Receita Minimalista para o Outono

Por alguma razão obscura comecei a não me dar bem com cafés passados. Deve ser a mesma razão pela qual chocolate, depois de uns anos, começou a me dar uma dor de cabeça chata, persistente, no fundo dos olhos. Dizem os médicos que até molho shoyu pode dar dor de cabeça nas pessoas, então eu agradeço por ainda estar imune dessa. A verdade é que chocolate não fez muita falta, mas a restrição com o tipo de café me traz problemas.

Sobram para mim as opções: café expresso e, quando estou em casa, café batido, porque café preto de nescafé, assim, sem nada, é amargo até dizer chega.

Não sabe fazer café batido? É uma das receitas mais simplórias da vida: absolutamente necessário aprender. Também é chamado, em outras bandas desse Brasil, café cremoso. Lembra um momento bom depois do almoço, barulhinho de colheres nas xícaras e conversas alongadas. Os daltônicos, como um que eu convivo, podem ver aquele marrom claro e te surpreender dizendo: “Café verde!”

Como começar: pegue uma xícara qualquer e imagine quanto de café quer tomar e coloque tantas colherinhas de café solúvel (pó ou granulado, tanto faz) quantas julgar o bastante para essa quantidade de líquido imaginada. Coloque açúcar, mas lembre-se que não pode ser tão pouco assim: uma quantidade igual ou maior do que o café solúvel. Em seguida, o momento de colocar um pouquinho de água. Atenção: é bem pouquinho. O que você imaginar que precisa, diminua pela metade e coloque. Comece com uma colherinha de chá com pouca água e, caso precise, adicione umas gotinhas. Se colocar água demais, vai virar um líquido que nunca vai dar ponto e você vai se obrigar a colocar mais açúcar e café. Quando ele ficar uma pastinha já está bom de água (a temperatura desse pouquinho de água não interfere). Mexa bem com a colher por alguns minutos e a mistura vai gradualmente se tornar esbranquiçada e mais firme. Se estiver pensando na solução de um problema, pode contemplar o horizonte com olhos esperançosos e continuar misturando até ficar quase em ponto de neve, que além de uma saída para suas agruras ganhará um café bem mais cremoso (dizem os antigos que esse tipo de café clareia a mente humana). Ou, se estiver em um dia mais tranquilo ou sem tanto tempo para contemplações, basta esbranquiçar um pouco. Quando estiver em um ponto que julgar bom (veja que a receita é toda personalizável), adicione água ou leite quente. Pronto! Com açúcar mascavo funciona tão bem quanto, inclusive fica branquinho. Para completar, pode polvilhar canela por cima.

Como se pôde ver, para acertar nesse café precisa de um pouco de intuição. Essa é a grande sacada. Já vi receitas para fazer em grande quantidade, na batedeira, e deixar congelado. Pessoalmente não achei graça, mas é possível e prático, embora estrague um pouco do ritual e subestime os poderes que o preparo da bebida tem sobre o estado de espírito das pessoas. De qualquer fomra, uma boa receita para esperar o outono.

* Em um post próximo, uma crítica das principais cafeterias de Santa Maria (RS) ou Em Busca do Expresso Perfeito.

Minhas inutilidades

Tem casa que é quieta, arrumada demais. Casas em que tudo está em silêncio. Quase uma impessoalidade. Não adianta nem abrir uma gaveta para ver se sai um gritinho, uma risadinha de bagunça: tudo no seu devido e silencioso lugar. Roupeiros tão alinhados que parecem depósitos de roupas para robôs. Não dá pra adivinhar nenhum movimento, nenhum deslize ou ato apressado. Os livros estão dispostos por ordem alfabética, como um exército. Casas que mensalmente sofrem varreduras nos papéis, nos potinhos, no fundo dos baús: o desnecessário nunca se acumula.

Em muitos lugares, usando de argumentos colhidos até em religiões orientais, se defende que tudo aquilo que não é usado deve ser descartado. Conselho que eu ignoro solenemente. Sou uma coleção de inutilidades e não tenho – ao menos ainda – vontade de me desfazer delas. Quando faço arrumações nos meus papéis e livros, separo uma pilha de coisas que vão fora e coisas que vão para o arquivo (mesmo que esse arquivo não tenha horizonte de ser consultado em 10 anos). Quando coloco o lixo fora, sempre sinto no fundo um temor de ter confundido as pilhas e descartado o que eu queria que ficasse.

Distribuídos pelos mais diversos locais e esconderijos nos móveis, organizados conforme se pôde fazer, lá se vão bilhetes de aula do primeiro grau, coleção de cartões de aniversário, cartas, bibelôs lascados, roupas de criança, agendas da adolescência, livros que não consegui ler, folhinhas secas de lembrança, anotações sem muito sentido, caixinhas de embalagens que acho bonitas, chaves que já não tem mais porta, folders de eventos da década passada, tocos de lápis e mais todo um arsenal. Tem gente que se espanta com o tanto de coisa que guardamos em casa. Eu me arrependo de não ter juntado algumas mais. Recordo ainda com um pouquinho de rancor o dia em que doaram meus brinquedos de criança sem me consultar. Não é apego material: eu teria doado, sim, os mais novos, que outras crianças ainda poderiam brincar, mas certamente deixaria uma ou duas preferidas (especialmente uma bonequinha de vestido lilás, que dava umas piscadelas bem engraçadinhas toda vez que se mexia nela).

Uma casa sem algo de inútil é um ser calado. Ninguém poderá remexer num armário e encontrar um pedaço de uma existência esquecida, talvez melhor, talvez pior. É espantoso como nossa memória pode se grudar em objetos, em pedaços, em coisas; embora nosso passado não seja esses objetos, essa matéria fossilizada. Os papéis, as memórias, os objetos, no entanto, têm eles os seus discursos. Não é uma mania de limpeza que deve calá-los.

Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser. Garante a soberania de Ser mais do que Ter. (Manoel de Barros)

Expectativas de um fim de fevereiro

A expectativa tempera tudo. É ela que, naquelas semanas de espera, modifica a fruta dentro da compota. Dizem que é tarefa do tempo e dos ingredientes, mas na verdade é a expectativa de quem quer consumi-la que causa a transformação. São nossos olhos desejosos que agem através do vidro. Aquelas prateleiras de vó cheios de potes coloridos e que só podem ser mexidos depois de tantos dias são a lembrança mais caseira do poder da expectativa.

(segundo essa mesma lei, compotas que não são observadas com desejo, tampouco têm sequer pensamentos dirigidos a elas, fatalmente dão errado).

Esperar pelo banho de rio, três horas depois do almoço, sempre me pareceu maldade dos mais velhos. Na verdade, era o ato generoso de nos fazer aprender o lado bom de esperar. A expectativa é que colocava a beleza nas grutas de um rio Ibicuí guardado na infância.

Quando eu era bem pequena, na chácara do meu avô, colher os morangos da horta era uma das minhas atividades preferidas. Tendo acabado de juntar os maduros, diziam que amanhã haveria mais, que aquelas flores pequeninas se transformariam em novos moranguinhos. À noite, deitada na cama, com aquele cansaço bom de quem andou por um mundo de coisas concretas (árvore, bergamota, terra, pedra), eu imaginava que magicamente, uma a uma, as flores espocassem em frutinhas: era instantâneo mas só podia ser naquela hora, enquanto todos dormiam e só eu pressentia o fato, acordada. Era a mágica da expectativa do dia seguinte.

É por causa da expectativa que eu acho desnecessário gastar tanto dinheiro em uma cerimônia de formatura (aparente contrassenso, não?). Claro que os ritos de passagem são importantes – fazem parte do ser humano e não devemos ser tolos de negá-los – só que acredito também que se os anos de formação já foram de esperas, trabalhos, esforços, esperas, chegadas, expectativas, não é um único dia que vai dar sentido a tudo. É aí que o fim da faculdade pode dar um vazio tremendo. Se em todo tempo de faculdade sua família nunca participou de nada que você fez, nem te perguntou algum dia depois do almoço de domingo o que raios você anda fazendo na universidade todos os dias, não vai ser porque te viram de beca que vão ter participado mais da sua vida. O erro é canalizar tudo para uma coisa só.

Tudo leva tempo. Ridiculamente óbvio e complicado como qualquer verdade. É que essa semana eu ando cheia de expectativas: de viajar, de voltar para o ano letivo, de começar de fato as atividades. Tem gente que pensa que não é bom criar expectativas, que isso superestima os eventos, que bom mesmo é fazer de conta que nada vai acontecer. Na verdade, creio que o que estraga as coisas é a ansiedade, não a expectativa.

Ela é mais tranqüila, calma, tenra – não liga se aqui ou ali algo deu errado, se as coisas foram adiadas um pouco, se tudo não é exatamente igual como se esperava. É uma saudade saudável do futuro, boa para ser apreciada nas primeiras horas do dia. Uma delícia da qual ninguém deve se privar.

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