Donde austeras casitas apenas se aventuran

“ (…) donde austeras casitas apenas se aventuran,
abrumadas por inmortales distancias,
a perderse en la honda visión
de cielo y llanura.”

Jorge Luis Borges

Um poeta diz que a gente só mora em uma casa a vida inteira. Mesmo que a tenham derrubado, continuamos morando na casa onde nascemos. Assim, carrego para sempre um chalé de madeira amarelo onde morei, até meus três anos de idade. Verdade que depois morei em prédio, embora nunca tenha me adaptado e continuo, até hoje, uma inconformada. Como uma filha das casas pequenas de madeira, sempre que avisto uma me enxergo um pouco. Sei que naquele vão embaixo da casa há sempre um mistério. Que no quintal deve haver uma horta, mesmo que pequena. Que as plantas ao redor da casa, por pouco ornamentais que sejam ou até mesmo as mais daninhas e sem vergonha, sempre são fonte de brincadeira e espanto para os pequenos. O som dos passos no interior dessas casas permanecem para sempre em quem morou nelas. Guardo lembranças que hoje me pergunto se aconteceram ou foram sonho – a memória consciente ainda estava sendo formada.

Assim como o centro de Santa Maria perde seus casarões para construírem prédios feios e sem personalidade, os bairros perdem suas casinhas de madeira para que sejam construídos prédios igualmente feios e sem personalidade. Só que menores. Com sacadas tristemente minúsculas. Eu sei, talvez meu gosto por casas não faça sentido nenhum se analisado por outros pontos de vista – urbanos, econômicos, ou que quer que seja – mas ainda assim justifico que é minha formação interior que me fez assim. Nasci em uma casa com grama e pátio e estou fatalmente condenada a me entristecer cada vez que uma casinha é derrubada. Não é racional, posso dizer em minha defesa. Aqui onde moro, no bairro Bonfim, havia um desses chalezinhos: muro baixo, pintando de marrom, sem grades, um jardim alegremente bagunçado. Em frente à casa, um senhor sentava durante quase todas as tardes, brincando e conversando com um bebê de pouco mais de um ano, que deduzi ser sua neta. Em vários horários cruzava por eles, voltando para minha casa, subindo a rua apressada para pegar ônibus. Passamos a nos cumprimentar, mesmo sem nunca termos conversado. Trocávamos sorrisos, a pequenina reagia a minha presença acenando os bracinhos.

Amanheceu um dia em que não havia casa, não havia velho, não havia criança. Havia uma terra revolvida e alguns tapumes. Me senti traída, apunhalada, roubada. Logo começou a construção. Um prédio quadrado, feio, com janelas gradeadas. Um mísero metro quadrado de grama, no jardim em frente. Um nome pomposo como qualquer prédio – de preferência, em idioma estrangeiro, sugerindo algo muito requintado para disfarçar a tristeza de não ser um chalé de madeira com jardim, árvore e criança brincando. [Sou de uma opinião que antes de tudo as crianças precisam de quintal. Antes de ter um videogame, um ser humano precisa ter acesso a terra, grama, minhoca, roseta, árvore, bergamota no pé, formiga, joaninha e assemelhados. Não precisa ser o quintal de sua própria casa. É mais do que digno pegar um emprestado: da casa da vó, do vizinho, do amigo. A questão não é a propriedade, mas a apropriação.]

Em seguida, não demorou para que outras três casas na mesma rua tivessem o mesmo destino. Há uma que se encontra sitiada, roubada de sol, vizinhando com dois prédios, mas resistente com uma nobreza exemplar – nobreza de árvore, como diria Manoel de Barros. Os chalés, já velhos, alguns de pintura descascada, estão em extinção. Há tanta coisa preocupante, tanta urgência, e às vezes me pego pensando nesse problema: estão se acabando as casas de madeiras no bairro Bonfim. As novas construções, com as roupas estendidas em sacadas diminutas, com cartazes convocando para tediosas reuniões de condomínio, vão estar em todos os terrenos. Eu vou precisar caminhar mais para encontrar algo que espelhe minhas lembranças mais antigas. As crianças vão precisar de outros jardins e outros quintais, ou talvez nem sintam que precisem. Talvez mesmo não precisem. O que sei é que a memória é implacável: ter nascido em uma casa dessas me condena a ficar triste por todas as outras que já se foram.

Receita Minimalista para o Outono

Por alguma razão obscura comecei a não me dar bem com cafés passados. Deve ser a mesma razão pela qual chocolate, depois de uns anos, começou a me dar uma dor de cabeça chata, persistente, no fundo dos olhos. Dizem os médicos que até molho shoyu pode dar dor de cabeça nas pessoas, então eu agradeço por ainda estar imune dessa. A verdade é que chocolate não fez muita falta, mas a restrição com o tipo de café me traz problemas.

Sobram para mim as opções: café expresso e, quando estou em casa, café batido, porque café preto de nescafé, assim, sem nada, é amargo até dizer chega.

Não sabe fazer café batido? É uma das receitas mais simplórias da vida: absolutamente necessário aprender. Também é chamado, em outras bandas desse Brasil, café cremoso. Lembra um momento bom depois do almoço, barulhinho de colheres nas xícaras e conversas alongadas. Os daltônicos, como um que eu convivo, podem ver aquele marrom claro e te surpreender dizendo: “Café verde!”

Como começar: pegue uma xícara qualquer e imagine quanto de café quer tomar e coloque tantas colherinhas de café solúvel (pó ou granulado, tanto faz) quantas julgar o bastante para essa quantidade de líquido imaginada. Coloque açúcar, mas lembre-se que não pode ser tão pouco assim: uma quantidade igual ou maior do que o café solúvel. Em seguida, o momento de colocar um pouquinho de água. Atenção: é bem pouquinho. O que você imaginar que precisa, diminua pela metade e coloque. Comece com uma colherinha de chá com pouca água e, caso precise, adicione umas gotinhas. Se colocar água demais, vai virar um líquido que nunca vai dar ponto e você vai se obrigar a colocar mais açúcar e café. Quando ele ficar uma pastinha já está bom de água (a temperatura desse pouquinho de água não interfere). Mexa bem com a colher por alguns minutos e a mistura vai gradualmente se tornar esbranquiçada e mais firme. Se estiver pensando na solução de um problema, pode contemplar o horizonte com olhos esperançosos e continuar misturando até ficar quase em ponto de neve, que além de uma saída para suas agruras ganhará um café bem mais cremoso (dizem os antigos que esse tipo de café clareia a mente humana). Ou, se estiver em um dia mais tranquilo ou sem tanto tempo para contemplações, basta esbranquiçar um pouco. Quando estiver em um ponto que julgar bom (veja que a receita é toda personalizável), adicione água ou leite quente. Pronto! Com açúcar mascavo funciona tão bem quanto, inclusive fica branquinho. Para completar, pode polvilhar canela por cima.

Como se pôde ver, para acertar nesse café precisa de um pouco de intuição. Essa é a grande sacada. Já vi receitas para fazer em grande quantidade, na batedeira, e deixar congelado. Pessoalmente não achei graça, mas é possível e prático, embora estrague um pouco do ritual e subestime os poderes que o preparo da bebida tem sobre o estado de espírito das pessoas. De qualquer fomra, uma boa receita para esperar o outono.

* Em um post próximo, uma crítica das principais cafeterias de Santa Maria (RS) ou Em Busca do Expresso Perfeito.

Minhas inutilidades

Tem casa que é quieta, arrumada demais. Casas em que tudo está em silêncio. Quase uma impessoalidade. Não adianta nem abrir uma gaveta para ver se sai um gritinho, uma risadinha de bagunça: tudo no seu devido e silencioso lugar. Roupeiros tão alinhados que parecem depósitos de roupas para robôs. Não dá pra adivinhar nenhum movimento, nenhum deslize ou ato apressado. Os livros estão dispostos por ordem alfabética, como um exército. Casas que mensalmente sofrem varreduras nos papéis, nos potinhos, no fundo dos baús: o desnecessário nunca se acumula.

Em muitos lugares, usando de argumentos colhidos até em religiões orientais, se defende que tudo aquilo que não é usado deve ser descartado. Conselho que eu ignoro solenemente. Sou uma coleção de inutilidades e não tenho – ao menos ainda – vontade de me desfazer delas. Quando faço arrumações nos meus papéis e livros, separo uma pilha de coisas que vão fora e coisas que vão para o arquivo (mesmo que esse arquivo não tenha horizonte de ser consultado em 10 anos). Quando coloco o lixo fora, sempre sinto no fundo um temor de ter confundido as pilhas e descartado o que eu queria que ficasse.

Distribuídos pelos mais diversos locais e esconderijos nos móveis, organizados conforme se pôde fazer, lá se vão bilhetes de aula do primeiro grau, coleção de cartões de aniversário, cartas, bibelôs lascados, roupas de criança, agendas da adolescência, livros que não consegui ler, folhinhas secas de lembrança, anotações sem muito sentido, caixinhas de embalagens que acho bonitas, chaves que já não tem mais porta, folders de eventos da década passada, tocos de lápis e mais todo um arsenal. Tem gente que se espanta com o tanto de coisa que guardamos em casa. Eu me arrependo de não ter juntado algumas mais. Recordo ainda com um pouquinho de rancor o dia em que doaram meus brinquedos de criança sem me consultar. Não é apego material: eu teria doado, sim, os mais novos, que outras crianças ainda poderiam brincar, mas certamente deixaria uma ou duas preferidas (especialmente uma bonequinha de vestido lilás, que dava umas piscadelas bem engraçadinhas toda vez que se mexia nela).

Uma casa sem algo de inútil é um ser calado. Ninguém poderá remexer num armário e encontrar um pedaço de uma existência esquecida, talvez melhor, talvez pior. É espantoso como nossa memória pode se grudar em objetos, em pedaços, em coisas; embora nosso passado não seja esses objetos, essa matéria fossilizada. Os papéis, as memórias, os objetos, no entanto, têm eles os seus discursos. Não é uma mania de limpeza que deve calá-los.

Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser. Garante a soberania de Ser mais do que Ter. (Manoel de Barros)

Expectativas de um fim de fevereiro

A expectativa tempera tudo. É ela que, naquelas semanas de espera, modifica a fruta dentro da compota. Dizem que é tarefa do tempo e dos ingredientes, mas na verdade é a expectativa de quem quer consumi-la que causa a transformação. São nossos olhos desejosos que agem através do vidro. Aquelas prateleiras de vó cheios de potes coloridos e que só podem ser mexidos depois de tantos dias são a lembrança mais caseira do poder da expectativa.

(segundo essa mesma lei, compotas que não são observadas com desejo, tampouco têm sequer pensamentos dirigidos a elas, fatalmente dão errado).

Esperar pelo banho de rio, três horas depois do almoço, sempre me pareceu maldade dos mais velhos. Na verdade, era o ato generoso de nos fazer aprender o lado bom de esperar. A expectativa é que colocava a beleza nas grutas de um rio Ibicuí guardado na infância.

Quando eu era bem pequena, na chácara do meu avô, colher os morangos da horta era uma das minhas atividades preferidas. Tendo acabado de juntar os maduros, diziam que amanhã haveria mais, que aquelas flores pequeninas se transformariam em novos moranguinhos. À noite, deitada na cama, com aquele cansaço bom de quem andou por um mundo de coisas concretas (árvore, bergamota, terra, pedra), eu imaginava que magicamente, uma a uma, as flores espocassem em frutinhas: era instantâneo mas só podia ser naquela hora, enquanto todos dormiam e só eu pressentia o fato, acordada. Era a mágica da expectativa do dia seguinte.

É por causa da expectativa que eu acho desnecessário gastar tanto dinheiro em uma cerimônia de formatura (aparente contrassenso, não?). Claro que os ritos de passagem são importantes – fazem parte do ser humano e não devemos ser tolos de negá-los – só que acredito também que se os anos de formação já foram de esperas, trabalhos, esforços, esperas, chegadas, expectativas, não é um único dia que vai dar sentido a tudo. É aí que o fim da faculdade pode dar um vazio tremendo. Se em todo tempo de faculdade sua família nunca participou de nada que você fez, nem te perguntou algum dia depois do almoço de domingo o que raios você anda fazendo na universidade todos os dias, não vai ser porque te viram de beca que vão ter participado mais da sua vida. O erro é canalizar tudo para uma coisa só.

Tudo leva tempo. Ridiculamente óbvio e complicado como qualquer verdade. É que essa semana eu ando cheia de expectativas: de viajar, de voltar para o ano letivo, de começar de fato as atividades. Tem gente que pensa que não é bom criar expectativas, que isso superestima os eventos, que bom mesmo é fazer de conta que nada vai acontecer. Na verdade, creio que o que estraga as coisas é a ansiedade, não a expectativa.

Ela é mais tranqüila, calma, tenra – não liga se aqui ou ali algo deu errado, se as coisas foram adiadas um pouco, se tudo não é exatamente igual como se esperava. É uma saudade saudável do futuro, boa para ser apreciada nas primeiras horas do dia. Uma delícia da qual ninguém deve se privar.

A Melhor Viagem

No dia da melhor viagem que já fiz, acordei atrasada. E a viagem só durou um dia. Acordei na manhã já irremediavelmente instalada e em 5 minutos já tinha saído de casa com a primeira roupa que eu vi, de cabelos molhados e absolutamente desmaquilada. Porque eu iria fazer aquela viagem tão bonita e minha vaidade tinha planejado várias camadas de rímel, uma a uma, antes de o sol nascer – para fingir que a gente já acorda assim, sabe? Só fui recuperar a dignidade bem depois, já em meu destino, quando ele, depois de jurar que eu estava linda daquele jeito mesmo, espontaneamente tinha dito que eu voltei do banheiro mais “luminosa”. Antes disso, cruzando a estrada, me fiz de forte e nem tomei remédio para não enjoar, ganhando como prêmio a oportunidade primeira de dormir nuns braços que muito mais vezes me fariam adormecer tranqüila.

Eu estava guardando dinheiro para alguma coisa – talvez fosse minha câmera fotográfica, talvez fosse alguma conta que eu tinha que pagar – mas peguei uma quantia desse tanto destinado e fui gastar na minha viagem de um dia. Porque eu estava com um pressentimento.

Viajei e comprei livros que depois nunca consegui ler – um porque me pareceu de fato ruim e outro porque era em francês, veja só, uma língua que eu não dominava e até agora não domino. Porque aqueles eram os tempos das grandes pretensões.

Passeei na cidade, andei por ruas que eu não conhecia, tomei cafés ruins e tomei bons cafés. Escovei os dentes dentro do banheiro minúsculo do restaurante que almoçamos, bem quando faltou luz. Comprei remédio para dor de cabeça, claro, porque ela viajou comigo – companheirismo é isso.

As praças estavam cheias de gente, crianças brotavam, pais buscavam essas mesmas crianças que tinham se perdido e o mundo parecia feliz porque as pessoas se acotovelavam em busca da boa literatura. Ou de bons preços, apenas. Cogitamos tirar uma foto com um lambe-lambe, fato que não foi levado adiante devido a nossa distração e aparente encantamento. Eu com um visual de atrasada e tu com aqueles óculos que tinhas pedido emprestado para poder ver bem os livros que traria. Coisa que não te impediu de comprar Carpinejar, autor que caiu no meu gosto mas não no teu – irônico porque lendo-o penso sempre e muito em ti.

Pavilhões com areia, chuveiros de sons, uma sentença cantada, Kant lido por uma criança de 6 anos e duas almas expulsas da exposição porque era hora de fechar as portas. E assim fomos, para o jantar num shopping qualquer e partirmos de volta.

Lá estávamos nós, no terminal cheio de gente e mala e coisas passando. Só que os ônibus tardavam e não tínhamos casa. A rodoviária era hostil e assim começamos a assediar ônibus aleatórios para perguntar se, por acaso, não passariam por Santa Maria. Até um que ia pro Chuí eu abordei, porque nessas horas de leve desespero a noção geográfica some.

Embarcamos. Uma vez mais, o imprevisível batia à porta: já não podíamos sentar lado a lado, como a ida. Entre nós, um corredor estreito que naquele momento parecia imenso, intransponível, e dois mal-amados que se negaram, mesmo sob nossos pedidos gentis, a trocar de lugar – para eles, roguei maldições terríveis que até hoje reverberam no cosmos.

Em horas como essa, o que se faz é estender a mão e encontrar a mão que te espera no além-corredor, mesmo que algo inesperado, como um pé humano vindo do banco de trás, surja aparentemente do nada, se pondo entre nós e fazendo do ataque de risos a única solução viável.

Ou ficar em silêncio de mãos dadas e ler nos lábios algo que você não sabe se entendeu bem (parece que sim, mas está escuro) e responder que, sim, eu também, e não saber se a outra pessoa também entendeu. Levar para casa o dito pelo não dito, o mistério e a alegria baseada numa grande, enorme pretensão de ter nessa vida ingrata a conjunção de amar e ao mesmo tempo ser amado. Isso sim, deixa a gente luminosa. Foi a melhor viagem que fiz.

Aquiles por seu calcanhar é Aquiles

Não gostava dessa faixa. O título era enorme e o arranjo me parecia estranho. Pulava sem pena alguma, para ouvir Noctiluca, canção mais adorável daquela dúzia, sem dúvida. Nada mais impensável e genial que trazer tanta doçura celebrando a chegada de um filho com uma música sobre um dinoflagelado. Noctiluca ilumina o mar, na praia escura, tornando-o fosforescente. O pequeno Luca iluminou a vida do pai, quando a noite estava fechada e as feridas, abertas. Mas a canção que falarei não me encantou, assim, de primeira. Parecia uma ovelhinha negra em meio às outras. No entanto, veio o dia em que, ouvida com calma e em determinadas condições de espírito, a canção Aquiles por su talón es Aquiles calou fundo em mim, como há tempos canção nenhuma tinha feito. Bem mais que a mimosa canção de ninar.

Se é o que se é. O que sempre fomos. Essa é a lei anunciada, e se sabe que Drexler é bom em leis universalmente aplicáveis, já tendo dito, com sua sabedoria de uruguaio sem fronteiras, que tudo se transforma e que o coração vai sarar e vai voltar a se quebrar. Essas lições já estão aprendidas desde Eco e 12 Segundos de Oscuridad, mas em Amar la trama Drexler fala da parcela essencial de cada um.

Declarar que se é o que é constitui algo bem diferente de pedir, com uma pontinha de orgulho, que aceitem-nos como somos. Quem diz “eu sou assim” sem nenhuma intenção de mudar, se impõe e impõe a aceitação pelos outros. Não é disso que canção fala. Fala na verdade da porção de pedra da nossa personalidade que muitas vezes, lutamos para eliminar. Não conseguindo, sofremos. Nossa sensibilidade que tentamos amenizar, nossas paixões que tentamos direcionar.

Existe o momento em que tocamos o nosso limite. Podemos nos moldar a situações e pessoas, podemos nos dobrar pela convivência ou pelo esforço de melhoria, mas há o inelutável. O mais defeituoso de nós, a parte que não se desprende e se nega a dobrar: exatamente isso é o que nos constitui como nós mesmos. Não raro o maior defeito apontado numa pessoa é exatamente aquilo que, por outro lado, é justamente a maior qualidade. Como aquele perfeccionista que tem fama de chato, mas que em outras situações, é aclamado por ser criterioso e atencioso. Ou o artista que produz obras estupendas, mas cuja sensibilidade se torna um caos na convivência diária.

Corrigidos esses descompassos, dosadas essas características a um nível mais ameno, simplesmente não seriam quem são. Clarice Lispector aconselha não mexer em nenhum defeito: nunca se sabe o que sustenta o edifício que somos. A maior das contradições da nossa personalidade: o nosso melhor é também nosso pior; nossas imperfeições nos edificam.

Não escolhemos o que nos fere, nem as pessoas pelas quais nos apaixonamos, nem as coisas que nos fazem chorar. Tenha ou não tenha sentido evidente. Temos conosco o coração que carregamos por defeito. E justamente pelo descontrole aqui e ali, pelo que não conseguimos evitar; pelo que tentamos lutar por anos a fio, até que uma noite nos damos por conta, num lampejo feliz: “isso faz, de fato, parte de mim.”

Aquiles por seu calcanhar é Aquiles. Somos o que somos – a absurda obviedade e complexidade dessa sentença me encantam. É perigoso julgar o que é nosso, é tentador dizer que determinada característica não se despende da gente por nada nesse mundo. Ao mesmo tempo, fazer essas escolhas de resignação ou combate eterno é tudo quanto precisamos resolver sobre nós. Conhecer a nós mesmos, aceitar nossos limites, lidar com nossa sensibilidade é o tanto que vale a pena nessa vida. Doloroso, trabalhoso, necessário. Drexler volta a me ensinar que não há canção sua sem porquê.

Pitada de Arte Conceitual ou É Agosto e Estou Estafada.

Aproveitar o tempo é maravilhoso: ser uma pessoa cumpridora de tarefas e ter aquela sensação, ao final do dia, de consciência leve e organização. Mas a gente exagera. Porque queremos tudo e tudo agora. Porque muitas vezes nos julgamos mais fortes do que somos – e é tão saudável e tão humano admitir fraquezas e impossibilidades. E diante da ameaça duma profissão que tem “relação fetichista com o tempo”, em que é urgente dominar essa besta-fera ao invés de ser dominada por ela, eu crio casca e me reinvento. Tento respirar fundo e lembrar que o ano ainda nem setembreou. Que ainda tem um outubro e um novembro de estrada. Busco forças nas lembranças de quando o tédio e a falta de sentido eram cargas mais pesadas que essa rotina, que nem mãe que dá sermão quando se reclama de barriga cheia.

Só que se sabe que alguns impulsos perduram, porque nosso espírito teima em habitar a calmaria. Dá saudade de ficar olhando pras paredes. De dispor de uma tarde como um patrimônio temporal imenso de  possibilidades, para desperdiçar pelas papelarias da cidade em busca do bloquinho de papel ideal. Agir que nem quando éramos crianças e aceitávamos qualquer proposta tonta – como catar pedrinhas coloridas – só para ter o que fazer (se sabe que a infância dispõe da eternidade e o maior crime é preencher todo o tempo duma criança, tolhendo-lhe o impulso de inventar). Ou para fazer uma lista de música brasileiras que precisam ser ouvidas e gastar horas tentando descobrir o que será que o Cazuza quis dizer com segredos de liquidificador.  Bom esse exercício para relembrar a real medida das coisas: que o mundo é concreto e que a vida é curta demais para fazermos só coisas importantes.

1- Estudo para tempo:

Numa praia ou num deserto, cavar um buraco (do tamanho que quiser) na areia, sentar-se e esperar em silêncio até que o vento o preencha inteiramente.

2- Estudo para espaço:

Num lugar qualquer, fechar os olhos e estabelecer uma área delimitada pelos sons que os ouvidos possam alcançar.

3- Estudo para espaço/tempo:

Depois de 12 horas em jejum, beber 1/2 litro de água fria numa jarra de prata.

(Cildo Meirelles, 1969, RJ – Bienal do Mercosul 2009)

Rubem Braga e a moderna crônica brasileira

Da carta de Pero Vaz de Caminha às apócrifas via e-mail de Arnaldo Jabor, foi um grande percurso. Ela está há mais de um século e meio nos jornais e segue como campeã de aceitação popular. Não fala dos deuses gregos, mas das figuras da esquina. A crônica de todos os dias, inserida nos jornais do século retrasado para fazer simplesmente um apanhado dos fatos da semana, evolui para adquirir o refinamento de retratar os costumes sociais, trazer à tona o incomum, mapear a cidade, iluminar o banal. O gênero soube driblar o perecimento e se estabelecer como literatura genuína, o mais cotidiano contato dos brasileiros com os grandes autores.

A tarefa do relato dos fatos acabou por cair nas mãos de nomes como Machado de Assis, Olavo Bilac, João do Rio, Manuel Bandeira, Oswald de Andrade. E é quando o modernismo aparece para tirar da crônica qualquer traço de intelectualismo, que surge em cena a figura de Rubem Braga. A crônica como conhecemos hoje, leve, livre de preciosismos, dado ao incidente pequeno, ao tom confessional, deve muito a ele. Faz história porque é a partir da sua produção que se configura de fato a moderna crônica; começa a ser um fenômeno sui generis dentro do panorama da literatura brasileira. Rubem Braga traz o lirismo e a sensibilidade, colocando nos textos as memórias da infância, as pitangueiras que não existem mais, os formidáveis embrulhos que vinham do Rio de Janeiro, os amantes que se isolam no apartamento, a aula de inglês quase surreal.

O capixaba, que acreditava que a origem de Cachoeiro de Itapemirim lhe garantia um lugar no céu, veio para se tornar um dos nomes mais respeitados da crônica brasileira. Não é à toa que é um texto seu que abre As Cem Melhores Crônicas Brasileiras, na seleção de Joaquim Ferreira dos Santos. É o escritor que pela primeira vez estabelece toda sua obra nos limites desse gênero. Um cronista por excelência. Trabalhou como jornalista por várias décadas, tendo sido repórter policial, repórter de guerra na Itália, correspondente em Paris, assumindo posteriormente cargo de embaixador, mas sem deixar de exercer sua função de cronista diário. “Sempre escrevi para ser publicado no dia seguinte”, reitera ele, para muitos o maior cronista brasileiro desde Machado de Assis, escrevendo no limiar da crônica e do poético. Manuel Bandeira, contemporâneo e amigo seu, garante que com assunto Braga era muito bom; sem assunto, era melhor ainda: “Aí começa ele com o puxa-puxa, em que espreme nas crônicas as gotas de certa inefável poesia que é só dele.”

No final dos anos 30, então ainda um jovem escritor, junta-se ao corpo de colaboradores da revista Diretrizes, sob o comando do inesquecível jornalista Samuel Wainer. Já naquele tempo era uma figura destacada a ponto de intimidar Samuel: “No começo, eu me limitava a escrever notas curtas, tímidas. Não me considerava um bom redator, não conhecia a fundo o idioma, e me retraía diante dos grandes nomes que haviam aderido à idéia [da revista]. Um deles foi Rubem Braga, meu grande amigo naquela época, que escrevia magnificamente bem. Rubem criou uma seção com o título O Homem da Rua, que abrigaria crônicas maravilhosas.”

O homem da rua – uma bela definição do que é o cronista. O observador que flana pelas calçadas, escrevendo sobre o que vê. O cão vadio que fareja o cotidiano, virando latas da percepção humana. Flâneur ou canino – e Rubem soube captar isso como ninguém – é sobretudo aquele que põe o pé na rua. É literatura, mas está bem fincado na realidade.

Quando comecei a ler o volume das 50 crônicas escolhidas, organizadas em 2009 pela Best-Bolso [recorte a partir do volume 200 crônicas escolhidas, com textos selecionados pelo próprio autor em parceria com Fernando Sabino, em 1977] percebi que havia ali uma familiaridade. Meditando um pouquinho, me dei por conta que Braga ressoava desde a infância, lá em meados da década de 90, naquelas famosas edições “Para Gostar de Ler”, que pipocavam pela biblioteca. Formei-me no colégio com o enredo de vários livros decorados, mas sem nunca ouvir ser pronunciado em sala de aula o nome de Rubem Braga. O que é uma perda tamanha. Porque sua crônica é poética, lírica, esclarecedora, crítica, tudo isso sem cansar, sem ser a maçada de algumas obras que, por melhores que sejam, muitas vezes não dizem nada aos mais jovens. Não raro eu vi, posteriormente, aqueles volumes nas mãos de gente mais velha, claro, porque nunca é tarde pra gostar de ler e sempre é tempo de uma boa crônica. Essas sabem agradar aos pequenos e deleitar os maiorzinhos.

Rubem Braga queria escrever uma história que colocasse o riso na boca da moça doente que morava numa casa cinzenta, que fizesse o casal aborrecido descobrir a alegria de estar junto novamente, que de tão boa impelisse o oficial de distrito a soltar os pobres bêbados e as mulheres colhidas na rua. Para a nossa sorte, em 62 anos de jornalismo, foram mais de 15 mil. O riso e o lirismo de um dos cronistas fundamentais seguem atuais como a crônica que saiu no jornal de hoje.

(Texto publicado na semana passada na Revista O Viés.)

Seu João e o mato

Seu João quer cortar galhos. Existem pessoas com firmeza em seus objetivos e ele é uma dessas. Seu João cuida quando chego em casa. “Eu vi quando a luz acendeu, descurpa incomodar”, diz ele. Descurpa, ele fala assim mesmo, que nem a gente de fora. “Eu sou de fora”, ele gosta de frisar. “Mas já saí do campo há trinta anos. Agora comprei um apartamento novo, num condomínio, com meu trabalho. Olha pra ele de fora e nem acredito que é meu”. Faz três dias que ele passa pela minha casa. E me conta um monte de coisas que eu não perguntei. Fica cuidando quando a luz acende.

Ele quer cortar galhos. Para isso, pleiteia uma autorização, porque os galhos que ele quer cortar tem raízes no nosso terreno. Só que autorização minha não basta, tem que ser da minha mãe. Agora pouco que ele se convenceu de que ela é a gestora oficial da casa; antes ele chegava perguntando pelo meu pai. “Seu pai ta aí?” Não, não está. Meu pai não mora nessa casa há uns 15 anos. Só que eu não disse nada para o seu João, porque isso o motivaria a muitas, infinitas perguntas. Depois de um certo tempo, seu João concedeu legitimidade à minha mãe para tratar de questões como essa. Mas ele não esquece, e numa dessas três vezes que ele tentava obter sua autorização ainda lamentou: “que pena que ele não está mais aqui, a gente se dava tão bem… um dia até me ajudou a capinar o mato”. Quem o auxilia em sua tarefa mais suprema ganha admiração eterna. Um homem que ajuda a roçar um terreno é um santo para seu João.

O mato é o seu inimigo. “É que tem muito galho, tá encobrindo nossa visão ali embaixo, guria.” Ele me chama de guria. Eu fico me perguntando que vista bonita seria essa que ele quer tanto apreciar. Melhor seria ficar vendo as folhas do abacateiro. Só que seu João não pensa assim. Ele gosta muita de cortar folhagens, galhos, arbustos, tudo, tudo o que estiver na frente. O abacateiro é um sobrevivente da luta de seu João contra o mato. Uma vez, ele cortou o galho principal do abacateiro. Minha mãe se enfureceu. Seu João não quis saber, e afinal, quem era ela?, essas questões ele lidava com o homem da casa. Além do mais, estava fazendo um favor, porque aquilo era mato. E mato a gente corta de facão. Depois, aos poucos, seu João foi entendendo das coisas. Por isso que ele tem vindo aqui em casa pedir autorização. Por isso ele vem puxando assunto e tenta não arrumar mais rupturas com os vizinhos.

Abro a janela e lá está ele, o desbravador. Cortando e cortando, feliz. Cortou os galhos incômodos: na quarta visita, eu disse a ele que fizesse o que queria, mas que não exagerasse. Mas menti que foi minha mãe que mandou dizer, porque duas décadas de vida é pouco para alcançar o posto de dar uma resposta a ele. É o preço que se paga pela paz aos fins de tarde. Enquanto seu João corta, o mato, sem nem sentir, ri dele e do seu desejo de vistas limpas. O mato é um resistente implacável. Vai crescer de novo e encobrir de novo toda a vista do seu João.

Tardio Post Inaugural

Como é difícil, como é difícil, Beatriz, escrever uma carta…
Antes escrever os Lusíadas!
Com uma carta pode acontecer
Que qualquer mentira venha a ser verdade…      (Mário Quintana)

A carta tem uma solenidade bonita. Tudo passado a limpo numa folha e colocado dentro dum envelope chega aos olhos dos outros com uma atmosfera completamente diferente. É possível enviar uma mensagem de texto no celular por impulso, pode-se enviar um e-mail sem pensar, pode-se criar uma postagem num blog totalmente envolta por um afã passageiro. Mas uma carta, não. Vai ter que esticar as mãos para achar um papel (para os mais caprichosos, não vale qualquer um), encontrar uma boa caneta, vai ter que pensar mais lento porque se escreve mais devagar do que se digita. E, se por desventura for um pouco parecido comigo, fará versões, versões. Tenteios, desvios, hesitações. Por isso que a carta, por todo seu processo, sempre traz um rastro maior sentimento. Há uma comoção, há uma estética. O impensado tem mais chances de ser descartado. O que não quer dizer que o fique não seja surpreendente: porque a dinâmica da carta pode revelar algo que estava latente. E é por isso que numa carta tudo pode acontecer. Pode acontecer a descoberta.

Não acho que hoje se escreva menos através das cartas porque as pessoas se tornaram insensíveis. Simplesmente hoje há o mais rápido para o que precisa ser mais rápido. Por isso a carta tornou-se o veículo para quando não há pressa, mas necessidade. Necessidade de expressão. Mesmo que ela não venha a ser enviada. Porque quando a gente está enfurecida com alguém ou alguma situação, massacrar o papel pode significar não massacrar as outras pessoas. E pode ser que impropérios deixem de ser pronunciados e se tornem traços. Melhor para a gente mesmo.  Parece ontem que ouvi minha professora de português dizer: quando estiverem tristes ou revoltados, escrevam, escrevam tudo, podem até rasgar depois. E foi assim que aquela professora magrinha de olhinhos brilhantes me ensinou a terapia que me faria passar a adolescência consumindo cadernos com relatos absolutamente dramáticos e que – deus do céu – eu tenho até hoje em casa por uma pena enorme de jogar fora. Todo mundo passa por isso. Com gradações diferentes. E há os que levam essa coisa de escrever um tanto mais a sério e acabam, coitados, parando nas faculdades de Comunicação vida afora, mesmo que às vezes olhem o que produzem e, com um arrepio de medo, constatem que não difere muito daquelas coisas que escrevia nos cadernos cor-de-rosa da década passada. E que vão precisar se bater com as limitações da sua escrita de fato, com choro ou sem choro.

Agora, deixando de lado o escrito raivoso que se escreve pra desabafar, se a carta vier a ser enviada, terá que ser filtrada. Relida. Lapidada. E é por isso que afirmo que, se algo apareceu em uma carta, há um lastro por trás disso: se o que for dito passou pelo crivo da autocrítica da pessoa no processo de criação, revisão e, quiçá, no passar a limpo, um tanto de verdade há de ter. E aí está o valor. Endereçadas ou não, uma coisa é certa: todas as cartas são auto-dirigidas. Todas as missivas são, na verdade, conversas de você com você mesmo. Naquelas cartas que eu enviava pra minha mãe eu estava na verdade tentando aceitar minha própria condição de amadurecimento. Nas cartas pras amigas, eu estava me justificando por ter feito algo de um jeito e não de outro. Na carta que escrevi para celebrar os primeiros meses de namoro, eu estava me deleitando comigo mesma com minha história. Tomando uma distância, nossas correspondências têm essa condição essencial de fazer com que nós mesmos nos encontremos.

Embarquei no conselho da professora, e foi assim que passei a gostar desse gênero também na Literatura. Carta ao Pai, de Kafka, te arranca a sensibilidade até de onde você achava que não existia. Cartas a um Jovem Poeta, de Rainer Rilke, traz a grandeza do poeta alemão e por analogia ensinamentos não apenas para os aspirantes a poeta, mas a todos os seres viventes (abrangente, não?). Cartas do Poeta sobre a Vida, do mesmo autor, também é uma leitura absolutamente necessária. As cartas transatlânticas de Simone de Beauvoir a Nelson Algren, que revelam a personalidade de uma mulher memorável, nos fazem descobrir que até Simone, apaixonada, podia ser um tantinho abobalhada.

O correio aberto é meu desafio. Desafio de deixar de engavetar tudo. É meu gosto por cartas que acabava transformando tudo que escrevo em relatos pessoais, em correspondências de mim comigo que eu teimava em deixar guardadas. As reflexões que não transpunham as cartas pessoais: o oposto mais extremo do, hmm, bem, jornalismo. Verdade que já houve uma tentativa. Mas definhou. E como segue a vida, surge esse blog, para abrir esse meu correio, ao custo que for.

E quando jogo umas palavras-chave no Google, esse maravilhoso oráculo moderno, encontro essa crônica de Eliane Brum sobre o tema, publicada no final de junho. Quase desisto de tudo porque lendo o que escreve essa moça tudo parece um blábláblá pastoso. No entanto, persevero. Coleto do texto dela, então, a definição cabal: as cartas não servem para nada, exceto para a vida.

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