Tardio Post Inaugural

Como é difícil, como é difícil, Beatriz, escrever uma carta…
Antes escrever os Lusíadas!
Com uma carta pode acontecer
Que qualquer mentira venha a ser verdade…      (Mário Quintana)

A carta tem uma solenidade bonita. Tudo passado a limpo numa folha e colocado dentro dum envelope chega aos olhos dos outros com uma atmosfera completamente diferente. É possível enviar uma mensagem de texto no celular por impulso, pode-se enviar um e-mail sem pensar, pode-se criar uma postagem num blog totalmente envolta por um afã passageiro. Mas uma carta, não. Vai ter que esticar as mãos para achar um papel (para os mais caprichosos, não vale qualquer um), encontrar uma boa caneta, vai ter que pensar mais lento porque se escreve mais devagar do que se digita. E, se por desventura for um pouco parecido comigo, fará versões, versões. Tenteios, desvios, hesitações. Por isso que a carta, por todo seu processo, sempre traz um rastro maior sentimento. Há uma comoção, há uma estética. O impensado tem mais chances de ser descartado. O que não quer dizer que o fique não seja surpreendente: porque a dinâmica da carta pode revelar algo que estava latente. E é por isso que numa carta tudo pode acontecer. Pode acontecer a descoberta.

Não acho que hoje se escreva menos através das cartas porque as pessoas se tornaram insensíveis. Simplesmente hoje há o mais rápido para o que precisa ser mais rápido. Por isso a carta tornou-se o veículo para quando não há pressa, mas necessidade. Necessidade de expressão. Mesmo que ela não venha a ser enviada. Porque quando a gente está enfurecida com alguém ou alguma situação, massacrar o papel pode significar não massacrar as outras pessoas. E pode ser que impropérios deixem de ser pronunciados e se tornem traços. Melhor para a gente mesmo.  Parece ontem que ouvi minha professora de português dizer: quando estiverem tristes ou revoltados, escrevam, escrevam tudo, podem até rasgar depois. E foi assim que aquela professora magrinha de olhinhos brilhantes me ensinou a terapia que me faria passar a adolescência consumindo cadernos com relatos absolutamente dramáticos e que – deus do céu – eu tenho até hoje em casa por uma pena enorme de jogar fora. Todo mundo passa por isso. Com gradações diferentes. E há os que levam essa coisa de escrever um tanto mais a sério e acabam, coitados, parando nas faculdades de Comunicação vida afora, mesmo que às vezes olhem o que produzem e, com um arrepio de medo, constatem que não difere muito daquelas coisas que escrevia nos cadernos cor-de-rosa da década passada. E que vão precisar se bater com as limitações da sua escrita de fato, com choro ou sem choro.

Agora, deixando de lado o escrito raivoso que se escreve pra desabafar, se a carta vier a ser enviada, terá que ser filtrada. Relida. Lapidada. E é por isso que afirmo que, se algo apareceu em uma carta, há um lastro por trás disso: se o que for dito passou pelo crivo da autocrítica da pessoa no processo de criação, revisão e, quiçá, no passar a limpo, um tanto de verdade há de ter. E aí está o valor. Endereçadas ou não, uma coisa é certa: todas as cartas são auto-dirigidas. Todas as missivas são, na verdade, conversas de você com você mesmo. Naquelas cartas que eu enviava pra minha mãe eu estava na verdade tentando aceitar minha própria condição de amadurecimento. Nas cartas pras amigas, eu estava me justificando por ter feito algo de um jeito e não de outro. Na carta que escrevi para celebrar os primeiros meses de namoro, eu estava me deleitando comigo mesma com minha história. Tomando uma distância, nossas correspondências têm essa condição essencial de fazer com que nós mesmos nos encontremos.

Embarquei no conselho da professora, e foi assim que passei a gostar desse gênero também na Literatura. Carta ao Pai, de Kafka, te arranca a sensibilidade até de onde você achava que não existia. Cartas a um Jovem Poeta, de Rainer Rilke, traz a grandeza do poeta alemão e por analogia ensinamentos não apenas para os aspirantes a poeta, mas a todos os seres viventes (abrangente, não?). Cartas do Poeta sobre a Vida, do mesmo autor, também é uma leitura absolutamente necessária. As cartas transatlânticas de Simone de Beauvoir a Nelson Algren, que revelam a personalidade de uma mulher memorável, nos fazem descobrir que até Simone, apaixonada, podia ser um tantinho abobalhada.

O correio aberto é meu desafio. Desafio de deixar de engavetar tudo. É meu gosto por cartas que acabava transformando tudo que escrevo em relatos pessoais, em correspondências de mim comigo que eu teimava em deixar guardadas. As reflexões que não transpunham as cartas pessoais: o oposto mais extremo do, hmm, bem, jornalismo. Verdade que já houve uma tentativa. Mas definhou. E como segue a vida, surge esse blog, para abrir esse meu correio, ao custo que for.

E quando jogo umas palavras-chave no Google, esse maravilhoso oráculo moderno, encontro essa crônica de Eliane Brum sobre o tema, publicada no final de junho. Quase desisto de tudo porque lendo o que escreve essa moça tudo parece um blábláblá pastoso. No entanto, persevero. Coleto do texto dela, então, a definição cabal: as cartas não servem para nada, exceto para a vida.

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