Pitada de Arte Conceitual ou É Agosto e Estou Estafada.

Aproveitar o tempo é maravilhoso: ser uma pessoa cumpridora de tarefas e ter aquela sensação, ao final do dia, de consciência leve e organização. Mas a gente exagera. Porque queremos tudo e tudo agora. Porque muitas vezes nos julgamos mais fortes do que somos – e é tão saudável e tão humano admitir fraquezas e impossibilidades. E diante da ameaça duma profissão que tem “relação fetichista com o tempo”, em que é urgente dominar essa besta-fera ao invés de ser dominada por ela, eu crio casca e me reinvento. Tento respirar fundo e lembrar que o ano ainda nem setembreou. Que ainda tem um outubro e um novembro de estrada. Busco forças nas lembranças de quando o tédio e a falta de sentido eram cargas mais pesadas que essa rotina, que nem mãe que dá sermão quando se reclama de barriga cheia.

Só que se sabe que alguns impulsos perduram, porque nosso espírito teima em habitar a calmaria. Dá saudade de ficar olhando pras paredes. De dispor de uma tarde como um patrimônio temporal imenso de  possibilidades, para desperdiçar pelas papelarias da cidade em busca do bloquinho de papel ideal. Agir que nem quando éramos crianças e aceitávamos qualquer proposta tonta – como catar pedrinhas coloridas – só para ter o que fazer (se sabe que a infância dispõe da eternidade e o maior crime é preencher todo o tempo duma criança, tolhendo-lhe o impulso de inventar). Ou para fazer uma lista de música brasileiras que precisam ser ouvidas e gastar horas tentando descobrir o que será que o Cazuza quis dizer com segredos de liquidificador.  Bom esse exercício para relembrar a real medida das coisas: que o mundo é concreto e que a vida é curta demais para fazermos só coisas importantes.

1- Estudo para tempo:

Numa praia ou num deserto, cavar um buraco (do tamanho que quiser) na areia, sentar-se e esperar em silêncio até que o vento o preencha inteiramente.

2- Estudo para espaço:

Num lugar qualquer, fechar os olhos e estabelecer uma área delimitada pelos sons que os ouvidos possam alcançar.

3- Estudo para espaço/tempo:

Depois de 12 horas em jejum, beber 1/2 litro de água fria numa jarra de prata.

(Cildo Meirelles, 1969, RJ – Bienal do Mercosul 2009)

Rubem Braga e a moderna crônica brasileira

Da carta de Pero Vaz de Caminha às apócrifas via e-mail de Arnaldo Jabor, foi um grande percurso. Ela está há mais de um século e meio nos jornais e segue como campeã de aceitação popular. Não fala dos deuses gregos, mas das figuras da esquina. A crônica de todos os dias, inserida nos jornais do século retrasado para fazer simplesmente um apanhado dos fatos da semana, evolui para adquirir o refinamento de retratar os costumes sociais, trazer à tona o incomum, mapear a cidade, iluminar o banal. O gênero soube driblar o perecimento e se estabelecer como literatura genuína, o mais cotidiano contato dos brasileiros com os grandes autores.

A tarefa do relato dos fatos acabou por cair nas mãos de nomes como Machado de Assis, Olavo Bilac, João do Rio, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade. E é quando o modernismo aparece para tirar da crônica qualquer traço de intelectualismo, que surge em cena a figura de Rubem Braga. A crônica como conhecemos hoje, leve, livre de preciosismos, dado ao incidente pequeno, ao tom confessional, deve muito a ele. Faz história porque é a partir da sua produção que se configura de fato a moderna crônica; começa a ser um fenômeno sui generis dentro do panorama da literatura brasileira. Rubem Braga traz o lirismo e a sensibilidade, colocando nos textos as memórias da infância, as pitangueiras que não existem mais, os formidáveis embrulhos que vinham do Rio de Janeiro, os amantes que se isolam no apartamento, a aula de inglês quase surreal.

O capixaba, que acreditava que a origem de Cachoeiro de Itapemirim lhe garantia um lugar no céu, veio para se tornar um dos nomes mais respeitados da crônica brasileira. Não é à toa que é um texto seu que abre As Cem Melhores Crônicas Brasileiras, na seleção de Joaquim Ferreira dos Santos. É o escritor que pela primeira vez estabelece toda sua obra nos limites desse gênero. Um cronista por excelência. Trabalhou como jornalista por várias décadas, tendo sido repórter policial, repórter de guerra na Itália, correspondente em Paris, assumindo posteriormente cargo de embaixador, mas sem deixar de exercer sua função de cronista diário. “Sempre escrevi para ser publicado no dia seguinte”, reitera ele, para muitos o maior cronista brasileiro desde Machado de Assis, escrevendo no limiar da crônica e do poético. Manuel Bandeira, contemporâneo e amigo seu, garante que com assunto Braga era muito bom; sem assunto, era melhor ainda: “Aí começa ele com o puxa-puxa, em que espreme nas crônicas as gotas de certa inefável poesia que é só dele.”

No final dos anos 30, então ainda um jovem escritor, junta-se ao corpo de colaboradores da revista Diretrizes, sob o comando do inesquecível jornalista Samuel Wainer. Já naquele tempo era uma figura destacada a ponto de intimidar Samuel: “No começo, eu me limitava a escrever notas curtas, tímidas. Não me considerava um bom redator, não conhecia a fundo o idioma, e me retraía diante dos grandes nomes que haviam aderido à idéia [da revista]. Um deles foi Rubem Braga, meu grande amigo naquela época, que escrevia magnificamente bem. Rubem criou uma seção com o título O Homem da Rua, que abrigaria crônicas maravilhosas.”

O homem da rua – uma bela definição do que é o cronista. O observador que flana pelas calçadas, escrevendo sobre o que vê. O cão vadio que fareja o cotidiano, virando latas da percepção humana. Flâneur ou canino – e Rubem soube captar isso como ninguém – é sobretudo aquele que põe o pé na rua. É literatura, mas está bem fincado na realidade.

Quando comecei a ler o volume das 50 crônicas escolhidas, organizadas em 2009 pela Best-Bolso [recorte a partir do volume 200 crônicas escolhidas, com textos selecionados pelo próprio autor em parceria com Fernando Sabino, em 1977] percebi que havia ali uma familiaridade. Meditando um pouquinho, me dei por conta que Braga ressoava desde a infância, lá em meados da década de 90, naquelas famosas edições “Para Gostar de Ler”, que pipocavam pela biblioteca. Formei-me no colégio com o enredo de vários livros decorados, mas sem nunca ouvir ser pronunciado em sala de aula o nome de Rubem Braga. O que é uma perda tamanha. Porque sua crônica é poética, lírica, esclarecedora, crítica, tudo isso sem cansar, sem ser a maçada de algumas obras que, por melhores que sejam, muitas vezes não dizem nada aos mais jovens. Não raro eu vi, posteriormente, aqueles volumes nas mãos de gente mais velha, claro, porque nunca é tarde pra gostar de ler e sempre é tempo de uma boa crônica. Essas sabem agradar aos pequenos e deleitar os maiorzinhos.

Rubem Braga queria escrever uma história que colocasse o riso na boca da moça doente que morava numa casa cinzenta, que fizesse o casal aborrecido descobrir a alegria de estar junto novamente, que de tão boa impelisse o oficial de distrito a soltar os pobres bêbados e as mulheres colhidas na rua. Para a nossa sorte, em 62 anos de jornalismo, foram mais de 15 mil. O riso e o lirismo de um dos cronistas fundamentais seguem atuais como a crônica que saiu no jornal de hoje.

(Texto publicado na semana passada na Revista O Viés.)

Seu João e o mato

Seu João quer cortar galhos. Existem pessoas com firmeza em seus objetivos e ele é uma dessas. Seu João cuida quando chego em casa. “Eu vi quando a luz acendeu, descurpa incomodar”, diz ele. Descurpa, ele fala assim mesmo, que nem a gente de fora. “Eu sou de fora”, ele gosta de frisar. “Mas já saí do campo há trinta anos. Agora comprei um apartamento novo, num condomínio, com meu trabalho. Olha pra ele de fora e nem acredito que é meu”. Faz três dias que ele passa pela minha casa. E me conta um monte de coisas que eu não perguntei. Fica cuidando quando a luz acende.

Ele quer cortar galhos. Para isso, pleiteia uma autorização, porque os galhos que ele quer cortar tem raízes no nosso terreno. Só que autorização minha não basta, tem que ser da minha mãe. Agora pouco que ele se convenceu de que ela é a gestora oficial da casa; antes ele chegava perguntando pelo meu pai. “Seu pai ta aí?” Não, não está. Meu pai não mora nessa casa há uns 15 anos. Só que eu não disse nada para o seu João, porque isso o motivaria a muitas, infinitas perguntas. Depois de um certo tempo, seu João concedeu legitimidade à minha mãe para tratar de questões como essa. Mas ele não esquece, e numa dessas três vezes que ele tentava obter sua autorização ainda lamentou: “que pena que ele não está mais aqui, a gente se dava tão bem… um dia até me ajudou a capinar o mato”. Quem o auxilia em sua tarefa mais suprema ganha admiração eterna. Um homem que ajuda a roçar um terreno é um santo para seu João.

O mato é o seu inimigo. “É que tem muito galho, tá encobrindo nossa visão ali embaixo, guria.” Ele me chama de guria. Eu fico me perguntando que vista bonita seria essa que ele quer tanto apreciar. Melhor seria ficar vendo as folhas do abacateiro. Só que seu João não pensa assim. Ele gosta muita de cortar folhagens, galhos, arbustos, tudo, tudo o que estiver na frente. O abacateiro é um sobrevivente da luta de seu João contra o mato. Uma vez, ele cortou o galho principal do abacateiro. Minha mãe se enfureceu. Seu João não quis saber, e afinal, quem era ela?, essas questões ele lidava com o homem da casa. Além do mais, estava fazendo um favor, porque aquilo era mato. E mato a gente corta de facão. Depois, aos poucos, seu João foi entendendo das coisas. Por isso que ele tem vindo aqui em casa pedir autorização. Por isso ele vem puxando assunto e tenta não arrumar mais rupturas com os vizinhos.

Abro a janela e lá está ele, o desbravador. Cortando e cortando, feliz. Cortou os galhos incômodos: na quarta visita, eu disse a ele que fizesse o que queria, mas que não exagerasse. Mas menti que foi minha mãe que mandou dizer, porque duas décadas de vida é pouco para alcançar o posto de dar uma resposta a ele. É o preço que se paga pela paz aos fins de tarde. Enquanto seu João corta, o mato, sem nem sentir, ri dele e do seu desejo de vistas limpas. O mato é um resistente implacável. Vai crescer de novo e encobrir de novo toda a vista do seu João.

Tardio Post Inaugural

Como é difícil, como é difícil, Beatriz, escrever uma carta…
Antes escrever os Lusíadas!
Com uma carta pode acontecer
Que qualquer mentira venha a ser verdade…      (Mário Quintana)

A carta tem uma solenidade bonita. Tudo passado a limpo numa folha e colocado dentro dum envelope chega aos olhos dos outros com uma atmosfera completamente diferente. É possível enviar uma mensagem de texto no celular por impulso, pode-se enviar um e-mail sem pensar, pode-se criar uma postagem num blog totalmente envolta por um afã passageiro. Mas uma carta, não. Vai ter que esticar as mãos para achar um papel (para os mais caprichosos, não vale qualquer um), encontrar uma boa caneta, vai ter que pensar mais lento porque se escreve mais devagar do que se digita. E, se por desventura for um pouco parecido comigo, fará versões, versões. Tenteios, desvios, hesitações. Por isso que a carta, por todo seu processo, sempre traz um rastro maior sentimento. Há uma comoção, há uma estética. O impensado tem mais chances de ser descartado. O que não quer dizer que o fique não seja surpreendente: porque a dinâmica da carta pode revelar algo que estava latente. E é por isso que numa carta tudo pode acontecer. Pode acontecer a descoberta.

Não acho que hoje se escreva menos através das cartas porque as pessoas se tornaram insensíveis. Simplesmente hoje há o mais rápido para o que precisa ser mais rápido. Por isso a carta tornou-se o veículo para quando não há pressa, mas necessidade. Necessidade de expressão. Mesmo que ela não venha a ser enviada. Porque quando a gente está enfurecida com alguém ou alguma situação, massacrar o papel pode significar não massacrar as outras pessoas. E pode ser que impropérios deixem de ser pronunciados e se tornem traços. Melhor para a gente mesmo.  Parece ontem que ouvi minha professora de português dizer: quando estiverem tristes ou revoltados, escrevam, escrevam tudo, podem até rasgar depois. E foi assim que aquela professora magrinha de olhinhos brilhantes me ensinou a terapia que me faria passar a adolescência consumindo cadernos com relatos absolutamente dramáticos e que – deus do céu – eu tenho até hoje em casa por uma pena enorme de jogar fora. Todo mundo passa por isso. Com gradações diferentes. E há os que levam essa coisa de escrever um tanto mais a sério e acabam, coitados, parando nas faculdades de Comunicação vida afora, mesmo que às vezes olhem o que produzem e, com um arrepio de medo, constatem que não difere muito daquelas coisas que escrevia nos cadernos cor-de-rosa da década passada. E que vão precisar se bater com as limitações da sua escrita de fato, com choro ou sem choro.

Agora, deixando de lado o escrito raivoso que se escreve pra desabafar, se a carta vier a ser enviada, terá que ser filtrada. Relida. Lapidada. E é por isso que afirmo que, se algo apareceu em uma carta, há um lastro por trás disso: se o que for dito passou pelo crivo da autocrítica da pessoa no processo de criação, revisão e, quiçá, no passar a limpo, um tanto de verdade há de ter. E aí está o valor. Endereçadas ou não, uma coisa é certa: todas as cartas são auto-dirigidas. Todas as missivas são, na verdade, conversas de você com você mesmo. Naquelas cartas que eu enviava pra minha mãe eu estava na verdade tentando aceitar minha própria condição de amadurecimento. Nas cartas pras amigas, eu estava me justificando por ter feito algo de um jeito e não de outro. Na carta que escrevi para celebrar os primeiros meses de namoro, eu estava me deleitando comigo mesma com minha história. Tomando uma distância, nossas correspondências têm essa condição essencial de fazer com que nós mesmos nos encontremos.

Embarquei no conselho da professora, e foi assim que passei a gostar desse gênero também na Literatura. Carta ao Pai, de Kafka, te arranca a sensibilidade até de onde você achava que não existia. Cartas a um Jovem Poeta, de Rainer Rilke, traz a grandeza do poeta alemão e por analogia ensinamentos não apenas para os aspirantes a poeta, mas a todos os seres viventes (abrangente, não?). Cartas do Poeta sobre a Vida, do mesmo autor, também é uma leitura absolutamente necessária. As cartas transatlânticas de Simone de Beauvoir a Nelson Algren, que revelam a personalidade de uma mulher memorável, nos fazem descobrir que até Simone, apaixonada, podia ser um tantinho abobalhada.

O correio aberto é meu desafio. Desafio de deixar de engavetar tudo. É meu gosto por cartas que acabava transformando tudo que escrevo em relatos pessoais, em correspondências de mim comigo que eu teimava em deixar guardadas. As reflexões que não transpunham as cartas pessoais: o oposto mais extremo do, hmm, bem, jornalismo. Verdade que já houve uma tentativa. Mas definhou. E como segue a vida, surge esse blog, para abrir esse meu correio, ao custo que for.

E quando jogo umas palavras-chave no Google, esse maravilhoso oráculo moderno, encontro essa crônica de Eliane Brum sobre o tema, publicada no final de junho. Quase desisto de tudo porque lendo o que escreve essa moça tudo parece um blábláblá pastoso. No entanto, persevero. Coleto do texto dela, então, a definição cabal: as cartas não servem para nada, exceto para a vida.

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