Sobre feiras, flores e uma grande mulher

O balde largo e vermelho abriga um bouquet variado. Posto no chão, em um canto da barraca, dele pendem, murchos, cravos, rosas vermelhas e brancas, margaridas, flores banais do campo. Parecem ter sido apanhadas do jardim da casa de alguém. Com o avançado da hora, o efeito do sol não poderia ter sido mais devastador. As cabeças de repolho, as endívias, as beterrabas e os salgados foram todos mais atrativos. Faltava apenas uma hora para o meio-dia e as flores acabaram esquecidas; sem outro destino, murcharam sob o sol. Nos mercados e nas floriculturas, talvez tivessem mais tempo de vida – mas nas feiras livres, as condições e as regras de sobrevivência são bem outras.

Verdade que as feiras livres já tiveram bem mais liberdades do que têm hoje. As mãos que colheram as flores sabem bem disso. Cresceram vendo o pai encher a carroça e atravessar a escuridão durante toda uma madrugada, levando de São Marcos, localidade do distrito de Arroio Grande, frutas e verduras para o centro de Santa Maria. Se a travessia era dura, as vendas eram melhores. E o espaço concedido às barracas, maior. Gislaine Ceccin chegava depois da carroça do pai, na rodoviária. Ela e a mãe o alcançavam no comecinho da madrugada, pegando um táxi, cheias de sacolas. Ele foi um dos que começaram a feira na Praça Saldanha Marinho, que acontece há décadas na cidade. Para comer, uma galinha assada que traziam em um isopor, no almoço improvisado sem deixar de atender os clientes. Para esses trabalhadores foi de fato uma felicidade poder deixar a carroça no passado, para fugir da chuva, do frio e do peso. Gislaine, ou Neca, como é conhecida, poderia narrar sua vida através da sequência de automóveis que a família adquiriu. Uma camionete Chevrolet das antigas, uma Topic, uma Hilux usada (quatro por quatro, ela frisa, andava em qualquer terreno). Gislaine, desde pequena, entendia que para o trabalho no campo era necessário força e capricho.

A infância se deu por entre as cores e os cheiros das feiras – de alguma forma ela poderia suspeitar que esse seria o seu destino. Os irmãos seguiram profissões diferentes, deram a ela sobrinhos e auxílio quando ela precisa, enquanto Gislaine foi a filha mais nova que ficou para ajudar o pai e a mãe. A escola que freqüentava, Margarida Lopes, no bairro Camobi, ela teve que abandonar. Mais tarde, com a doença do pai, foi ela quem teve que assumir a frente das plantações e negócios da família.

Neca sabe que seu ofício é o de ser uma espécie de mediadora entre o chão e o alimento. Uma encantadora de alfaces, couves e berinjelas. Uma feiticeira de poções em vidros reaproveitados de Nescafé. Uma artesã de rapaduras, salgados e pães. Pelas suas mãos, nascem cravos, palmas, rosas, bolachas, repolhos, abóboras. Não bastasse todo o preparo, Gislaine ainda faz parte desse grupo de resistentes: na contra-mão do mercado e a despeito das complicações, ela ainda é feirante. Carrega sua Topic branca e traz sua produção bem ao alcance dos que vivem longe do campo. Faz o pão de cada dia. Colhe o que plantou. Sustenta com o suor do trabalho. Coisas que para tantos são uma série de metáforas, para Gislaine são expressões literais. O mundo para ela não poderia ser mais concreto. Para os urbanos, longe das lavouras e dos processos de produção, tudo parece miraculoso. Os que mal manejam as panelas, nem sonham em entender como ela pode saber tanto de tanta coisa diferente: cana-de-açúcar, amendoim, tomates, galinhas e margaridas. O que ela planta? O que dá. Nada mais simples e abrangente.

No início da manhã de uma sexta-feira, durante a feira na praça, ela adoraria ter mais do que dois braços. Recita preços sem pensar, recebe dinheiro, alcança tomates, garante que, sim, a mandioca cozinha bem, e que os morangos são bem caseiros. “São nossos mesmo, bem naturais”, ela deixa claro sobre quase todos os produtos. Neca não vende quase nada que não seja produzido por ela mesma, e quando o faz, precisa garantir a procedência. O pote de mel ela revende só porque conhece quem produz – seus tios. Naquela última noite, tinha dormido uma hora apenas.

O pouco descanso poderia ser entrevisto no rosto de pele rosada, enquadrado por cabelos pretos de franja na testa e quase sempre presos. As orelhas são nuas, os olhos são verde-claros e tem a expressão decidida daqueles que tem muito a fazer. Giselda é corpulenta como as matronas italianas. Mas, diferente delas, não tem filhos. A feirante de 38 anos está noiva, mas um noivado que não tem data pra acabar: não sabe quando pretende deixar a casa da mãe. Narrando sua vida, ela costuma dizer que foi indo, foi indo. Depois que deixou a escola, foi indo e foi indo. Depois que o pai de endividou com a plantação de fumo, foi indo, foi indo. Quando conseguiu comprar um tratorzinho, foi indo e foi indo. Neca parece não pensar muito nas coisas que deixou pra trás.

***

Não precisar mais cruzar a noite em uma carroça não significa que as coisas tenham ficado mais fáceis para aqueles que produzem em pequenas propriedades. Santa Maria está longe de ser receptiva com os feirantes. Neca desfaz a expressão tranqüila para falar dos problemas que têm com a prefeitura. Antes colocados perto da Rua Venâncio Aires e com feira nas terças e sextas, hoje lhes restou o entorno das ruas Roque Calage e Ângelo Uglione e um único dia na semana, conquistados a duras penas com os vereadores. “Alguém ainda deve estar perdido da gente”, lamenta ela, temendo que a barraca, que acabou colocada bem em frente aos banheiros públicos da praça, esteja escondida demais para os clientes. Com cara de séria, ela diz que, se pudesse, a prefeitura colocava fogo nos feirantes. Gislaine deve saber do que fala. Bom mesmo é vender nos interiores, como em Caçapava do Sul. Nos rodeios e feiras, a população de uma cidade simples e pequena a recebe como se “estivesse chegando o governador”. Não consegue entender como uma cidade menor que Santa Maria, sem universidade nem nada, é mais receptiva e educada. Para se estabeleceu no centro da cidade, ganharam uma armação de madeira, frágil, que “vai durar sabe-se quando” sobre a qual Neca estende uma lona amarela, dividida com outra feirante.

- Tem pimenta?

- Só pronta já.

- Eu queria só a fruta.

- Não tem. Eu tive que apanhar e fazer conserva porque ninguém queria, ninguém queria, eu ia perder tudo e esses tempo eu fiz assim, conservinha. Tá bem forte já.

- É que é pra um trabalho, eu não sei se serve.

- Ah, eu sei. Tira e seca. Aí tu tem que ver com quem vai fazer o trabalho pra ti se aceita.

- Preciso de sete.

- Deixa eu contar.

Gislaine diariamente batalha contra o envelhecimento das coisas que produz – a matéria viva do que é orgânico. São necessárias estratégias para conservar mais tempo o que ameaça perecer. Quando a perda se aproxima, ela atrasa o tempo com a imersão em caldas, ou em sal e vinagre. A couve chinesa, sem agrotóxicos, foi vitimada por mordidas de insetos. “É natural, eu tento explicar, mas tem gente que não gosta”. Para as flores que não viram conservas, murchas em um balde quase esquecido, ela revela a maneira de fazê-las reviver, com um tom de quem sabe um segredo: “aquelas ali, é só trocar a água colocar no sereno. Ficam novas como se estivessem no pé, tu precisa ver!”

E se a prefeitura da cidade se encarrega de fazer de tudo mais complicado, por outro lado os clientes tratam de compensar. Neca volta sempre de Topic mais leve, e as vendas começam já às 7 da manhã. Os bancos e escritórios no entorno da praça já a reconhecem. Uma senhora lhe traz potes de vidro vazios. Uma mulher pergunta se ela deixou separado um brócolis. Um homem com ar de bonachão pede desconto em um doce – ela não faz muito caso da pechincha. Ele oferece um preço, mais baixo do que ela dissera, e Gislaine faz de conta que não ouve. O homem sai, fingindo desagrado. “É, a gente trabalha muito, produz muito, mas parece que o lucro mesmo vai sempre diminuindo. Tem coisas que não vale a pena, sabe? Querem colocar preço nas coisas da gente.” Uns minutos depois, o homem está de volta. “Eu vou levar então. Quanto fica?” “Sete.”, declara ela, como se nunca tivesse respondido à pergunta. “Tá bom. Mas bem que tu poderia me dar uma rapadura de brinde…”

Donde austeras casitas apenas se aventuran

“ (…) donde austeras casitas apenas se aventuran,
abrumadas por inmortales distancias,
a perderse en la honda visión
de cielo y llanura.”

Jorge Luis Borges

Um poeta diz que a gente só mora em uma casa a vida inteira. Mesmo que a tenham derrubado, continuamos morando na casa onde nascemos. Assim, carrego para sempre um chalé de madeira amarelo onde morei, até meus três anos de idade. Verdade que depois morei em prédio, embora nunca tenha me adaptado e continuo, até hoje, uma inconformada. Como uma filha das casas pequenas de madeira, sempre que avisto uma me enxergo um pouco. Sei que naquele vão embaixo da casa há sempre um mistério. Que no quintal deve haver uma horta, mesmo que pequena. Que as plantas ao redor da casa, por pouco ornamentais que sejam ou até mesmo as mais daninhas e sem vergonha, sempre são fonte de brincadeira e espanto para os pequenos. O som dos passos no interior dessas casas permanecem para sempre em quem morou nelas. Guardo lembranças que hoje me pergunto se aconteceram ou foram sonho – a memória consciente ainda estava sendo formada.

Assim como o centro de Santa Maria perde seus casarões para construírem prédios feios e sem personalidade, os bairros perdem suas casinhas de madeira para que sejam construídos prédios igualmente feios e sem personalidade. Só que menores. Com sacadas tristemente minúsculas. Eu sei, talvez meu gosto por casas não faça sentido nenhum se analisado por outros pontos de vista – urbanos, econômicos, ou que quer que seja – mas ainda assim justifico que é minha formação interior que me fez assim. Nasci em uma casa com grama e pátio e estou fatalmente condenada a me entristecer cada vez que uma casinha é derrubada. Não é racional, posso dizer em minha defesa. Aqui onde moro, no bairro Bonfim, havia um desses chalezinhos: muro baixo, pintando de marrom, sem grades, um jardim alegremente bagunçado. Em frente à casa, um senhor sentava durante quase todas as tardes, brincando e conversando com um bebê de pouco mais de um ano, que deduzi ser sua neta. Em vários horários cruzava por eles, voltando para minha casa, subindo a rua apressada para pegar ônibus. Passamos a nos cumprimentar, mesmo sem nunca termos conversado. Trocávamos sorrisos, a pequenina reagia a minha presença acenando os bracinhos.

Amanheceu um dia em que não havia casa, não havia velho, não havia criança. Havia uma terra revolvida e alguns tapumes. Me senti traída, apunhalada, roubada. Logo começou a construção. Um prédio quadrado, feio, com janelas gradeadas. Um mísero metro quadrado de grama, no jardim em frente. Um nome pomposo como qualquer prédio – de preferência, em idioma estrangeiro, sugerindo algo muito requintado para disfarçar a tristeza de não ser um chalé de madeira com jardim, árvore e criança brincando. [Sou de uma opinião que antes de tudo as crianças precisam de quintal. Antes de ter um videogame, um ser humano precisa ter acesso a terra, grama, minhoca, roseta, árvore, bergamota no pé, formiga, joaninha e assemelhados. Não precisa ser o quintal de sua própria casa. É mais do que digno pegar um emprestado: da casa da vó, do vizinho, do amigo. A questão não é a propriedade, mas a apropriação.]

Em seguida, não demorou para que outras três casas na mesma rua tivessem o mesmo destino. Há uma que se encontra sitiada, roubada de sol, vizinhando com dois prédios, mas resistente com uma nobreza exemplar – nobreza de árvore, como diria Manoel de Barros. Os chalés, já velhos, alguns de pintura descascada, estão em extinção. Há tanta coisa preocupante, tanta urgência, e às vezes me pego pensando nesse problema: estão se acabando as casas de madeiras no bairro Bonfim. As novas construções, com as roupas estendidas em sacadas diminutas, com cartazes convocando para tediosas reuniões de condomínio, vão estar em todos os terrenos. Eu vou precisar caminhar mais para encontrar algo que espelhe minhas lembranças mais antigas. As crianças vão precisar de outros jardins e outros quintais, ou talvez nem sintam que precisem. Talvez mesmo não precisem. O que sei é que a memória é implacável: ter nascido em uma casa dessas me condena a ficar triste por todas as outras que já se foram.

Minhas inutilidades

Tem casa que é quieta, arrumada demais. Casas em que tudo está em silêncio. Quase uma impessoalidade. Não adianta nem abrir uma gaveta para ver se sai um gritinho, uma risadinha de bagunça: tudo no seu devido e silencioso lugar. Roupeiros tão alinhados que parecem depósitos de roupas para robôs. Não dá pra adivinhar nenhum movimento, nenhum deslize ou ato apressado. Os livros estão dispostos por ordem alfabética, como um exército. Casas que mensalmente sofrem varreduras nos papéis, nos potinhos, no fundo dos baús: o desnecessário nunca se acumula.

Em muitos lugares, usando de argumentos colhidos até em religiões orientais, se defende que tudo aquilo que não é usado deve ser descartado. Conselho que eu ignoro solenemente. Sou uma coleção de inutilidades e não tenho – ao menos ainda – vontade de me desfazer delas. Quando faço arrumações nos meus papéis e livros, separo uma pilha de coisas que vão fora e coisas que vão para o arquivo (mesmo que esse arquivo não tenha horizonte de ser consultado em 10 anos). Quando coloco o lixo fora, sempre sinto no fundo um temor de ter confundido as pilhas e descartado o que eu queria que ficasse.

Distribuídos pelos mais diversos locais e esconderijos nos móveis, organizados conforme se pôde fazer, lá se vão bilhetes de aula do primeiro grau, coleção de cartões de aniversário, cartas, bibelôs lascados, roupas de criança, agendas da adolescência, livros que não consegui ler, folhinhas secas de lembrança, anotações sem muito sentido, caixinhas de embalagens que acho bonitas, chaves que já não tem mais porta, folders de eventos da década passada, tocos de lápis e mais todo um arsenal. Tem gente que se espanta com o tanto de coisa que guardamos em casa. Eu me arrependo de não ter juntado algumas mais. Recordo ainda com um pouquinho de rancor o dia em que doaram meus brinquedos de criança sem me consultar. Não é apego material: eu teria doado, sim, os mais novos, que outras crianças ainda poderiam brincar, mas certamente deixaria uma ou duas preferidas (especialmente uma bonequinha de vestido lilás, que dava umas piscadelas bem engraçadinhas toda vez que se mexia nela).

Uma casa sem algo de inútil é um ser calado. Ninguém poderá remexer num armário e encontrar um pedaço de uma existência esquecida, talvez melhor, talvez pior. É espantoso como nossa memória pode se grudar em objetos, em pedaços, em coisas; embora nosso passado não seja esses objetos, essa matéria fossilizada. Os papéis, as memórias, os objetos, no entanto, têm eles os seus discursos. Não é uma mania de limpeza que deve calá-los.

Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser. Garante a soberania de Ser mais do que Ter. (Manoel de Barros)

A Melhor Viagem

No dia da melhor viagem que já fiz, acordei atrasada. E a viagem só durou um dia. Acordei na manhã já irremediavelmente instalada e em 5 minutos já tinha saído de casa com a primeira roupa que eu vi, de cabelos molhados e absolutamente desmaquilada. Porque eu iria fazer aquela viagem tão bonita e minha vaidade tinha planejado várias camadas de rímel, uma a uma, antes de o sol nascer – para fingir que a gente já acorda assim, sabe? Só fui recuperar a dignidade bem depois, já em meu destino, quando ele, depois de jurar que eu estava linda daquele jeito mesmo, espontaneamente tinha dito que eu voltei do banheiro mais “luminosa”. Antes disso, cruzando a estrada, me fiz de forte e nem tomei remédio para não enjoar, ganhando como prêmio a oportunidade primeira de dormir nuns braços que muito mais vezes me fariam adormecer tranqüila.

Eu estava guardando dinheiro para alguma coisa – talvez fosse minha câmera fotográfica, talvez fosse alguma conta que eu tinha que pagar – mas peguei uma quantia desse tanto destinado e fui gastar na minha viagem de um dia. Porque eu estava com um pressentimento.

Viajei e comprei livros que depois nunca consegui ler – um porque me pareceu de fato ruim e outro porque era em francês, veja só, uma língua que eu não dominava e até agora não domino. Porque aqueles eram os tempos das grandes pretensões.

Passeei na cidade, andei por ruas que eu não conhecia, tomei cafés ruins e tomei bons cafés. Escovei os dentes dentro do banheiro minúsculo do restaurante que almoçamos, bem quando faltou luz. Comprei remédio para dor de cabeça, claro, porque ela viajou comigo – companheirismo é isso.

As praças estavam cheias de gente, crianças brotavam, pais buscavam essas mesmas crianças que tinham se perdido e o mundo parecia feliz porque as pessoas se acotovelavam em busca da boa literatura. Ou de bons preços, apenas. Cogitamos tirar uma foto com um lambe-lambe, fato que não foi levado adiante devido a nossa distração e aparente encantamento. Eu com um visual de atrasada e tu com aqueles óculos que tinhas pedido emprestado para poder ver bem os livros que traria. Coisa que não te impediu de comprar Carpinejar, autor que caiu no meu gosto mas não no teu – irônico porque lendo-o penso sempre e muito em ti.

Pavilhões com areia, chuveiros de sons, uma sentença cantada, Kant lido por uma criança de 6 anos e duas almas expulsas da exposição porque era hora de fechar as portas. E assim fomos, para o jantar num shopping qualquer e partirmos de volta.

Lá estávamos nós, no terminal cheio de gente e mala e coisas passando. Só que os ônibus tardavam e não tínhamos casa. A rodoviária era hostil e assim começamos a assediar ônibus aleatórios para perguntar se, por acaso, não passariam por Santa Maria. Até um que ia pro Chuí eu abordei, porque nessas horas de leve desespero a noção geográfica some.

Embarcamos. Uma vez mais, o imprevisível batia à porta: já não podíamos sentar lado a lado, como a ida. Entre nós, um corredor estreito que naquele momento parecia imenso, intransponível, e dois mal-amados que se negaram, mesmo sob nossos pedidos gentis, a trocar de lugar – para eles, roguei maldições terríveis que até hoje reverberam no cosmos.

Em horas como essa, o que se faz é estender a mão e encontrar a mão que te espera no além-corredor, mesmo que algo inesperado, como um pé humano vindo do banco de trás, surja aparentemente do nada, se pondo entre nós e fazendo do ataque de risos a única solução viável.

Ou ficar em silêncio de mãos dadas e ler nos lábios algo que você não sabe se entendeu bem (parece que sim, mas está escuro) e responder que, sim, eu também, e não saber se a outra pessoa também entendeu. Levar para casa o dito pelo não dito, o mistério e a alegria baseada numa grande, enorme pretensão de ter nessa vida ingrata a conjunção de amar e ao mesmo tempo ser amado. Isso sim, deixa a gente luminosa. Foi a melhor viagem que fiz.

Coleções

Sachês de açúcar como cartinhas doces – legíveis até para os analfabetos – furtados especialmente para mim. Envelopes de chá para pescar lembranças no oceano fervente de uma xícara. As frases do Carpinejar que não gostas e eu achando graça na carência de sentido. As bolhas de sabão feitas no quarto, quando um raro sol da manhã vinha para secar a umidade daqueles dias. O transplante de meias às pressas para salvar pés congelados. As mensagens de texto que eu não tive créditos para enviar e ficaram no meu moleskine, numa espécie de poupança de literatura barata. Os passos leves do gato que acordava sempre antes e tinha anseio de janelas abertas. O sono que durava até fecharem todos os restaurantes da cidade. A falta dos guarda-chuvas que nunca tínhamos. Os almoços de improviso que valiam a pena. O show do Drexler que não fomos, e as canções dele que ouvimos antes de dormir. É o que fica, e só deixamos que fique o que brilha e agrada. As férias também sabem se fazer assim: sem embarcar em nada, só colecionando momentos no plural.

O passado a dez passos

Foi num dia frio que me mudei pra cá. Vim na parte de trás de uma camionete junto com uns travesseiros e um violão antigo do meu pai. Achei divertidíssimo. Na confusão da mudança, esqueceram de me levar pra escola. Faltei aula – mudança é uma coisa muito boa, pensei. No entanto, ao entrar na casa, calafrios de decepção. Quando eu viera com meus pais para conhecer o lugar onde moraríamos, estava cheio de móveis diferentes e almofadas felpudas. Inexperiente na arte de trocar de casa, achava que a mobília estava incluída. Agora era um vazio enorme, talvez o maior vazio que eu tinha visto até então, e eu achava que as nossas coisas nunca iriam caber direito naquelas salas diferentes. No fim, acho que eu estava certa.

A rua, uma travessa sem saída em formato de T, com pedras extremamente irregulares. Isso eu constatei porque onde eu morava antes, em determinado ponto do calçamento, se encontrava uma pedra perfeitamente redonda. Era a minha preferida. Às vezes, quando estava caminhando à toa e não havia aquelas garotinhas que perambulavam por ali com as quais eu eventualmente brincava, gostava de ir procurar a pedra redonda. Era algo que só eu sabia, no mundo inteirinho. Levava algum tempo, ela se confundia com as outras, tortas, quebradas, mas sempre acabava localizando-a, belamente roliça e, por efeito do meu interesse, quase reluzente. Feliz de encontrá-la, às vezes até passava a mão para comprovar, uma vez mais, sua bela rotundidade.

Já nas ruas da travessa onde eu viera morar, pedras imperfeitas, anônimas, alguns pontos de areia e nem rastro de equivalência para minha pedra eleita. Mas crianças, várias delas, com idades muito parecidas com a minha. Toda a extensão daquela rua fechada era um grande parque e não fazíamos caso de diferenciar o que era rua e o que era propriedade do morador. Bom, ao menos era assim que eu e mais um punhado de gente pequena pensávamos naquela época. As escadas em frente à casa de um senhor carrancudo era o ponto de encontro onde não era preciso combinar – estávamos sempre por ali e nos sentíamos incomodados quando ele nos fazia levantar, no audaz ato de sair de sua própria casa (agora começo a compreender um pouco a razão dos seus poucos sorrisos). A varanda de uma senhora, sem muros nem grades, um ótimo chão de cimento para desenhar com um pedaço de tijolo qualquer ou eventualmente aquele toco de giz que ficava no quadro no fim da aula. Na casa ao lado, uma família cujo pátio tínhamos acesso livre, passando por um portão que ficava na lateral e que nunca estava trancado. Costumávamos esperar as duas garotas que moravam ali já penduradas na árvore que ficava no fundo da casa das duas.

Numa das extremidades do T, um quintal com um terreno enorme através do qual, como quem explorava o fim do mundo, constatamos que depois do mato e das árvores se chegava à outra rua, como um clarão de civilização. Passei a sonhar que no pátio da minha própria casa, numa caminhada, eu encontrava uma tribo de índios que sempre estivera morando ali e eu não sabia.

Na outra extremidade, uma casa grande e bonita, onde morava um menina também bonita, e é claro – como uma figura que não poderia faltar numa vizinhança – má. Mas naquela época eu não conseguia constatar maldade assim, de pronto, e achei que tinha sido coincidência que minha boneca tivesse se perdido na casa dela e logo em seguida ela ganhasse uma igual. Eu tinha visto a tal boneca num desses móveis monumentais que eu nunca possuí que se chamavam solenemente “Estante de Brinquedos”. Fiquei radiante e até agradecida quando ela me entregou a boneca de volta, um tanto mais suja, com um “olha, achei!” tão cheio de naturalidade que só as meninas ricas e más são capazes de pronunciar.

Eu admirava tudo na casa: o desenho das lanças da grade, a sala com uma grande cortina branca, as plantas que cresciam na janela da cozinha, os móveis irmanados, as grandes portas de correr. Mas sobretudo eu admirava algo imaterial: o cheiro da casa. Não se tratava de algum perfume ou incenso, nem de alguma comida sendo preparada ou de produtos de limpeza. Era simplesmente um cheiro bom que emanava da própria casa, mesmo se não estivesse acontecendo nada dentro dela, uma essência forte e permanente que estava em todos os cômodos. Foi outra vizinha minha quem me deu a boa notícia. Depois de voltar de uma viagem, nos encontramos na rua, ao acaso, e convidei para que ela subisse na minha casa para mostrar alguma coisa. Logo ao entrar, ela exclamou sorrindo:

- Que saudades do cheiro da tua casa!

Então minha casa também tinha um cheiro bom, só eu que não podia perceber. Me senti, ao menos um pouco, recompensada pelo universo.

Brincar na rua, mas sempre para o lado de dentro. A rua larga, de fora, asfaltada, onde era maior o tráfego de carros, era como uma avenida enorme, imensa, intransponível. Tempos depois, as companhias não redundaram, nenhuma, numa grande amizade. O fervilhante da infância passou e os interesses tomaram, de vez, caminhos diferentes. Algumas foram embora, outras ficaram morando aqui, viraram mães, viraram adultas e eu como adulta também as cumprimento quando nos encontramos na esquina, sempre indo para o lado de fora.

O hábito e o tempo criaram um cordão invisível por anos e anos. Morando numa das casas da frente, nunca mais tive razões para passear por aquelas ruas internas. Nem mesmo naquela tarde, quando despropositadamente dei aqueles passos para dentro, em direção a elas. Senti como podia ser forte o poder magnético da lembrança. As ruas, com suas pedras e areias, as fachadas das casas, com suas cores e rachaduras, a ferrugem das mesmas grades: tudo estava rigorosamente igual. Durante os quinze anos em que eu deixara de freqüentar aqueles espaços, ninguém fizera um reforma, ninguém trocara um portão ou adicionara uma caixa de correio nova. Tudo permanecia como se fosse ainda minha infância. Flutuei por ali, encantada com a possibilidade do absurdo de uma volta ao tempo ao lado de casa. Tudo se passou como num extraordinário sonho lúcido, tendo ainda a vantagem de poder entrar e sair dele quando quisesse.  Algo que imagino parecido com a hiper-realidade que falava Millás em O Mundo, vendo a rua através do observatório do seu vizinho. Parecia que a paisagem havia se conservado igual simplesmente para que pudesse vê-la, como se a partir do dia em que deixei de brincar na rua, sem nem mesmo dar-me conta do fato, tudo se mantivera esperando.

Como ninguém passava por ali naquele momento, nenhuma figura estranha desfazia o cenário. Passeei, espantada, com passos vacilantes, querendo manter o encanto onírico no qual me encontrava. Eu, visitando minha infância, sem querer. Voltei pra casa, subindo pé por pé da escada, como quem volta pra casa no sentido mais profundo dessa expressão. Há quem diga que a infância só é bonita em retrospecto; para a criança é uma época escura, sem compreensão, um percurso inocente no desconhecido, na estranheza, que só ganha um novo sentido no final – quando a criança aprende o que é infância começa a perdê-la. Se é no retrospecto que está a beleza, naquela visão encantada – que não pretendo repetir tão cedo – tive o privilégio de esquecer os recessos de luz e trazer de volta um pouco do que foi – um pouco do que eu fui. Não é preciso saudade da infância, aquela nostalgia romantizada que ignora que sofríamos ( já que pobres ou ricos sempre carregamos nossas carências) mas às vezes há a necessidade de um encontro com ela. E ela, vez ou outra, pode morar – e repousar- bem ao lado.

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