvelle Vague da Tchecoslováquia ao meio-dia, e conversa com os mocinhos barbudos que sentam nas poltronas ao lado. Encantadora, teria dito um deles. Eu sei que é ela porque quando passa as pombas continuam no lugar, porque senta junto com os mendigos que ninguém consegue ficar perto, passa reto pelas catracas. Da minha parte, quando a avisto de longe, finjo que não vi e apresso o passo.

Faixa de segurança

Caso Deus exista, não gostaria de perturbá-lo muito. Minha vida tem dias um pouco difíceis, mas dá pra ir levando, uma hora algo dá certo, noutra algo dá errado, o balanço tem sido bom. Gostaria mesmo de demandar uma coisa importante: que proteja esses meninos que cruzam correndo a Nove de Julho, em qualquer horário do dia e da noite, enquanto eu, da sacada, tento ajudá-los como posso – com bons pensamentos e preces sem convicção de Deus. Cruzar uma avenida enorme, sozinhos e correndo, sem passarela, é uma metáfora para a forma como essas crianças levam a vida. Eles costumam sobreviver, mas a infância – dá pra ver aqui de cima – se vai um pouco a cada travessia.

Lonjuras

Acontece sempre de alguém me interpelar: como é viver lá no Sul? Nessa hora, o Sul se torna uma sílaba imensa, me sugerindo o infinito. Apequeno-me diante de uma pergunta que pede para definir, ao mesmo tempo, modos de vida e uma vasta região do mundo. Costumo dar respostas bem vagas, dizendo que é boa e ruim, como aqui. Algumas vezes, sem saber de onde venho, me advertem que aqui faz muito frio. Eu digo que estou acostumada, embora já tenha visto soprar em São Paulo um vento mais austero que o Norte ou o Minuano: a distância de casa. Não sou a única a sentir. É esse vento das cidades que são feitas de gente que veio de longe.

Pingentes

As coisas que eu gosto aqui são tão banais, tão bobas, que eu até tenho vergonha de contar. Gosto da fonte nas quais estão escritas as placas das ruas e das frutas penduradas nas lanchonetes baratas (bananas em cachos, abacaxis presos pelo cangote, laranjas em sacos de tela). Dos cafés de coador em copos pequenos de vidro, do vento que sopra antes do trem chegar. Constato que são justamente elas que me mantêm atenta, que fazem justificar para mim mesma a alegria e a cor dos dias. Há tempos em que nos agarramos mesmo é nas insignificâncias. Não é preciso ser feliz sempre, mas precisamos ao menos que brilhem, vez ou outra, algumas promessas de felicidade.

Descaminho

A história de uma mudança é também a história de uma sequência de perdas. Logo ao chegar, perdi um livro de poesias – um dos meus preferidos, comprado em Montevidéu. Nos meses seguintes, vim perdendo mais e mais objetos. O próximo foi um par de brincos de zircônia, em seguida uma caderneta marrom, um lenço azul florido e depois um celular. Sem contar as dezenas de canetas, que parecem buscar um gênero ou uma caligrafia sempre mais além. Semana passada, perdi minha carteira de identidade. A sabedoria popular diz que o que vai embora sempre volta, mas a verdade é que se engana. Aprender a seguir não é saber esperar a volta ou as compensações, mas saber que o trajeto também é feito de coisas que jamais serão restituídas.

Sapatos

Basicamente tudo no mundo envolvendo seres humanos pode ser explicado pela empatia. A música, a literatura, o amor, a política. A simplicidade é apenas aparente. Quanto menos tipos de vida experimentamos, menor a possibilidade de conseguirmos entender o outro. Por essa razão, é preciso em um só dia ser muitas pessoas, viver muitas vidas. Hoje mesmo, fui atendente de loja de bijuterias, malabarista de semáforo, namorada de um homem que gritava na calçada, executiva do Santander e imigrante africana recém chegada. Em inglês e espanhol, sei que se usa a metáfora dos pés: ponerse en sus zapatos, put oneself in somebody else’s shoes. Colocar os pés onde os outros pisam pode ser mais ou menos fácil, dependendo do caso. Tem vezes, aprendi, que só andando descalço.

Pinheiros

Um homem chora. Eu, ao seu lado, apenas observo. Ele segue chorando e sinto que preciso fazer alguma coisa. Encosto levemente minha mão no seu braço e digo: não fique nervoso, moço, tudo passa. Ele me olha, continua a chorar. Instantes depois, esfrega o rosto com a palma das mãos, se acalma. Então me diz: não estava nervoso, não. Eu sorrio, ele responde com outro sorriso, maior que o meu – quase rindo de si, de ter deixado pública sua tristeza, embora sem se envergonhar. Era saudade, ele continua. Saudade dói mesmo, eu comento. Ele então fica sério de novo e explica: quer dizer, não é bem saudade que dói… é o jeito que as coisas aconteceram. Até a próxima estação, seguimos em um silêncio confidente.

 

Stairs at Liljeholmen in Stockholm, Sweden (Photo by Michael Cavén)

 

(São Paulo, março de 2014)

Três amores

Mapa antigo.

Em um amor, a maioria procura eterno lar. Outros, muito poucos, o eterno viajar. Estes últimos são os melancólicos, os que temem o contato com a terra-mãe. Quem mantiver longe deles a melancolia do lar é quem eles procuram.

(Walter Benjamin, Rua de mão única)

 

Com V., o amor só chegou depois. Eu desacreditava que um dia poderíamos ficar seriamente juntos. O primeiro beijo foi negociado: depois de quatro ou cinco cervejas, diante de uma certa indecisão minha, ele disse que eu podia fingir que não era ele, e tirando os óculos, disse que ia fingir que não era eu. “Não seremos nós, seremos outros”, ele arrematara, e eu não pude negar aquele beijo imaginado. Estava apenas brincando, desfrutando o encanto dele diante da minha calma, experimentando aquela perspectiva interessante. “Você não está nem perto de onde eu estou, não é?”, ele constatara depois de uma tarde juntos, naquelas semanas. O caso é que chegar inofensivo é um passo para ficar. Não muito depois disso, atravessávamos a cidade de mãos dadas e nunca duas pessoas foram tão compatíveis. Eu me deixei ir, e quando dei por mim a sintonia fez parecer que nada era impossível para nós: tínhamos o mundo, tínhamos um ao outro. Elegemos uma cafeteria, um supermercado, uma livraria; lugares ao redor dos quais fazíamos um pequeno universo. Amansamos o tempo e soubemos, à nosso modo, fazer uma eternidade: quatro anos. Recordo essa época como um longa tarde de outono, alegre e doce, e ainda me vejo deitada no sofá da sala, lendo um livro, na serenidade de saber da presença dele no cômodo ao lado. Nos separamos no aeroporto, em uma noite de abril. Havia promessas de nos reencontrarmos, havia planos, mas de algum modo uma sombra nos tocou. Mesmo sem saber que era, ali, o final, choramos a verdadeira despedida. Na sala de embarque, recebi ainda uma mensagem dele: “você vai ser muito feliz, eu sei disso”, e caminhamos cada qual para o resto de sua vida. O que se seguiu foram madrugadas áridas, telefonemas que ecoaram como de outro mundo, e-mails sem assunto e históricos de conversas que nem o mais forte dos deuses releria. Nunca mais nos vimos. Às vezes eu apenas desejo que ele tivesse, naquela mensagem, feito uma profecia.

 

***

 

Na primeiras frases que recebi de M., eu estava certa de que me apaixonaria. Poderia mesmo existir alguém assim?, eu me perguntava. Muito rapidamente, senti que entrávamos em um patamar de diálogo muito difícil de ser atingido. Simplesmente não tive nenhuma força para questionar o que acontecia e disse a uma amiga – que repetiu depois minha frase com voz de incrédula – que eu “havia sido arrebatada”. Quando marcamos de nos encontrar, estava preparada para que, fosse ele como fosse, merecesse minha atenção, sem me importar com nada mais. Lembro-me de avistá-lo ao longe, alto, elegante, brilhando como uma manhã de sábado toda por acontecer. O momento em que percorremos aquele trecho de calçada um em direção ao outro, enquanto o mundo emudecia ao redor, está na minha memória como um instante radiante. Eu absorvia aqueles encontros com todos os poros. Depois de sonhar viagens, compartilhar confidências e assistir, lentamente, o rosto dele ser iluminado pelo dia nascendo, achei que tínhamos um grande patrimônio. Cinco meses mais tarde, em alguma madrugada, me vi com uma folha na mão, rabiscando repetidamente como talvez só tivera feito na adolescência: por que ele não me quer? por que ele não me quer? por que ele não… Achei que esquecê-lo fosse consumir todas as forças que eu tinha. Precisava fazer alguma coisa, caso quisesse sobreviver. Desenvolvi uma estratégia: ao invés de tentar apagar o sentimento, resolvi diluí-lo. Desfoquei minha paixão por M. em outras quatro, tão instantâneas quanto. Nenhuma seguiu muito longe, cada seguinte deixava de ter tanta eletricidade, mas o truque funcionou. Foi aí que vi com clareza algo que antes me parecia totalmente abstrato: o apaixonar-se por estar apaixonada. A experiência com M. me fez ver que a força do sentimento estava toda em mim. O êxtase, eu entendi, era meu. Ele fora, mais do que tudo, vítima das minhas fabulações. Compreendi desde então mais dos meus mecanismos, mas sigo buscando, mesmo que de outro jeito e sabe-se lá em que ruas, a sensação que só eu experimentei naquele dia: a de caminhar exatamente ao encontro do que se deseja.

 

***

 

Estava dobrando roupas despreocupadamente quando B. apertou a campainha. Havia o conhecido porque ele era colega de faculdade de uma amiga e em uma festa, começamos a conversar. Ele ria do meu sotaque e dizia que eu parecia com alguma atriz que eu nunca tinha ouvido falar. Gostei dele e senti que ele havia gostado de mim. Dois dias depois, ele apareceu na minha casa e disse que queria passear comigo. Enquanto percorríamos a avenida eu contava minha história para B. e estava recontando, também, para mim mesma. Logo me deixei acarinhar nos seus abraços e aprendi a gostar de ver a cidade desde a janela do apartamento dele, no sétimo andar da rua San Martín, para fazer meus problemas parecerem pequenos ali de cima. Quando, quatro meses mais tarde, eu disse que não poderíamos levar aquilo adiante, que não estava disposta a passar tempos sofrendo à distância e procurando passagens baratas de avião, lembro bem da chuva que me recebeu quando cruzei a portaria do prédio. A vontade de voltar que tive três quadras adiante, tomei o cuidado de reprimir. Nos meses que se seguiram, observamos a regra de não ligarmos mais um para o outro, e experimentei o gosto amargo de dispensar alguém que sabemos que gosta da gente e sentir-se pactuando com toda a canalhice que há no mundo. Eu sabia que era uma mentira: nunca media consequências quando me apaixonava, era ridículo o papel de precavida que eu inventara apenas para não dizer que ele não acendera todas as estrelas, que não podia apenas ceder ao conforto e que não o faria esperar por algo que nunca viria. Quando me mudei, no final daquele ano, nos vimos no meu último dia na cidade. Aquele reencontro pareceu ter despertado nele o perdão, e em mim, o arrependimento. O céu estava, de repente, aceso. Antes de tomar o táxi que nos levaria ao terminal, diante de uma mala enorme, caixas e sacolas abarrotadas, perguntei se ele cuidaria daquilo por um momento para que eu fosse buscar qualquer coisa dentro de casa. Eu te espero, ele dissera, e algo no tom de voz me fez corar. Gosto de pensar que somos, desde então, o amor desencontrado um do outro. Quando sinto como é difícil um lugar de onde olhar a vida de um ângulo melhor, sempre imagino que posso pegar a estrada, enfrentar a avenida de novo e apertar aquele interfone.

(São Paulo, março de 2014.)