Donde austeras casitas apenas se aventuran

“ (…) donde austeras casitas apenas se aventuran,
abrumadas por inmortales distancias,
a perderse en la honda visión
de cielo y llanura.”

Jorge Luis Borges

Um poeta diz que a gente só mora em uma casa a vida inteira. Mesmo que a tenham derrubado, continuamos morando na casa onde nascemos. Assim, carrego para sempre um chalé de madeira amarelo onde morei, até meus três anos de idade. Verdade que depois morei em prédio, embora nunca tenha me adaptado e continuo, até hoje, uma inconformada. Como uma filha das casas pequenas de madeira, sempre que avisto uma me enxergo um pouco. Sei que naquele vão embaixo da casa há sempre um mistério. Que no quintal deve haver uma horta, mesmo que pequena. Que as plantas ao redor da casa, por pouco ornamentais que sejam ou até mesmo as mais daninhas e sem vergonha, sempre são fonte de brincadeira e espanto para os pequenos. O som dos passos no interior dessas casas permanecem para sempre em quem morou nelas. Guardo lembranças que hoje me pergunto se aconteceram ou foram sonho – a memória consciente ainda estava sendo formada.

Assim como o centro de Santa Maria perde seus casarões para construírem prédios feios e sem personalidade, os bairros perdem suas casinhas de madeira para que sejam construídos prédios igualmente feios e sem personalidade. Só que menores. Com sacadas tristemente minúsculas. Eu sei, talvez meu gosto por casas não faça sentido nenhum se analisado por outros pontos de vista – urbanos, econômicos, ou que quer que seja – mas ainda assim justifico que é minha formação interior que me fez assim. Nasci em uma casa com grama e pátio e estou fatalmente condenada a me entristecer cada vez que uma casinha é derrubada. Não é racional, posso dizer em minha defesa. Aqui onde moro, no bairro Bonfim, havia um desses chalezinhos: muro baixo, pintando de marrom, sem grades, um jardim alegremente bagunçado. Em frente à casa, um senhor sentava durante quase todas as tardes, brincando e conversando com um bebê de pouco mais de um ano, que deduzi ser sua neta. Em vários horários cruzava por eles, voltando para minha casa, subindo a rua apressada para pegar ônibus. Passamos a nos cumprimentar, mesmo sem nunca termos conversado. Trocávamos sorrisos, a pequenina reagia a minha presença acenando os bracinhos.

Amanheceu um dia em que não havia casa, não havia velho, não havia criança. Havia uma terra revolvida e alguns tapumes. Me senti traída, apunhalada, roubada. Logo começou a construção. Um prédio quadrado, feio, com janelas gradeadas. Um mísero metro quadrado de grama, no jardim em frente. Um nome pomposo como qualquer prédio – de preferência, em idioma estrangeiro, sugerindo algo muito requintado para disfarçar a tristeza de não ser um chalé de madeira com jardim, árvore e criança brincando. [Sou de uma opinião que antes de tudo as crianças precisam de quintal. Antes de ter um videogame, um ser humano precisa ter acesso a terra, grama, minhoca, roseta, árvore, bergamota no pé, formiga, joaninha e assemelhados. Não precisa ser o quintal de sua própria casa. É mais do que digno pegar um emprestado: da casa da vó, do vizinho, do amigo. A questão não é a propriedade, mas a apropriação.]

Em seguida, não demorou para que outras três casas na mesma rua tivessem o mesmo destino. Há uma que se encontra sitiada, roubada de sol, vizinhando com dois prédios, mas resistente com uma nobreza exemplar – nobreza de árvore, como diria Manoel de Barros. Os chalés, já velhos, alguns de pintura descascada, estão em extinção. Há tanta coisa preocupante, tanta urgência, e às vezes me pego pensando nesse problema: estão se acabando as casas de madeiras no bairro Bonfim. As novas construções, com as roupas estendidas em sacadas diminutas, com cartazes convocando para tediosas reuniões de condomínio, vão estar em todos os terrenos. Eu vou precisar caminhar mais para encontrar algo que espelhe minhas lembranças mais antigas. As crianças vão precisar de outros jardins e outros quintais, ou talvez nem sintam que precisem. Talvez mesmo não precisem. O que sei é que a memória é implacável: ter nascido em uma casa dessas me condena a ficar triste por todas as outras que já se foram.

O passado a dez passos

Foi num dia frio que me mudei pra cá. Vim na parte de trás de uma camionete junto com uns travesseiros e um violão antigo do meu pai. Achei divertidíssimo. Na confusão da mudança, esqueceram de me levar pra escola. Faltei aula – mudança é uma coisa muito boa, pensei. No entanto, ao entrar na casa, calafrios de decepção. Quando eu viera com meus pais para conhecer o lugar onde moraríamos, estava cheio de móveis diferentes e almofadas felpudas. Inexperiente na arte de trocar de casa, achava que a mobília estava incluída. Agora era um vazio enorme, talvez o maior vazio que eu tinha visto até então, e eu achava que as nossas coisas nunca iriam caber direito naquelas salas diferentes. No fim, acho que eu estava certa.

A rua, uma travessa sem saída em formato de T, com pedras extremamente irregulares. Isso eu constatei porque onde eu morava antes, em determinado ponto do calçamento, se encontrava uma pedra perfeitamente redonda. Era a minha preferida. Às vezes, quando estava caminhando à toa e não havia aquelas garotinhas que perambulavam por ali com as quais eu eventualmente brincava, gostava de ir procurar a pedra redonda. Era algo que só eu sabia, no mundo inteirinho. Levava algum tempo, ela se confundia com as outras, tortas, quebradas, mas sempre acabava localizando-a, belamente roliça e, por efeito do meu interesse, quase reluzente. Feliz de encontrá-la, às vezes até passava a mão para comprovar, uma vez mais, sua bela rotundidade.

Já nas ruas da travessa onde eu viera morar, pedras imperfeitas, anônimas, alguns pontos de areia e nem rastro de equivalência para minha pedra eleita. Mas crianças, várias delas, com idades muito parecidas com a minha. Toda a extensão daquela rua fechada era um grande parque e não fazíamos caso de diferenciar o que era rua e o que era propriedade do morador. Bom, ao menos era assim que eu e mais um punhado de gente pequena pensávamos naquela época. As escadas em frente à casa de um senhor carrancudo era o ponto de encontro onde não era preciso combinar – estávamos sempre por ali e nos sentíamos incomodados quando ele nos fazia levantar, no audaz ato de sair de sua própria casa (agora começo a compreender um pouco a razão dos seus poucos sorrisos). A varanda de uma senhora, sem muros nem grades, um ótimo chão de cimento para desenhar com um pedaço de tijolo qualquer ou eventualmente aquele toco de giz que ficava no quadro no fim da aula. Na casa ao lado, uma família cujo pátio tínhamos acesso livre, passando por um portão que ficava na lateral e que nunca estava trancado. Costumávamos esperar as duas garotas que moravam ali já penduradas na árvore que ficava no fundo da casa das duas.

Numa das extremidades do T, um quintal com um terreno enorme através do qual, como quem explorava o fim do mundo, constatamos que depois do mato e das árvores se chegava à outra rua, como um clarão de civilização. Passei a sonhar que no pátio da minha própria casa, numa caminhada, eu encontrava uma tribo de índios que sempre estivera morando ali e eu não sabia.

Na outra extremidade, uma casa grande e bonita, onde morava um menina também bonita, e é claro – como uma figura que não poderia faltar numa vizinhança – má. Mas naquela época eu não conseguia constatar maldade assim, de pronto, e achei que tinha sido coincidência que minha boneca tivesse se perdido na casa dela e logo em seguida ela ganhasse uma igual. Eu tinha visto a tal boneca num desses móveis monumentais que eu nunca possuí que se chamavam solenemente “Estante de Brinquedos”. Fiquei radiante e até agradecida quando ela me entregou a boneca de volta, um tanto mais suja, com um “olha, achei!” tão cheio de naturalidade que só as meninas ricas e más são capazes de pronunciar.

Eu admirava tudo na casa: o desenho das lanças da grade, a sala com uma grande cortina branca, as plantas que cresciam na janela da cozinha, os móveis irmanados, as grandes portas de correr. Mas sobretudo eu admirava algo imaterial: o cheiro da casa. Não se tratava de algum perfume ou incenso, nem de alguma comida sendo preparada ou de produtos de limpeza. Era simplesmente um cheiro bom que emanava da própria casa, mesmo se não estivesse acontecendo nada dentro dela, uma essência forte e permanente que estava em todos os cômodos. Foi outra vizinha minha quem me deu a boa notícia. Depois de voltar de uma viagem, nos encontramos na rua, ao acaso, e convidei para que ela subisse na minha casa para mostrar alguma coisa. Logo ao entrar, ela exclamou sorrindo:

- Que saudades do cheiro da tua casa!

Então minha casa também tinha um cheiro bom, só eu que não podia perceber. Me senti, ao menos um pouco, recompensada pelo universo.

Brincar na rua, mas sempre para o lado de dentro. A rua larga, de fora, asfaltada, onde era maior o tráfego de carros, era como uma avenida enorme, imensa, intransponível. Tempos depois, as companhias não redundaram, nenhuma, numa grande amizade. O fervilhante da infância passou e os interesses tomaram, de vez, caminhos diferentes. Algumas foram embora, outras ficaram morando aqui, viraram mães, viraram adultas e eu como adulta também as cumprimento quando nos encontramos na esquina, sempre indo para o lado de fora.

O hábito e o tempo criaram um cordão invisível por anos e anos. Morando numa das casas da frente, nunca mais tive razões para passear por aquelas ruas internas. Nem mesmo naquela tarde, quando despropositadamente dei aqueles passos para dentro, em direção a elas. Senti como podia ser forte o poder magnético da lembrança. As ruas, com suas pedras e areias, as fachadas das casas, com suas cores e rachaduras, a ferrugem das mesmas grades: tudo estava rigorosamente igual. Durante os quinze anos em que eu deixara de freqüentar aqueles espaços, ninguém fizera um reforma, ninguém trocara um portão ou adicionara uma caixa de correio nova. Tudo permanecia como se fosse ainda minha infância. Flutuei por ali, encantada com a possibilidade do absurdo de uma volta ao tempo ao lado de casa. Tudo se passou como num extraordinário sonho lúcido, tendo ainda a vantagem de poder entrar e sair dele quando quisesse.  Algo que imagino parecido com a hiper-realidade que falava Millás em O Mundo, vendo a rua através do observatório do seu vizinho. Parecia que a paisagem havia se conservado igual simplesmente para que pudesse vê-la, como se a partir do dia em que deixei de brincar na rua, sem nem mesmo dar-me conta do fato, tudo se mantivera esperando.

Como ninguém passava por ali naquele momento, nenhuma figura estranha desfazia o cenário. Passeei, espantada, com passos vacilantes, querendo manter o encanto onírico no qual me encontrava. Eu, visitando minha infância, sem querer. Voltei pra casa, subindo pé por pé da escada, como quem volta pra casa no sentido mais profundo dessa expressão. Há quem diga que a infância só é bonita em retrospecto; para a criança é uma época escura, sem compreensão, um percurso inocente no desconhecido, na estranheza, que só ganha um novo sentido no final – quando a criança aprende o que é infância começa a perdê-la. Se é no retrospecto que está a beleza, naquela visão encantada – que não pretendo repetir tão cedo – tive o privilégio de esquecer os recessos de luz e trazer de volta um pouco do que foi – um pouco do que eu fui. Não é preciso saudade da infância, aquela nostalgia romantizada que ignora que sofríamos ( já que pobres ou ricos sempre carregamos nossas carências) mas às vezes há a necessidade de um encontro com ela. E ela, vez ou outra, pode morar – e repousar- bem ao lado.

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