Para lembrar
20 de julho de 2010 Deixe um comentário
Para que exista algo antes de um texto novo: o que ainda me agrada daqueles que ficaram pra trás. Achei engraçado esse tom meio profético numa semana em que minha cozinha subitamente se desfaz de seus azulejos – paredes com uma despropositada vontade de nudez. Pena que ainda não descobri nada que não fosse o trivial cimento-cola.
Pensei hoje nas coisas perdidas, esquecidas, escondidas. Ocultas. No tijolo que não vê mais sol embaixo do reboco da parede. No desenho das lajotas do piso, há anos encoberto pelo carpete. Na moeda que caiu dentro do sofá e não compra mais nada. Uma fotografia que escorreu para o fundo da gaveta e ninguém deu por ela. A embalagem plástica, lançada ao solo, que cumpre paciente seu século de decomposição. No fóssil numa camada errada, esperando para destruir uma teoria geológica inteira. Pensei em todas as luvas e em todos os pés de meia desquitados e inutilizados. Na bicicleta que ensinou o equilíbrio e que nenhuma criança anda mais.
Fiquei a pensar no silêncio dos porões das casas. Quis eu mesma estar nesse silêncio. Invejei as coisas obsoletas, ultrapassadas, velhas; queria dividir pó com elas, deixar-me estar num vão de uma escada, ser empilhada junto com as enciclopédias que acentuam êrro e flôr. Eu quis um canto num sótão, talvez aninhada entre as roupas separadas para doação e nunca entregues. Desejei ser o guarda-chuva esquecido, que ninguém quis porque estava roto, e foi deixado a um canto. Quando tudo nos oprime, deveríamos poder virar cistos, deixar tudo em suspenso. Permanecer muitos anos ausente, até que alguém mova um armário e, surpreso, nos encontre. Há dias em que se quer mesmo ser esquecida.

